segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Janela aberta para o FED defender sua moeda


Janet Yellen, presidente do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), assistiu de camarote o encontro anual de banqueiros centrais mundiais realizado no mês passado em Jackson Hole. A estratégia, naquele momento, era pressionar Mario Draghi, presidente do BCE (Banco Central Europeu), a sair da acomodação excessivamente dovish de seu programa de compras mensais.

O FED estava literalmente incomodado em antecipar qualquer novidade relacionada ao seu programa de normalização monetária, já que o BCE estava se locomovendo em rota agressivamente dovish, impactando fluxos financeiros e preços dos ativos, principalmente no mercado de bonds e de moedas.

Agora, esse incômodo não existe mais. O BCE já sinalizou que vai encarar o mercado em sua próxima reunião de Comitê e anunciar o cronograma para redução do volume de compras mensais de ativos. Quase que imediatamente, o BoE (Bank of England) passou a mostrar possibilidade de aumento da taxa básica de juros nos próximos meses.

A pausa no viés extremamente dovish das duas principais autoridades monetárias na Europa criou uma janela de oportunidade para o FED deixar de ser tão cauteloso quanto nos bimestres anteriores e voltar a engrossar sua voz no mercado.

Para se livrar da exagerada fantasia dovish, o FED precisa apenas anunciar os detalhes do seu plano de desalavancagem financeira. Por mais que a desalavancagem desta fase inicial comece num volume muito pequeno (inexpressivo) e num ritmo muito gradual, o simples fato de dar o pontapé, com o comunicado adequado, será um importante driver para acertar os preços dos ativos esticados demais no curto prazo.

O dólar contra cesta de moedas globais é o grande alvo a ser perseguido. A significativa derrocada da moeda norte-americana neste ano criou efeito cascata de busca por oportunidades em ativos de risco em várias praças financeiras mundiais. O capital tem circulado em plena euforia nos mercados globais, retroalimentando o clima extremamente otimista.

O FED, obviamente, não está preocupado com o elástico esticado (ao menos no curto prazo) em alguns ativos de praças financeiras de economias desenvolvidas e emergentes. A preocupação é com o nível baixo da moeda norte-americana e seus impactos sobre a inflação, confiança e trajetória de crescimento.

O ponto técnico da moeda norte-americana também é propício para aumentar a eficácia de uma possível atuação de defesa do FED. O dólar contra cesta de principais moedas globais acaba de perder a principal sustentação de médio prazo, localizada no ponto de apoio de 2015 e 2016, na mesma região da média móvel simples de 200 períodos semanal.


Um comunicado mais firme, diferente do tom extremamente dovish das últimas reuniões, poderia jorrar um pouco de receio ou medo no mercado de capitais, influenciando investidores, atualmente muito expostos aos ativos de risco, a procurarem proteção no dólar, inflando, portanto, a força compradora na moeda.

Na hipótese de ressurgimento de predominância da força compradora no dólar, um bear trap seria fatalmente armado, forçando investidores vendidos na moeda a desmontarem suas posições, o que só alimenta a força do potencial de upside.

Além disso, os rendimentos das Treasurys respaldam o espaço para a estratégia de defesa da moeda. O título do tesouro norte-americano com vencimento em 10 anos está pagando 2,23%, relativamente próximo da mínima de 2017 e muito distante do objetivo de longo prazo/taxa neutra para a Fed Funds Rate (hoje estimado em 3% ao ano). O rendimento, portanto, mostra excesso de expectativa do mercado com uma rota muito dovish que o FED não tem condições de perseguir nos próximos anos.


Até o presente momento, não somente os investidores e players no mercado de capitais, como os demais banqueiros centrais de países emergentes ou em desenvolvimento estão surfando a onda dovish do FED, BCE e BoE.

O Bank of Russia, por exemplo, assim como o Bacen, aproveita o bom momento para cortar ao máximo sua taxa básica de juros. Na semana passada, a autoridade monetária da Rússia cortou a taxa de juros de 9% para 8,5% e adiantou que esse movimento poderá se repetir durante os próximos dois trimestres.

Com o dólar até então vendido no mundo inteiro, as moedas locais, consequentemente, estão mais fortes. Esse quadro tem se sido altamente benigno para inflação, favorecendo recuo dos índices oficiais em vários países.

Para a infelicidade de banqueiros centrais (como o brasileiro) que surfam esse bom momento externo, a manutenção desse quadro benigno no câmbio ao longo dos próximos trimestres (ou do próximo ano) está cada vez mais difícil. Caso o instinto do FED se confirme, a defesa do dólar poderá influenciar efeito cascata em mudanças de estratégias de política monetária nos próximos trimestres.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Buy, buy, buy!


Na corrida para descontar o atraso dos últimos anos, o Índice Bovespa segue trabalhando dentro de uma forte tendência principal de alta, iniciada aos 37,5k em janeiro de 2016. Nesta histórica segunda-feira, o antigo topo histórico, formado em 2008, foi enfim superado.

O rompimento da máxima histórica no Brasil em nada surpreende dentro de um contexto mais amplo, a nível global. Na verdade, nós estávamos (e ainda estamos) atrasados. O mercado brasileiro estava em dívida de upside, tanto na comparação com as praças desenvolvidas, quanto na comparação com as praças emergentes.

A recente melhora do cenário doméstico foi cantada aos quatro cantos do país como grande válvula de impulso para nossa superação da máxima histórica. O diagnóstico presente na mídia não parece o mais correto, até porque os fundamentos permanecem deteriorados. Esse descompasso, por sinal, é característica muito comum detectada em nascimentos de ciclos de bull market.

O mais recente driver responsável por empurrar preços de ativos para cima vem, mais uma vez, de um importante banqueiro central. Seguindo o tom de cautela adotado pelo FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) nos últimos meses, o BCE (Banco Central Europeu) surpreendeu em sua última reunião de política monetária ao não detalhar um plano para a necessária redução de compras de ativos mensais.

Apesar de estar se preparando para reduzir seu programa de estímulos monetários, o BCE está mais preocupado, no momento, em acalmar os investidores, assim como tem feito o FED desde a era Bernanke. Ardo Hansson, membro do Conselho do BCE, reafirmou nesta segunda-feira que a estratégia da autoridade monetária é conscientizar o mercado de que o processo de normalização será muito gradual.

