quinta-feira, 20 de abril de 2017

Série de recuos na reforma da previdência deixa o mercado desorientado


O presidente do Brasil, Michel Temer, afirmou nesta quinta-feira que a economia com a reforma da previdência deve ficar abaixo de 600 bilhões após as concessões realizadas até o momento frente ao projeto original do governo. Inicialmente, a expectativa com a reforma da previdência era de criar uma economia de 800 bilhões em 10 anos.

Pouco depois, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, disse que se a reforma da previdência for aprovada no modelo atual a economia será equivalente a 76% do previsto com a proposta original. Entretanto, o próprio ministro admitiu que o número pode variar um pouco.

A suspeita é de que o governo esteja se aproveitando do alto grau de imprecisão da equação para estimar um número otimista demais. Além disso, por contar com certo nível de tolerância do mercado, o governo se aproveita para traçar um panorama irrealista, tal como ocorreu na expectativa com processo de recuperação da economia, rombos significativamente mais elevados no orçamento, etc.

No mercado, as projeções de economia com a reforma da previdência estão longe de um consenso, o que revela, também, desorientação frente aos inúmeros recuos ocorridos até o momento. As estimativas variam de uma economia de 50% a 60% do inicialmente previsto na proposta original, sinalizando um elevado grau de flexibilização da reforma da previdência.

Ao contrário da propaganda, alguns economistas consideram que o governo recuou sim em alguns pilares importantes da reforma, o que tem provocado essas estimativas de reduções consideráveis. Entre as mais pesadas está a redução da idade mínima para 62 anos para as mulheres, a regra de transição muito gradual e os benefícios concedidos a determinados grupos que definitivamente derrubaram por terra o discurso de uma mesma reforma para todos.

Mesmo considerando um improvável cenário de nenhum novo recuo do governo até a aprovação da reforma da previdência na Câmara e no Senado, ainda assim muito provavelmente não será possível cumprir o teto de gastos estabelecido pelo próprio governo. Isso significa que mesmo com aprovação da reforma da previdência, o fiscal continuará em rota insustentável e o próximo presidente terá de tomar uma decisão: suspender o teto dos gastos para continuar com uma política fiscal expansionista (tal como o governo atual) ou manter o teto de gastos e encarar o problema de frente enxugando a máquina.

No cenário externo, destaque para o alerta do FMI (Fundo Monetário Internacional) quanto aos riscos de aumento de volatilidade no mercado norte-americano (com consequências a nível global). Segundo a instituição, se as reformas tributárias e a desregulamentação anunciadas gerarem trajetórias de crescimento e de dívida menos favoráveis que o esperado, os prêmios de risco e a volatilidade podem disparar.

O FMI enxerga expectativa muito elevada entre investidores/operadores, refletidas obviamente nos preços dos ativos, em relação aos estímulos fiscais prometidos por Trump. Apesar das leves correções nas últimas semanas, o índice S&P500 permanece muito próximo da máxima histórica.


Na França, o mercado de ações ainda trabalha dentro de uma tendência de alta iniciada em meados de 2016, mostrando pouca volatilidade apesar da grande indecisão quanto ao primeiro turno das eleições presidenciais a ser realizada neste próximo domingo.


Com os dois últimos governos impopulares, desemprego em 10% e economia crescendo apenas 1,1% em 2016 (inferior à média européia de 1,9%), o eleitorado francês tem se aproximado cada vez mais de partidos mais radicais que denunciam os vilões da atual situação: o sistema político, a globalização, a União Europeia e os imigrantes.

Quatro candidatos tem reais chances de passar para o segundo turno a ser realizado no dia 6 de maio. A radical de direita Le Pen, o radical de esquerda Mélenchon, o centrista Macron e o ultraliberal Fillon. Além disso, mais de 1/3 dos eleitores se declaram indecisos às vésperas das eleições e a taxa de abstenção (o voto na França não é obrigatório) poderá ultrapassar os 30%, considerada muito elevada.

A eleição mais imprevisível dos últimos 50 anos na França, e que pode criar graves consequencias ao futuro da zona do euro, ainda não é encarada com temor pelo mercado. Apesar dos leves recuos nas últimas semanas, a bolsa de Frankfurt (Alemanha) segue comprada, muito próxima do topo histórico.


No Brasil, apesar da leve alta registrada nesta semana, o mercado de ações trabalha dentro de uma perna de baixa iniciada aos 69,5k no mês de fevereiro deste ano. A LTA dos 37k e a linha central de bollinger semanal estão sendo rompidas de forma ainda tímida, mas não deixa de alimentar riscos de novos recuos nas próximas semanas/meses.
 

segunda-feira, 17 de abril de 2017

China cresce acima do esperado


O Departamento Nacional de Estatísticas informou nesta segunda-feira que a economia chinesa cresceu 6,9% no primeiro trimestre de 2017 na base anual. Em relação ao quarto trimestre do ano passado, o crescimento foi de 1,3%.

Os dados surpreenderam as expectativas mais otimistas do mercado, em torno de 6,8%. Os números também mostram aceleração do crescimento em relação ao ritmo constatado no trimestre anterior e marcaram o período mais forte dos últimos seis trimestres. Além disso, o resultado ficou acima da meta de crescimento do governo para este ano, em torno de 6,5%.

Embora a China esteja empenhada em mudar sua estrutura econômica para um modelo menos dependente de investimentos e exportações e mais voltado aos serviços e consumo interno, os dados desta segunda-feira revelam que esse objetivo ainda está longe de ser alcançado.

A atividade surpreendeu neste primeiro trimestre na China por conta dos gastos elevados do setor público, o que revela, ainda, que a economia é muito dependente dos estímulos do governo, o velho e conhecido motor de crescimento de décadas passadas.

Os dados da economia chinesa animaram os pregões que andavam abatidos nas principais praças financeiras mundiais, embora a sustentabilidade do modelo de crescimento continue sendo questionada. O financiamento social na China (medida ampla de crédito e liquidez) atingiu novo recorde de 6,93 trilhões de iuanes (cerca de 1 trilhão de dólares) neste primeiro trimestre de 2017, refletindo o aumento de 21% nos gastos do governo central e locais.

Há forte suspeita quanto à qualidade do crédito na China. O governo adota um discurso de moderação em relação aos financiamentos, mas até o momento segue demonstrando incapacidade de controlar o crédito e conter os riscos da dívida.

