quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O vício da nova matriz econômica


Duramente criticada por diversos economistas, a nova matriz econômica, apontada como uma das grandes responsáveis pelo desastre macroeconômico dos últimos anos parece estar voltando com uma nova roupagem.

As intervenções no mercado de câmbio foram retomadas pelo Banco Central. O ciclo de afrouxamento monetário, em curso, está prestes a ser intensificado. A economia vai receber uma nova (e potente) injeção de crédito, mesmo com a contínua deterioração dos indicadores fiscais.

Mais crédito, intervenções no câmbio e afrouxamento monetário. Depois de tudo que passamos nos últimos anos, voltamos a cair no vício da nova matriz econômica.

Em termos práticos, o Relatório de Inflação, divulgado pelo Banco Central na manhã desta quinta-feira está defasado, pois logo em seguida o presidente Michel Temer anunciou uma medida com potencial de injetar 30 bilhões de reais na economia, o que equivale a 0,5% do PIB (Produto Interno Bruto).

Mesmo com uma inflação acumulada de 6,99% nos últimos 12 meses, histórico desfavorável e projeção do cenário de mercado ainda ligeiramente distante da ancoragem da inflação no centro da meta em 2017, o Banco Central parece decidido a intensificar o ritmo de cortes da taxa Selic na próxima reunião de Comitê a ser realizada no mês de janeiro.

A intensificação de cortes na taxa Selic, portanto, sinaliza ser mais um desejo do que uma abertura sustentada pelo quadro macroeconômico e balanço de riscos.  Até mesmo a estimativa de inflação acumulada dos últimos 12 meses do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) de 5,42% para fevereiro de 2017, revela certa distância da ancoragem na meta. Para quem, possivelmente, não tem receio de cortar a taxa Selic de forma mais agressiva com este cenário, 0,5% de PIB a mais na economia não deve fazer diferença. O desejo está se impondo aos fundamentos.

Para injetar 30 bilhões de reais na economia, o governo vai liberar o saque de contas do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) inativas até dezembro de 2015. Segundo o presidente Temer, cerca de 10,2 milhões de trabalhadores serão beneficiados, podendo sacar todo o valor disponível em sua conta.

A medida é uma tentativa de reaquecer a economia, já que os recursos poderão ser utilizados livremente. Como o nível de educação financeira é extremamente baixo no País e a maior parte das contas inativas tem saldo de menos de um salário mínimo, é de se esperar que parte relevante deste fluxo seja queimada em consumo, o que provocará um impulso artificial na economia e, como conseqüência, criar nova pressão inflacionária.

Além disso, Temer anunciou que pretende cortar mais da metade os juros do cartão de crédito a partir do primeiro semestre do ano que vem, o que também, se confirmado, será um importante mecanismo de impulso ao consumo. Apesar de ser uma ação louvável, não há detalhes concretos de como uma redução dessa magnitude será feita, o que gera certa desconfiança do ponto de vista estrutural, até porque não foi mencionado nada a respeito dos juros do cheque especial, tão absurdamente abusivos quanto os do cartão de crédito.

Foi apresentada, também, uma espécie de reforma trabalhista, com uma série pequenas alterações não tão expressivas. O Programa de Proteção ao Emprego, que terminaria no fim deste ano, mudará de nome (passará a se chamar Programa Seguro-Emprego) e será prorrogado.

A combinação de política de afrouxamento monetário (prestes a se tornar agressiva) com intervenções no câmbio, mercado de trabalho e impulso ao consumo acrescentará artificialismo à economia, o que colabora para manter a desconfiança dos agentes, empresários e investidores elevada, inviabilizando a necessária retomada dos investimentos.

Em meio à baixa popularidade, está sendo difícil para governo resistir aos encantos de curto prazo da nova matriz econômica. É uma rota muito mais fácil de ser seguida e de ampla aceitação popular. Pode criar resultados positivos no curto prazo, mas definitivamente não é o caminho que permite destravar os investimentos, principal base de um crescimento sustentado.

Assim como não se houve mais falar sobre o tripé macroeconômico, as críticas construídas no passado em função de medidas semelhantes adotadas não estão sendo replicadas nesta nova gestão, que começou bem, mas está desandando. O mesmo pode ser observado através do ressurgimento da proposta de criação do polêmico e perigoso depósito remunerado. Nada mais inquietante do que um profundo silêncio.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Assim como a Fazenda, Banco Central vende seu pastel de vento


Na última quinta-feira o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, anunciou uma série de medidas para tentar impulsionar a economia brasileira. São ações consideradas pequenas, mas que juntas, fomentarão a melhora do ambiente de negócios. Com elas, o governo pretende, principalmente, desburocratizar o País e reduzir o custo do crédito.

Apesar de positivas, boa parte das ações anunciadas não passam de meras ideias, (ou desejos). Algumas ainda estão apenas no campo das boas intenções, como a necessária redução dos custos dos cartões de crédito. O governo não sabe nem como isso vai ser feito. Pode ser através da diminuição do prazo de pagamento do credenciador ao lojista (possivelmente de baixa eficácia) ou através da redução do custo do crédito rotativo ao consumidor (esse sim, com bom potencial, a depender do que for feito).

Outras medidas não dependem apenas de boa vontade do governo e precisam ser aprovadas pelo Congresso. Também não há data definida para divulgação de novas informações e muito menos prazo de implementação.