Uma decisão será tomada somente no próximo encontro de outubro, mas ela não será nada traumática. Muito pelo contrário, o processo de redução do volume mensal de compras será tão pequeno e demorado a ponto de não causar efeito prático no mercado.

Na verdade, poucos no mercado entendem que o processo já se iniciou. Em dezembro de 2016 o BCE decidiu agendar um corte 20 bilhões no seu volume de compras mensais a partir do mês de abril de 2017. Até então BCE continuou comprando 80 bilhões de euros no mercado. A partir do mês e abril, o BCE passou a comprar 60 bilhões de euros. O GAP de 3 meses criado entre a data de anúncio de corte e a data da efetivação foi suficiente para fazer os investidores se esquecerem ou deixarem de se preocupar com a redução no volume de compras mensal.

20 bilhões de euros a mais ou a menos não altera em absolutamente nada o atual quadro de excesso de liquidez no sistema. O BCE poderia até mesmo interromper integralmente a partir do próximo dia útil seu programa de compras mensais, atualmente em 60 bilhões de euros, que ainda assim não iria causar impacto do ponto de vista da liquidez no sistema.

Considerando apenas o atual programa de estímulo do BCE, foram mais de 2 trilhões de euros injetados no sistema através de compras de ativos. Reflexo do transbordamento de liquidez pode ser notado pela a emissão de eurobônus pelo Tajiquistão ou mesmo na nivelação dos prêmios dos títulos de alto risco denominados em euros com as super seguras Treasurys norte-americanas (isso nunca aconteceu antes).

Analistas do Bank of America Merrill Lynch calculam que os bancos centrais inundaram os mercados com mais de 14 trilhões de dólares em diversos programas de estímulos implementados em vários países desde o estouro da crise do subprime. É como se uma China fosse transformada em dinheiro e injetada no mercado.

A tática do BCE parece ser justamente a de reforçar o status de excesso de liquidez no sistema financeiro. Assim, aos poucos, conseguem convencer os investidores de que mesmo com uma redução gradual no volume de compras mensais, a política monetária permanecerá muito expansionista. Até porque, o capital que já foi injetado não será retirado do sistema tão cedo.

O tom mais dovish do BCE realinhou sua postura com o excesso de cautela do FED, juntamente com o BoE (Bank of England) e BoJ (Bank of Japan). Os mercados no mundo inteiro responderam com intensificação de ralis. As praças europeias, que até então operavam vendidas, descoladas do mundo, voltaram a trabalhar na ponta comprada.

O quadro é de euforia generalizada. S&P500 voltou para máxima histórica em uma forte arrancada, Nikkei mal realizou e já se sustentou no primeiro ponto de suporte (média móvel simples de 200 períodos diária), Bombay (Índia) voltou para máxima do mês, trabalhando reaproximação com a máxima histórica, os russos estão subindo sem parar, atropelando níveis de sobrecompra e o mercado turco opera praticamente na vertical, um foguete sobrecomprado desde o mês de abril.

São vários os casos de ralis impressionantes mundo afora. São vários os casos de sobrepreço em descompasso com os fundamentos domésticos. São vários os casos de bolhas em formação. Não é pra menos, boa parte dos 14 trilhões de dólares injetados pelos bancos centrais estão "passeando" no mercado de capitais.

A superação da máxima histórica no Índice Bovespa parece, portanto, apenas um reflexo tardio dos impactos dos programas de relaxamento quantitativo. Estamos acumulando um excelente desempenho desde janeiro de 2016, mas ainda pode ser pouco comparado ao nível de euforia global.


Superamos a primeira barreira na LTB do canal de baixa (círculo 1) e, agora, atropelamos a última resistência técnica do índice (círculo 2), ratificando, mais uma vez, o status de mercado bullish.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Bye bye juro real


A Selic mal se aproximou da mínima histórica atingida forçadamente em 7,25% durante o governo Dilma, em 2013, e o mercado já prepara o champanhe não só para celebrar o retorno da taxa básica de juros ao piso histórico, como também o rompimento da mínima.

Na reunião de dois dias encerrada nesta quarta-feira, na qual o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) decidiu cortar a taxa Selic em 1 ponto percentual, para 8,25% ao ano, a rota ficou mais clara para uma renovação da mínima histórica na taxa básica de juros.

No comunicado divulgado na noite desta quarta-feira, o Comitê deixou claro que a atual conjuntura econômica reforça expectativa de taxa básica de juros abaixo da taxa estrutural. A taxa de juros neutra (ou estrutural, como se refere o Banco Central), é aquela que permite o crescimento econômico sustentável sem provocar pressão inflacionária ou mesmo desinflacionaria. Ou seja, é o nível de juros que matem o crescimento equilibrado, com a inflação ancorada na meta.

Apesar de não ser possível identificar com clareza o atual patamar de juros neutro no Brasil (necessário teste real para confirmar os cálculos), estima-se que esse ponto esteja oscilando entre 6% a 7%. Considerando uma estimativa pessimista para a taxa de juros neutra em 7%, está praticamente sacramentado o rompimento da mínima histórica da taxa Selic no médio prazo.

Por quê? O Banco Central ressaltou em seu comunicado que a conjuntura econômica prescreve política monetária estimulativa, ou seja, taxa de juros (Selic) abaixo da taxa estrutural. Além disso, a autoridade monetária vê como adequada, para as próximas reuniões, uma redução moderada na magnitude de flexibilização monetária, antevendo encerramento gradual do ciclo.

Atenção para o uso das expressões “moderada” e “gradual”, palavras-chave de orientação dovish de política monetária adotadas por banqueiros centrais do mundo inteiro. Na primeira parte, a expressão moderada revela intenção de redução do atual ritmo de flexibilização de 1 p.p. para 0,75 p.p. no próximo encontro a ser realizado nos dias 24 e 25 de outubro e possível nova redução de 0,75 p.p. para 0,50 p.p. no encontro dos dias 5 e 6 de dezembro. A Selic, portanto, fecharia 2017 aos 7,00%.

Na segunda parte, o Banco Central usa o gradualismo para antever o encerramento do atual ciclo de cortes da taxa Selic, ou seja, apesar de ser possível enxergar o fim da linha, ainda não estamos perto de alcançá-la. Essa passagem do comunicado transmite a ideia de pelo menos mais uma nova rodada de corte no início de 2018, o que jogaria a taxa Selic abaixo do então patamar de juro neutro.