Ainda no cenário externo, destaque para vitória de Recep Tayyip Erdogan no referendo do último domingo na Turquia. Com uma pequena margem (51,4% a favor e 48,6% contra), os eleitores turcos decidiram avançar na polêmica reforma constitucional, na qual concentra poderes do Executivo, Legislativo e Judiciário nas mãos do presidente.

Entre as principais mudanças aprovadas pelo referendo, cargo de primeiro-ministro será extinto, o papel do Congresso será diminuído e o presidente terá autoridade para tomar certas decisões judiciais e ministeriais, sem a necessidade de aprovação dos parlamentares.

É importante ressaltar que o referendo foi realizado durante um estado de emergência decretado pelo próprio Erdogran após a fracassada tentativa de golpe sofrida em meados de 2016. A oposição não reconheceu o resultado e a Organização pela Segurança e Cooperação na Europa afirmou que o referendo aconteceu em um marco legal inadequado.

Erdogran perdeu em grandes cidades como Istambul, Antalya e Adana. A maioria na capital Ancara também votou a favor do não. A margem apertada de vitória no referendo tende a manter o clima tenso não só na Turquia, mas em toda a Europa. Erdogran atacou líderes europeus em seu discurso de vitória e não quer que seu país faça parte da União Europeia.

No Brasil, o governo quer transmitir um sinal de normalidade após o bombardeio de notícias relacionadas às delações de executivos da Odebrecht. Para isso, quer manter o cronograma de votações no Congresso e, assim, tentar segurar por mais algum tempo o importante apoio que tem do mercado.

Acompanhando o movimento global, o mercado de ações brasileiro reagiu pra cima nesta segunda-feira, confirmando apoio sobre a importante linha de suporte localizada na região dos 62,5k. O alívio mantêm os preços dentro de uma congestão de curtíssimo prazo, mais ainda insuficiente para invalidar a atual tendência de baixa iniciada aos 69,5k.


Nos Estados Unidos, o índice S&P500 subiu nesta segunda-feira confirmando apoio sobre a linha de suporte localizada na faixa dos 2,3k.


quinta-feira, 13 de abril de 2017

Jogo de poker entre Trump e Kim Jong-um fica perigoso


O líder da Coréia do Norte, Kim Jong-um, parece não ter se intimidado com o deslocamento do poderoso porta-aviões norte-americano Carl Vison ao seu quintal. A prova de que seu jogo de poker com Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, está ficando perigoso foi confirmada nesta quinta-feira pelo portal 38 North (instituo americano especializado em Coréia do Norte).

Segundo o portal, imagens de satélite mostram atividades contínuas ao redor da base de lançamento de mísseis da Coreia do Norte, utilizada para fazer testes nucleares desde 2006. As imagens sugerem que o País está pronto para realizar novos testes. As mesmas atividades foram observadas em setembro do ano passado, pouco antes do quinto teste nuclear da Coréia do Norte.

Sábado próximo é o Dia do Sol no calendário do regime norte-coreano, data que celebra o aniversário de nascimento de Kim Il-sung, o primeiro da dinastia Kim e fundador da república comunista. O atual líder coreano, Kim Jong-um, gosta de utilizar as comemorações do Dia do Sol para realizar testes armamentistas e atrair atenção do mundo. Tudo indica que este ano não será diferente.

A administração Trump tem ressaltado que não irá tolerar novos testes da Coreia do Norte. A ação de hoje com o lançamento da maior bomba não nuclear do mundo no Afeganistão aumentou as tensões geopolíticas, pois foi encarada como uma nova demonstração de força ao líder coreano, após o disparo de 59 mísseis Tomahawks na Síria.

O jogo geopolítico para Trump é positivo, pois desvia as atenções de sua recente derrota no Congresso na tentativa de alterar a legislação da saúde. Trump não cumpriu a promessa de campanha contra o Obamacare, mas está sinalizando que vai cumprir sua outra promessa de acabar com o Estado Islâmico.

Desde o início deste ano, os jihadistas foram bombardeados mais de 400 vezes no Afeganistão. As forças de coalizão internacional lideradas pelos Estados Unidos já recuperaram dois terços da área antes ocupada pelo Estado Islâmico no Afeganistão. O progresso é satisfatório, mas ao detectar movimentação na base de lançamentos da Coréia do Norte, Trump possivelmente não hesitou em ordenar o lançamento da “mãe de todas as bombas”, a GBU-43, utilizada nesta quinta-feira pela força aérea dos Estados Unidos.

O exército norte-americano alega que os terroristas do Estado Islâmico tem usado cada vez mais bunkers, armadilhas e túneis para reforçarem sua defesa. Acontece que a bomba GBU-43 não é tecnicamente perfurante, logo, sua eficácia contra túneis é questionada. A GBU-43 explode pouco antes de tocar o solo e abrange uma grande área, portanto, parece ter sido um lançamento mais cinematográfico, com objetivo de intimidação, na medida em que a Coréia do Norte se prepara para celebrar o Dia do Sol.

A península coreana nunca esteve tão perto de um conflito militar desde o primeiro teste nuclear, fato que tem aumentado a tensão nas principais praças financeiras mundiais. Entretanto, um conflito parece ser inviável, já que Trump tem feito outra guinada em política externa: se afastando de Putin, presidente da Rússia, ao mesmo tempo em que se aproxima de Xi Jinping, líder chinês.

A China é a chave de solução para redução dos temores relacionados à Coréia do Norte. Um editorial do Global Times, jornal ligado ao partido comunista chinês, admitiu nesta quinta-feira que os líderes do partido não estão convencidos de que Trump vá blefar no jogo de poker com a Coreia do Norte e, por conta disso, o regime chinês estaria disposto a aumentar sua pressão contra Kim Jong-um.

Em caso de nova provocação, os chineses estariam dispostos a adotar sanções contra a Coreia do Norte, incluindo uma restrição às importações de petróleo, algo que seria inédito na história. Kim Jong-um é totalmente dependente do petróleo chinês. O endurecimento da China em relação à Coréia do Norte parece ser o primeiro sinal concreto de que Trump realmente se aproximou de Xi Jinping no encontro realizado semana passada em seu resort na Flórida.

Trump disse estar muito confiante de que a China vai lidar de forma apropriada com a Coreia do Norte e elogiou a primeira atitude já tomada no mês passado. A China suspendeu as importações de carvão norte-coreano, uma das principais fontes de rendimento do País.