Na mesma linha do ministério da Fazenda, o Banco Central informou nesta terça-feira uma série de ações com objetivo de impulsionar a economia brasileira. Muitas dessas medidas ainda estão em estudo e não há, sequer, um horizonte para implementação.

Entre as ações de boas intenções do Banco Central, destaque para a criação do polêmico e perigoso depósito remunerado, a ser utilizado pela autoridade monetária para retirar ou injetar liquidez no mercado. Essas operações, entretanto, já são realizadas através das operações compromissadas. Segundo Ilan Goldfajn, presidente do Banco Central, o objetivo não é substituir as operações compromissadas por depósitos remunerados, mas criar um mecanismo adicional no sistema (não se sabe por “qual motivo”).

Apesar de cumprirem a mesma função, existe uma diferença brutal do ponto de vista fiscal entre operações compromissadas e depósitos remunerados. Com a exigência de papéis lastreados em títulos do Tesouro, as operações compromissadas aparecem integralmente na dívida bruta do País. Já os depósitos remunerados, que podem ser emitidos com títulos do Banco Central, não entram para a composição da dívida bruta.

Atualmente, a Lei de Responsabilidade Fiscal proíbe o Banco Central de emitir títulos próprios, como forma de impedir que a instituição atue como intermediário financeiro a serviço do Tesouro. No passado, o Banco Central chegou a financiar despesas fiscais, com a chamada Conta Movimento.

A utilização, portanto, dos depósitos remunerados, se aprovados pelo Congresso, possui a mesma função das operações compromissadas: gerenciar a liquidez no sistema. Caso o Banco Central consiga substituir integralmente (ou mesmo parcialmente), as operações compromissadas por depósitos remunerados, a dívida pública bruta como proporção do PIB (Produto Interno Bruto) será reduzida drasticamente, mesmo que, na prática, a situação fiscal continue a mesma.

O anúncio de várias pequenas ações ao mesmo tempo, algumas polêmicas, outras vagas demais, ou mesmo perigosas, dificulta o foco do mercado em algumas dessas medidas, até porque não há como analisar algo ainda superficial.

A estratégia também sugere certo desespero do governo para dar uma resposta ao prolongamento da crise econômica e/ou mudar o foco da deterioração do ambiente político. Muitas ideias para o futuro e poucas ações concretas de efeito prático imediato mostram que não há cartas na manga. Pacotes com embalagens bonitas, mas de pouco conteúdo, se parecem mais com os famosos pastéis de vento.

O índice Bovespa se mostrou bastante volátil no pregão desta terça-feira, com o mercado analisando a flexibilização do projeto de renegociação das dívidas dos Estados aprovado na Câmara, diferente das contrapartidas defendidas pelo Ministério da Fazenda.


Apesar do pequeno revés para o governo, o índice fechou em leve alta, aliviando a forte pressão vendedora dos últimos dias. O respiro da bolsa, natural e, a princípio, temporário, ainda não é suficiente para reverter a tendência de baixa predominante desde os 65,3k.

No cenário internacional, destaque para decisão do Comitê de Política Monetária do BoJ (Bank of Japan) de manutenção da taxa básica de juros de curto prazo em -0,1% e meta para o rendimento do título de 10 anos em torno de zero.

Havia expectativa no mercado de elevação da meta para o rendimento do título do Tesouro japonês de 10 anos, hoje aos 0,071%, levemente distante da meta de zero por cento a ser perseguida.


As taxas de juros dos títulos japoneses estão seguindo uma tendência de alta robusta a nível global, ainda sem sinal de interrupção, sustentadas pelas políticas monetárias dos principais banqueiros centrais. Com a manutenção do movimento ascendente nas taxas de juros, o BoJ terá de rever sua meta para o rendimento do bond de 10 anos nas próximas reuniões, caso contrário, precisará aumentar sua intervenção já considerada elevada no mercado para cumprir com o objetivo.

A desvalorização do iene também aumenta a pressão para uma futura elevação das taxas de juros. Apesar de adicionar pressão inflacionária necessária à economia deflacionada do Japão, os fortes ganhos do dólar contra o iene nos últimos meses podem atrapalhar o processo de recuperação econômica e aumentar a tensão no mercado local.


No mercado acionário norte-americano, o clima segue positivo, com os principais índices em bull market, colados em máximas históricas. O nível de sobrecompra permanece elevado no curto prazo, já que a falta de driver inviabiliza a evolução das operações na ponta vendedora em Wall Street.


Quadro semelhante pode ser constatado nos principais mercados da Europa, com os índices colados em máximas do ano ou máximas históricas. Nem mesmo o atentado terrorista em Berlim foi capaz de frear o ímpeto comprador na bolsa de Frankfurt, o que pode revelar mercado artificialmente inflado.

O índice DAX fechou em alta pelo quarto pregão consecutivo, mantendo o rali provocado pelo rompimento de uma congestão de curto prazo entre a média móvel simples de 200 períodos diária e resistência dos 10,8k. Apesar da intensa força compradora, mercado exige cautela para os próximos dias em função do elevado nível de sobrecompra.
 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Ibovespa consolida mercado de baixa


O tombo de 2,19% do índice Bovespa nesta segunda-feira deixou a bolsa de valores mais pesada para a venda. O rompimento descendente da importante linha de suporte localizada na região dos 58k, caracterizado por um candle de força relevante, desarmou uma congestão de curtíssimo prazo, detonando um clássico pivot de baixa.


O desenho técnico da bolsa brasileira sinaliza consolidação de um mercado vendedor. A perna de baixa, iniciada aos 65,3k, cerca de um mês atrás, ganhou força com o movimento desta segunda-feira, deixando a média móvel simples de 200 períodos diária fragilizada.

