sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Mercado se anima com upgrade na Índia


Notícias de upgrades nos ratings de economias emergentes relevantes se tornaram muito raras, se não escassas, nos últimos longos anos. O status quo era de rebaixamentos de notas e revisões para perspectivas negativas.

Na última quinta-feira a agência de classificação de risco Moody’s quebrou a maré ruim anunciando upgrade no rating da Índia. A nota de classificação do título soberano indiano subiu de Baa3 (último degrau do grau de investimento) para Baa2, também alterando a perspectiva de estável para positiva. Esse foi o primeiro aumento no rating da Índia por parte da Moody’s nos últimos 14 anos.

A agência de classificação de risco considera que a Índia tem feito importantes progressos em um amplo programa de reformas econômicas. Embora algumas das séries de reformas estejam em fase inicial, o “pouco” do que já foi implementado na Índia foi suficiente para fazer a Moody’s acreditar que proporcionará base para melhorar o ambiente de negócios, aumentar a produtividade, estimular o investimento estrangeiro e, consequentemente, promover um crescimento forte e sustentável, com impacto positivo até mesmo a nível global.

Uma das principais cartadas de Arun Jaitley, ministro de Finanças da Índia, até o momento, está na criação do imposto sobre bens e serviços (taxa única e simplificada que elimina barreira ao comércio interestadual), medidas para enfrentar o excesso de empréstimos inadimplentes no sistema bancário, melhorias no quadro da política monetária e ações para reduzir a informalidade na economia.

Também merece destaque melhorias na frente fiscal, endossadas pela nova Lei de Gerenciamento de Responsabilidade Fiscal e Orçamentária, ampliando a transparência e credibilidade do governo.  A inflação segue confortavelmente baixa e as reservas internacionais aumentaram para máximos históricos, criando importantes amortecedores para absorver eventuais choques internos e externos.

A Moody’s projeta crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) de 6,7% no encerramento do ano fiscal em março de 2018, aumentando para robustos e sustentáveis 7,5% a médio e longo prazo, uma taxa significativamente maior do que a maioria de outros países emergentes.

A principal fraqueza da Índia está no nível de endividamento. Considerando apenas o quadro apresentado nos últimos parágrafos, a Índia poderia estar facilmente sonhando com uma nota A3, um patamar grau de investimento médio elevado. A elevada dívida publica é um duro fardo para o rating indiano e, consequentemente, acaba levantando uma muralha para alguns players globais.

As reformas realizadas até o momento criam confiança de que, pelo menos, o alto endividamento permanecerá estável a curto/médio prazo (ou seja, deixará de subir, o que já é um bom sinal), diminuindo a longo prazo. Traduzindo em números, a dívida preocupante da Índia é de 68% do PIB, significativamente superior à média de 44% do PIB para países rating Baa (Moody’s) ou BBB (Standard & Poor’s e Fitch).

Obviamente, o atual nível de endividamento absurdo de 74% do PIB no Brasil, combinado com os juros futuros ainda considerados elevados, é um preocupante e gravíssimo ponto fora da curva, não servindo como base de comparação para outros países, mesmo de nível inferior.

O upgrade da Índia quebrou, pelo menos por enquanto, o clima azedo que pairava sobre o mercado, especialmente nas praças emergentes. A bolsa da Índia reagiu para cima, fechando em forte alta pelo segundo pregão consecutivo, aos 33.342 pontos. O clima positivo contaminou outras praças emergentes, como Rússia, África do Sul e Brasil.


Na China, o mercado permaneceu de mau humor por conta da revisão de projetos de parceria público-privada. O Ministério das Finanças endureceu as regras para aprovação de novos projetos, preocupado com os riscos da dívida, reforçando a agenda de longo prazo do governo de desalavancagem do crédito.

Nos Estados Unidos, destaque para aprovação do projeto de reforma tributária na Câmara dos Deputados, por 227 votos a favor e 205 contra, que prevê grandes cortes de impostos para pessoas físicas e jurídicas. Entretanto, o Senado trabalha com uma proposta diferente de reforma tributária, com algumas modificações em relação ao projeto da Câmara.

A expectativa é que a atual reforma aprovada na Câmara enfrente forte resistência no Senado, não somente pela visão diferente dos parlamentares das duas casas, mas também pelo fato de os republicanos possuírem maioria apertada no Senado, bem diferente da ampla maioria na Câmara.

Analistas da Nomura avaliam que há 60% de chance de aprovação de um pacote de reforma tributária mais simples no primeiro trimestre de 2018, 20% de aprovação de uma reforma robusta (similar à proposta da Câmara) e 20% de que nenhuma proposta seja aprovada.

Há uma tendência de entendimento entre deputados e senadores republicanos para um texto final mais simples e voltado para a proposta do Senado, não somente por “sensatez” fiscal, mas também por conta da estreita margem de vantagem que os republicanos possuem no Senado. Na Câmara, os republicanos estão folgados com 240 assentos, precisando apenas de 218 votos para aprovar uma reforma tributária. No Senado, os republicanos possuem 52 assentos, mas só podem perder dois votos para conseguir aprovar uma reforma tributária.

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quinta-feira, 16 de novembro de 2017

México entra em bear market


Temido por investidores do mundo inteiro, o urso está de volta e desembarcou com fome na praça mexicana. Desde a recuperação ascendente de preços iniciada em 2016, o urso até tentou aparecer no México, aproveitando-se do temor criado pelo mercado em torno da candidatura de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, mas sem sucesso.

Seguindo o ambiente global extremamente positivo e de intensa busca por ativos de risco, a praça mexicana entrou em 2017 dentro de um forte rali, dando sequência à trajetória iniciada em 2016. Os investidores locais (e estrangeiros que compraram México este ano), pouco se importavam com a agenda de Trump para negociação do Nafta (bloco econômico formado por Estados Unidos, Canadá e México).

Atualmente, o maior parceiro comercial do México são os Estados Unidos, disparado. Essa ficha parece enfim ter caído no mercado. Conforme alerta de Wilbur Ross, Secretário de Comércio dos Estados Unidos, o fim do Nafta seria especialmente devastador para o México. Obviamente os Estados Unidos também seriam prejudicados, mas em menor intensidade. A visão da Casa Branca é a de que não conseguir um acordo é melhor do que ter um acordo ruim.

Um sinal de que a agenda de negociação não está avançando é o fato de os principais ministros dos Estados Unidos, Canadá e México, com autoridade sobre o Nafta, não estarem presentes na quinta rodada de discussões que ocorre nesta semana na Cidade do México. Apenas grupos de negociação de nível inferior se reunirão a partir desta sexta-feira.

As autoridades de alto nível destes três países se encontraram anteriormente na cúpula dos líderes da Apec (Cooperação Econômica Ásia-Pacífico), realizada no Vietnã. O encontro possivelmente não superou o desgaste acumulado no passado, que ficou nítido quando as autoridades norte-americanas relataram desapontamento com as discussões.

Os Estados Unidos querem firmar um novo pacto até março de 2018 e entre suas principais exigências estão o aumento da cota de produtos fabricados no país, principalmente para o setor automotivo, melhores leis trabalhistas no México, mudanças no processo de resolução de disputas e uma cláusula de caducidade que poderia forçar a renovação do acordo a cada cinco anos, ou suspendê-lo caso ao menos um dos membros não desejasse estendê-lo por mais 5 anos.