Receosos com o quadro geopolítico, investidores/operadores estão desmontando posições em ativos de risco e buscando o porto seguro dos títulos da dívida soberana de países desenvolvidos.

O rendimento da Treasury de 10 anos (título do Tesouro norte-americano, referência global), está caindo ladeira abaixo. O forte movimento comprador provocou rompimento da principal zona de sustentação de curto prazo localizada aos 2,30% ao ano. Neste momento, o rendimento da Treasury é negociado aos 2,24%, com relativa distância da máxima atingida no final do ano passado aos 2,60%.


As Gilts (títulos do Tesouro Britânico) viraram fortemente para bullish. Após a taxa atingir máxima em 1,51% ao ano, uma onda compradora, acentuada recentemente, tem derrubado rapidamente os rendimentos dos títulos britânicos. Neste momento, o rendimento da Gilt de 10 anos é negociado a 1,04%.


Na Alemanha, os rendimentos dos títulos do Tesouro estão voltando a se aproximar do patamar zero. Neste momento, o prêmio do título de 10 anos é de apenas 0,18% ao ano, muito inferior à máxima registrada em 0,48% no início deste ano.


O mercado é bullish também no Japão. O rendimento do título do tesouro de 10 anos despencou de 0,11% ao ano para 0,031%, praticamente de volta ao nível zero.


Conforme esperado, a forte onda compradora que atinge os títulos da dívida soberana de países desenvolvidos é acompanhada pelo desmonte de posições em títulos da dívida soberana, ações e moedas de países emergentes.

Enquanto o mercado estava bearish na dívida soberana de praças desenvolvidas durante boa parte do ano passado, investidores/operadores correram para títulos mais arriscados em países emergentes, surfando a onda que estava favorável para carry trade. Agora, a janela para praças emergentes está fechada com o fluxo retornando às suas origens.

A bolsa de valores brasileira despencou novamente nesta quinta-feira, reforçando o status de mercado vendido. A perna de baixa iniciada aos 69,5k tende a ser fortificada com eventual rompimento da linha de suporte localizada na região dos 62.5k. As condições técnicas jogam a favor do rompimento e a bolsa pode acabar voltando para a média móvel simples de 200 períodos diária nas próximas semanas.
 

No cenário local, destaque para o vídeo divulgado pelo presidente Michel Temer, defendendo-se da acusação de que teria participado de uma reunião para acertar um pagamento milionário de propina com a Odebrecht. Temer confirmou ter participado do encontro com um executivo da Odebrecht, mas nega ter tratado de valores destinados a políticos com a empreiteira.

A delação de Marcelo Odebrecht afeta em cheio toda a aparente podridão do sistema político brasileiro, mas bate forte, especialmente, no atual governo, abrindo novamente a possibilidade de voltarmos a ter um quadro praticamente ingovernável.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Com mercado tolerante, Banco Central aumenta ritmo de cortes na taxa Selic


Na noite desta quarta-feira, o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) decidiu, por unanimidade, reduzir a taxa Selic em 1 p.p., para 11,25% ao ano. A decisão correspondeu amplamente as expectativas de mercado e o comunicado apresentado após a reunião de dois dias estabeleceu o novo ritmo de cortes da taxa básica de juros.

Os membros do Comitê continuam considerando favorável o comportamento da inflação no Brasil. A difusão do processo de desinflação conseguiu se consolidar até mesmo nos componentes mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária (o que era uma preocupação do passado).

Por conta do bom momento desinflacionário, as projeções para o IPCA apuradas pela pesquisa Focus (importante driver para decisões atuais de política monetária) seguem otimistas, em torno de 4,1% para 2017 e ao redor da meta de 4,5% em 2018. Para 2019 e horizontes mais distantes, as estimativas estão ligeiramente abaixo de 4,5%. Nesse cenário, o mercado supõe que a taxa básica de juros alcançará 8,5% ao ano no final de 2017 e se manterá nesse nível até o fim de 2018.

Estudos recentes de economistas brasileiros apontam para um juro neutro em torno de 9,0% ao ano. Para estimular a economia, portanto, o Banco Central teria que jogar a taxa básica de juros para um nível abaixo do patamar considerado neutro (natural ou de equilíbrio entre atividade e inflação). Antes disso, a autoridade monetária precisa ter certeza de que a inflação está devidamente ancorada, justamente para os preços suportarem o expansionismo da política monetária.

As projeções do mercado sinalizam que o Banco Central vai tentar buscar um nível ligeiramente abaixo do juro neutro no fim deste ano, já que a atividade econômica segue decepcionante, muito abaixo do potencial. A aceleração do ritmo de flexibilização monetária para 1 p.p. dá suporte às estimativas do mercado.

Não está descartada uma pisada ainda mais forte no acelerador rumo ao expansionismo, com aumento no ritmo de cortes de 1 p.p. para 1,25 p.p. No comunicado divulgado hoje, o Copom afirma que a intensificação moderada em relação ao ritmo das reuniões de janeiro e fevereiro (0,75 p.p.) mostra-se, no momento, adequada.

Ao utilizar a expressão “no momento”, o Banco Central não só sinaliza que as decisões futuras não estão pré-definidas em novos cortes de 1 p.p., como existe a possibilidade de acelerar novamente o ritmo de flexibilização. Essa expectativa foi reforçada pelo trecho no comunicado no qual o Copom “considera o atual ritmo adequado, entretanto, a atual conjuntura econômica recomenda monitorar a evolução dos determinantes do grau de antecipação do ciclo”.

O alvo, portanto, parece estar mais claro: buscar expansionismo com uma Selic ligeiramente abaixo do patamar neutro. Com a atividade decepcionante, a materialização desse cenário pode estar mais próxima. As projeções de juro real adequado a esse cenário oscilam entre 4% a 5,5%, onde 4% representa uma ponta mais otimista e possivelmente já em terreno expansionista.

Apesar da propensão do Banco Central a fazer um novo experimento de juro baixo no Brasil, o cenário continua turvo para o médio e longo prazo. Mesmo com uma forte retração econômica foi necessário trabalhar juro real na faixa de 7%/8% ou mais para conseguir trazer a inflação de volta ao centro da meta a ser perseguida (4,5%). Transformar 8% de juro real em 4% com inflação ancorada na meta não parece ser nada viável a uma economia com fundamentos profundamente deteriorados, resquícios de indexação e déficits fiscais insustentáveis.

Ao contrário do que se ventila no mercado, a agenda de reformas (enfraquecida) do governo Michel Temer não tem animado os empresários (investimento muito baixo) e os fundamentos macroeconômicos continuam deteriorados.