Em outras palavras, o cenário traçado pelo comunicado do Copom divulgado nesta quarta-feira cria expectativa de uma taxa básica de juros entre 6,50%/6,75% ao ano já no início de 2018. Considerando a expectativa de inflação suavizada nos próximos 12 meses do Boletim Focus (4,19%), a taxa de juro real no Brasil tende a oscilar em torno de míseros 2,50% baixo no próximo ano.

Para a economia, a queda do juro nominal e do juro real será positiva para impulsionar a retomada do crescimento. Por outro lado, para os investidores conservadores brasileiros, mal acostumados com o longo período de juros elevados, o novo panorama será uma tremenda dor de cabeça.

Empurrados pelo Banco Central, muitos investidores deverão abandonar posições em pós-fixados para buscar ativos de risco no mercado de capitais, ou mesmo na economia real. Quando a taxa Selic caiu para mínima em 7,25% na gestão anterior, muitos seguraram posições em função da nítida insustentabilidade do movimento. O tombo no passado foi forçado, o mercado estava mal humorado e as expectativas de inflação estavam altas.

Desta vez o quadro é diferente. Não há expectativa de inflação acima do centro da meta (pelo contrário), o que sustenta a política de afrouxamento monetário. O câmbio está comportado e não há represamento de preços administrados. É praticamente um outro mundo do ponto de vista exclusivo da política monetária.

O tombo da Selic é sustentado sobretudo pelo clima extremamente positivo no mercado de capitais a nível global, que tem feito investidores e gestores de fundos devorarem ativos de risco nas praças emergentes. O prêmio da LTN, que encostou nos 17% no final de 2015, afunda cada vez mais no terreno de 1 dígito. Hoje, o título mais curto, com vencimento em 2020, está pagando 8,35% ao ano.

O contrato de juros futuros com vencimento em 2019 está pagando 7,62%, apresentando um prêmio relativamente pequeno frente a expectativa para a taxa Selic no curto/médio prazo. O contrato de 2019 conseguiu romper, inclusive, o piso registrado em 2013 quando a Selic caiu para os 7,25%, revelando o quão está otimista o mercado.


Nas pontas mais longas, as mínimas de 2013 já estão sendo alcançadas. O contrato de juros futuros com vencimento em 2022 está pagando 9,35%, pouco acima dos 9,16% registrados em 2013.


Mesmo diante do gravíssimo quadro fiscal (o que coloca em dúvida a estabilidade de juro real muito baixo no Brasil em longo prazo) os investidores continuam eufóricos na ponta longa dos juros futuros. O risco dos contratos longos pode ser considerado elevado em relação ao prêmio praticado hoje, mas o foco do fluxo parece estar no ganho de curto/médio prazo a favor da tendência e não no carregamento da posição.

Na bolsa de valores o clima de otimismo prevalece sobre os negócios, retardando cada vez mais um necessário movimento natural de realização de lucros. A estrela cadente de terça-feira, seguida por o marubozu desta quarta-feira, colada na bollinger superior, em sobrecompra elevada, numa pernada consolidada, sinaliza excesso de euforia a curtíssimo prazo, esticando preços de forma atípica.
  

Apesar do risco de realizações naturais no curtíssimo prazo, o mercado segue dentro de um ciclo bullish identificado há cerca de um ano e meio atrás.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Recessão acaba, mas falta empolgação


A pequena alta de 0,2% do PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil no segundo trimestre deste ano, comparado com o crescimento de 1% registrado no primeiro trimestre, confirmou o fim de uma longa e dolorosa recessão.

Esta é a primeira sequência de dois trimestres seguidos de alta no PIB desde o início de 2014. O resultado positivo deste segundo trimestre foi puxado pelo desempenho do setor de serviços (alta de 0,6%) e pelo consumo das famílias (avanço de 1,6%), que acabou sendo o grande destaque dos números divulgados hoje pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Discute-se no mercado que a desaceleração da inflação, juntamente com a queda da taxa Selic, influenciou o crescimento do consumo das famílias brasileiras. Essa constatação pode estar distorcida pelos saques das contas inativas do FGTS. Considerando o grau de instrução financeira da população brasileira, o dinheiro extra do FGTS que entrou para os orçamentos de muitas famílias se transformou, muito possivelmente, em consumo.

Desconsiderando o potencial efeito dos saques das contas inativas do FGTS sobre o PIB, a economia brasileira voltaria registrar retração neste segundo trimestre, até porque a agropecuária ficou estável e a indústria recuou 0,5%. Além disso, o cenário econômico no acumulado dos últimos quatro trimestres ainda é negativo em 1,4%.

Tecnicamente é possível afirmar que o País saiu da recessão com dois trimestres seguidos de crescimento, mas, por enquanto, é apenas isso. Não há muito que comemorar em nossos dados de crescimento e, por conta disso, a formação bruta de capital fixo (ou taxa de investimento, essencial para retomada sustentada do crescimento) permanece ridiculamente baixa.

Na comparação com o primeiro trimestre deste ano, a formação bruta de capital fixo recuou 0,7%, registrando a quarta queda consecutiva. Isso significa que estamos investindo apenas 15,5% do PIB, número significativamente baixo até para um País desestabilizado. O ideal para economia de nosso porte é que a taxa de investimento esteja, pelo menos, ao dobro do que estamos registrando atualmente.

Infelizmente não há sinais de retomada consistente da formação bruta de capital fixo por dois motivos básicos: (i) o governo faz “ajuste fiscal” com corte de investimentos e (ii) os investidores/empresários continuam operando em modo defensivo por não estarem convencidos de uma recuperação digna do crescimento.

Está muito claro que a economia precisa de um empurrão dos investimentos para iniciar uma trajetória de crescimento sustentada. Com o clima de incerteza ainda elevado, este impulso inicial precisa partir do setor público. Mas na prática, o que tem ocorrido, é um empurrão pra baixo do governo. Como se não bastasse os cortes de investimentos, as metas de déficits fiscais insustentáveis são revisadas, ao mesmo tempo, para cima, criando um verdadeiro repelente de capital.