Apesar de o FMI (Fundo Monetário Internacional) ter ratificado neste mês que a economia do México segue resiliente, principalmente pela redução do déficit (pouco inferior a 50% do PIB) e melhora na regulamentação financeira, o urso está rugindo alto na praça mexicana.

Atualmente, a bolsa do México é negociada aos 203,94 pontos, acumulando mais de 20% de queda desde pico registrado em julho deste ano, aos 255,83 pontos. Normalmente, analisas e investidores consideram mercado em ciclo bear quando a queda ultrapassa os 20% desde o último topo. Já mercados em ciclo bull são considerados quando a valorização ultrapassa 20% desde o último fundo.

O temor com a negociação do Nafta não é o único motivo que pode explicar a virada para bear market no México. A inflação local está em 6,37%, muito acima da meta de 3% a ser perseguida e o Banxico (Banco Central mexicano) não subiu a taxa básica de juros na última reunião de Comitê, atualmente em 7%.

O Banxico quer apostar num cenário de recuo da inflação no futuro, embora as condições atuais não estejam jogando a favor. Nós brasileiros conhecemos bem os perigos dessa estratégia. A taxa de juros do título da dívida soberana do governo mexicano, com vencimento em 10 anos, disparou de 6,70% no final de junho para 7,37%.


A moeda local também está levando um baile. O peso mexicano saiu dos 17,44 dólares em julho deste ano para 19,23 dólares. Agenda externa complexa, inflação alta, juros futuros disparando e câmbio derretendo não combinam com autoridade monetária sem ação.

Não por acaso, ou injustiça, o urso apareceu no México. A bolsa local acumula 12 semanas seguidas de queda, num movimento bastante atípico e que chama atenção do mercado, pois é a primeira praça financeira relevante a entrar em bear market desde 2016, abrindo possibilidade de contaminação para outras praças consideradas esticadas por alguns analistas.


Ainda não é possível afirmar se o sell-off no México tende a ser um evento local, mas o fato é que outras economias, principalmente as emergentes, incluindo o grupo dos cinco frágeis, estão começando a ver suas moedas serem depreciadas em relação ao dólar, taxas de juros futuros (referência títulos de 10 anos) subindo e bolsas cedendo.

O mesmo urso que bebe tequila também pode apreciar uma vodka, caipirinha, entre outras “bebidas”, ou não. Ao investidor brasileiro, cabe o velho conselho de não creditar peso relevante aos acontecimentos do nosso circo doméstico, como tem feito a mídia local, pois, antes de tudo, somos dependentes do cenário externo.

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sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Temor aumenta com os salvacionistas na América Latina


Dentro de um intervalo de dois anos, 14 dos 21 países latino-americanos realizarão eleições presidenciais. Ainda neste ano, haverá disputa no Chile e em Honduras. Em 2018 o caldeirão vai ferver no Brasil, México, Colômbia, Paraguai, Costa Rica e Venezuela. Para 2019, haverá disputa presidencial na Argentina, Uruguai, El Salvador, Panamá e Guatemala.

O mercado está relativamente tranquilo com a eleição presidencial do Chile, que já começa no dia 19 de novembro (primeiro turno). Sebastián Piñera, candidato conservador, de viés pró-mercado, e que inclusive já governou o país entre 2010 a 2014, é o grande favorito na disputa.

Piñera está com 32,8% das intenções de voto no primeiro turno, muito a frente do candidato de centro-esquerda Alejandro Guiller, com 13,8% das intenções de voto. Tanto Guiller, quanto Piñera, tentaram usar ao máximo a imagem de outsider. Porém, o fato de Guiller ser visto como uma sucessão da impopular centro-esquerda Michelle Bachelet, atual presidente do Chile, favoreceu para que Piñera pudesse crescer como outsider, porém com um discurso mais a direita. Bom lembrar que a esquerda de Bachelet falhou em seu plano de governo, o que culminou num período de fraco crescimento e desemprego de 6,7% no maior exportador de cobre do mundo.

A maior preocupação dos analistas, agências de rating e do próprio mercado é justamente com o calendário de 2018. O cenário base geral para os países no qual passarão por disputas presidenciais em 2018 é de baixo crescimento, sensação de insegurança, decepção com casos absurdos de corrupção e cansaço com políticos tradicionais, elementos considerados “fermentos poderosos” para ascensão não necessariamente de outsiders, mas de candidatos populistas ou salvacionistas.

A percepção é de que há potencial apoio considerável da população à figuras salvacionistas no México, Colômbia e Brasil. Enrique Peña Nieto, atual presidente do México, tem aprovação de apenas 12% e os maiores partidos de oposição (incluindo o esquerdista PRD) estão formando aliança para derrotar o partido do governo (PRI) nas eleições de 2018. O PRI governou o México por sete décadas até 2000, voltou ao poder em 2012 com Peña Nieto, mas agora parece que sua hegemonia está novamente ameaçada.

Na Colômbia, o partido da Farc (Força Alternativa Revolucionária do Comum), antiga guerrilha, enxergou espaço para disputar as eleições presidenciais com candidato próprio (seu principal líder, Rodrigo Londoño Echeverri). O primeiro turno das eleições presidenciais na Colômbia será em maio de 2018, mas as eleições legislativas para o Senado e Câmara ocorrerão em março deste ano, também com candidatos próprios da Farc. A disputa no Congresso será fundamental para investidores e agências de rating traçarem as perspectivas econômicas para o médio e longo prazo.

No Brasil o quadro é ainda mais complicado, pois o atual governo Temer, teoricamente de centro-direta, com discurso pró-mercado, trabalha com uma aprovação extremamente baixa (3% apenas da população), taxa de desemprego muito elevada (12,4%), recuperação econômica lenta, com PIB potencial ridiculamente baixo para países emergentes.

Um candidato, portanto, que utilizar o mesmo discurso/estratégia de Temer pode não conseguir apoio suficiente da população nas eleições presidenciais do ano que vem, já que os próprios indicadores econômicos pesam contra o discurso. A população não entende que os problemas atuais são consequência do passado desastroso da nova matriz econômica, o que pode enfraquecer um discurso com viés mais ortodoxo no próximo ano.

Grande parte dos analistas brasileiros acredita que o próximo presidente será um candidato de centro-direita, mas, apesar da grande necessidade de se colocar a casa em ordem, o mercado não parece tão confiante nesta hipótese. Convencer a população com medidas impopulares, semelhantes à agenda do governo Temer, para solucionar o gigantesco passivo fiscal, parece missão praticamente impossível, pois a realidade do crescimento baixo e desemprego alto pesam bastante na escolha do eleitor.

Na verdade, a baixa credibilidade do discurso ortodoxo, evidenciada pelos indicadores econômicos, juntamente com o clima de decepção com a classe política tradicional, abre espaço para salvadores da pátria surgirem com discursos diferentes, aproveitando-se do desespero por mudança.

Em particular, as agências de classificação de risco não parecem dispostas a esperar o resultado das eleições no Brasil para tomar uma decisão sobre o nosso atual rating BB, dois níveis abaixo do grau de investimento. A Standard & Poor’s emitiu um alerta recentemente de que a nota brasileira pode ser rebaixada, caso as mudanças nas regras de aposentadoria e pensão não aconteçam em tempo hábil de dar algum respiro ao próximo governo.

Nesta sexta-feira, vazou informação de que a Moody’s pode rebaixar o rating de até três grandes economias da América Latina (muito possivelmente o Brasil faz parte deste grupo no alvo da Moody’s) e não esperará os resultados das próximas eleições presidenciais.