A recente valorização expressiva dos ativos de risco pode estar mostrando que o mercado via o governo Temer como uma espécie de salvador da pátria, o que está comprovadamente errado. Neste ponto, é possível admitir a existência de elevado nível de complacência do mercado com a atual gestão.

O prêmio da NTNB 2024, por exemplo, está colado na mínima dos últimos três anos. A distância dos atuais 5,16% para o elástico esticado de 4% (que representa um juro real em terreno expansionista e de alto risco) é considerada pequena e perigosa demais para traders de renda fixa surfarem a favor da curva.

Não significa que uma reversão no prêmio da NTNB 2024, ou dos demais títulos públicos, é iminente. A política monetária em busca de risco garante certa margem para manutenção da queda das taxas futuras no curto prazo. O próprio mercado, ainda comprador, também fornece condições para retroalimentar um clima positivo e, com isso, produzir estimativas cada vez mais otimistas na medida em que a curva de juros vá cedendo. A questão é que do ponto de vista técnico e macro o espaço para novas quedas até existe, mas tem ficado cada vez mais curto. E quanto mais o mercado exagerar no prêmio, maior tende a ser o choque numa futura reversão.


Na bolsa de valores o nível de tolerância observado ainda está alto, embora ligeiramente menor quando comparado aos meses anteriores. O mercado acionário iniciou uma trajetória de correção aos 69,5k. Apesar da perda de força da tendência de baixa nas últimas semanas evidenciada pela formação de uma pequena zona de congestão de curtíssimo prazo, o mercado continuará vendedor enquanto os preços se manterem abaixo dos 66k.


terça-feira, 11 de abril de 2017

Está aberta a janela para o outsider brasileiro


A rápida ascensão de outsiders é um movimento que ocorre a pleno vapor no ambiente político em vários cantos do planeta. Os motivos que levam a massa de eleitores a apoiarem figuras de outras áreas para se tornarem líderes políticos estão normalmente relacionados ao descontentamento com a velha e tradicional forma de se fazer política, onde em muitos casos a corrupção atinge proporções inimagináveis.

Na tarde desta terça-feira, o ministro Edson Fachin, relator da operação Lava Jato no STF (Supremo Tribunal Federal), autorizou a abertura de 76 inquéritos contra uma imensidade de parlamentares. São 24 senadores, 39 deputados, 3 governadores e 8 ministros.

A autorização para abertura de inquérito é baseada na conhecida lista de Janot, enviada ao STF no dia 14 de março deste ano. O procurador-geral da República enviou 83 pedidos de inquérito ao tribunal, com base nas delações dos executivos da Odebrecht.

Um dos principais destaques desta impressionante lista de Fachin está na volumosa presença de ministros do governo Michel Temer. Aliás, o próprio presidente foi citado, mas não será investigado devido à imunidade temporária, pois as acusações não dizem respeito a atos cometidos em seu mandato.

Temer havia alertado há pouco tempo que afastaria temporariamente qualquer ministro eventualmente denunciado pela PGR (Procuradoria-Geral da República). Caso se torne réu, o corte será definitivo. Especula-se no mercado que a possibilidade de boa parte dos nomes citados se tornarem réus é relevante. Neste caso, Temer teria um grande problema de gestão para substituir os ministros e encarar uma nova onda de perda de credibilidade.

Além disso, com os inquéritos abertos, a movimentação no Congresso para avanço das reformas estruturantes tende a minguar. Na tarde desta terça-feira, o quórum desapareceu na Câmara após a divulgação dos nomes dos parlamentares na imprensa. Estava prevista a votação do importante programa de ajuda aos Estados.

O segundo fato relevante constatado na lista de Fachin está na quantidade de inquéritos a serem respondidos pelo senador Aécio Neves. São três inquéritos para investigar supostos pagamentos indevidos em campanhas, outro para investigar vantagens indevidas em troca de ajuda a empreendimentos da Odebrecht e mais um inquérito para investigar suposto esquema de fraudes em processos licitatórios no período em que o senador foi governador de Minas Gerais. Totalizando, portanto, cinco inquéritos contra o tucano.

Independentemente de ser ou não inocente, fato é que os 5 inquéritos arranharão a imagem de Aécio com o andamento do processo (que é muito lento), o que poderá inviabilizar sua candidatura para as eleições de 2018 que estão logo ali. Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, também está na lista de Fachin. Luiz Inácio Lula da Silva, outro nome potencialmente forte, está praticamente fora da próxima corrida eleitoral com tantas suspeitas de corrupção.

Com tantos políticos tradicionais e nomes de peso na lista de Fachin, o terreno está propício para o crescimento de um outsider brasileiro. A princípio, o prefeito de São Paulo, João Doria, parece ter o perfil e as condições de aproveitar os ventos favoráveis do momento para crescer e construir sua imagem visando a disputa de 2018, mas o caminho é incerto, a disputa é acirrada e um deslize pode ser fatal.

No mercado de capitais, o dia amanheceu sob forte pressão vendedora influenciada pelo aumento das tensões geopolíticas. Trump havia afirmado dias atrás que iria resolver por conta própria o problema da Coréia do Norte. O aumento significativo de lançamentos de foguetes do governo Kim Jong-um tem irritado Trump e amedrontado seus aliados sul-coreanos que estão na mira da artilharia do exército norte-coreano.

Na tentativa de intimidar Kim Jong-um, Trump enviou seu porta-aviões nuclear Carl Vinson (uma verdadeira máquina de guerra flutuante com 85 jatos de combate) para a costa coreana. Até o momento, a estratégia funcionou. O líder norte-coreano não emitiu nenhuma nova declaração e os mercados acionários voltaram a subir ao longo da tarde.


No Brasil, o índice Bovespa trabalhou movimento semelhante, com recuperação das perdas sofridas nos primeiros minutos de pregão. O candle de fechamento é um martelo, mas em função da posição técnica e das circunstâncias externas, sua relevância está reduzida.


segunda-feira, 10 de abril de 2017

Há duas semanas das eleições, esquerda radical cresce na França


As eleições presidenciais da França, com o primeiro turno em 27 de abril e o segundo turno a ser realizado no dia 7 de maio, são consideradas as mais incertas da história recente. Até pouco tempo atrás, o liberal François Fillon, conhecido como Thatcher frances (devido sua admiração por Margaret Thatcher), era apontado como grande favorito.