Pela primeira vez desde março deste ano, a média móvel simples de 200 períodos diária deverá ser testada. Tal como na ocasião anterior, o teste na importante média tende a ser realizado (nos próximos dias/semanas) com uma perna fortalecida. Em março, a tendência de alta estava ganhando força, o que favoreceu o rompimento já no primeiro teste. Agora, a média tende a ser testada novamente com uma tendência de baixa ganhando força, o que pode favorecer o rompimento descendente.

A correria para fechamento de posições compradas no mercado futuro de commodities chinês ajudou empurrar o Ibovespa ladeira abaixo. Os contratos futuros de minério de ferro voltaram a despencar nesta segunda-feira na bolsa de Dailan, caindo 7,2%, para 81 dólares a tonelada.

As vendas foram influenciadas pelo aumento dos estoques da matéria-prima nos principais portos do País, atingindo nível mais elevado dos últimos dois anos. Além disso, o sell-off na commodity é uma reação natural ao intenso movimento comprador que inflou irracionalmente os preços nos últimos meses.

Ainda na China, um assessor do Banco do Povo (autoridade monetária local), afirmou que o País pode apertar a política monetária no próximo ano para combater a volatilidade do câmbio, alta da inflação e desinflar o mercado imobiliário. Essa ação é condizente com a estratégia definida na importante reunião anual de planejamento econômico, onde o foco em 2017 será a prevenção de riscos financeiros.

O Brasil não é o primeiro mercado emergente do mundo a demonstrar fortalecimento da força vendedora no fim deste ano. Na Índia, a bolsa de Bombay está vendida desde o mês de setembro, operando abaixo da média móvel simples de 200 períodos diária.


A bolsa do México também trabalha abaixo da média móvel simples de 200 períodos diária, mostrando recente fortalecimento da força vendedora com a formação de um topo descendente localizado na região dos 199 pontos. Em caso de rompimento do piso registrado em novembro, o mercado mexicano poderá voltar para a mínima do ano com domínio de força vendedora.


Vários mercados emergentes estão sofrendo perda de fluxo com o aumento do rendimento das treasurys (títulos do Tesouro norte-americano) e fortalecimento do dólar a nível global. Contra uma cesta de moedas, o dólar segue colado na máxima, já se distanciando do pico registrado ano passado.
 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Reprovação a governo Temer começa preocupar


A pesquisa Ibope, encomendada pela CNI (Confederação Nacional da Indsústria), divulgada nesta sexta-feira, mostrou que 46% dos entrevistados consideram o governo Temer como ruim ou péssimo. O percentual de reprovação é significativamente superior ao resultado apurado na última pesquisa, realizada no mês de setembro, onde 39% dos entrevistados consideravam o governo Temer como ruim ou péssimo.

O percentual de pessoas que desaprovam a maneira de governar do presidente Michel Temer também aumentou, de 55% em setembro para 64% na pesquisa feita entre os dias 1 e 4 de dezembro.

A pesquisa apurou que apenas 21% dos entrevistados consideram o governo Temer melhor do que o governo Dilma, 42% acreditam que ambos são iguais e 34% disseram que o governo Temer é pior do que o governo Dilma.

Temer respondeu ao resultado da pesquisa dizendo que não busca aplausos nem aprovação a qualquer preço, afirmando não haver espaço na economia para feitiçarias, como imprimir dinheiro, maquiar as contas públicas e controlar preços, numa referência às medidas desastrosas tomadas pelo governo anterior, responsáveis por destruírem os fundamentos macroeconômicos do País.

A postura de não buscar a rota mais popular no curto prazo é louvável, mas Temer precisará atuar para reverter a forte trajetória negativa de reprovação, caso contrário, no atual ritmo de desgaste, dificilmente conseguirá aprovar a reforma da previdência no fim do primeiro semestre do ano que vem.

Apesar de Temer possuir uma base forte no Congresso, os parlamentares são bastante sensíveis às pesquisas. Temer não busca a reeleição, mas grande parte de deputados e senadores querem assegurar seus assentos nas próximas eleições. Existe um limite de timing eleitoral e de nível de descontentamento popular aceitável para que os parlamentares possam tomar o risco de votarem a favor das medidas impopulares.

O governo, portanto, precisa correr contra o tempo e contra o rápido aumento da impopularidade o quanto antes. O pacote de ações para reanimar a economia, anunciado ontem, colabora para frear a trajetória negativa de percepção do governo Temer.

Boa parte das medidas anunciadas na quinta-feira serão implementadas somente ao longo de 2017, sendo que algumas delas precisam ser aprovadas pelo Congresso. É uma série de ações consideradas pequenas, mas que juntas, fomentarão a melhora do ambiente de negócios. Com elas, o governo pretende, principalmente, desburocratizar o País e reduzir o custo do crédito.

O mercado local reagiu com cautela às medidas de estímulo, até porque a recente pressão vendedora concentrada em bolsas de valores de países emergentes segue impedindo uma recuperação do Ibovespa.


No quadro externo, destaque para nova elevação da taxa básica de juros no México. Os membros do Comitê de Política Monetária do Banxico (autoridade monetária mexicana), decidiram subir a taxa básica de juros em 0,50 p.p., para 5,75% ao ano, numa tentativa de combater os efeitos inflacionários criados pelo deslocamento da taxa de câmbio. O dólar contra o peso mexicano segue próximo da máxima, aos $ 20,33.