Para o caso brasileiro, a reforma da previdência está se mostrando fator fundamental não somente para Moody’s, mas Standard & Poor’s e Fitch, tomarem uma decisão logo. Não há tempo para discussões sobre o que fazer com os insustentáveis déficits fiscais. A trajetória do nível de endividamento está se aproximando de um caminho sem volta, quando combinada com a carga de juros atuais (contratos futuros). Se não atacarmos o problema com urgência e devido rigor, estaremos comprando passagem para descer mais um degrau na escala de rating.

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terça-feira, 7 de novembro de 2017

Fatura está mais salgada para os países dos cinco frágeis


Analistas de investimentos de grandes bancos estrangeiros adoram criar nomes, expressões ou siglas fáceis de memorizar que simplifiquem a transmissão de suas respectivas visões macro em relatórios aos investidores. A estratégia, quando alcança repercussão relevante no mercado, também serve como marketing barato e eficaz aos bancos de investimentos.

O acrônimo BRIC, criado por Jim O’Neill, para se referir à força das economias do Brasil, Rússia, Índia e China, com posterior adesão da África do Sul (mudando o nome para BRICS), foi uma das grandes sacadas de O’Neill e uma bela jogada de marketing longo e barato ao Goldman Sachs na década passada.

Outras siglas tiveram repercussões temporárias fortes, como os PIGS (porcos, em inglês), no auge da crise do euro, para designar os quatro países com sérios problemas fiscais na Europa (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha). Já algumas não emplacaram, como a BIITS, tentativa do Deutsche Bank de designar um grupo de cinco países fragilizados.

Em 2013 o Morgan Stanley apareceu com a mesma ideia do Deutsche, mas ao invés de tentar criar um acrônimo para o grupo de países frágeis e/ou vulneráveis, simplesmente o apelidou de “os cinco frágeis”. A partir deste momento, Brasil, Índia, Indonésia, África do Sul e Turquia passaram a ser mundialmente conhecidos como os cinco países mais vulneráveis às mudanças econômicas, principalmente ao processo de normalização das políticas monetárias nas economias avançadas.

Muitos criticaram a formação do grupo dos cinco frágeis, considerando-a injusta. Nós, brasileiros, por exemplo, não aceitávamos ser comparados com a Turquia. Alguns analistas, inclusive de outros países, acharam a expressão um pouco pesada, contendo um viés talvez injustificadamente mais pessimista para esses cinco países.

Apesar de todo barulho, fato é que o Morgan Stanley estava correto. O título de 10 anos do Brasil está pagando um prêmio na faixa de 10% ao ano, em linha com a taxa praticada em 2013, quando a expressão foi criada. Bom lembrar que a nossa taxa subiu em 2013, 2014 e em 2015 alcançou quase 17%.

Os últimos dois anos foram de correções nos prêmios do Brasil, mas ainda estamos pagando juros de dois dígitos no título com vencimento em 10 anos, sendo que a taxa básica de juros opera aos 7,50%. O GAP entre a taxa básica de juros versus taxa futura de 10 anos revela desconfiança do mercado em diagnósticos de longo prazo.

A toda poderosa Índia, que cresce 5,7% ao ano, em pleno processo de reformas, com taxa básica de juros em 6%, inflação ancorada em 3%, tem que pagar 6,90% no título com vencimento em 10 anos. A taxa exigida pelo mercado hoje está praticamente 1 p.p. acima da mínima dos últimos anos.

A Indonésia paga 6,66% no título de 10 anos, acima dos bons tempos de rolagem/emissão da dívida a 5% ao ano durante 2012 e 2013. Apesar de mais salgado, o governo local está satisfeito com o prêmio atual, pois em 2015 a taxa se aproximou dos 10%. O retorno ao patamar de 5% parece um caminho difícil a ser traçado, já que a curva de juros futuros não aponta para baixo no longo prazo há um bom tempo.

O bond da África do Sul se distancia cada vez mais dos patamares alcançados em 2013. Hoje o governo paga 9,28% no título com vencimento em 10 anos, bem acima dos 6% alcançados quatro anos atrás, também com a curva de juros futuros de longo prazo apontando para cima.

O sal está carregado no título do governo Turco. Para emitir dívida com vencimento em 10 anos, o governo turco precisa pagar hoje ao mercado 11,92% ao ano, prêmio significativamente acima dos 6% praticados em 2013.


O Banco Central da Turquia, inclusive, se viu forçado a ativar, nesta semana, um mecanismo de emergência para injetar 1,4 bilhão de dólares no sistema financeiro com o objetivo de tentar deter a queda da lira turca e disparada dos yields, além de acalmar o mercado.

Apesar de não haver sinais de fuga de capitais, as taxas dos títulos da dívida soberana destes cinco países não estão em terrenos confortáveis. A liquidez no sistema financeiro global está mais alta quando comparada há quatro anos, mas mesmo assim as dificuldades de captação estão se mostrando visíveis nos prêmios.

O clima de aparente tranquilidade nas principais praças financeiras mundiais também tem camuflado o movimento defensivo de alguns investidores em bonds dos cinco frágeis. A ausência de uma espécie de alarme geral tocando no mercado pode criar acomodação para alguns governos não seguirem agendas estruturantes necessárias para restabelecer fundamentos macroeconômicos básicos a fim de se enfrentar um cenário futuro adverso de menor liquidez no sistema.

Mesmo com o FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) iniciando sua fase de desalavancagem no mês de outubro, permitindo o vencimento de uma pequena parcela de títulos de seu balanço e a China visando um crescimento menor na próxima década para desarmar riscos de um endividamento elevado, alguns governos ainda estão acostumados com as facilidades do passado e não se deram conta de que o cenário para o futuro tende a ser diferente.

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quarta-feira, 1 de novembro de 2017

A lógica de Trump para trocar seis por meia dúzia


A nomeação do novo chair do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), prevista para amanhã, vazou no Wall Street Journal. Confirmando as expectativas de muitos no mercado, a fonte da matéria publicada no fim de tarde desta quarta-feira afirma que Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, nomeará Jerome Powell como próximo presidente do FED.

O mandato de quatro anos da atual chair do FED, Janet Yellen, expira em fevereiro do próximo ano. Powell tem perfil dovish, muito parecido com o de Yellen, que sucedeu Ben Bernanke, também de perfil dovish. Se confirmado, Powell dará prosseguimento a uma era de lideres dovish dentro do banco central mais poderoso do mundo.

Trump criticou duramente a atual chair do FED durante sua campanha eleitoral, mas mudou de opinião nos últimos meses, chegando até mesmo a considerar mantê-la no cargo. A substituição de Yellen por Powell tende a não causar nenhuma alteração no viés extremamente cauteloso da política monetária norte-americana.

Powell é atual membro do Conselho de Governadores do FED e sempre defendeu a linha de atuação da atual chair Janet Yellen. Trump está trocando seis por meia dúzia na política monetária, talvez, não por conta das duras críticas direcionadas à Yellen em sua campanha, mas, provavelmente, porque quer mudar a lei Dodd-Frank e Powell, membro do partido republicano, apesar de apoiar a lei, já sinalizou que é possível torná-la mais eficaz.