Atualmente Fillon está em quarto lugar nas pesquisas de intenção de voto. Sua campanha foi duramente afetada por denúncias de corrupção. A disputa segue acirrada entre Marine Le Pen, candidata de extrema direita, e Emmanuel Macron, de centro esquerda (mais centro que esquerda). As pesquisas indicavam que esses dois candidatos iriam para o segundo turno com certa facilidade.

Esse cenário caiu por terra nesta semana. Novos levantamentos mostram Jean-Luc Mélenchon, candidato de extrema esquerda da frente França Insubmissa, em rápida ascensão. Somente nas últimas três semanas, o radical de esquerda subiu 6 pontos percentuais, com 18% das intenções de voto. Macron e Le Pen seguem empatados em primeiro lugar com 24%.

A arrancada de Mélenchon contrasta com o leve recuo das intenções de voto de Le Pen e Macron. Muitos franceses ainda estão indecisos para o primeiro turno e essa arrancada final da frente França Insubmissa pode ser decisiva para o partido aproveitar o momentum e alcançar o segundo turno.

As propostas de Mélenchon são preocupantes não só para os franceses, mas para toda a Europa. O candidato francês de extrema esquerda é grande admirador do bolivarianismo latino-americano e tem um programa anticapitalista chamado de revolução cidadã.

Mélenchon é um eurocético que quer tirar a França tanto da União Europeia, quanto da OTAN (Organização do Tratado do Atântico Norte). Como se não bastasse, o candidato da frente França Insubmissa manifesta apoio à intervenção militar do presidente russo, Vladimir Putin, na Síria e na Ucrânica.

Além de bagunçar a Europa economicamente e geopoliticamente, Mélenchon quer taxar em 100% todo o rendimento acima de 33 mil euros mensais, reduzir a jornada de trabalho de 35 horas para 32 horas semanais, aumentar o salário mínimo, reforçar a seguridade social e reduzir a idade de aposentadoria para 60 anos. Ele também quer acabar com a energia nuclear, hoje responsável por 75% da eletricidade nacional e re-estatizar o grupo nacional de energia EDF.

Difícil imaginar um candidato com essas propostas crescer tão rapidamente na reta final das eleições presidenciais na França, mas é o que as pesquisas têm apontado nas últimas semanas. Mélenchon já é considerado um fenômeno pela mídia local, assim como Le Pen, da extrema direita. A força desses dois candidatos revela como os extremos estão tomando conta da opinião pública na França, o que pode ser um reflexo de um fenômeno em curso mais abrangente, a nível global.

No mercado de capitais, o dia foi de relativa calmaria nas principais praças financeiras mundiais. No Brasil, o Ibovespa segue pressionado pela formação de topo duplo descendente na região dos 66k.


No mercado de câmbio local, o dólar opera movimento de congestão de curto prazo após uma perna secundária de baixa iniciada no fim do ano passado. Nessas condições de baixa volatilidade, o real tende a continuar oscilando entre R$ 3,00 a R$ 3,20.


sexta-feira, 7 de abril de 2017

Um recado em forma de 59 Tomahawks


O massacre de Ghuta, periferia de Damasco, ocorrido em 21 de agosto de 2013, lançado pelo governo sírio Bashar al-Assad, chocou toda a comunidade internacional. Mais de 1.400 pessoas morreram vítimas de gás sarin.

Em resposta, o então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, traçou sua linha vermelha na Síria, numa clara sinalização de que as forças militares norte-americanas iriam intervir no conflito.

O mundo olhava atentamente para Washington à espera de um ataque, que não ocorreu. Pouco depois de estabelecer a linha vermelha, Obama retrocedeu, submetendo sua decisão ao Congresso, eliminando qualquer possibilidade de ação militar no curto prazo.

O recuo dos Estados Unidos na Síria não só foi vergonhoso, como ofereceu condições para o crescimento do Estado Islâmico no País, além de criar brecha para milícias iranianas e forças especiais russas entrarem no conflito ao lado de Bashar al-Assad. A decisão humilhante de Obama também irritou vários aliados dos Estados Unidos na época, inclusive, seu relacionamento com François Holland, presidente da França, ficou prejudicado permanentemente.

Cerca de quatro anos após o massacre de Ghuta, forças sírias realizaram um suposto novo ataque químico em Khan Cheikhoun, deixando mais de 80 mortos, chocando novamente toda a comunidade internacional.

Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, condenou o ataque e disse que algo deve acontecer Bashar al-Assad. Ao contrário de seu antecessor, Trump tomou uma difícil decisão com rapidez surpreendente. Na manhã desta sexta-feira, uma chuva de 59 mísseis Tomahawk destruiu a base aérea de Shayrat, na cidade de Homs, de onde se acredita que partiram os caças sírios que lançaram o ataque químico nesta semana.

Esta é a primeira vez que os Estados Unidos atacam diretamente as forças de Assad em seis anos de guerra, marcando uma reviravolta na política externa americana. Trump enviou uma advertência não só a Bashar al-Assad, mas também um recado à Rússia, ao Irã e a Coreia do Norte. É um ato simbólico, mas que demonstra a força de uma potência e recupera parte do respeito perdido no passado.

Uma vasta gama de aliados dos Estados Unidos na Ásia, Europa e Oriente Médio apoiaram o ataque na Síria. Há muitos anos não se via manifestações generalizadas de aliados apoiando ações militares norte-americanas tão rapidamente, o que pode ser uma sinalização de reaproximação com importantes implicações geopolíticas.

No Brasil, o quadro fiscal segue bombardeado pelo fogo amigo. Após abrir a porteira da reforma da previdência, o governo lamentavelmente permitiu passar mais uma boiada nesta última quinta-feira. Os novos grupos de beneficiários provocarão uma redução de 15% a 20% na economia estimada em 10 anos com a mudança do regime previdenciário, o que representa uma quantia expressiva de 112 bilhões a 160 bilhões de reais no período.

Como se não bastasse, o governo piorou significativamente o déficit primário para 2018 nesta sexta-feira. A nova meta a ser perseguida foi revisada de um rombo de 79 bilhões para incríveis 129 bilhões de reais.

A equipe econômica segue utilizando o mesmo discurso de transparência e credibilidade fiscal, pois ainda conta com certo nível de tolerância do mercado, mas na prática o que se observa é um desastre sem precedentes em termos de política fiscal.