A incerteza política tem sido usada incorretamente como desculpa principal para justificar a queda dos investimentos. Obviamente é um fator de peso na tomada de decisão, mas perfeitamente natural e gerenciável. Todo cálculo para tomada de decisão de investidores/empresários embute a variável política em qualquer canto do planeta.

Os problemas relacionados à baixa taxa de investimentos no Brasil são basicamente estruturais, ainda não devidamente atacados pelo governo. Neste quadro, pode-se esperar manutenção de uma retomada tímida do crescimento nos próximos trimestres, mas longe do ritmo esperado de um país classificado como emergente.

No mercado de capitais o clima permanece otimista, inflado nesta sexta-feira por uma bateria de indicadores positivos. O Índice Gerente de Compras da China subiu de 51,1 pontos em julho para 51,6 pontos em agosto, alcançando máxima dos últimos seis meses.


Os números da pesquisa na China, feita pelo Instituto Markit em parceria com o Grupo Caixin, mostraram que a expansão da atividade manufatureira foi puxada pelas encomendas para exportações (aumento no ritmo mais forte em mais de sete anos) e novos negócios (crescimento mais forte dos últimos três anos), ratificando cenário de demanda robusta interna e externa, renovando ânimos positivos dos investidores em várias praças financeiras mundiais.

Nos Estados Unidos, o Índice Gerente de Compras derrapou de 53,3 pontos em julho para 52,8 pontos em agosto, mostrando perda do ímpeto de expansão da atividade industrial. Além disso, a criação de vagas no mercado de trabalho desacelerou mais do que o esperado, de 189 mil em julho para 156 mil em agosto, ficando, portanto, abaixo da média mensal de 176 mil vagas deste ano. A taxa de desemprego subiu de 4,3% para 4,4%.

Os resultados mais fracos da atividade industrial e do mercado de trabalho corroboram para manutenção de uma política monetária mais cautelosa por parte do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), o que em outras palavras significa ciclo de aperto monetário em ritmo menos intenso do que o observado neste ano e início muito tímido (impacto quase zero) da longa fase de desalavancagem financeira.

Na zona do euro, o Índice Gerente de Compras acelerou ainda mais no mês de agosto, de 56,6 pontos para 57,4. Mesmo com o fortalecimento da moeda, a pesquisa revelou que as encomendas para exportação cresceram no ritmo mais rápido desde fevereiro de 2011. Os dados divulgados nesta sexta-feira adicionam pressão para que o BCE (Banco Central Europeu) volte a reduzir seu programa de compras de ativos já neste ano.

No Brasil, o Índice Gerente de Compras deixou de patinar na faixa de 50 pontos registrada no mês de julho para 50,9 pontos no mês de agosto, revelando leve expansão da atividade manufatureira. A pesquisa constatou melhora de demanda por produtos brasileiros, tanto no mercado interno, quanto no mercado externo, com a Argentina, em especial, ocupando destaque em novos negócios.

Por outro lado, já foi possível constatar aumento dos custos com insumos em ritmo acima da tendência, influenciados pelos aumentos dos impostos, preços de energia e combustíveis. As empresas conseguiram proteger suas margens, repassando os custos extras aos preços dos produtos finais, uma importante sinalização de possível retomada da inflação nos próximos meses. Este pode ser o primeiro indicativo de que o GAP para cortes agressivos na taxa Selic (rodadas de 0,75 p.p. a 1 p.p.) está chegando ao fim.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Ao BCE, só resta cruzar os dedos no câmbio


A épica escalada do euro frente ao dólar está causando dor de cabeça a Mario Draghi, presidente do BCE (Banco Central Europeu). A reunião de Jacksoh Hole, realizada na última semana com os principais banqueiros centrais mundiais, era a única esperança de curto prazo capaz de aliviar a intensa força compradora sobre o euro.

Contrariando as expectativas dos europeus, o encontro em Jackson Hole foi muito fraco e não sinalizou nenhuma novidade em matéria de política monetária. Janet Yellen, presidente do FED (Federal Reserve - Banco Central dos Estados Unidos), se manteve estrategicamente cautelosa. Uma sinalização de próximo passo no plano de desalavacagem do balanço da autoridade monetária norte-americana poderia reverter o jogo no mercado de câmbio.

Nada aconteceu. O FED está sendo cauteloso na política monetária justamente no momento em que o BCE precisa ser mais agressivo. Mario Draghi está sob pressão para anunciar logo o cronograma de interrupção gradual do seu programa de compras mensais de ativos na medida em que a economia da zona do euro consolida sua trajetória de recuperação.

No mercado, muitos enxergam que não há espaço para os programas de estímulos monetários continuarem até 2019 e o próximo ano deve ser marcado por reduções graduais no volume de compras mensais até o encerramento definitivo em dezembro de 2018.

Apesar da retomada do crescimento, o BCE não está conseguindo fazer a inflação acompanhar a trajetória esperada de aceleração. O índice de preços ao consumidor desacelerou em julho para 1,3% nos últimos 12 meses, ainda bem distante do centro da meta de 2% a ser perseguido.

O BCE não pode correr o risco de manter o programa de estímulos por muito mais tempo com a economia em crescimento, mas por outro lado precisa deste mesmo programa para tentar criar inflação. Enquanto isso, a discussão sobre a eficácia (baixa) do programa de compras na Europa está ganhando peso e o próprio fortalecimento do euro impede a retomada da inflação.

Não há o que fazer neste momento, pois o BCE está travado pelo quadro macroeconômico. Sem ajuda do FED e BoE (Bank of England), só resta cruzar os dedos para uma inversão técnica no câmbio.

O euro renovou máxima dos últimos dois anos contra o dólar durante o pregão desta terça-feira. Entretanto, com elevado nível de sobrecompra, os preços não se sustentaram e um início de movimento de realização de lucros pode ser observado na tarde de hoje, criando uma shooting star (estrela cadente), que pode abrir espaço para novos recuos temporários do euro nos próximos pregões.


Um natural recuo do euro contra o dólar aliviaria um pouco a situação complicada para o BCE no curto prazo, mas está longe de apresentar a solução desejada. A moeda é a sensação bullish do mercado de câmbio e seu movimento de médio e longo prazo está se fortalecendo cada vez mais, longe de apresentar uma reversão.


