quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Banco Central fecha os olhos e pisa no acelerador


O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) decidiu nesta quarta-feira cortar agressivamente a taxa básica de juros em 0,75 p.p., para 13% ao ano. O resultado da reunião surpreendeu parte do mercado, que esperava um corte menos agressivo de 0,50 p.p.

Apesar da expectativa dominante em 0,50 p.p. de corte na taxa Selic, o clima estava favorável no ambiente doméstico para um corte maior de 0,75 p.p. O Banco Central aproveitou a janela de oportunidade (clima propício) para intensificar o ciclo de afrouxamento monetário rapidamente, agradando tanto o governo (que tem a ilusão de que uma Selic menor resolverá os problemas de crescimento), quanto o mercado (que quer uma Selic menor para ampliar os ganhos nas posições de pré-fixados).

Entretanto, considerando a complexidade do balanço de riscos para a inflação (pressões internas e externas), o Banco Central está buscando risco desnecessário ao ampliar agressivamente o ritmo de flexibilização da política monetária, se deslocando de forma acelerada para uma rota mais dovish.

Na manhã desta quarta-feira, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) informou que o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), considerado a inflação oficial no Brasil, avançou 0,30% no mês de dezembro do ano passado, mostrando aceleração em relação a alta de 0,18% registrada no mês anterior.

A inflação do setor de serviços subiu 0,65% no mês de dezembro, frente aos 0,42% registrados no mês de novembro, voltando a sinalizar ritmo incompatível com o cumprimento da meta. A pressão de preços do setor de serviços tem peso relevante (ou deveria ter) no balanço de riscos para a inflação, já que os consumidores não conseguem importar serviços e acabam aceitando os preços praticados por empresas locais. Uma inflação de serviços elevada indica cenário de baixa concorrência e dificuldades de empreendedorismo, sustentando o desequilíbrio entre oferta e demanda.

No acumulado de 2016 o IPCA fechou com alta de 6,29%, muito distante, portanto, do centro da meta a ser perseguido (4,5%) e levemente abaixo do teto da margem de tolerância (6,5%). O número foi considerado positivo e comemorado no mercado, mas o fato é que não há nada animador numa inflação que, ainda, apenas demonstra sinais de que retornou ao padrão verificado nos últimos seis anos (com exceção de 2015): oscilar ao redor do teto da margem de tolerância.

A inflação de 2016 também continua mostrando sinal de elevado descasamento com o desempenho da economia. O FMI (Fundo Monetário Internacional) projeta retração de 3,3% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2016. Já a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) espera uma contração de 3,4% no PIB do Brasil de 2016, o que deve marcar dois anos de forte recessão, já que em 2015 o PIB caiu 3,8%. A grande distorção entre inflação versus PIB é preocupante, pois demonstra manutenção da deterioração dos fundamentos macroeconômicos.

Ainda assim, mesmo diante do complexo balanço de riscos, o Banco Central decidiu aumentar o corte na taxa básica de juros, de 0,25 p.p. para 0,75 p.p. Lamentavelmente, o comunicado emitido após a reunião de Comitê está repleto de avaliações supostamente tendenciosas.

O Banco Central considera que, no âmbito externo, os efeitos do fim do chamado interregno benigno têm sido limitados. Essa afirmativa parece desconsiderar o movimento global de valorização do dólar (apesar de existir uma distorção temporária contra o real) e as esperadas revisões para cima nas projeções de inflação dos principais banqueiros centrais mundiais, que por sinal estão traçando uma rota de política monetária menos dovish do que a verificada nos últimos anos.

O comunicado também ressalta que o processo de desinflação mais difundido atingiu componentes mais sensíveis à política monetária e ao ciclo econômico, embora a inflação de serviços tenha acelerado para 0,65% no mês de dezembro do ano passado.

No texto, o Banco Central credita peso ao recuo das projeções de inflação no cenário de referência para 2017 e 2018, feitas sob a metodologia de manutenção da taxa Selic e taxa de câmbio durante todo o horizonte de previsões. Entretanto, no cenário de mercado, onde a metodologia é diferente (considera evolução da taxa Selic e taxa de câmbio no horizonte de projeções), ainda não há expectativa de ancoragem da inflação à meta em 2017.