Pior, o governo utiliza um discurso ortodoxo que não tem se materializado. A estratégia era convencer empresários a investir e, assim, destravar a economia e recuperar os fundamentos fiscais. Não funcionou. Até porque, as atitudes não estão correspondendo aquilo que se esperava no passado. Na prática, a situação fiscal só tem piorado e o processo de recuperação econômica, prorrogado. Isso não só agride profundamente os fundamentos da austeridade, como também estimula a volta das políticas heterodoxas em 2018.

A bolsa de valores fechou a semana em leve baixa, sem apresentar novidade em relação aos dias anteriores.


Nos Estados Unidos, o índice S&P500 também fechou a semana em leve baixa.


quarta-feira, 5 de abril de 2017

FED se prepara para o desembarque


Apesar de pouco comentada no ambiente doméstico, a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), divulgada na tarde desta quarta-feira, apresentou uma novidade extremamente relevante.

O documento mostra que a autoridade monetária norte-americana está cada vez mais próxima de inverter com mais força sua política monetária. Seguindo a estratégia de operar uma política monetária cada vez menos expansionista, mais ainda acomodática, os membros do Comitê subiram novamente a Fed Funds (taxa básica de juros norte-americana) em 0,25 p.p. na última reunião, para o intervalo entre 0,75% a 1% ao ano.

O aumento gradual da Fed Funds, entretanto, não parece suficiente ao FED. Os membros do Comitê discutiram abertamente estratégias de reversão da política acomodática, através do não reinvestimento dos títulos do Tesouro e títulos hipotecários em seu balanço.

Isso significa que se a economia norte-americana continuar crescendo dentro das expectativas, o FED vai começar a fazer o desembarque de títulos em seu balanço de já na segunda metade deste ano. Mesmo depois do fim dos longos programas de compras de ativos (Quantitative Easing e Operação Twist), o banco central norte-americano continuou a reinvestir os juros dos títulos adquiridos, mantendo a política monetária acomodática.

Agora o FED se prepara para fazer o terrível caminho inverso. Não haverá preferência entre títulos do Tesouro e títulos hipotecários, a reversão será feita ao mesmo tempo para ambas as classes de ativos.

Houve discussão entre uma reversão total ou gradual, mas muito possivelmente a estratégia de desembarque será gradual, ou seja, nem todos os títulos deixarão de ser reinvestidos de uma só vez quando do pagamento de juros ou vencimento. Alguns títulos serão rolados depois de vencidos, outros não. Alguns títulos serão comprados depois do pagamento de juros, outros não.

Com o passar do tempo, o reinvestimento será cada vez menor e mais dinheiro vai sendo retirado do sistema financeiro. Não se sabe o tamanho dessa janela de tempo (provável que seja longa), mas o balanço do FED é um verdadeiro monstro de 4,5 trilhões de dólares, o maior da história.

A autoridade monetária norte-americana tinha menos de 1 trilhão de dólares em ativos antes do estouro da crise do subprime. A julgar por estes números, é de se esperar um desembarque de ao menos 3 trilhões de dólares em títulos (o que deixaria o banco central com um balanço de 1,5 trilhão de dólares, ainda considerado ligeiramente anormal), ou seja, ao final do processo de desembarque, o FED terá limpado 3 trilhões de dólares da economia.

A velocidade do processo de desembarque, bem como incertezas ao longo do percurso, poderá causar impacto relevante no mercado. Inevitavelmente os rendimentos das Treasurys (títulos do Tesouro norte-americano) serão afetados nos próximos anos com o abandono de seu principal comprador.

O FED será muito cauteloso para não criar condições que permita uma disparada de curto prazo nos rendimentos das treasurys nos próximos meses/anos, fato que poderia interromper o processo de recuperação econômica. Entretanto, a autoridade monetária norte-americana vai ter que trabalhar com uma faixa de rendimento maior para as treasurys nos próximos anos, muito possivelmente superior aos 3,0%. A ideia é que essa faixa de rendimento cresça de forma gradual e sustentável.

3% ao ano na Treasury de 10 anos (referência para os Estados Unidos e o mundo inteiro) é um patamar que pode não incomodar tanto os americanos no médio prazo, mas tende a afetar em cheio praças emergentes, principalmente as mais endividadas e fundamentalmente desorganizadas.

Atualmente, o rendimento da Treasury de 10 anos segue comportado no curto prazo, oscilando dentro de uma pequena congestão entre 2,60% e 2,30%, ainda com certa distância dos temidos 3,0% ao ano (patamar responsável por detonar choque de capitais generalizado em praças emergentes em 2013). Apesar da relativa distância, o rendimento da Treasury trabalha dentro de uma tendência de alta iniciada no ano passado.


Wall Street abriu o pregão desta quarta-feira em alta, mas o movimento se reverteu após a divulgação da ata do FED. O índice S&P500 testou e respeitou a LTB dos 2,4k, favorecendo abertura de novas posições vendidas no mercado.


No Brasil, o Ibovespa também abriu o pregão em alta, mas as vendas passaram a ser dominantes após aproximação com a resistência dos 66k. O mercado fechou perto da mínima do dia, ameaçando interromper o movimento de recuperação de preços iniciado na região dos 62,5k.
  
  
A bolsa mexicana abriu uma fenomenal oportunidade para abertura de posições vendedoras. Uma belíssima shooting star (estrela cadente) apareceu na mais forte zona de resistência do índice, após uma perna de alta maturada, em mercado muito sobrecomprado.


A praça indiana estava fechada quando os negócios abriram em Wall Street, mas ainda assim o índice emitiu sinalização de esgotamento da atual perna de alta maturada com um hanging man (enforcado) em zona de sobrecompra.


Uma shooting star também apareceu na bolsa de Londres. Apesar de as condições para venda não serem tão gritantes quanto o conjunto técnico relativamente raro na praça mexicana, fato é que o mercado britânico perdeu força após testar a LTB da máxima histórica.


terça-feira, 4 de abril de 2017

Jogo aberto para o próximo Copom


Pouco depois de o Relatório de Inflação divulgado na quinta-feira da semana passada ter transmitido clara sinalização de intensificação moderada do ritmo de flexibilização da política monetária (de 0,75 p.p. para 1 p.p.), dois importantes membros do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) adotaram um discurso menos dovish nesta semana, o que volta a deixar porta aberta para manutenção do atual ritmo de corte da taxa Selic (0,75 p.p.).