A decisão de dezembro seguiu o ritmo de aperto monetário verificado na reunião anterior, em novembro, quando o Banxico subiu a taxa básica de juros de 4,75% p.p. para 5,25% p.p.

Já o Comitê de Política Monetária do BoE (Bank of England), decidiu manter inalterada a taxa básica de juros de 0,25% ao ano, além de seguir com os planos para compras de títulos públicos e privados.

A valorização da libra contra o dólar desde o último encontro do BoE permitiu manutenção de uma política monetária neutra, sem perspectiva de cortes ou elevações. Segundo avaliação da autoridade monetária britânica, o deslocamento da taxa de câmbio local reduziu a chance de a inflação superar a meta.

Na China, os líderes que participaram da importante reunião anual de planejamento econômico decidiram conter o crescimento das bolhas de ativos no próximo ano e dar maior importância à prevenção do risco financeiro, que tem aumentado nos últimos meses. O foco das ações será no mercado imobiliário e na redução da forte alavancagem do setor corporativo.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

FED impõe choque de realidade ao mercado


O Comitê de Política Monetária do FED (Federal Reserve - Banco Central dos Estados Unidos) decidiu nesta quarta feira subir a meta para a Fed Funds (taxa básica de juros norte-americana) do intervalo de 0,25% a 0,50% ao ano para a faixa de 0,50% a 0,75% ao ano. Este é o segundo aumento desde o início do ciclo de aperto monetário, em dezembro de 2015.

Em comunicado divulgado após a reunião de Comitê, os membros do FED destacaram que os ganhos de emprego tem sido sólidos nos últimos meses, acrescentando que as medidas de compensação inflacionária com base no mercado haviam subido consideravelmente.

A nova avaliação da autoridade monetária sobre as condições do mercado de trabalho sinaliza que a economia norte-americana está se aproximando do quadro de pleno emprego, o que pode ser traduzido por uma taxa de desemprego possivelmente em 4,5% ou levemente abaixo desse patamar.

O FED opera sobre duplo mandato de máximo emprego e estabilidade de preços. Com o espaço limitado para ganhos adicionais significativos no mercado de trabalho e a inflação deslocando-se para a meta de 2% ao ano, o Banco Central norte-americano tende a se tornar mais hawkish, acelerando o ritmo de normalização das condições monetárias.

Em entrevista concedida após a reunião de Comitê, a chair do FED, Janet Yellen, evitou comentar sobre os planos do presidente eleito, Donald Trump, mas alertou que com uma taxa de desemprego de 4,6% não há necessidade de se criar estímulo fiscal para empurrar a economia para uma situação de pleno emprego.

Yellen também afirmou que a decisão do FED é um voto de confiança no considerável progresso feito pela economia até o presente momento e não incorpora as expectativas de mercado relacionadas à nova gestão de Donald Trump. Isso significa que, caso os estímulos propostos por Trump se tornem realidade no próximo ano, o FED deverá responder com mais agressividade no ciclo de aperto monetário.

A decisão, portanto, de subir novamente a Fed Funds, amplamente esperada, não surpreendeu os investidores. Mas o tom do comunicado, juntamente com as novas projeções da instituição, pode impor um choque de realidade ao mercado, que até pouco tempo atrás se relutava acreditar na aceleração do processo de aperto monetário, mesmo a longo prazo.

A mediana das projeções entre os membros do Comitê para o PIB ficou praticamente inalterada, tal como a mediana das estimativas para a inflação e para o núcleo de inflação. A expectativa para o PIB se mantém em torno de 2% para os próximos anos, enquanto a projeção de inflação oficial e do núcleo se aproxima do centro da meta de 2% em 2017. A mediana de projeções para a taxa de desemprego também permaneceu praticamente inalterada, aos 4,5% nos próximos anos.

Já a mediana das estimativas para a meta da Fed Funds subiu de 1,1% para 1,4% ao fim de 2017, de 1,9% para 2,1% ao fim de 2018, de 2,6% a 2,9% ao fim de 2019 e de 2,9% para 3,0% no longo prazo.


As expectativas de aumentos para a Fed Funds são consideráveis, já que as estimativas para o PIB, inflação e taxa de desemprego ficaram praticamente inalteradas, o que revela uma postura mais hawkish por parte da autoridade monetária norte-americana. Há também uma mudança simbólica de inflexão na curva de projeções do FED, com início de um ciclo de revisões ascendentes para a Fed Funds.

O mercado reagiu à mudança agregando pressão ao atual (e significativo) movimento vendedor em Treasurys (títulos do Tesouro norte-americano). A taxa de juros da Treasury com vencimento em 10 anos disparou para 2,54% ao ano, superando a máxima de 2015, trabalhando movimento semelhante ao choque de 2013, responsável por abalar ativos no mundo inteiro e causar fuga de capitais de praças mais vulneráveis.


A taxa de juros da Treasury de 5 anos superou uma forte barreira de resistência localizada na região dos 1,90%, mostrando que o mercado já está pagando um prêmio mais elevado do que o baque de 2013 aos títulos com menor duration.


Na Treasury de 2 anos, o rendimento está na máxima, em nível vermelho, muito superior ao teto psicológico de 2013.


O aumento no rendimento das Treasurys está atraindo fluxo de ativos mais arriscados de praças emergentes para a segurança dos ativos nos Estados Unidos. Entretanto, o desmonte de posições em juros futuros de várias praças, inclusive no Brasil, não ocorre na mesma proporção das Treasurys.