No encontro anterior, realizado em 30 de novembro de 2016, o Comitê decidiu reduzir a taxa Selic em 0,25 p.p. Naquela ocasião, a previsão do mercado (boletim Focus) apontava para uma inflação de 4,93% no fim de 2017. No encontro realizado em 19 de outubro de 2016, a previsão do mercado para a inflação no fim de 2017 era de 5,04% e o Comitê também optou por reduzir a taxa Selic em 0,25 p.p.

Hoje, a previsão do mercado para a inflação no fim de 2017 está em 4,81%. Pode-se notar um padrão de recuo nas projeções de inflação do mercado na faixa de 0,10 p.p. entre o intervalo de reuniões do Copom, mas, desta vez, a resposta da política monetária veio com um corte agressivo de 0,75 p.p.

Para tentar justificar a intensificação do corte com as projeções de inflação do mercado, o Banco Central começa a empurrar o cumprimento do objetivo (convergência da inflação para a meta de 4,5%) para 2018, ano em que as projeções de mercado apontam ancoragem da inflação ao centro da meta.

Quanto mais o Banco Central se apoia sobre as projeções de longo prazo para tomar suas decisões, maior o risco assumido pela política monetária. Eventos adversos devem surgir em 2017 (como nos anos anteriores) e, desta vez, a autoridade monetária não contará, possivelmente, com a desinflação das contas de energia elétrica (que já estão em bandeira verde) e com o fator câmbio (real valorizado, descasado com as demais moedas).

No cenário externo, o novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, concedeu sua primeira entrevista coletiva desde a sua eleição. Não houve divulgação de novidades relacionadas ao seu plano de governo. O evento foi marcado por críticas justificadas à imprensa norte-americana, especialmente a rede CNN, que desde a campanha eleitoral tem extrapolado limites para se posicionar contra Donald Trump.

O presidente eleito aproveitou a coletiva de imprensa para anunciar que vai se separar da administração de seus negócios a fim de evitar conflitos de interesse. Seus ativos serão transferidos para um trust e seus dois filhos tomarão o controle de suas empresas.

A coletiva não afetou a dinâmica do mercado local, com os principais índices de Wall Street trabalhando dentro de uma tendência de alta, colados em máximas históricas, sem apresentar novidades.


A bolsa brasileira encerrou o pregão desta quarta-feira em leve alta, mas ainda abaixo da principal resistência localizada na região dos 62,9k. Caso essa barreira seja superada nos próximos pregões, a atual tendência de alta ganhará força, impulsionando o índice para a máxima registrada no ano passado.


18 comentários:

  1. Agora é comprar NTNB. Vai que...

    ResponderExcluir
  2. Respostas
    1. Parece que sim. Muitas figuras importantes palpitando ou passando recados indiretos publicamente sobre o que o Banco Central deveria fazer. Isso não é bom.

      Excluir
  3. FI,

    Que lindo .... vamos ver os fiis e os TDs hoje ...

    Abs,

    ResponderExcluir
  4. Fin, se você fosse apostar ( sem fundamentos), existe uma probabilidade grande dessa estratégia dar certo? Não estão apostando demais na nossa economia?
    A mídia esta eufórica, porém nós que tentamos acompanhar no detalhe, vemos que isso não é verdade.

    O que você acha?

    Veigalex (Sempre lhe prestigiando!)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pode funcionar. Eu posso estar errado e o Banco Centrar estar certo. Na minha avaliação, o balanço de riscos para a inflação e o quadro macroeconômico (interno e externo) ainda não permitem cortes agressivos. Seria melhor esperar mais alguns meses para ter garantia da ancoragem da inflação na meta e acabar de vez com os problemas de inflação no País, assim abriria espaço para um longo e sustentado ciclo de queda na taxa Selic. Mas como o Banco Central optou por outra rota, entendo que a intensificação do afrouxamento monetário nesse momento poderá comprometer a inflação no futuro.

      Excluir
  5. FI,
    Achei muito cara de pau o BC dizer que vê sinais de que a desinflação está mais difundida, quando, no mesmo dia, a inflação de serviços veio mais alta.