Ilan Goldfajn, presidente do Banco Central, discursou hoje na audiência pública da CAE (Comissão de Assuntos Econômicos) do Senado num tom relativamente diferente daquele sinalizado pelo Relatório de Inflação. Normalmente, quando não há alterações a serem feitas na política monetária, os membros do Comitê adotam o mesmo tom (ou as mesas frases) utilizado nos últimos documentos de comunicação do Banco Central com o mercado.

O trecho chave do Relatório de Inflação (“a consolidação do cenário de desinflação mais difundida, que abrange os componentes da inflação mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária, fortalece a possibilidade de uma intensificação moderada do ritmo de flexibilização da política monetária, em relação ao ritmo imprimido nas duas últimas reuniões do Copom), responsável por sacramentar as expectativas dos agentes de corte de 1 p.p. na taxa Selic na próxima reunião de Comitê a ser realizada entre os dias 11 e 12 de abril, não foi utilizado no discurso de Goldfajn nesta terça-feira.

Reforça uma possível mudança de opinião dentro do Copom a mensagem de Carlos Viana, diretor de Política Econômica do Banco Central, também feita nesta terça-feira. Viana afirmou que a queda da inflação neste ano tem forte componente cíclico e há evidência que as expectativas estão ancoradas apenas no longo prazo, o que revela certa preocupação com a inflação de curto e médio prazo.

A mudança de tom de dois diretores do Copom deixa o jogo aberto para a reunião da semana que vem. Poderá haver frustração por parte dos agentes caso o Banco Central confirme manutenção do atual ritmo de flexibilização da política monetária, sentimento que corre risco de ser transmitido à curva de juros futuros.

A bolsa de valores voltou a subir nesta terça-feira, operando acima da linha central de bollinger, muito próxima de realizar teste sobre a importante faixa de resistência localizada ao redor de 66.000 pontos, ameaçando posições vendidas em aberto.


Wall Street segue apresentando pequenas oscilações, com investidores/operadores mais cautelosos, à espera da importante reunião entre Donald Trump, presidente dos Estados Unidos e Xi Jinping, presidente da China. Diversos assuntos polêmicos devem ser abordados no encontro de dois dias (quinta e sexta-feira desta semana) na mansão do presidente Trump em Mar-a-Lago, na Flórida.


segunda-feira, 3 de abril de 2017

Indústria brasileira recupera o fôlego


A pesquisa do Instituto Markit revelou dados animadores para o setor industrial brasileiro. O Índice Gerente de Compras saltou de 46,9 pontos no mês de fevereiro para 49,6 pontos em março, um recorde de alta de 25 meses.


O indicador revelou que houve redução considerável no nível de contração da atividade manufatureira, hoje muito próxima de atingir o terreno de expansão. Grande parte do movimento de ascensão se refere ao aumento da demanda externa e reposição de estoques baixos demais.

Apesar da elevada capacidade ociosa, os empresários se mostraram mais otimistas na pesquisa feita no mês de março. De forma geral, as indústrias estão mais esperançosas com o processo de recuperação econômica e fortalecimento da demanda.

A recuperação do fôlego, portanto, parece ser mais uma aposta de que a retomada da atividade irá surpreender nos próximos meses, após longos anos de decepção. Entretanto, ainda não há clareza de sustentabilidade desse movimento para os próximos meses. Os velhos problemas estruturais combinados com a elevada taxa de desemprego tendem limitar a trajetória de recuperação do setor industrial, que sinaliza não estar no fundo do poço, mas também muito longe de recuperar a força do passado.

O relatório de estabilidade financeira divulgado pelo Banco Central nesta segunda-feira mostrou que apesar de o sistema financeiro manter sólidos índices de capitalização e baixa alavancagem, o estoque de crédito no Brasil deve continuar em declínio no curto prazo em função do aumento de risco, principalmente sobre as operações de crédito concedidas a grandes empresas. Os chamados ativos problemáticos saltaram de 4% do crédito concedido a empresas em dezembro de 2014 para 8% no fim de 2016, o que força as instituições financeiras adotarem postura mais cautelosa, contribuindo para redução da circulação de crédito na economia.

Os indicadores fiscais, relevantes ao processo de tomada de decisão de investimentos, também jogam contra. O contingenciamento anunciado na semana passada pela equipe econômica do governo federal para tapar um rombo de 58,2 bilhões e assegurar o cumprimento da meta de déficit fiscal de 139 bilhões não transmite confiança e seriedade, apesar da leniência do mercado.

O governo federal conta com uma receita extra de cerca de 12 bilhões provenientes de leilões de usinas hidrelétricas perdidas pela Cemig em recente julgamento na justiça. A relicitação das hidrelétricas pelo governo federal é dada como certa, mas a Cemig tem sinalizado que vai lutar para ficar com as usinas (inclusive com ações judiciais), o que pode tanto inviabilizar a operação, quanto reduzir o preço estimado com as concessões das usinas (em função da insegurança jurídica do futuro operador).

Membros da equipe econômica insistem em dizer que, desta vez, a gestão é mais séria e transparente. O rombo “imprevisto” de 58,2 bilhões no Orçamento deste ano, a distante realidade das receitas extras, a relutância em cortar gastos ineficientes, juntamente com outras surpresas negativas, mostra apenas que as táticas mudaram para justificar um desastroso quadro fiscal.

No mercado de capitais local, a segunda-feira foi de poucas novidades. Os ativos de risco seguem com o viés das últimas semanas. A bolsa de valores trabalha movimento de lateralização nos últimos dias, acima da linha central de bollinger, o que mantém os compradores da semana passada no jogo e os vendedores temerosos com a resistência na faixa dos 66k.


No cenário externo, o candidato de esquerda, Lenín Moreno, venceu a eleição presidencial no Equador. A forte ascensão do chileno Alejandro Guiller, outsider de esquerda, juntamente com a vitória de Moreno no Equador contraria a inclinação da América do Sul à direita e alimentam as forças dos partidos de esquerda que lutam para recuperar terreno no Brasil, Argentina e Peru.

Ainda no cenário externo, a agência de classificação de risco Standard & Poor’s cortou o grau de investimento da África do Sul pela primeira vez em 17 anos, alegando elevadas incertezas políticas e institucionais em função da recente demissão do ministro das Finanças, Pravin Gordhan, de perfil pró-mercado. Seu sucessor, Malusi Gigaba, prometeu adotar medidas duras para redistribuição de renda.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Relatório de Inflação crava corte de 1 p.p. na taxa Selic


O Banco Central divulgou na manhã desta quinta-feira o Relatório de Inflação do primeiro trimestre de 2017, informando as novas projeções para a inflação brasileira. No cenário de referência, a estimativa para o IPCA é de 3,9% em 2017 e 4,0% no fim de 2018.