O contrato de juros futuros com vencimento em 2019 opera perto da mínima do ano, pagando uma taxa de 11,54%, ainda dentro de uma tendência principal de baixa. Esse descasamento macroeconômico revela uma aposta dos investidores numa forte queda do juro real brasileiro.


Apesar de existir margem considerável para queda do juro real, o espaço parece não ser tão grande quanto os economistas esperam, já que a manutenção de déficits elevados tende a impor um piso para a Selic.

Além disso, caso o Banco Central volte a falhar na ancoragem da inflação à meta (4,5%) em 2017, num cenário em que a intensificação da política de afrouxamento monetário provoque o deslocamento do juro real a um patamar possivelmente inferior a 4%/4,5%, os contratos de juros futuros podem voltar a estourar.

Investidores comprados em títulos pré-fixados devem ficar atentos, portanto, ao deslocamento do juro real dentro de um quadro macro a ser desenhado no próximo ano.

O desmonte de posições na bolsa de valores tem sido maior. O Ibovespa mergulhou para a principal linha de suporte de curto prazo localizada aos 58k. A perda deste importante patamar de sustentação acionará um pivot de baixa relevante, criando condições para aumento da pressão vendedora na bolsa.
 

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Rali do petróleo gera novo impulso aos produtores de xisto


O acordo da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) alcançado na reunião do dia 30 de novembro em Viena provocou uma alta fenomenal no preço do barril de petróleo.

A decisão dos países membros de reduzir a produção de petróleo em 1,2 milhão de barris por dia durante seis meses a partir de janeiro do próximo ano impulsionou o barril do tipo light para a máxima do ano, superando a principal resistência localizada na região dos 52 dólares por barril.

Rússia e outros países produtores de petróleo que não fazem parte da Opep também concordaram em reduzir a produção em 562 mil barris por dia neste último sábado, o que em tese abre mais espaço para manutenção do rali no barril de petróleo.

Entretanto, players de commodity, que aproveitaram a janela de oportunidade de compra oferecida pelo teste na média móvel simples de 200 períodos diária (consolidada zona de sustentação de preços neste ano), podem estar começando a pular fora do mercado, novamente.


Apesar de a principal barreira de resistência ter sido superada nesta última segunda-feira, o candle formado (estrela cadente), posicionado após uma puxada forte, juntamente com a formação de um GAP de alta relativamente incomum ao barril do tipo light, não transmite confiança para manutenção de posições compradas de curto prazo, principalmente com lucros significativos acumulados nas últimas semanas.

A expectativa dominante entre analistas é de manutenção do quadro positivo para a commodity, mas, além das condições técnicas, a supremacia da força compradora está ameaçada pelo retorno dos produtores de xisto nos Estados Unidos.

Em função dos custos mais elevados, os produtores de xisto nos Estados Unidos pisaram fortemente no freio nos últimos meses, mas, ao mesmo tempo, conseguiram melhorias tecnológicas significativas que permitem, agora, retomarem a produção em alguns poços com o preço do barril do tipo light na casa dos 50,00 dólares ou mesmo abaixo disso.

Portanto, a retomada dos preços provocada pelo corte de produção a ser praticado ano que vem entre os principais países produtores de petróleo do mundo está reabrindo o mercado aos produtores de xisto nos Estados Unidos.

O esperado aumento na produção de xisto atuará como contrapeso à redução da produção articulada pela Opep. Isso significa que o nível de oferta tende a continuar elevado no próximo ano, o que inviabilizará a manutenção do rali no barril de petróleo do tipo light.

As principais bolsas de valores mundiais permanecem compradas, mas as praças desenvolvidas continuam se destacando, renovando novas máximas. O índice S&P500 registrou nesta terça-feira novo recorde, sem apresentar novidades, embora perigosamente sobrecomprado no curto prazo.


Já as praças emergentes trabalham movimento de recuperação de preços, embora em menor intensidade, pois o aumento no rendimento dos títulos da dívida soberana de países avançados (Treasurys, por exemplo, coladas na máxima do ano) está limitando o fluxo da onda compradora global em ativos de risco aos países emergentes.

Com mais prêmio (taxa de juros) embutido nos bonds extremamente líquidos e de baixo risco nas praças desenvolvidas, os investidores tendem a ser mais exigentes com ativos de risco em mercados emergentes.

O índice Bovespa fechou o pregão desta terça-feira em leve alta, próximo do importante suporte localizado na região dos 58k. Mercado permanece congestionado no curto prazo, com principal resistência localizada na faixa dos 63k.
 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Giro Macro Global


O Comitê de Política Monetária do BCE (Banco Central Europeu) surpreendeu o mercado nesta quinta-feira ao anunciar sua nova estratégia de política monetária para 2017.

Apesar de as taxas de juros terem permanecido inalteradas, o significativo programa de compra de ativos sofreu alteração bem diferente daquilo que os economistas e analistas esperavam. Programado para encerrar em abril/2017, o programa de compras de ativos foi prorrogado até o fim do próximo ano, mas o atual volume de compras (80 bilhões de euros por mês) sofrerá uma redução de 20 bilhões a partir de abril.

Em entrevista coletiva concedida à imprensa após a reunião de Comitê, o presidente do BCE, Mario Draghi, alertou que não estava indicando liquidação definitiva do programa, podendo, até mesmo, se necessário, voltar a aumentar o volume de compras mensais.