    Abs,

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pode ser um sinal de que o desejo está se impondo aos fundamentos.

      Abs,

      Excluir
  6. FI,

    Meus cumprimentos pelo texto. Finalmente vejo alguém falar o que penso e não essa mídia sem compromisso que divulga notícias erradas.

    Vai acontecer o que aconteceu com a Dilma em 2013, baixou os juros na canetada e 1/2 anos depois veio uma inflação cavalar de 10% a.a.

    http://www.valor.com.br/politica/4834820/temer-diz-que-em-pouco-tempo-taxa-de-juros-sera-de-um-digito

    O presidente já antecipou antes do presidente do Banco Central.

    Desgraça à vista.

    Abs

    Miguel

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Dois pesos, duas medidas. Tenho certeza que se fosse no governo Dilma, essas declarações seriam vistas como sérios sinais de interferência do Planalto no Banco Central. Como existe muito interesse em jogo, o mercado está fazendo vista grossa.
      Obrigado!
      Abs,

      Excluir
  7. Será que os agentes econômicos dispunham de uma leitura distópica da economia brasileira? E, agora, desnuda-se uma realidade alvissareira!
    A interferência política e o lobby da "indústria" financeira, notoriamente, se fazem presentes na postura do BC. Assim, o jargão se torna inevitável: " O Brasil não é um país sério".

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim. Daqui alguns meses tudo isso será esquecido e se voltarmos a ter problemas com a inflação no futuro, a culpa recairá sobre os vilões (determinado produto/serviço x/y).

      Excluir
  8. Achei mais do que certo. A inflação de 2015/2016 foi relacionada a preços administrados e a variação cambial. Não há taxa de juros que haja sobre isso (visto que não houve fuga de capitais). Não há pressão de demanda. 30% da capacidade instalada está ociosa. Os juros no nível que estavam era um tiro no pé. Além de aprofundar a crise econômica via barreira para consumo e investimentos, aprofundava tb a crise fiscal via juros da dívida pública. Já estava na hora do BC agir de forma mais contundente. Demorou demais para baixar os juros agora vai ter que acelerar o ritmo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O problema é o crédito subsidiado. Este foi pouco cortado.
      Então o que vai acontecer é as taxas futuras voltarem a subir em curto/médio prazo.
      Bom para nós, especuladores.
      Ruim para o Brasil a longo prazo.
      O mais engraçado é que sou terminantemente contra essas políticas cíclicas da esquerda, pois isso me "prejudica" a longo prazo para especular.
      Mas como de nada adianta falar, vou lá surfar sobre a política da esquerda e ganhar mais um cascalho.
      Já me preparo para nova crise e novos topos, já que tenho certeza que essas taxas em queda vão dar problema.

      Excluir
    2. A inflação elevada no Brasil é consequência da desarrumação macro ocorrida no governo anterior. A pressão recente dos preços administrados e do câmbio não foram fatores determinantes, até porque a inflação ronda o teto da margem de tolerância desde 2010 (com exceção de 2015).

      O Banco Central da Rússia provou que sim. A crise na Ucrânia provocou forte desvalorização do rublo em 2014 e o Banco Central respondeu rapidamente com choque de juros (salto de 6,5 p.p. na taxa básica de juros). A medida reduziu o contágio do câmbio na inflação e estabilizou o mercado. Hoje a Rússia tem uma inflação menor que a do Brasil e uma taxa básica de juros menor que a do Brasil.

      Se não houvesse pressão de demanda no Brasil não estaríamos criando inflação. Mesmo com dois anos seguidos de forte recessão, a economia ainda continua criando inflação, o que é um problema grave.

      Excluir
    3. Concordo em discordar... rsrsrsrsrsrs

      Excluir
  9. Boa tarde. E em relação a alta taxa de juros e o aumento do déficit orçamentário. Esse déficit não faz pressão inflacionária?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Certamente sim. Mesmo com as reformas, a política fiscal tende a se manter em terreno expansionista nos próximos anos, criando pressão inflacionária. Isso só tende a mudar quando o governo voltar a fazer superávit primário de forma convincente.

      Excluir