Cabe ressaltar que os cálculos do cenário de referência são apurados levando em consideração uma taxa Selic e taxa de câmbio constantes durante todo o horizonte de projeções. Nesse caso, é considerada a meta da taxa Selic fixada na última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), em 12,25% ao ano. No próprio documento, os membros do Comitê consideram que as projeções do cenário de referência são pouco informativas num contexto de flexibilização da política monetária.

O foco está nas projeções de mercado, apuradas pelo boletim Focus. Atualmente, são esses números que norteiam as decisões do Copom. As expectativas para a taxa Selic na pesquisa Focus caíram em comparação aos valores utilizados na última reunião do Copom (fevereiro/2017). Agora, para o final de 2017, a mediana das projeções de mercado aponta Selic em 9,0% ao ano (queda de 0,50 p.p.). Para o fim de 2018, a mediana das estimativas de mercado caiu de 9,0% para 8,5% ao ano.

No câmbio, as expectativas cederam levemente de R$ 3,30 para R$ 3,28 no final de 2017 e mantiveram-se constantes para o final de 2018, em R$ 3,40.

Considerando a evolução para a taxa Selic e taxa de câmbio, a projeção do mercado indica que a inflação encerrará 2017 em 4,0% (0,2 p.p. abaixo do valor apurado na reunião do Copom de feveriro).  Para o fim de 2018, a projeção permaneceu aos 4,5%, sem alteração em relação à última reunião do Copom.

O Banco Central atribui à queda nas projeções de inflação ao processo de difusão mais profundo e consolidação da desinflação nos componentes mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária.

Com o respaldo do mercado mais otimista apontando projeções de inflação menores, o Banco Central tende aproveitar a janela de oportunidade para intensificar os cortes na taxa Selic, de 0,75 p.p. para 1,0 p.p. O trecho abaixo extraído do Relatório de Inflação deixou essa expectativa muito clara:

“a consolidação do cenário de desinflação mais difundida, que abrange os componentes da inflação mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária, fortalece a possibilidade de uma intensificação moderada do ritmo de flexibilização da política monetária, em relação ao ritmo imprimido nas duas últimas reuniões do Copom.”

A autoridade monetária também frisou que a extensão do ciclo de flexibilização dependerá das projeções e expectativas de inflação, inclusive para 2019. No documento apresentado hoje, a projeção do mercado para a inflação no fim do primeiro trimestre de 2019 está em 4,6%. As estimativas para a taxa de juros estrutural da economia brasileira (uma incógnita) também influenciarão a extensão do ciclo de afrouxamento, sabe-se lá como.

A princípio, o Banco Central deve encontrar terreno favorável para manter um agressivo ritmo de cortes na taxa Selic, já que suas projeções de curto prazo apontam inflação de 0,28%, 0,53% e 0,42% para março, abril e maio, respectivamente. Caso confirmado, a inflação dos últimos doze meses cairá para 4,15% em maio de 2017, cenário propício para manutenção do clima positivo entre os agentes.

As taxas de juros futuros da ponta curta subiram nesta quinta-feira, enquanto as taxas dos contratos de vencimento mais longo cederam. Essa distorção se deve às declarações do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que deu a possibilidade de revisão da meta de inflação para 2018 na reunião do CMN (Conselho Monetário Nacional) a ser realizada no mês de junho.

Caso a meta de inflação, atualmente em 4,5% ao ano, seja revisada para baixo em 2018, o Banco Central não poderá seguir com uma política de afrouxamento monetário agressiva por muito tempo, pois dificilmente conseguirá atingir o novo objetivo estabelecido pelo CMN.

A meta de inflação a ser perseguida em 2018 já foi estabelecida em 4,5% na reunião do CMN de junho do ano passado, mas pode ser revisada. Já a meta de inflação a ser perseguida pelo Banco Central em 2019 ainda não foi definida e será decidida na próxima reunião do CMN.

Na prática, apesar do desejo do governo, não há condições para redução da meta de inflação já em 2018, conforme apontam as próprias projeções do boletim Focus. Espera-se que as futuras alterações na meta de inflação sejam feitas na ordem de 0,50 p.p. Um corte de 0,25 p.p. na meta de inflação a ser perseguida, entretanto, apesar de simbólico e de pouca relevância, não deixa de ser um bom material de propaganda para a campanha de 2018. Mesmo sendo pequeno, o governo poderá usar o discurso de que conseguiu reduzir a meta de inflação após anos de descontrole.

Para o longo prazo, a situação tende a ser bem mais complicada. É improvável que o clima de otimismo do mercado com a inflação dure por muito mais tempo, tanto por razões técnicas, quanto por razões macroeconômicas.

A significativa onda compradora em contratos de juros futuros, iniciada em setembro de 2015, está se aproximando do ponto de esgotamento técnico. Os candles semanais são bem menores em relação aos candles emitidos no início da tendência, mostrando menos vigor da força compradora e mais competitividade no mercado.

As taxas praticadas hoje já se aproximam da taxa mínima, registrada em 2012 (em função da redução insustentável da taxa Selic a 7,25% ao ano). Nas condições atuais, o Banco Central não conseguirá reduzir a taxa Selic de forma sustentável para perto do patamar atingido em 2012, o que revela excesso de otimismo do mercado nos prêmios dos contratos de juros futuros. Além disso, os indicadores sinalizam elevado nível de sobrecompra e divergências gritantes que podem resultar no término da atual tendência de baixa das taxas de juros futuros.


Da parte macroeconômica, o rápido aumento do endividamento do governo brasileiro, com projeções apontando para insustentáveis 80% do PIB (Produto Interno Bruto) já em 2019, inviabiliza um recuo sustentado da taxa Selic a médio e longo prazo. Quanto pior a dinâmica fiscal, mais prêmio (ou seja, taxa de juros) os investidores/operadores exigirão para emprestar dinheiro ao governo.

Ainda não há sinalização de reversão na curva de juros futuros, mas em função das condicionantes técnicas e macro, é recomendável aos investidores/operadores, que surfam na ponta comprada dessa belíssima curva de juros, traçar uma estratégia de liquidações escalonadas parciais enquanto a porta de saída ainda está arreganhada.