Entretanto, a redução do volume de compras de 80 bilhões de euros para 60 bilhões de euros a partir do mês de abril é uma clara sinalização de que o BCE está começando a soltar o pé do acelerador para, no futuro, interromper totalmente o programa de compras de ativos.

A redução gradual do volume de compras mensais foi implementada com sucesso pelo FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), tanto na Operação Twist, quanto no Quantitative Easing. A estratégia de soltar o pé do acelerador gradativamente é importante para que a autoridade monetária não crie condições para pânico ou estouro de uma crise no mercado.

A surpresa com a política monetária do BCE também revela que a instituição está atingindo os limites de suas políticas de estímulos. Desde março de 2015, a autoridade monetária comprou mais de 1,4 trilhão de euros em títulos públicos (principalmente) e privados.

Para não azedar o clima positivo no mercado, o Banco Central anunciou que irá afrouxar as regras para as suas compras de ativos. A nova medida visa aumentar o leque de ativos no radar, com o aumento do intervalo de vencimento dos títulos e permissão para compra de títulos com rendimento inferior à taxa de depósito do BCE.

A estratégia deu certo e as praças europeias voltaram a subir forte nesta quinta-feira. Na Alemanha, o índice DAX fechou mais um pregão em alta, superando a principal resistência localizada na faixa dos 10,8k, renovando máxima do ano.


O índice CAC, na França, também atropelou a principal linha de resistência localizada na região dos 4,5k, renovando máxima do ano, numa forte perna de alta.


Na Itália, mesmo com a humilhante derrota do governo no referendo do último domingo, culminando na renúncia do primeiro-ministro Matteo Renzi (o que abre espaço para o Movimento 5 Estrelas, partido anti-Europa, assumir o poder no ano que vem), a bolsa de valores está em pleno rali. O índice MIB fechou mais um pregão em forte alta, recuperando a importante média móvel simples de 200 períodos diária e superando a resistência dos 17,4k (topo da antiga zona de congestão).


Na Áustria, a bolsa de Viena fechou mais um pregão mostrando candle de força altista relevante, agregando robustez ao rali iniciando no mês de junho. Mercado na máxima do ano.


Cabe ressaltar a importante e pouco comentada vitória do establishment no País austríaco. Van der Bellen, intelectual progressista do partido Os Verdes, venceu a eleição presidencial com 53,79% dos votos, frente ao candidato Norbert Hofer, um ultranacionalista anti-Europa do Partido Liberal.

A vitória de Van der Bellen é extremamente simbólica, pois se mostra contra aos recentes movimentos observados no Reino Unido (Brexit) e Estados Unidos (Trump).

Não foi fácil manter o establishment na Áustria. O processo para escolha do presidente se alongou por seis meses a mais do que o previsto porque o Partido Liberal conseguiu anulação do resultado do pleito em maio, também vencido por Van Der Bellen, mas por uma margem muito estreita.

Por outro lado, a polarização política na Áustria seguiu a tendência global de extrapolação dos limites considerados aceitáveis numa disputa de alto nível. A campanha foi marcada por intensa troca de farpas e acusações pessoais. Políticos e militantes do Partido Liberal acusaram Van der Bellen de ter espionado para a União Soviética e seu pai de ser simpatizante com os nazistas.

Após a vitória, Van Der Bellen cobrou mais responsabilidade dos políticos e veículos de imprensa, apelando para uma mudança cultural no debate político do País. O presidente da Áustria cobrou essa mesma atitude a todos que se manifestam publicamente através das redes sociais.

Embora com menor entusiasmo no curto prazo, o mercado britânico também é altista. A bolsa de Londres subiu novamente nesta quinta-feira, superando a LTB 7,1k. Mercado voltando a se aproximar da máxima histórica.


Destaque para o anúncio do McDonalds, afirmando que transferirá sua base fiscal internacional de Luxemburgo para o Reino Unido. A mudança é uma reposta da companhia aos reguladores da UE (União Europeia), que intensificaram o escrutínio dos acordos fiscais. Outras empresas podem fazer o mesmo movimento, beneficiando o Reino Unido, que deve iniciar os trabalhos para sair da UE a partir do ano que vem.

No Japão, o índice Nikkei fechou mais um pregão em alta, num forte rali de curto prazo, renovando máxima do ano. Nem mesmo a revisão de crescimento anualizado do terceiro trimestre deste ano (de 2,2% para apenas 1,3%) foi capaz de abalar o humor positivo na praça japonesa. Os investidores seguem acompanhando a onda global de otimismo, sustentados pelas políticas de estímulos do BoJ (Bank of Japan).


Wall Street continua esbanjando força compradora relevante, com os principais índices acionários cravando novas máximas seguidas de máximas históricas. O S&P500 alcançou os 2.246 pontos nesta quinta-feira, mostrando a força do ciclo de bull market iniciado em 2009 aos 675 pontos.


Na China, a bolsa de Xangai trabalha movimento de realização de lucros, queimando parte da gordura acumulada nos meses de setembro e outubro. Destaque para a surpresa na balança comercial do mês de novembro no País. As exportações cresceram 0,1% em relação ao ano anterior, bem melhor do que a previsão do mercado (recuo de 5%). As importações cresceram 6,7%, muito acima das expectativas de queda de 1,3%.


A bolsa de Bombay, na Índia, subiu nesta quinta-feira, voltando testar a importante média móvel simples de 200 períodos diária, posicionada na mesma faixa de resistência de curtíssimo prazo aos 26,8k, com boa possibilidade de rompimento ascendente. Mercado em movimento de recuperação de preços, sinalizando interrupção da perna intermediária de baixa iniciada no mês de setembro aos 29,1k.