O gráfico mais expandido do euro contra o dólar revela importante rompimento ascendente de uma lona zona de congestão de pouco mais de dois anos, fato que impulsionou a retomada da média móvel simples de 200 períodos semanal. Mesmo com uma realização natural nas próximas semanas, o euro ainda estará com espaço livre para manter sua perna de alta principal e voltar a criar dor de cabeça para Mario Draghi.

Contra a libra esterlina, o quadro para o euro é ainda mais desafiador. A forte desvalorização da libra contra o euro desde o final de 2015 pode deixar os países europeus em desvantagem comercial com o avanço do Brexit e, ainda, mandar a importante massa de turistas britânicos para outros cantos do planeta.


O sentimento nas principais bolsas de valores na Europa segue negativo, destoado do status quo global. Frankfurt opera dentro de um forte canal de baixa, iniciando perda da média móvel simples de 200 períodos diária.
  

Paris está cedendo desde o mês de maio deste ano, também iniciando rompimento descendente da média móvel simples de 200 períodos diária. O candle desta terça-feira pode apresentar algum alívio à força compradora nos próximos dias, até porque tocou na base do canal de baixa, mas ainda sem apresentar sinalização de reversão na tendência.


O índice STOXX 600 (mais amplo), também testou a base de um canal de baixa nesta terça-feira, mas já se distancia da média móvel simples de 200 períodos diária, reforçando o clima bearish na Europa.


No Brasil, o Ibovespa permanece sobrecomprado e perigoso para a ponta compradora a curtíssimo prazo mesmo com as dificuldades de surgimento de um natural movimento de realização de lucros. Já a perna principal (de alta) segue robusta, sem ameaça de reversão.


Destaque para o anúncio de redução do prazo de liquidação das operações no mercado à vista. Com objetivo de alinhar as práticas ao mercado norte-americano, a B3 vai ajustar no primeiro semestre de 2018 a liquidação das operações no mercado à vista dos atuais D+3 para D+2, o que pode ampliar a frequência dos negócios na bolsa.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Apareceu uma faísca no fim do túnel


Uma das melhores medidas da atual gestão Temer foi anunciada nesta histórica tarde de quarta-feira. Foi lançado um amplo plano de privatização no PPI (Programa de Parcerias e Investimentos), que por sinal foi muito bem recebido pelo mercado. Na lista estão 14 aeroportos, 11 blocos de linhas de transmissão de energia elétrica, 15 terminais portuários, rodovias e empresas públicas, entre elas as conhecidas Eletrobras, Casa da Moeda e Lotex.

Esta importante agenda vai certamente melhorar a qualidade dos serviços públicos, provocar redução sustentada dos preços, melhorar a infraestrutura, acabar com cabides de emprego, incentivar a concorrência, contribuir para retomada do crescimento com novos investimentos e de bônus criará recursos extras ao extremamente deficitário caixa do governo.

A Eletrobras é a grande estrela deste pacote de privatizações. Não somente pelo seu tamanho relevante, mas pelo que representa sua fuga às garras do Estado, que resultou num longo histórico de gestão nada positivo.

A “libertação” da Eletrobras ocorrerá através da emissão de papéis da empresa sem subscrição da União, que, protanto, será diluída e perderá o controle acionário da companhia. Ainda que a modelagem não esteja clara, somente este primeiro passo do governo já foi capaz de atrair atenção de algumas empresas chinesas e gestores de fundos de investimento na Europa e Estados Unidos.

Importante destacar que o atual status quo do mercado financeiro mundial é extremamente propício para implementação de programas de concessão/privatização. Com os preços salgados dos tradicionais ativos de renda fixa e renda variável renovando máximas do ano ou mesmo máximas históricas, alguns gestores tendem a buscar oportunidades diretas na própria economia real, comprando empresas ou montando parcerias com fundos de private equity.

Complementa a quarta-feira de boas notícias a aprovação, na comissão mista, da medida provisória que cria a TLP (Taxa de Longo Prazo), que por sua vez substituirá a custosa e problemática TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo).

Se passar no Congresso (considerando o largo placar na comissão mista, as chances são boas), a nova taxa de juros para o BNDES será definida com base no IPCA mais os rendimentos da NTNB, o que tornará a taxa do banco de fomento mais próxima das taxas praticadas livremente no mercado. Desta forma, as taxas de juros para toda a sociedade tendem a ser reduzidas gradualmente. Até então, grande parte da população custeava os subsídios para concessão de crédito barato ao pequeno grupo de amigos do rei.

Além disso, a TLP será importante para aumentar a potência da política monetária. O crédito muito barato da TJLP do passado, distorcido do resto da economia, forçava o Banco Central operar com uma carga de juros (Selic) maior para conseguir alcançar efeito desejado na política monetária.

Com a eliminação do subsídio na nova taxa do BNDES, haverá menor necessidade de carga de juros, facilitando, portanto, o trabalho do Banco Central. Em outras palavras, a TLP é um peso a menos a ser suportado ao alcance da taxa de juros neutra/estrutural (taxa de juros suficiente para manter a economia em crescimento sustentável com inflação ancorada na meta), abrindo espaço para extensão do atual ciclo de flexibilização monetária.

No mercado de capitais o clima segue positivo. O dólar contra real volta a se aproximar da mínima do mês de agosto aos R$ 3,10. Os contratos de juros futuros seguem comprados, com a ponta curta já renovando mínima do mês e a ponta longa retomando aproximação. Na bolsa, o Ibovespa acionou mais um pivot de alta ao superar a principal zona de resistência localizada aos 69k.


Mercado bullish, renovando fôlego da perna intermediária de alta iniciada aos 60,5k. Há espaço técnico para teste e possível rompimento do tão sonhado topo histórico da bolsa brasileira. Entretanto, é necessário cautela no curtíssimo prazo, em função dos níveis elevados de sobrecompra.

Wall Street se mantém azeda no curtíssimo prazo, com o quadro político local pesando sobre os negócios. O movimento vendedor cria necessário alívio natural aos preços e não emite sinal de ameaça à tendência principal de alta.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Bonds de mercados emergentes entram no estágio da euforia


A curva de rendimento da Treasury (título do tesouro norte-americano) voltou a cortar para compra no mês de julho após alguns sustos na primeira metade do ano. Não foi necessário alcançar a máxima de 2016 (2,60% no título de 10 anos) para voltar atrair fluxo comprador de gestores de fundos de renda fixa.