A famosa Dodd-Frank tem cerca de 2.300 páginas e, entre os principais destaques, estão nos maiores requisitos de capital e obrigação de os bancos se submeterem anualmente a testes de estresse que medem suas respectivas resistências às crises financeiras. Trump não quer mudar esta parte da lei, mas sim uma outra norma-chave conhecida como Regra Volcker (o nome é uma homenagem ao glorioso trabalho do ex-presidente do FED, Paul Volcker).

Basicamente, a Regra Volcker proíbe que os bancos utilizem dinheiro garantido pelo governo para fazer apostas especulativas no mercado que ameaçam o sistema financeiro. É uma forma de limitar riscos excessivos tomados pelas instituições financeiras no passado, como no episódio do crash do subprime (2008) e da própria “Baleia de Londres” (trader do JP Morgan que apostou muito alto em posições erráticas e acabou tomando 6,2 bilhões de dólares de prejuízo).

Obama teve de queimar muito capital político para aprovar a Regra Volcker em 2013, na gestão Bernanke, mesmo depois de todo o escândalo provocado pela crise do subprime e com bastante atraso na implementação da nova lei. A pressão de Wall Street para revisão da Regra Volcker é enorme e Trump está pegando carona neste movimento, o que agrada o mercado.

As chances de afrouxamento na Regra Volcker não são pequenas. Trump, Wall Street e o partido republicano em peso apoiam uma mudança. O próprio Jerome Powell já sinalizou que a regra deveria ser reescrita para os bancos menores, ou mesmo diminuir as regulações, que são consideradas pesadas demais por muitos em Wall Street.

Na tarde desta quarta-feira o FED encerrou sua reunião de política monetária sem apresentar novidades. Com inflação em 1,3%, distanciando-se da meta de 2% a ser perseguida, não há riscos para mudança na trajetória extremamente lenta e gradual de redução do balanço da autoridade monetária (iniciado no mês de outubro), bem como aumento a conta-gotas da taxa básica de juros, no qual uma nova elevação de 0,25 p.p. deverá ocorrer em dezembro deste ano.

Na Europa, destaque para a decisão dovish do BCE (Banco Central Europeu) na última reunião de Comitê. Muito pressionado para agir, tanto pelas condições do deslocamento ascendente da moeda, quanto pela estratégia do banqueiro central do outro lado do Atlântico, a autoridade monetária europeia decidiu, enfim, reduzir o seu volume mensal de compras de ativos.

A partir de janeiro de 2018, o BCE vai comprar 30 bilhões de euros em ativos no mercado local, ante os 60 bilhões de euros atuais. O volume de compras mensais foi reduzido pela metade, mas para compensar algo que poderia ser considerado um movimento hawkish, o programa foi novamente prorrogado.

Programado para ser encerrado em janeiro do ano que vem, o programa de compras foi estendido por mais nove meses. Portanto, o BCE continuará comprando papéis no mercado até setembro do próximo ano, anulando completamente qualquer expectativa de efeito que um corte de 30 bilhões no programa de compras teria no mercado. Pelo contrário, cortar pela metade o volume de compras, mas estendê-lo por mais nove meses aumentará a liquidez até então projetada no sistema.

Mario Draghi, presidente do BCE, confirmou o viés de cautela da autoridade monetária ao destacar em sua entrevista para a imprensa o fato de a inflação na zona do euro continuar muito baixa (atualmente em 1,4% no índice oficial, com o núcleo recuando a 0,9%) e distante do centro da meta de 2% a ser perseguida, o que, na visão dos membros do Comitê, exige suporte de uma política monetária ainda bastante estimulativa.

O BoJ (Bank of Japan), segue firme na sua política monetária ultra expansionista. Manteve a taxa de juros de curto prazo em -0,1% e meta de perseguir juro zero no rendimento do título do tesouro nacional de 10 anos. Haruhiko Kuroda, presidente do BoJ, reforçou sua promessa de manter o afrouxamento monetário agressivo até que a inflação se estabilize acima dos 2% (objetivo ainda muito distante de ser alcançado).

Na Rússia, o Banco Central cortou a taxa básica de juros em 0,25 p.p., de 8,50% ao ano para 8,25% ao ano, seguindo estratégia semelhante adotada no Brasil, porém não com tanta sede ao pote. A taxa de inflação ronda os 3% no acumulado dos últimos 12 meses, abaixo da meta de 4% a ser perseguida. Apesar de o Banco Central russo ter deixado a porta aberta para novos cortes na taxa básica de juros, o ritmo de corte é mais cauteloso, já que existe preocupação com os riscos de retomada da inflação a médio e longo prazo.

Num comparativo simples, o Banco Central da Rússia parece estar justificadamente mais preocupado com o balanço de riscos para a inflação a médio e longo prazo, enquanto o Banco Central do Brasil parece estar mais focado no oportunismo de curto prazo, talvez não depositando devida preocupação frente às barreiras estruturais econômicas (sempre visíveis nos processos de retomada do crescimento) e gravíssimo quadro fiscal.

O processo de retomada econômica no Brasil está em curso, ainda em fase inicial, por enquanto sem sinais de ameaça à meta de inflação ou desequilíbrio, mas por outro lado não demonstra o ímpeto de fortes recuperações observadas no passado.

O Índice Gerente de Compras, calculado pelo Instituto Markit, subiu de 50,9 pontos em setembro para 51,2 pontos no mês de outubro, revelando expansão moderada da atividade manufatureira. O nível de emprego na indústria subiu pela primeira vez desde 2015, numa importante mudança direcional. Destaque para o mercado interno, principal força do processo de expansão do indicador no mês de outubro, compensando a primeira queda dos últimos seis meses no volume de vendas para o exterior.


Este primeiro sinal de fraqueza dos negócios no mercado externo pode ser uma preocupação, já que o dólar contra real subiu cerca de 0,10 pontos no mês de outubro. Não é uma alta considerada expressiva, mas ainda assim a indústria nacional sentiu, mesmo com o mundo em aceleração do processo de crescimento. Essa nova dificuldade da indústria revela o velho e conhecido problema da baixa competitividade de nossos produtos no mercado global.

Na China, o vice-ministro do Escritório do Grupo Central de Liderança de Assuntos Financeiros e Econômicos do Partido Comunista, Yang Weimin, disse que o país não vai buscar somente a expansão econômica na próxima décda, mas sim dar mais foco a qualidade do crescimento. A China sempre buscou duplicar seu PIB e renda per capta a cada década. Porém, a partir de 2021, essas metas ambiciosas de crescimento tendem a ser deixadas de lado (até porque as dívidas corporativas e de governos estão muito elevadas), marcando uma nova estratégia de desenvolvimento econômico no longo prazo.

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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Alvo da Selic não parece tão baixo quanto o mercado imagina


O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil) reduziu, nesta quarta-feira, a taxa básica de juros em 0,75 p.p. para 7,50% ao ano. A decisão, amplamente esperada pelo mercado, não surpreendeu. Entretanto, o comunicado apresentado após o término da reunião de Comitê acrescentou alguns elementos hawkish de importância relevante.

Antes de entrar em detalhes sobre o comunicado do Copom, cabe ressaltar que até então estávamos (ainda estamos) dentro de um ambiente de mercado considerado otimista com diagnósticos bastante positivos por parte dos analistas/economistas para a trajetória da inflação e da taxa básica de juros.

Algumas projeções já começaram apontar para taxa Selic em 6,25% no próximo ano, o que pode ser uma sinalização de que desejo por juros baixos está se sobrepondo à realidade do quadro macro local. Mesmo aqueles que esperam Selic em 6,50% (não são poucos) podem estar confiantes demais numa economia ainda com sérios problemas estruturais.