A praça mexicana fechou mais um pregão em forte alta, retomando a antiga linha de suporte localizada aos 195 pontos, fato relevante para limpar posições vendidas remanescentes no mercado. Bolsa impulsionada pelo fundo duplo registrado aos 184 pontos, recuperando parte das intensas perdas sofridas desde o final do mês de outubro.


Na Coreia do Sul, a bolsa de valores está em rali mesmo com o estouro de uma grave crise política local. O principal índice de ações da bolsa de Seul rompeu a LTB da máxima do ano, aos 2073 pontos, juntamente com a média móvel simples de 200 períodos diária, mostrando candle de força relevante. Mercado em tendência principal de alta, bem armado para voltar a testar máxima do ano.


Todos os sábados, grandes multidões de manifestantes tem tomado as ruas das principais cidades do País (especialmente a capital Seul), pedindo a saída da presidente Park Geun-hye.

O índice de aprovação da presidente é insustentável, atingiu uma mínima recorde de 4%. Park é acusada de conspirar, juntamente com uma amiga e um ex-assessor, para pressionar grandes empresas a fazerem doações às fundações que apoiam suas iniciativas políticas.

O Parlamento da Coreia do Sul já tem um projeto de lei para o impeachment da presidente. A votação deve ocorrer na sexta-feira, mas a Suprema Corte ainda precisa decidir se mantém a moção, processo no qual pode se arrastar por mais 180 dias.
Na Rússia, o mercado segue num forte rali, renovando nova máxima com candle de força relevante. O movimento é uma sinalização de reversão de um ciclo de bear market, que dominou os anos anteriores, para um ciclo de bull market iniciado em janeiro deste ano.

No Brasil, o índice Bovespa, que também sinaliza reversão de ciclo, segue pressionado pela LTB da máxima do ano localizada aos 65.3k. Mercado congestionado no curtíssimo prazo entre os 62.9k e 58,1k, mas ainda sem causar ameaça à tendência principal de alta. 


quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Goldfajn prepara terreno para intensificar cortes na taxa Selic


A ata do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) divulgada na última terça-feira mostrou que os membros do Comitê discutiram a possibilidade de um corte maior na taxa básica de juros. Essa informação relevante abre perspectiva para maior flexibilização da política monetária já no próximo mês, mas por algum motivo não foi apontada pelo comunicado emitido na semana anterior.

A novidade observada na ata foi endossada nesta quarta-feira pelo presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, em café da manhã com jornalistas. Goldfajn confirmou a discussão entre membros para intensificar os cortes na taxa básica de juros, mas salientou que o debate foi adiado para próximo encontro a ser realizado nos dias 10 e 11 de janeiro.

Segundo o presidente do Banco Central, os membros do Comitê devem se concentrar na queda da inflação e na intensificação da queda dos juros. A ancoragem da inflação à meta, segundo ele, vai se mostrar um benefício para frente, o que sinaliza claramente ao mercado que a autoridade monetária enxerga espaço praticamente consolidado para aumentar os cortes na taxa básica de juro, de 0,25 p.p. para 0,50 p.p.

O principal argumento sinalizado por Goldfajn para intensificação dos cortes é válido, desde que sejam consideradas somente as projeções de inflação do cenário de referência, feitas justamente pelo Banco Central. Conforme informação disponibilizada pela ata, a estimativa da autoridade monetária para a inflação de 2017 está em torno de 4,4%. Para 2018, as projeções encontram-se em torno de 3,6%.

Entretanto, a mediana da projeção de inflação feita pelo mercado (constatada através do último Boletim Focus), está em 4,93% para 2017, ainda com certa distância do centro da meta e, definitivamente, longe da ancoragem.

Em função dos indicadores de crescimento decepcionantes, é justificável que o Banco Central busque a meta de inflação (4,5%) com menor rigor, o que permitiria manutenção da taxa básica de juros, ou mesmo pequenos cortes para testar a reação dos preços. Não é o objetivo da autoridade monetária, mas ajudaria o governo na tentativa de empurrar a economia. Mas o quadro de inflação não ancorada, além do GAP de projeções (que precisa sumir) para a inflação entre o cenário de referência e o cenário de mercado, impõe riscos significativos ao aumento da flexibilização monetária.

A possível nova postura mais arriscada do Banco Central também vai contra a estratégia de banqueiros centrais de países emergentes. No México, o Banxico está subindo sua taxa básica de juros para acalmar os ânimos dos investidores. Na Índia, o Banco Central surpreendeu ao não cortar sua taxa básica de juros nesta quarta-feira, deixando-a inalterada, mesmo com enorme pressão do primeiro-ministro, Narendra Modi, para uma flexibilização monetária.

Modi implementou um plano drástico em 8 de novembro para acabar com as notas de 500 rúpias e 1.000 rúpias (equivalente a 7,35 dólares e 14,70 dólares, respectivamente). A medida retirou 86% da moeda em circulação, numa tentativa de reprimir a economia paralela na Índia. Mesmo com a temporária escassez de notas, o Banco Central se manteve firme na política monetária, focado na inflação.

Independente da situação no cenário externo e/ou dos motivos não muito convincentes apresentados por Ilan Goldfajn, fato é que o Banco Central brasileiro está disposto a intensificar os cortes na taxa Selic, cedendo à pressão do mercado.