O mercado também voltou a comprar títulos do tesouro alemão (hoje pagando 0,40% ao ano, ante máxima de 0,60% registrada pouco menos de dois meses atrás), títulos do tesouro britânico (hoje pagando 1,07%, ante 1,31% no mês de julho) e até mesmo os títulos do tesouro japonês, que voltaram para muito perto da meta de zero a ser perseguida pelo BoJ.

Entretanto, o mais recente movimento comprador de bonds de mercados desenvolvidos não está tão forte quanto o histórico dos últimos anos, até porque os investidores estão cientes da mudança de rota, em curso, de seus banqueiros centrais.

Com pouca margem de ganhos empolgantes observadas nas praças desenvolvidas, players de renda fixa estão se entupindo de títulos de renda fixa de mercados emergentes. Curvas de juros cortadas para compra nas praças emergentes não são nenhuma novidade no mercado. A virada começou entre 2013 e 2014, mas pegou força mesmo somente no início de 2016.

Pode-se afirmar, pelas características técnicas, que os últimos 20 meses de negócios com títulos de renda fixa em praças emergentes são equivalentes à euforia observada nos mercados desenvolvidos com os lançamentos dos programas de estímulos monetários. Em outras palavras, somente a partir de 2016 os mercados emergentes passaram a experimentar o devido gosto dos programas de quantitative easing.

O Vanguard Emerging Markets Government Bond (medida de desempenho dos títulos públicos de mercados emergentes) está rasgando máxima aos 20.270 pontos. A LTA intermediária de 2016 chama atenção pela sua inclinação insustentável.


A forte arrancada dos últimos 20 meses está mantendo indicadores em região de sobrecompra por um longo período de tempo, o que também revela dificuldade de o índice replicar o forte desempenho do passado recente nos próximos meses/anos. Enquanto isso, o MACD já apresenta uma grande sinalização de divergência de baixa no índice da Vanguard, sinalizando aumento dos riscos para abertura de novas posições compradas.

O conhecido ETF de bonds de mercados emergentes do JP Morgan corrobora com a mesma sinalização técnica emitida pelo índice da Vanguard. Ou seja, o diagnóstico se mantém mesmo no caso de índices com metodologia um pouco diferente.


A euforia não está restrita aos títulos soberanos. Os títulos de renda fixa corporativos de mercados emergentes estão apresentando desempenho atípico. O iShares Emerging Markets Corporate Bond trabalha dentro de um forte upside, renovando máxima seguida de máxima, acumulando longo período de sobrecompra e, também, já apresentando divergência de baixa.
  

O apetite por títulos de renda fixa de praças emergentes é tão grande que até mesmo o mercado de high yield (onde o risco é ainda mais elevado) entrou para a festa. Um triângulo ascendente foi estourado para cima em 2016, atraindo intensa força compradora.


O ETF de Bonds High Yield de mercados emergentes acumula cerca de 30% de valorização desde 2016, mas também acumula longo período de sobrecompra, juntamente com sinalização de divergência de baixa no MACD.

Inegavelmente os títulos de renda fixa de mercados emergentes estão em euforia, surfando, somente recentemente, a potência dos programas de quantitative easing dos principais bancos centrais mundiais.

Ainda não há sinalização de reversão neste forte movimento comprador e os investidores com posições abertas seguem com confortáveis margens de gordura para administrarem ganhos de posições. Entretanto, considerando a situação técnica e o descasamento macro-fiscal de algumas praças, o elástico está esticado na compra.

Tal como nos mercados de ações de praças emergentes, os bonds destas referidas praças seguem comprados, mas agora com riscos elevados demais para abertura de novas posições longas. A onda pode estar na espuma, exigindo estratégias mais focadas em curto/médio prazo aos que ainda querem entrar.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Superávit primário some do mapa


A “brilhante” equipe econômica do governo Michel Temer anunciou nesta terça-feira revisão da meta fiscal a ser perseguida em 2017, 2018, 2019 e 2020. A meta de déficit para 2017 foi alterada de 139 bilhões de reais para 159 bilhões. A meta de déficit para 2018, ano eleitoral, foi alterada de 129 bilhões de reais para, também, folgados 159 bilhões de reais.

O velho discurso adotado para defender um rombo fiscal significativo (metas realistas) caiu por terra sem causar muito alarde no mercado.  Se no passado a elite financeira, econômica e empresarial brasileira criticava o governo por alterar no meio do percurso sua então meta de superávit primário para déficit primário, agora esses mesmos grupos parecem simplesmente aceitar confortavelmente o governo alterar no meio do percurso sua então meta de déficit primário significativamente elevada para uma nova meta de déficit primário ainda maior.

O mercado está tão receptivo a qualquer coisa que venha do governo, que nem parece prestar atenção às falas de Henrique Meirelles, ministro da Fazenda, e Dyogo Oliveira, ministro do Planejamento. Além das velhas e conhecidas desculpas esfarrapadas para justificar rombos fiscais tão elevados, o governo está culpando, agora, até mesmo a inflação baixa para uma arrecadação menor que a esperada anteriormente.

Esse fato curioso reforça a sinalização de que a equipe econômica, intitulada como ortodoxa (na teoria, claro), ainda desfruta de grande credibilidade no mercado. Os números catastróficos pouco importam nesse momento. Até mesmo a agência de classificação de risco S&P (Standard & Poor’s) deu seu voto de confiança para o novo rombo fiscal na noite desta terça-feira ao retirar o status de credit watch negativo para o rating brasileiro.

Ao retirar o credit watch, a S&P deixa de observar o Brasil para um possível rebaixamento dentro do período de 90 dias. O credit watch havia sido acionado pela S&P no dia 22 de maio deste ano e a decisão (rebaixar ou não o rating soberano) foi postergada ao máximo, o que permitiu a agência encontrar alívio temporário, apesar de a perspectiva se manter negativa.

Entre outras palavras, a S&P não descarta a possibilidade de novo rebaixamento na atual nota BB do Brasil no médio prazo (até meados de 2018), até porque a dinâmica da dívida pública segue assustadora, mas a inflação baixa e a estabilização da economia aliviaram o peso para um rebaixamento neste momento.

