quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Em mais um movimento estratégico, Trump parte para cima de Peña Nieto


O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou na última quarta-feira mais uma ordem executiva polêmica, desta vez ordenando a construção de um muro ao longo de toda a fronteira entre os Estados Unidos e o México, uma de suas principais promessas de campanha.

Como de costume, as ações de Trump continuam causando grande estardalhaço na mídia e algumas informações relevantes acabam passando despercebidas.

Não é a primeira vez que um presidente dos Estados Unidos decide criar uma barreira física na fronteira com o México. Entre os mais de três mil quilômetros de extensão entre os dois países, já existe aproximadamente mil quilômetros de cercas de concreto e outros tipos de barreiras já erguidas, que custaram ao governo norte-americano mais de 7 bilhões de dólares.

A estrutura já existente, entretanto, não é considerada suficientemente alta, forte e intransponível. O muro de Trump deve reforçar a barreira já existente e cobrir o restante da fronteira que está aberta.

Segundo o presidente dos Estados Unidos, o novo muro cobrirá 1.600 quilômetros e obstáculos naturais cuidarão do restante. Numa estimativa simples, Trump tende a construir 600 quilômetros a mais de barreira física, menos, portanto, do que os atuais obstáculos físicos já existentes.

O muro, na prática, é irrelevante. O que Trump está querendo, na verdade, é azedar o clima com o País vizinho que passa por sérias dificuldades domésticas. A pressão sobre Enrique Peña Nieto, presidente do México, com a construção do muro, aumentará, colocando os Estados Unidos em posição favorável em futuras negociações para reduzir seu grande déficit comercial (cerca de 60 bilhões de dólares) com o México.

Peña Nieto já caiu na primeira armadilha de Trump. O presidente do México afirmou ainda na quarta-feira que não pagaria pelo muro a ser construído na fronteira, em resposta aos ataques de Trump. Na manhã desta quinta-feira, o presidente dos Estados Unidos contra-atacou dizendo que se o México recusa a pagar pelo muro, Peña Nieto deveria cancelar sua visita a Washington agendada para a próxima semana.

Em situação desagradável, e sem ter o que fazer, o presidente do México acabou cancelando sua visita a Washington. Com a tensão aumentando entre os dois países, os mexicanos sentirão que Peña Nieto não está fazendo o necessário para assegurar seus interesses (leia-se emprego).

O presidente dos Estados Unidos quer um novo imposto de 20% sobre todas as importações do México para pagar o muro a ser construído na fronteira. Na verdade, o muro parece ser apenas um motivo (ou desculpa) para criação de um imposto de alto potencial de impacto. Produtos mexicanos 20% mais caros podem atrair algumas fábricas de volta aos Estados Unidos.

Não por acaso Trump está concentrando seus ataques contra o México, deixando, por exemplo, o Canadá de lado. Além do déficit comercial da ordem de 60 bilhões de dólares, Trump tem outro bom motivo para partir pra cima de Peña Nieto. O presidente do México é, atualmente, o político mais fraco entre os principais parceiros comerciais dos Estados Unidos.

Peña Nieto é altamente impopular, seu índice de rejeição é de cerca de 70% e manifestantes estão tomando as ruas do País pedindo sua renúncia. Os protestos ganharam volume após o presidente do México anunciar inesperadamente um aumento de até 20% nos preços da gasolina e do diesel.

O aumento é reflexo do corte de subsídios que mantinham os preços artificialmente baixos. Além disso, Peña Nieto se viu forçado a subir alguns impostos e cortar gastos com programas sociais na tentativa de conter o rápido avanço da dívida pública.

O choque nos preços dos combustíveis, por si só, pode levar o País a uma crise de inflação, desemprego e desaceleração econômica. A tensão com os Estados Unidos apenas aumenta a instabilidade para a economia mexicana, potencializando os efeitos negativos. Vulnerável, Peña Nieto não terá muito poder de barganha para renegociar o Nafta com os Estados Unidos.

No mercado de capitais, o clima de otimismo continua predominando nas principais praças financeiras mundiais. Nos Estados Unidos, o mercado acionário segue renovando máximas históricas.


Já o dólar contra cesta de principais moedas globais trabalha movimento corretivo de curto prazo, mas ainda distante da média móvel simples de 200 períodos diária e sem ameaçar a tendência principal de alta.