O Comunicado apresentado nesta quarta-feira serve como choque de realidade. O Banco Central não sinalizou que a taxa Selic vá alcançar patamares tão baixos quanto o mercado imagina no médio prazo. Pelo contrário, o ciclo de afrouxamento monetário pode estar se aproximando do fim.

As alterações observadas no texto de hoje, comparadas ao último comunicado emitido na reunião do mês de setembro, são consideradas hawkish. Em primeiro lugar, a menção (por sinal pouco notada) ao primeiro item do fator de risco positivo ao cenário básico para a inflação sofreu pequena alteração, mas extremamente relevante.

Em setembro, o Banco Central considerou que “(i) possíveis efeitos secundários do contínuo choque favorável nos preços de alimentos... pode produzir trajetória de inflação prospectiva abaixo do esperado”. Na reunião encerrada hoje, a palavra “contínuo” foi cortada deste trecho. Isso significa que os integrantes do Comitê enxergam que o choque favorável de preços de alimentos, muito positivo e de certa forma até surpreende no passado recente, tende a não se manter no mesmo nível nos próximos meses. Ou seja, a boa fase da dinâmica dos preços de alimentos pode estar chegando ao fim.

O segundo item da variável positiva para o balanço de riscos da inflação também sofreu alteração. Em setembro, o Banco Central considerou que “(ii) possível propagação, por mecanismos inerciais, do nível baixo de inflação corrente, inclusive dos componentes mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária, pode produzir trajetória de inflação prospectiva abaixo do esperado”. Na reunião encerrada hoje, a frase “inclusive dos componentes mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária” também foi cortada deste trecho. Com esta mudança, ficou claro que o cenário inflacionário para os componentes mais sensíveis ao ciclo econômico tende a não ser tão positivo quanto no passado recente.

Por fim, no penúltimo parágrafo do comunicado, o Banco Central deixou seu recado final de que o fim do ciclo de afrouxamento monetário pode estar se aproximando do fim. Na reunião do mês de setembro, a autoridade monetária considerou que “antevê encerramento gradual do ciclo”. No encontro de outubro, este trecho também foi retirado.

Caso o processo continuasse sob perspectiva de encerramento gradual (ou seja, mais duas ou três rodadas de cortes na taxa Selic), o trecho seria mantido no comunicado divulgado nesta quarta-feira. Com a retirada desta frase, entende-se que não estamos mais num processo de encerramento gradual, mas sim na fase final do ciclo de afrouxamento. Em outras palavras, o espaço para novos cortes na taxa Selic parece estar limitado à próxima reunião de dezembro e, talvez, na primeira reunião do próximo ano.

Como o Banco Central reafirmou que para a próxima reunião vê como adequado uma redução moderada na magnitude de flexibilização monetária (ou seja, do atual ritmo de corte de 0,75 p.p. para 0,50 p.p.), a taxa Selic tende a encerrar 2017 aos 7% e, se houver espaço, um corte derradeiro de 0,25 p.p. pode acontecer no primeiro encontro de 2018, possivelmente encerrando o ciclo de afrouxamento monetário.

Considerando o cenário de concorrência (para atração de fluxo) com outros países emergentes ou em desenvolvimento, o corte desta quarta-feira deixa a taxa de juros do Brasil abaixo da praticada no Uruguai (atualmente em 9,25%), Rússia (atualmente em 8,50%), Equador (atualmente em 8,19%) e Turquia (atualmente em 8,0%). Com a taxa Selic caindo para 7%, vamos empatar com o nível de juros do México (atualmente em 7%) e ficar muito próximo do nível de juros praticado na África do Sul (6,75%). Nossa atratividade macro não se difere tanto destes países, pelo contrário estamos até mesmo um pouco aquém da concorrência.

A referência Índia, que cresce num ritmo de 5,7% ao ano, com inflação ancorada na faixa dos 3,20%, praticando política econômica pró-mercado, opera com taxa de juros a 6%. Nossa Selic deixou de ser a cereja do bolo no mundo e estamos aventurando num terreno pouco explorado. Não há como sonhar em alcançar juros de uma Índia trabalhando ritmo de crescimento de uma Grécia. Temos de fazer o dever de casa primeiro, para depois sonharmos com o nível de 6%. Enquanto isso, Selic próxima de 7%, sustentável, sem pânico a curto e médio prazo, pode ser considerado um presente de bom grado dos investidores estrangeiros.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Shinzo Abe, o poder do status quo


Shinzo Abe, atual primeiro-ministro do Japão, mostrou ao mundo neste último domingo como o status quo pode não só garantir o seu espaço consagrado na política, como ratificar sua força numa era em que as redes sociais impulsionam por mudanças (nem sempre bem pensadas) em vários cantos do planeta.

No início do mês de outubro, Abe convocou eleições antecipadas como pretexto para continuar seu programa econômico (conhecido com Abenomia, respaldado basicamente numa política monetária ultra frouxa), fortalecer seu governo para propor mudanças relevantes na Constituição e reunir forças para lidar com a ameaça da Coreia do Norte.

Abe deu uma aula à primeira-ministra britânica Theresa May, que também convocou eleições antecipadas neste ano para fortalecer seu governo. O tiro de Theresa May saiu pela culatra ao perder maioria no Parlamento, mas Abe acertou em cheio, surpreendendo, inclusive, expectativas mais otimistas.

O primeiro-ministro do Japão obteve uma vitória avassaladora neste último domingo, abrindo caminho para um terceiro mandato de três anos e se tornar o premiê há mais tempo no cargo na história do país. Se conquistar também a presidência do Partido Liberal Democrata, a ser realizada em setembro de 2018, Abe poderá manter-se na chefia até 2021.

A coalizão de Abe conquistou incríveis 2/3 da Câmara dos Deputados, conhecida como meta da supermaioria, necessária para alterar a Constituição, por exemplo. Isso significa que, sem precisar conversar com a oposição, Abe teria os votos necessários para propor mudanças relevantes.

A principal mudança na mira de Abe é o artigo 9 da Constituição, que por sinal foi escrito e imposto pelos norte-americanos em 1946. É conhecida como Constituição pacifista, pois limita a utilização das Forças Armadas (apenas para autodefesa) e impede o país de declarar guerra.

A vitória de Abe mostra não só a possibilidade concreta de retorno da força militar japonesa na Ásia, permitindo uma atuação linha-dura com a Coreia do Norte, como manutenção do agressivo programa de recuperação econômica e tentativa de retorno da inflação através das políticas monetárias ultra frouxas praticadas pelo BoJ (Bank of Japão - autoridade monetária local), o que tende agradar o mercado.

Nikkei atingiu máxima dos últimos 21 anos impulsionado pela vitória esmagadora de Shinzo Abe. O mercado japonês segue trabalhando dentro de um forte rali nos últimos anos, estimulado, sobretudo, pelas compras maciças de ativos por parte do BoJ.

Com a inflação oscilando na casa dos 0,7%, longe de alcançar a meta de 2% a ser perseguida pelo Comitê de Política Moentária, e crescimento econômico modesto de 0,6%, a Abenomia tem espaço para prevalecer no Japão. A dívida de 250% do PIB (Produto Interno Bruto) não é um problema para Abe afrouxar a política fiscal e monetária, pois o BoJ, além de praticar juro negativo a curto prazo, trabalha com uma meta de buscar juros zero nos títulos do tesouro japonês de longo prazo.