Há nítido excesso de foco no curto prazo, o que acaba camuflando o problema que está sendo empurrado silenciosamente para o longo prazo. A meta de déficit a ser perseguida em 2019 foi alterada de 65 bilhões de reais para incompreensíveis 139 bilhões, um belo presente para o próximo governo administrar.

A meta de 2020 também foi alterada. Até então, havia esperança de fazermos superávit simbólico de 10 bilhões de reais em 2020, o que ainda assim estaria muito longe do necessário para provocar reversão da trajetória de endividamento. Agora, o pobre superávit se transformou numa projeção de déficit fiscal de 65 bilhões de reais.

Não há, sequer, expectativa de quando vamos voltar a fazer superávit primário. Sumiu do mapa. Parece óbvio que não há mínimo esforço, por parte do governo, para reduzir despesas. Na prática, o que se observa é uma política de aumento de impostos (como foi o caso do PIS/Cofins sobre os combustíveis) e busca incansável por receitas extraordinárias/milagrosas.

Outro ponto que passou despercebido na noite desta terça-feira foi o primeiro movimento de ataque às grandes fortunas no País. O governo mudou a regra de tributação dos fundos de investimentos exclusivos (tal como as novas “metas” fiscais, precisam de aprovação do Congresso). A alteração pode simplesmente matar a embrionária indústria de gestão de patrimônio no Brasil.

Os fundos de investimentos exclusivos, principal produto da prateleira de uma gestora independente de fortunas, perderão a grande vantagem tributária de recolhimento do imposto de renda somente no resgate das cotas do fundo e serão equiparados aos demais fundos abertos.

Isso significa que o cotista de um fundo de investimento exclusivo vai ter uma rentabilidade menor em decorrência do recolhimento rotineiro do imposto de renda. Meirelles afirmou que a medida é apenas uma antecipação da tributação. Na prática, o que está sendo feito é uma descarada mudança de regra para que alguns bilhões pinguem nos cofres do governo.

Não ficou claro se a mudança vai afetar fundos de venture capital e private equity, que também são classificados como fundos fechados. Caso positivo, a medida será um tremendo tiro no pé. Muitas vezes, fundos de private equity e venture capital são o único trampolim para startups se desenvolverem no Brasil.

No mercado de capitais, o índice Bovespa fechou o pregão mostrando nova sinalização de perigo às posições compradas de curto prazo. Outra shooting star apareceu após o mercado realizar contato com a principal linha de resistência localizada na região dos 69k, mostrando entrada de novas posições vendidas na praça.


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Kim recua após China ser pressionada nos bastidores


Uma força tarefa realizada pelo primeiro escalão do governo norte-americano neste último final de semana obteve rápido sucesso com suas ações nos bastidores, aliviando as tensões do mercado com a crise da Coreia do Norte.

Inicialmente, o chefe do Estado maior dos Estados Unidos, Joseph Dunford, se deslocou à Coreia do Sul para renovar as garantias de proteção ao seu aliado. Nenhuma declaração provocativa foi emitida por Dunford, que se reuniu com o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, para alinhar uma estratégia de curto prazo com atuação mais diplomática.

Seul, capital da Coreia do Sul (metrópole com mais de 10 milhões de habitantes), está a pouco mais de 30 quilômetros do paralelo 38, onde as duas Coreias se dividem. Seria, portanto, um alvo extremamente fácil não só para os mísseis de Kim Jong-un, como da própria artilharia terrestre norte-coreana.

Entretanto, o presidente da Coreia do Sul não tem demonstrado tanta preocupação com a escalada de tensão com seu vizinho do norte. Moon Jae-in disse que independentemente dos altos e baixos, a situação nuclear norte-coreana deve ser tratada de forma pacífica.

Também um alvo relativamente fácil dos norte-coreanos, o Japão segue demonstrando uma postura mais cautelosa, evitando enviar mensagens em tom provocativo à King Jong-um. O premiê japonês, Shinzo Abe, ativou e posicionou estrategicamente seu sistema de defesa antimísseis Patriot. Além disso, Abe disse que vai tentar convencer os norte-coreanos a não dispararem mísseis em direção a Guam.

Mas somente ações de Japão e Coreia do Sul não seriam o suficiente para reduzir as tensões no curto prazo. O xeque-mate diplomático partiu da China e teve efeito imediato. Robert Lighthizer, conselheiro do comércio de Donald Trump, disse que avalia a possibilidade de abrir uma investigação contra as práticas comerciais de empresas chinesas que obrigam firmas norte-americanas a abdicarem dos direitos de propriedade intelectual, o que certamente causaria abalo nas relações comerciais entre os dois países.

Em se tratando de comércio com os Estados Unidos, os chineses continuam mostrando que estão jogando na defensiva, evitando qualquer tipo de atrito. Os indicadores econômicos do gigante asiático voltaram a mostrar sinais de cansaço nos últimos meses, revelando possível desaceleração para o terceiro trimestre. A China depende de sua balança comercial muito favorável com os Estados Unidos para administrar seu processo de transformação do modelo de crescimento.

A pressão funcionou. Nesta segunda-feira, o Ministério do Comércio da China emitiu uma proibição contra diversas importações da Coreia do Norte (incluindo carvão, minério de ferro, chumbo e frutos do mar), que entra em vigor a partir de amanhã. A ação da China está em linha com as sanções da ONU anunciadas este mês, mas o timing de implementação surpreendeu, já que os países tem um prazo de até 30 dias para cumprirem à resolução.

Xi Jinping, presidente da China, provavelmente foi mais além, aplicando uma espécie de “sossega-leão” em Kim Jong-un. A Coreia do Norte recuou inesperadamente nesta segunda-feira ao afirmar que vai observar as ações dos Estados Unidos por mais um tempo antes de tomar uma decisão sobre o plano de atacar a área em torno de Guam.

Wall Street reagiu positivamente. O índice S&P500 subiu forte nesta segunda-feira, recuperando toda a perda sofrida com o tombo da última quinta-feira, já realizando teste sobre a linha central de bollinger.


A bolsa de Seul trabalhou formação de fundo na região dos 2.310 pontos, abrindo espaço para recuperação ascendente dos preços, contribuindo assim para o fortalecimento da atual perna principal de alta.


No Japão, Nikkei fechou o pregão desta segunda-feira com um doji totalmente fora da bollinger inferior, retirando o peso da recente perda da linha de suporte de uma zona de congestão de curto prazo.