Ainda no ambiente doméstico, destaque para a vitória de Renan Calheiros no STF (Supremo Tribunal Federal). A Suprema Corte revogou parcialmente a liminar do ministro Marco Aurélio Mello que afastou o parlamentar do comando da Casa. Por 6 votos a 3, os ministros do STF decidiram manter Renan à frente do Senado, mas tirá-lo da linha sucessória da Presidência da República.

líder do governo no Congresso, senador Romero Jucá, afirmou que está mantida a previsão de votar a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) do teto dos gastos na próxima terça-feira. Apesar de o ambiente ter voltado a melhorar para o governo, o clima ainda é tenso entre os três poderes.
Já nas principais bolsas de valores mundiais, o clima é positivo. Os mercados emergentes estão conseguindo emplacar movimentos de recuperações de preços, acompanhando, agora, o otimismo de Wall Street.
O índice S&P500 fechou mais um pregão em forte alta, renovando nova máxima histórica. Apesar de sobrecomprado, mercado segue forte na ponta comprada, tanto no curto prazo, quanto no médio e longo prazo.

A bolsa do México fechou em forte alta pelo terceiro pregão consecutivo, superando, pela primeira vez desde a eleição de Donald Trump, a linha central de bollinger. Fundo duplo confirmado aos 184 pontos.

Na Índia, a bolsa de Bombay também trabalha movimento de recuperação de preços. Mercado em tendência de alta de curtíssimo prazo, mas ainda sentindo pressão da linha central de bollinger.

Na China, a bolsa de Xangai subiu mesmo com a notícia de que as reservas cambiais caíram bem mais do que o esperado no mês de novembro, atingindo o menor patamar em quase seis anos, aos 3,052 trilhões de dólares. A quantia ainda é muito significativa, mas o mercado considera a linha de 3 trilhões de dólares como um piso psicológico importante ao Banco Popular (Banco Central da China).

O índice Bovespa fechou mais um pregão em alta, iniciando rompimento da linha central de bollinger e nova aproximação sobre a LTB dos 65.3k. O segundo teste na referida linha num curto espaço de tempo revela aumento de pressão compradora no mercado, ameaçando limpar algumas posições vendedoras da praça.  

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Crise institucional pode acabar com a complacência dos investidores


O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), Marco Aurélio Mello, decidiu por uma liminar afastar o presidente do Senado, Renan Calheiros, acatando o pedido feito pelo partido Rede no processo em que réus não podem estar na linha sucessória da Presidência da República.

A decisão do ministro tem efeito imediato, ou seja, a partir de agora, o vice-presidente do Senado, Jorge Viana, assumirá o comando da Casa. Entretanto, o plenário do STF ainda precisa analisar a liminar do ministro Marco Aurélio e, no caso de uma decisão contrária, o senador Renan Calheiros voltará a presidência do Senado.

Independente da decisão da Suprema Corte, a confusão está feita. O nível de tensão já elevado entre os três poderes subiu ainda mais e uma crise institucional pode estar se agravando, ponto extremamente delicado ao futuro do País. Uma crise institucional é pior do que a não aprovação da reforma da previdência e do teto dos gastos, juntas.

Os investidores (principalmente estrangeiros) estão relativamente pacientes com o Brasil, mesmo com tantos problemas micro e macro acumulados ainda em aberto, olhando para o quadro doméstico com uma visão de mais longo prazo e com perspectiva positiva para a economia. Mas essa complacência pode ir por água abaixo com o agravamento de uma crise institucional, o que levaria a um rápido desmonte de posições compradas em ativos de risco.

O fato de Jorge Viana, novo presidente do Senado, pertencer ao PT e, portanto, se posicionar como oposição na presidência da Casa, causa uma grande dor de cabeça ao governo do presidente Michel Temer, já que a pauta de votações pode ser alterada. A PEC do teto dos gastos está sob risco de ser aprovada em segundo turno com atraso. Já a reforma da previdência, com um petista na presidência do Senado, corre sério risco de não se deslanchar, o que definitivamente seria um desastre do ponto de vista fiscal e um duro golpe ao mercado.

A bomba lançada por Marco Aurélio caiu em Brasília após o fechamento do mercado. O governo Michel Temer terá toda a madrugada para traçar uma estratégia e tentar acalmar os ânimos amanhã, o que será um novo teste à paciência dos investidores (que parece estar no limite).

O índice Bovespa permanece operando abaixo da linha central de bollinger, porém acima da principal região de suporte de curto prazo localizada na faixa dos 58,3k. A perda deste  importante patamar de sustentação poderá criar uma nova onda vendedora.


No cenário externo, destaque para avassaladora derrota do primeiro-ministro da Itália, Matteo Renzi, no referendo do último domingo sobre uma reforma constitucional. O “não” venceu com 59,1% dos votos.

Com a derrota, Renzi anunciou que irá renunciar, o que poderá abrir as portar para novas eleições antecipadas no ano que vem. O Movimento 5-Estrelas, partido anti-Europa, é o forte candidato para assumir o poder na Itália.

O fundador do partido, o comediante Beppe Grillo, já pediu eleições imediatas e disse que a partir da semana que vem os integrantes do Movimento 5-Estrelas começarão elaborar uma plataforma de políticas para divulgar a nação. Uma das principais bandeiras defendidas pelo partido é justamente a ruptura com o Euro.

A decisão, entretanto, precisa ser endossada por um referendo. Por esse motivo os mercados europeus reagiram com certa irrelevância à reviravolta política na Itália. A ruptura, se ocorrer, demandará algum bom tempo.