segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Indústria brasileira volta mergulhar


A nova pesquisa do Instituto Markit divulgada nesta segunda-feira mostrou que o atual quadro desolador da atividade manufatureira brasileira voltou realizar a façanha de piorar ainda mais.

O Índice Gerente de Compras tombou de preocupantes 46,2 pontos em novembro para 45,2 pontos em dezembro do ano passado, revelando novo aumento no ritmo de contração da atividade industrial.


Pressionada pela persistente recessão econômica doméstica, retomada da inflação de custos e enfraquecimento da demanda global, a produção local atingiu o nível mais baixo dos últimos seis meses.

Desde o fim de 2014 a indústria brasileira se mantém significativamente distante do terreno considerado expansionista (acima dos 50 pontos), acumulando uma série de tentativas frustradas de recuperação.

Além dos velhos e conhecidos problemas estruturais da economia brasileira, a pesquisa revelou que as indústrias voltaram a encontrar dificuldades de exportar a produção. O volume de novos pedidos para exportação caiu por um ritmo acentuado e acelerado no mês de dezembro.

Essa queda pode ser explicada pelo aumento da disparidade entre a oscilação do dólar contra uma cesta de principais moedas globais e a oscilação do dólar contra o real.

No gráfico abaixo podemos observar que o dólar index opera na máxima, acima, inclusive, do pico registrado em 2015. Isso significa que as principais moedas globais voltaram a perder força em relação ao dólar. Estão ainda mais desvalorizadas, algumas atingindo níveis mais baixos em mais de uma década.


Quando a mesma comparação é feita exclusivamente contra o real, o quadro é bem diferente. A tendência de alta iniciada aos R$ 3,10 ainda é muito fraca comparada à tendência predominante global, sendo que há bastante terreno para moeda se aproximar do pico registrado em 2015.
  

Parte dessa disparidade é uma compensação do mercado frente ao exagero verificado na desvalorização do real em 2015. Ao recuperar terreno em 2016, o real eliminou o componente extremamente pessimista embutido no preço. Entretanto, com ajuda das intervenções do Banco Central no mercado de câmbio, o preço está passando a embutir um componente de otimismo não respaldado pelos fundamentos macroeconômicos.

A segunda e preocupante nova pressão negativa à atividade manufatureira brasileira, apontada pela pesquisa do Instituto Markit, é o retorno da inflação de custos, atingindo recorde de alta de quatro meses.

A preocupação com o retorno da inflação já havia sido apontada em análises anteriores. Parte do processo de desinflação, em curso, estava sendo sustentado pela redução das margens de lucro das empresas. Contudo, o espaço de tempo é bastante limitado para que as companhias possam trabalhar com margens reduzidas no mercado. A pesquisa apontou que esse movimento já começa a se reverter, com algumas empresas aumentando preços para defender suas margens.

No âmbito externo, o FED (Federal Reserve - Banco Central dos Estados Unidos) se prepara para intensificar o ritmo de aperto monetário neste ano, à medida que a inflação sinaliza aproximação com a meta.

Na Europa, o BCE (Banco Central Europeu) já anunciou redução no volume mensal de compras de ativos de 80 bilhões de euros por mês para 60 bilhões de euros, a partir do mês de abril. É possível que o BCE anuncie novas reduções ao longo deste ano, pois a inflação na zona do euro está se intensificando com a alta dos preços de energia e desvalorização do euro.

Na China, o Banco Popular (autoridade monetária local) reafirmou sua intenção de continuar implementando uma política monetária prudente, o que significa reduzir suas intervenções no mercado e manter a taxa básica de juros inalterada após dois anos de cortes.

O BoJ (Bank of Japan) também segue a mesma trajetória menos dovish dos demais banqueiros centrais, optando por não aumentar os programas de estímulos mesmo com os desafios econômicos internos.

Ao contrário das posturas mais defensivas apresentadas pelas principais autoridades monetárias mundiais, o Banco Central do Brasil continua sinalizando que vai buscar o risco neste ano, com cortes mais agressivos na taxa básica de juros mesmo com a inflação acumulada dos últimos 12 meses ainda muito distante do centro da meta e projeção do mercado para inflação no fim deste ano em 4,87%, não demonstrando expectativa de cumprimento da meta.

9 comentários:

  1. Discordo de você. Os juros reais estão em seu maior patamar. Já está na hora de cortar 0,5 pp. A recessão já atingiu a inflação ao ponto que até a inflação de 2016 ficará na meta. Vale o risco ficar um pouco acima do centro da meta pra este ano (4,8-5%), se é que esse risco vai se concretizar. Lembrando que ainda teremos até o fim do ano taxa de juros em dois dígitos, nenhuma maluquice daquela de Selic 7,25% com inflação a 5,5%.

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    1. O patamar elevado dos juros reais é o custo que se paga em função da forte deterioração fiscal e da completa desarrumação macroeconômica. Impor uma situação de juro real baixa, em meio ao quadro doméstico atual, somente agravará o custo a ser pago no futuro. Não é preciso que a Selic recue para 7,25% ao ano para provocar um novo surto inflacionário semelhante ao do passado recente, até porque as condições atuais são mais sensíveis.

      Mesmo considerando somente a inflação dos últimos meses, o patamar é significativamente incompatível com o nível de recessão, o que revela elevado desequilíbrio macro. Considerando a gravidade da recessão, numa economia relativamente organizada, a autoridade monetária deveria estar preocupada com uma inflação abaixo do centro da meta e não com risco de superar a margem de tolerância. Lembrando que a meta de inflação a ser perseguida pelo Banco Central é de 4,5% ao ano. A margem de tolerância (de 1,5 p.p. para mais ou para menos a partir de 2017) não pode ser utilizada como meta, mas sim para dar tempo para que a autoridade monetária responda aos eventos imprevistos/adversos. A última vez que o Banco Central se aproximou da meta foi em 2009. Os sete anos seguidos de inflação fechando acima do centro da meta dificultam cada vez mais o trabalho do Banco Central, pois aumenta a desconfiança dos agentes na política monetária.

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  2. FI,

    Bom... esperando esses juros cair . assim dá uma gás nos meus fiis . .rs ..

    Abs,

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  3. FI,
    Essa dificuldade para exportar da indústria brasileira que você cita é porque o real está relativamente valorizado frente a outras moedas?
    Como o real não se desvalorizou tanto frente ao dólar, ele está relativamente valorizado contras as outras?
    Dá para concluir do seu texto que a tendência é de alta para o dólar, ainda mais diante dessa postura do Banco Central do Brasil?

    Feliz ano novo.

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    1. Em partes em função do fator câmbio. Apesar de que, a dificuldade principal, são as péssimas condições de negócio do ambiente doméstico. No que se refere ao câmbio, várias moedas de peso na Ásia e Europa tiveram uma desvalorização maior frente ao dólar em comparação ao real. Isso pesou para a indústria. Sim, a tendência principal do dólar é de alta no mundo inteiro, com diferença de intensidade entre as praças. No Brasil, a tendência de alta do dólar tem se mostrado bem tímida.
      Obrigado, ótimo 2017!

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  4. FI, mais uma excelente análise.
    Você acredita que teremos recuperação industrial no segundo semestre, ou somente em 2018?

    Sucesso

    Abraço

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    1. Obrigado!

      Não faço a menor ideia rs... Em algum momento a recuperação virá, mas ninguém é capaz de prever o timing.

      Abs,

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