No Brasil, o índice Bovespa voltou a subir forte, já se aproximando novamente da principal faixa de resistência localizada na região dos 69k. O rápido retorno da força compradora compromete posições vendidas ainda em aberto, fragilizando a referida zona de resistência. Mercado segue impulsionado pelo cenário externo favorável, desconectado do quadro macro local.
 

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Trump carimba shooting star em Wall Street


Um relevante sinal técnico de alerta às posições compradas de curto prazo em Wall Street foi emitido na tarde desta terça-feira, com grande ajuda do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Mantendo o ritmo da forte perna de alta de curto prazo, os índices de ações iniciaram o dia renovando mais uma vez novas máximas históricas, quase que desafiando a “lei da gravidade” no mercado de capitais.

Tudo parecia indicar para mais um dia de festa aos touros de Wall Street até aparecer Donald Trump com mais um de seus discursos polêmicos. O presidente dos Estados Unidos disse na tarde desta terça-feira que é melhor a Coreia do Norte não fazer mais ameaças ao seu país, caso contrário será atingida por fogo e fúria como nunca viu.

A declaração de Trump surgiu pouco depois de o Ministério da Defesa do Japão ter emitido alerta de avanço considerável no programa de armas nucleares norte-coreano, já alcançando possivelmente ogivas nucleares.

O Conselho de Segurança da ONU impôs novas sanções à Coreia do Norte neste último sábado devido aos contínuos testes de mísseis. O presidente norte-coreano, Kim Jong-un, disse que as sanções infringem a soberania de seu país e que está pronto para dar aos Estados Unidos uma severa lição com sua força nuclear em resposta a qualquer ação militar/hostil norte-americana.

Na semana passada Trump havia advertido que estava preparado para usar força caso seja necessário para impedir os avanços dos programas de mísseis da Coreia do Norte, mas que preferia uma ação mais diplomática, com as sanções.

O discurso desta terça-feira é uma provocação em tom mais forte por parte de Donald Trump, o que abre espaço para retaliação de Kim Jong-un também em tom mais alto, como já ocorreu em outras ocasiões.

Apesar de ser inviável uma guerra entre os dois países, o mercado não tem demonstrado devida preocupação frente ao perigoso jogo de poker entre os dois líderes. Além do mais, existe um temor de que a estratégia de Trump com a Coreia do Norte possa acirrar ainda mais os nítidos atritos criados com China e Rússia recentemente, afetando as relações comerciais entre as principais economias do planeta.

Sob esse receio, Wall Street virou a mão muito rapidamente na tarde desta terça-feira, devolvendo os ganhos relevantes acumulados durante o pregão. Por conta desse movimento, os principais índices de ações norte-americanos emitiram candle do tipo shooting star (ou estrela cadente), em zona de sobrecompra e tendências maturadas, o que reforça uma sinalização de reversão à vista.

O S&P500 está com suas bandas de bollinger fechadas, num possível prenúncio de nascimento de uma perna de baixa. A principal reta de suporte está localizada na faixa dos 2,400 pontos, relativamente distante dos preços atuais.


A situação do Dow Jones chega a ser mais dramática. Shooting star colada na bollinger superior, em nível de sobrecompra atipicamente elevado, surgindo após uma também atípica sequência de 10 pregões consecutivos de alta, em todos eles renovando máxima histórica. A principal reta de suporte de curto prazo também está relativamente distante, localizada na região dos 21.200 pontos.
  


As condições técnicas para os preços iniciarem trajetória de correção em Wall Street são consideradas fortes. Ainda assim, um hipotético mercado vendedor nas próximas semanas está longe de causar ameaça à tendência principal de alta, em função da grande gordura apresentada pelos índices acionários para correção saudável.

No Brasil, o Ibovespa replicou a shooting star de Wall Street. Candle de pavio longo relevante, em perna de alta relativamente maturada, fora da bollinger superior, em zona de sobrecompra elevada, bem abaixo do principal ponto de resistência de curto prazo localizado aos 69k. Mercado tende a ficar pesado para venda no curto prazo, mas ainda sem apresentar sinal de ameaça à tendência principal de alta.


Na agenda local, destaque para o fortalecimento da possibilidade de mais uma mudança na meta fiscal (sendo que o atual déficit de 139 bilhões de reais para 2017 já é considerado absurdamente elevado), além da proposta em estudo para criação de uma alíquota de 30% ou 35% de Imposto de Renda para quem ganha mais de 20 mil reais por mês e da tributação de lucros e dividendos.

Porém, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, foi enfaticamente contra a proposta em estudo do governo, indo contra a sinalização emitida mais cedo por Michel Temer e integrantes da equipe econômica. No início da noite, Michel Temer retrocedeu na criação do imposto. Rodrigo Maia falou mais alto e tem conquistado cada vez mais a simpatia do mercado.

De uma forma ou de outra (direta ou indiretamente) está claro que existe mais um novo buraco a ser tapado dentro da cratera fiscal. Não somente na meta de 2017, mas também na de 2018. Como o governo se recusa cortar certos privilégios, nós vamos pagar mais essa conta, como de costume.

A justificava a ser apresentada, também como de costume, para possível revisão de um rombo maior no quadro fiscal é a famosa frustração de receita. Na visão do governo, a culpa não é da gastança, mas sim de receitas que deveriam entrar no caixa, mas que por algum motivo não estão entrando.

A não ser que ocorra um milagre de o Brasil voltar a crescer em ritmo de economia emergente (ou seja, ao menos 4% ao ano) a curto/médio prazo, o próximo presidente terá de administrar uma bomba fiscal.

Para complicar, conforme estudo do FMI (Fundo Monetário Internacional), o crescimento per capita da América Latina será de apenas 1,6% no médio prazo, empurrada pela âncora brasileira. Para feito de comparação, essa é a mesma taxa registrada nos últimos 25 anos para a região e, ainda, bem inferior ao crescimento de 2,6% per capita estimado para os países em desenvolvimento de forma geral.

Como bem disse recentemente Alberto Ramos, economista-chefe do Goldman Sachs para a América Latina. “Nós não investimos o suficiente, não poupamos o suficiente, não comercializamos o suficiente, não educamos o suficiente. O que você esperava? Não vamos crescer o suficiente."