Nos Estados Unidos, destaque para o primeiro passo da polêmica reforma tributária de Donald Trump. O Senado aprovou na semana passada, por 51 votos a 49, medida para acrescentar 1,5 trilhão de dólares ao déficit fiscal do governo norte-americano ao longo da próxima década. O projeto é  base necessária para abrir espaço aos cortes tributários propostos por Trump.

Se a proposta evoluir na Câmara (onde os republicanos possuem maioria folgada), uma nova espécie de “quantitative easing orçamentário” estará se desenhando para o futuro. O balanço do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) subiu cerca de 3,5 trilhões de dólares com os programas de compras de ativos desde o estouro da crise do subprime em 2008, mas muitos analistas afirmam que boa parte deste fluxo escorreu para o mercado (vide preços das ações, bonds, etc), não criando o efeito inflacionário esperado na economia.

Desta vez, a renúncia fiscal tende a criar uma bela injeção de capital "na veia" (economia), com implicações diretas sobre a inflação. É dinheiro que os norte-americanos poupariam com menor pagamento de tributos para consumir mais. Considerando que Trump prometeu renunciar até 6 trilhões de dólares a pessoas físicas e jurídicas, o primeiro passo no Senado é um sinal de alerta ao futuro da política de normalização das condições monetárias do FED, que até então tem contado com terreno para seguir no seu ritmo de extrema cautela.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Mais do mesmo no FED


Investidores do mundo inteiro aguardam ansiosamente a decisão de Donald Trump para a presidência do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos). O importante anúncio tende a ocorrer antes da viagem do presidente norte-americano ao continente asiático, marcada para o dia 3 de novembro.

A disputa parece estar entre Jerome Powell, diretor do FED e Janet Yellen, atual chair do FED. Gary Cohn, principal conselheiro econômico de Trump, Kevin Warsh, ex-diretor do FED e o economista John Taylor, da Universidade de Stanford, estão entre os outros nomes cotados para assumir a presidência do FED.

Cohn, Warsh e Taylor não estão tão quentes no mercado, o que pode ser um grande alívio aos investidores acostumados com o longo período dovish da autoridade monetária norte-americana.

Entre todos os nomes cotados, o republicano Powell é visto como o mais parecido com Yellen, por apresentar viés consideravelmente dovish. Já o ex-diretor do FED e o renomado economista de Stanford estavam criando até então certas preocupações no mercado, por serem considerados mais pesados (não tão dovish) quanto Yellen e Powell, o que poderia ameaçar o tom extremamente cauteloso da política monetária norte-americana.

Segundo reportagem do site Politico, Donald Trump estaria mais inclinado a nomear Jerome Powell como novo chair do FED. Apenas alguns membros do grupo ultra conservador Freedom Caucus da Câmara dos Deputados resistem à nomeação de Powell. O Freedom Caucus também não quer Janet Yellen como chair do FED, a preferência é por um profissional de perfil hawkish, o que parece ser altamente improvável.

Apesar do barulho, o Freedom Caucus não conseguirá impedir uma nomeação dovish para o FED, já que a decisão de Trump precisa ser confirmada apenas pelo Senado. Diferentemente do que ocorreu em outras tentativas de movimentos de Trump durante este ano, o Freedom Caucus desta vez tende a não conseguir “atrapalhar”.

Curioso notar é que Trump criticou Yellen durante sua campanha eleitoral, mas agora considera não só substituir Yellen por outro profissional de perfil semelhante, como também manter a atual chair no cargo. O presidente dos Estados Unidos supostamente mudou de ideia porque tem encontrado dificuldades de implementar sua agenda econômica. A manutenção, portanto, do quadro macro local (considerado bom) tende a continuar dependendo das políticas frouxas do FED.

Seja com Powell ou Yellen, o FED tende a continuar no mais do mesmo, em movimentos cautelosos, muito graduais, com baixo risco de rápida eliminação do elevado nível de liquidez no sistema financeiro. Além disso, o quadro de inflação abaixo do centro da meta corrobora a decisão por um profissional de perfil dovish.

O tom otimista segue dominante em Wall Street, com S&P500 e Dow Jones renovando máximas histórias. O rendimento da Treasury de 10 anos se aquietou abaixo dos 2,35% e o dólar contra cesta de principais moedas globais oscila lateralizado nos últimos dias, em baixa volatilidade.

Por fim, destaque para o crescimento de 6,8% da economia chinesa no terceiro trimestre deste ano em relação ao ano anterior. O número é inferior aos 6,9% do segundo trimestre de 2017, mas sinaliza atividade sólida, com boa perspectiva de superar a meta de crescimento de 6,5% para este ano.

Analistas chineses esperam, também, que o PIB deste ano supere os 6,7% registrados em 2016, o que se concretizado marcará a primeira aceleração dos últimos sete anos, revelando eficácia na estratégia do governo de reestruturar o setor industrial e aquecer a demanda doméstica com aumento dos investimentos.

Peço desculpas pelo tempo relevante ausente e agradeço a paciência de todos. Aos poucos, tentarei retomar a frequência de posts. Bons negócios!

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Assessoria de investimentos

Prezados(as),

A minha jornada de disseminação da cultura financeira no Brasil atingiu um novo e importante patamar. Já publiquei um livro voltado para o mercado de capitais e além desse blog, tenho colunas no Jornal ADVFN e Investing.com Brasil. Apesar de todo esse esforço, sentia que faltava algo mais próximo, viável e eficaz para auxiliar nos seus investimentos.

Pensando nisso, me tornei assessor de investimentos na JB3, escritório credenciado à XP Investimentos. A JB3 está entre os melhores escritórios no ranking de atendimento de toda a rede XP. Conheço a equipe desde 2012, quando abri minha conta na XP. O nosso escritório está localizado em Florianópolis, mas atendemos clientes do Brasil inteiro.

Já a XP Investimentos dispensa comentários. Instituição financeira de grande porte, em forte ascensão, com mais de 100 bilhões de ativos sob custódia. O sucesso da XP está no seu modelo de negócio, onde os escritórios credenciados assessoram seus clientes a investirem na maior plataforma aberta de distribuição de produtos financeiros do Brasil. Plataforma que, inclusive, já conta com uma boa carta de fundos estrangeiros, facilitando as condições para o investidor que busca diversificação internacional.

Na JB3 Investimentos, você contará com a minha assessoria, baseada nos mesmos pilares de transparência, imparcialidade e seriedade que você está acostumado a observar no blog. Vou lhe assessorar na alocação de recursos conforme seu perfil e monitorar seus investimentos de maneira recorrente.

Importante ressaltar que o serviço de assessoria de investimentos é desenvolvido sem custo algum. O meu trabalho é remunerado unicamente pela própria XP. Você vai arcar apenas com os custos operacionais corriqueiros, como taxa de corretagem para compra de ações, taxa de administração ao investir em fundos de investimentos, etc. Outro detalhe importante é que na XP praticamos política de taxa zero para custódia de renda fixa, custódia de bolsa, custódia de COE e custódia de Tesouro Direto. Também não há cobrança para retirada de recursos de sua conta da XP. Mais detalhes sobre os nossos custos operacionais estão disponíveis nesse link: https://investimentos.xpi.com.br/custos-operacionais/#/passo/1

Caso tenha interesse em investir com a XP Investimentos contando com a minha assessoria, basta enviar um e-mail manifestando interesse. Responderei o mais breve possível com o procedimento a ser realizado (simples e rápido). Podemos também agendar um call por skype ou telefone para esclarecer eventuais dúvidas. O meu atendimento é full time.