No Brasil, o índice Bovespa fechou mais um pregão em alta, aumentando o nível de sobrecompra à medida que novos candles de esgotamento temporário vão surgindo. Mercado segue comprado, porém esticado e perigoso para abertura de posições de curtíssimo prazo.
 

13 comentários:

  1. Qual saida para o mexico ?seria baixar mais impostos para empresas ficarem e venderem para o resto do mundo diminuindo sua dependencia dos EUA?

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    1. Creio que negociar uma melhora na balança comercial para os Estados Unidos, tentando fazer com que o Trump cancele o plano de taxar em 20% todos os produtos mexicanos. Buscar outros mercados para diminuir a dependência com os Estados Unidos vai ser muito difícil no curto e médio prazo, o modelo está totalmente voltado para o mercado consumidor norte-americano. O México está com o fiscal apertado, não há espaço para corte de impostos, pelo contrário, o presidente está perdendo popularidade pois se viu forçado a cortar subsídios.

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  2. Grande FI,

    Estou ADORANDO os primeiros dias do governo Trump!

    O homem não tem medo de cara feia, e está fazendo exatamente TUDO o que prometeu na campanha. E eu estou achando ótimo! Os EUA regrediram absurdamente na era Bostama...

    Chega de ajudar os outros em detrimento de sua própria nação! América para os americanos, como diria o presidente James Monroe.

    Abraços!

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    1. Impressionante como esse sentimento tem ganhado força com rapidez no mundo inteiro, as eleições deste ano na França, Holanda, Alemanha e República Tcheca serão acompanhadas de perto pelo mercado. Na França, Marine Le Pen deve ir pro segundo turno. E ainda tem a Itália com futuro político incerto após a renúncia de Matteo Renzi.
      Abs,

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    2. A direita de forma geral vem se fortalecendo no ocidente. Marine Le Pen vem bem cotada para a presidência da França. Aliás tudo indica que o Mercado Comum Europeu deve logo chegar ao fim.
      Com a possível vitória da Marine, a uma possibilidade considerável da França abandonar o bloco e com isso seria praticamente decretado o fim do mesmo.

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    3. Mesmo se Le Pen perder na França a Europa ainda continuará ameaçada pelo Movimento 5 Estrelas que vem muito forte na Itália.

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    4. Ajudar a nacao americana quer dizer construir um muro e taxar ainda mais produtos de origem mexicana?
      Ta bom! Exemplo simples. Oq acontece qnd um produto é taxado e diminui a margem de lucro do produtor? Ele tem que aumentar o preco de venda para compensar e manter seu lucro. Quem é o final da cadeia de produção? Consumidor final. Quem consome produto em territorio americano? Majoritariamente o americano.
      Quem vai pagar o muro? Americano, que agora irá pagar mais caro por produto mexicano.
      E se o trump está certo qnd diz q a balanca comercial está favoravel ao mexico, é pq os eua nao possuem autossuficiência na producao e demanda, ou seja, os eua É OBRIGADO a consumir aquilo q o mexico produz.
      "Ahh.. É so nao comprar produto mexicano". Sera que os eua nao precisa da prata do méxico?
      Bom, mas enfim, eles estavam querendo um pouco de inflacao nao é verdade? Talvez ela pode vir assim, pq nao? Rs....
      Quem vai pagar o muro é o americano...

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  3. FI,

    Por isso que venho ler seus posts ... muito bom a parte sobre Trump e o México, ponto de vista inteligente e com ótimos argumentos. Já a mídia convencional, se contenta em dizer que Trump ataca o México porque é louco .... louco é???

    To acompanhando o dolar vendido ... vamos ver se vai ali ma média de 200 .. hehehe

    Abs,

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  4. Excelente análise! Parece um jogo de xadrez e o Trump ta se preparando para dar o cheque-mate no México.

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  5. Ótima análise!
    Mas você não acha que a desvalorização (~30%) recente do peso mexicano é capaz de equilibrar os efeitos dessa taxação extra?
    Abraços

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    1. Obrigado! Não acho, pois a cadeia de produção no México também depende de vários insumos importados, o que refletirá num custo de produção mais alto.
      Abs,

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