E-mail: robson@jb3assessoria.com.br

Um abraço,

Robson Versiani

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Recuperação modesta


Duas palavras para resumir o momento da economia brasileira, mais especificamente sobre a importante atividade industrial local. Uma mera recuperação modesta, nada muito empolgante frente ao terrível quadro de recessão dos últimos longos trimestres.

O Instituto Markit divulgou nesta segunda-feira sua pesquisa da atividade industrial brasileira referente ao mês de setembro. Ao atingir 50,9 pontos no mês passado, o Índice Gerente de Compras ficou inalterado em relação à leitura do mês de agosto, mostrando que após o movimento de reação (reversão da trajetória contracionista) a atividade manufatureira voltou a se estagnar, desta vez em leve região expansionista.


Apesar do razoável crescimento da produção e da criação de empregos na categoria bens de consumo, a pesquisa revelou que os empresários continuam inclinados a trabalhar com baixo nível de estoque por não estarem tão confiantes no aumento sustentado da demanda interna.

A recuperação modesta da indústria brasileira não deixa de ser uma boa notícia quando se olha para o filme de terror do passado, mas não demonstra ímpeto necessário para que a economia possa alcançar 3% de PIB (Produto Interno Bruto) a curto/médio prazo.

O Brasil ainda está devendo uma recuperação mais sólida e consistente, até porque o baque sofrido no passado foi muito forte e o mundo está crescendo em ritmo satisfatório. O indicador de atividade industrial global do Instituto Markit calculado em conjunto com o JP Morgan fechou mais um mês acima dos 53 pontos, mostrando solidez de uma recuperação da atividade manufatureira, já ultrapassando os níveis alcançados em 2013.
  

A zona do euro e algumas praças emergentes estão impulsionando a recuperação da atividade manufatureira a nível global. O Índice Gerente de Compras da zona do euro registrou em setembro o nível mais alto desde 2011, alcançado 58,1 pontos. A recuperação na Europa é generalizada e acompanhada pelo fortalecimento da demanda local, reforçando a sustentabilidade do movimento.

A China continua sinalizando baixo risco de descumprimento da meta de crescimento de 6,5% para este ano. Apesar de o indicador do Instituto Markit ter mostrado recuo de 51,6 pontos em agosto para 51,0 pontos em setembro, o Índice Gerente de Compras oficial (governo) apontou aceleração do movimento de expansão da atividade industrial saindo de 51,7 pontos em agosto para 52,4 pontos em setembro, ritmo mais rápido desde abril de 2012.

Essa divergência de números não é tão incomum na China, já que a pesquisa privada é mais concentrada em empresas de pequeno e médio porte enquanto a pesquisa do governo é mais concentrada em empresas estatais e/ou de grande porte. Ainda assim, em ambos os casos, os indicadores continuam mostrando expansão da atividade manufatureira.

Por outro lado, o Banco Central da China informou no último sábado que vai cortar a taxa de compulsório em 0,5 p.p. para os bancos que atendem certos níveis de exigências para empréstimos à pequenas empresas (possível reação ao indicador privado) e ao setor agrícola. Esse é o primeiro corte desde fevereiro de 2016 e tem objetivo de aumentar as operações de crédito no sistema financeiro.

O ritmo de recuperação da atividade industrial na Rússia também não deixa a desejar. O Índice Gerente de Compras subiu de 51,6 pontos em agosto para 51,9 pontos em setembro, mostrando reação natural da economia frente ao processo de afrouxamento monetário promovido pelo Banco Central russo. Processo semelhante ao que ocorre no Brasil, porém com força nitidamente maior.

No Japão, o Índice Gerente de Compras fechou o mês de setembro aos 52,9 pontos, superior aos 52,2 pontos registrados em agosto, consolidando trajetória de recuperação em velocidade satisfatória.

Nos Estados Unidos, o Índice Gerente de Compras subiu de 52,8 pontos em agosto para 53,1 pontos em setembro, revelando aceleração no processo de expansão da atividade manufatureira. A pesquisa mostrou que apesar de tantos temores, os furacões tiveram pouco impacto na produção. Além disso, o levantamento mostrou que o emprego subiu para a máxima dos últimos nove meses, ratificando o status de mercado em nível de pleno emprego, mas com inflação ainda surpreendentemente (e persistentemente) baixa.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Giro macro global


Sem atrair muita atenção, o dólar contra cesta de principais moedas globais fechou em alta pela terceira semana consecutiva. O movimento de apreciação da moeda norte-americana ainda é muito incipiente e se destoa da derrocada acumulada neste ano.

Os investidores (principalmente estrangeiros) estão empolgados com os ralis nos preços dos ativos registrados em várias praças financeiras mundiais neste ano e ainda não demonstram preocupação com os possíveis impactos de uma eventual virada na trajetória principal da moeda norte-americana.

O apetite por ativos de risco e retornos elevados continua forte. As praças emergentes ou em desenvolvimento estão se destacando, apresentando retornos significativos no ano, mas o fluxo não está concentrado somente nas mais famosas ou menos arriscadas dentro do grau especulativo.

A África é um bom termômetro do nível de otimismo no mercado global. Nunca na história os governos africanos conseguiram emitir tantos eurobônus num só ano. Em 2017, as emissões já ultrapassam os 14,5 bilhões de dólares. Nenhum país africano possui grau de investimento e vários sofreram rebaixamento recentemente.

O caso mais chocante ocorre com Moçambique. O governo decretou moratória no início deste ano, não acenou para reestruturação da dívida com os investidores, mas mesmo assim os títulos soberanos de Moçambique apresentam o segundo melhor desempenho entre os mercados emergentes, acumulando impressionantes 31% de alta neste ano.

Segundo Jason Daw, estrategista-chefe de mercados emergentes do Société Générale, a compressão da volatilidade cambial tem estimulado ainda mais estratégias conhecidas como carry trade. Isso pode mostrar que os investidores não estão tão preocupados com os fundamentos dos ativos-alvos nas operações com carry trade, mas sim aproveitando as condições técnicas dos deslocamentos das moedas num quadro de ambiente positivo a nível global.

Além da sinalização dovish apresentada no gráfico de pontos da última reunião do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), bem como seu programa extremamente cauteloso de normalização das condições monetárias, outras autoridades monetárias seguem adotando estratégia semelhante, endossando o viés do mercado.

Villeroy de Galhau, membro do Conselho do BCE (Banco Central Europeu), disse que apesar de a autoridade monetária estar prestes a diminuir o ritmo de suas compras mensais de ativos, a política monetária ainda continuará expansionista. Peter Praet, economista-chefe do BCE, foi na mesma linha em sua última conferência em Berlim, ao afirmar que a nova calibragem do programa de compras não significa que os estímulos serão encerrados no futuro.

A inflação na zona do euro permaneceu em 1,5% no acumulado dos últimos 12 meses em setembro, ficando abaixo das expectativas do mercado (1,6%) e ainda distante do centro da meta a ser perseguida (2,0%). A pesquisa da Eurostat revelou que o aumento de preços permanece fraco, com expectativa de queda para os próximos meses, o que minimiza o risco de uma ação agressiva por parte do BCE no futuro.

Haruhiko Kuroda, presidente do BoJ (Bank of Japan), voltou a repetir que é muito prematuro desfazer o programa de estímulo e debater o fim da política monetária ultrafrouxa. O comunicado da última reunião do Comitê de Política Monetária mostrou novo adiamento do momento em que a meta de inflação seria alcançada. Agora, a expectativa é que a meta de 2,0% será atingida somente em algum momento do ano fiscal de 2020.

No Reino Unido, a Agência Nacional de Estatística informou que o PIB (Produto Interno Bruto) do segundo trimestre deste ano desacelerou para 1,5%, frente aos 1,8% registrados no trimestre anterior. É o crescimento mais fraco na comparação anual desde 2013, dificultando o cenário para o BoE (Bank of England), que precisa subir a taxa básica de juros para combater a inflação acima do centro da meta, fortemente influenciada pelo deslocamento da libra. Ainda assim, mesmo com uma possível elevação da taxa de juros, o BoE já alertou que não pretende alterar seu programa de estímulos monetários.

Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump enfim apresentou seu programa de cortes de impostos, uma de suas principais propostas de campanha. O plano propõe redução da alíquota-teto do imposto de renda de pessoa física dos atuais 39,6% para 35%. Para pessoas jurídicas, a proposta é reduzir significativamente a alíquota de 35% para 20%.

A proposta de reforma tributária de Trump foi criticada por alguns parlamentares de seu próprio partido, por favorecer empresas e famílias mais ricas, além de causar aumento significativo no déficit já elevado do governo norte-americano.

Importante destacar que apesar de possuir ampla maioria na Câmara e maioria apertada no Senado, Trump não tem conseguido grandes vitórias no Congresso desde a sua posse. O fracasso na revisão do sistema de saúde, principal agenda dos republicanos há muitos anos, deixa claro a baixa capacidade de articulação do presidente norte-americano.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Normalização acomodatícia


A reunião de dois dias do Fomc (Comitê de Política Monetária do FED – Banco Central dos Estados Unidos) encerrada nesta última quarta-feira apresentou uma chuva de novidades relevantes que ainda serão digeridas pelo mercado nos próximos dias/semanas.

A meta a ser perseguida pela FFR (Federal Funds Rate – taxa básica de juros) foi mantida para o intervalo entre 1% a 1,25%, confirmado as expectativas do mercado. Entretanto, muitos investidores ficaram confusos com a sinalização de que um novo aumento de 0,25 p.p. na meta da FFR ocorrerá ainda este ano.

Com a inflação ainda fraca, oscilando abaixo do centro da meta de 2% a ser perseguida pelo Comitê, esperava-se um tom mais cauteloso por parte da autoridade monetária com o processo de aperto monetário. O impacto inicial desta primeira sinalização, portanto, pode ser considerado hawkish.

Mas ao analisarmos o famoso gráfico de pontos do FED (mostra as projeções para a FFR de cada membro do Comitê), o movimento é significativamente dovish, acentuando-se frente às últimas projeções divulgadas no trimestre passado. A mediana das projeções para a FFR se manteve em 1,4% para 2017 e 2,1% para 2018. Para 2019, a expectativa para a FFR caiu de 2,9% para 2,7%.


A revisão descendente na projeção para a FFR de 2019 é considerada agressiva, pois se distancia do patamar de 3% considerado como taxa neutra e, até então, objetivo de longo prazo a ser alcançado pela política monetária. Agora, mesmo considerando um cenário de longer run (2021 em diante) a expectativa mediana é que a taxa básica de juros alcance apenas 2,8% ao ano.

Essa pode ser uma importante cartada do FED para manter a calmaria no mercado quando começar a reduzir seu balanço insustentável. Por incrível que pareça, não é um movimento forçado da autoridade monetária norte-americana. É uma nova brecha que está sendo usada. O viés dovish nas projeções para a FFR estão respaldados pela expectativa de manutenção do crescimento em ritmo de 2% nos próximos 3 anos, taxa de desemprego ao redor de 4,2% e taxa de inflação ancorada na meta de 2%, sem ameaça de rompimento ascendente.

A inflação, mais uma vez, continua sendo o grande destaque ou, como disse a própria chair do FED, Janet Yellen, um mistério. A projeção para o núcleo de inflação (media preferida do FED) caiu de 1,7% para 1,5% em 2017 e de 2,0% para 1,9% em 2018. Já a expectativa para a inflação oficial se manteve em 1,6% em 2017 e caiu de 2,0% para 1,9% em 2018.

O esperado aumento da inflação com a recuperação econômica e aquecimento do mercado de trabalho não veio e parece que não virá tão cedo. Nem mesmo o longer run para a inflação oficial aponta risco de rompimento do centro da meta. Neste quadro macro desenhado pelo FED, o espaço para subir os juros fica realmente cada vez menor. Mesmo com a economia operando em pleno emprego há um bom tempo, a inflação segue surpreendentemente fraca, forçando a taxa neutra para um patamar-alvo futuro cada vez menor.

Este fenômeno não ocorre somente nos Estados Unidos, mas em outras economias (tanto desenvolvidas, quanto emergentes), intrigando uma gama cada vez maior de economistas e membros votantes de política monetária dos bancos centrais. Se por um lado ninguém sabe a resposta do mistério da inflação baixa, muito menos há clareza sobre o que fazer com tanta liquidez injetada nos mercados desde o crash do subprime em 2008.

É como juntar o útil ao agradável. Já que a inflação não sobe, qual a pressa para tirar os cerca de 14 trilhões de dólares (considerando somatória de todos os bancos centrais) injetados no sistema financeiro global? Ou mesmo, porque desalavancar o sistema, se o modus operandi não apresenta risco? Essa é a mensagem do FED embutida nas entrelinhas do comunicado ao mercado e posterior entrevista coletiva de Janet Yellen.

A normalização do balanço da autoridade monetária norte-americana vai, enfim, começar no próximo mês. Mas o processo será apenas um teatro e não necessariamente causará desalavancagem minimamente substancial do sistema financeiro.

Os números são insignificantes. A partir de outubro deste ano, o FED deixará de reinvestir 10 bilhões de dólares por mês dos títulos que forem vencendo em sua carteira. O limite de não reinvestimento aumentará em 10 bilhões de dólares a cada três meses, até alcançar o teto de 50 bilhões de dólares por mês.

Considerando o atual balanço da autoridade monetária norte-americana, a desalavancagem estimada está muito longe de sinalizar qualquer aproximação com os níveis registrados no passado. Talvez isso nem vá acontecer, pois o FED não quer apontar o volume-alvo a ser perseguido em seu balanço.

No gráfico abaixo podemos notar a velocidade de crescimento do balanço do FED, de pouco menos de 1 trilhão de dólares em 2008 para os atuais 4,5 trilhões de dólares. Deixar de reinvestir alguns bilhões de dólares por mês não vai fazer esse gráfico mergulhar rumo à mínima histórica, nem perto disso. Já se especula no mercado que ao final deste longo processo de desalavancagem teatral, o FED ainda continue com uma carteira de cerca de 3 trilhões de dólares em títulos hipotecários e do Tesouro.
  

Com o cenário macro favorável (crescimento moderado, pleno emprego e inflação muito baixa) é muito conveniente ao FED buscar risco numa desalavancagem acomodatícia. Ou seja, o não reinvestimento a conta gotas vai permitir que o sistema continue operando com liquidez elevada, ainda muito acima dos níveis adequados/normais da década passada.