sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Selic de 1 dígito só se for no grito


A história mostra que o investidor sempre precisa tomar muito cuidado em momentos de unanimidade de opiniões no mercado. A decisão do Banco Central de cortar 0,75 p.p. da taxa básica de juros na última quarta-feira agradou o governo, economistas (ortodoxos e heterodoxos), gestores de fundos, empresários, representantes de associações empresariais e sindicatos.

No meio de tanta euforia com a expectativa de novos cortes agressivos nas próximas reuniões do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central), alguns economistas já estão projetando taxa Selic de 1 dígito no fim deste ano. A expectativa não parte apenas de economistas com viés heterodoxo, mas também de economistas com viés ortodoxo, inclusive daqueles que fizeram duras críticas ao último ciclo de afrouxamento monetário promovido pela gestão anterior.

O próprio presidente da República se sentiu confortável em afirmar que a taxa básica de juros deve cair para 1 dígito. Deixando de lado o agravante relacionado a um comentário deste tipo (já que o mercado está fazendo vista grossa), não há condições para um recuo sustentado tão forte da taxa Selic neste ano, talvez nem no próximo.

Há um conjunto de fatores relacionados à desarrumação macroeconômica que tendem a continuar pressionando a inflação no médio/longo prazo. São problemas que só serão solucionados com a melhora no ambiente de negócios através de um planejamento de longo prazo e não com ações pontuais de curto prazo.

Mas a principal razão que inviabiliza cortes agressivos e sustentados da taxa Selic é o próprio governo. Não há menor condição de um país grau especulativo reduzir drasticamente sua taxa básica de juros no curto prazo trabalhando um orçamento com déficit de 2,5% do PIB (Produto Interno Bruto), rombo considerado significativo.

Como se não bastasse os inevitáveis efeitos de pressão inflacionária criados por uma política fiscal expansionista, chegará o momento em que os investidores reavaliarão as condições (taxa de juros) para financiar a dívida elevada de um País grau especulativo, que por sinal se mantêm em forte trajetória de crescimento e ainda distante de uma reversão (redução do endividamento).

Mesmo com a implementação das reformas, não há perspectiva de o governo voltar a fazer o necessário superávit primário nos próximos anos, pois os grandes privilégios, como o ineficaz “bolsa empresário”, que pressionam seriamente o fiscal, não estão sendo combatidos. O FMI (Fundo Monetário Internacional) espera que o Brasil só volte a fazer superávit primário a partir de 2020. Mostrando-se incapaz de colocar as contas em dia, o governo será o principal empecilho para a queda sustentada da taxa Selic.

O Banco Central pode continuar cotando os juros agressivamente nas próximas reuniões de Comitê e jogar a taxa básica de juros para 1 dígito até o fim deste ano, mas será um movimento à base do grito, sem respaldo dos atuais fundamentos e que possivelmente trará sérias consequências ao futuro.

Dentro do esperado, o mercado local reage com otimismo à decisão do Banco Central. O clima positivo no ambiente de negócios inviabiliza reflexão dos investidores sobre as consequencias futuras. Além disso, a expectativa de novos recuos agressivos da taxa Selic empurra investidores muito posicionados em ativos pós-fixados para assumir posições de risco no mercado.

Como existe muito capital concentrado em pós-fixado, fruto do longo período de juros altos, o potencial de fluxo para os ativos de risco é enorme caso o Banco Central continue trabalhando dentro da rota apresentada na última quarta-feira. Por outro lado, os gestores de fundos (principalmente multimercados), que já se posicionaram a favor da curva, tendem a focar mais no fluxo daqui pra frente, tentando identificar a entrada da massa para desovarem suas posições, até porque os prêmios dos juros futuros já começam a ficar achatados.

As curvas da ponta longa já iniciaram rompimento da mínima do ano, mostrando intensificação da força compradora. O contrato de juros futuros que vence em 2022 já está pagando 10,98% ao ano. Já os contratos da ponta curta estão abaixo da mínima registrada em 2014 (antigo e importante ponto de suporte). O contrato de juros futuros que vence em 2019, por exemplo, fechou a semana pagando 10,52% ao ano.


A bolsa de valores atropelou a principal resistência de curto prazo localizada na região dos 62,9k, agregando força a perna de alta intermediária iniciada aos 56,8k, com espaço para buscar a máxima do ano passado nas próximas semanas.


No cenário externo o clima segue positivo com boa parte das praças financeiras coladas em máximas históricas ou máximas anuais. Nos Estados Unidos o índice S&P500 trabalha movimento lateral de curtíssimo prazo, colado no topo histórico.
 

21 comentários:

  1. Sobre o Bolsa Empresário, não é de uma hora pra outra, mas já está melhorando: http://www.gazetadopovo.com.br/economia/emprestimos-do-bndes-caem-35-ate-novembro-0fva6qwe0c7e1p67y1emrjs9v

    O problema em ir mais rápido com esse corte - coisa que também me agradaria - é que alguns iam ver isso como mais um fator de desinvestimento, prejudicando a economia no curto prazo.

    Sobre a taxa de juros, estou inteiramente de acordo. Segurar-me-ei em bonds de IPCA. Quando políticos e jornalistas gostam de medidas econômicas, é bom ficar ressabiado. Única forma sustentável seria com boas reformas da previdência, tributária e trabalhista. Quem sabe.

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    1. No geral parece que continua piorando. Segundo análise da Folha, o bolsa empresário deve custar 224 bilhões em 2017. Equivale aos gastos efetuados pelo governo anterior, mais a correção da inflação. ( http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/10/1823160-subsidios-destinados-a-empresas-resistem-a-ajuste-no-governo-temer.shtml )


      Acredito ser mais pressão dos setores do que receio do governo de uma avaliação de desinvestimento. Apostaria até que uma reversão parcial e crescente dos subsídios e desonerações criaria ambiente favorável à retomada dos investimentos. O Brasil está no radar de muitos players globais, são várias oportunidades de elevado potencial, mas o investimento não deslancha, muito possivelmente porque poucos (ou quase ninguém) querem se arriscar num ambiente desigual. A partir do momento em que as condições de competição se tornam niveladas, a tendência é o capital buscar risco na economia real. Na minha avaliação, um cronograma de reversão parcial e crescente do bolsa empresário resolveria dois grandes problemas de uma só vez (fiscal e investimentos), além de criar condições para um ciclo positivo se retroalimentar com a melhora desses importantes indicadores.

      Abs,

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  2. Boa noite!
    Rapaz, temos a mesma visao. Concordo em tudo e mais um pouco.
    Se nao estivesse no celukar complementaria seu post relacionando taxa de juros de paises que visitei recentemente (grecia e russia).
    Nem arrumamos a casa ainda e o que temos é o governo cedendo à pressao de grandes investidores institucionais. A razao eu justifico me baseando em uma conversa que tive com um grande gerente de um "banco suíço": realizar o maior lucro possivel em um menor curto espaco de tempo possivel em um mercado emergente e realocar o asset para pracas mais seguras posteriormente.
    Se isso terá consequencias? Fod&-$%. Ninguem quer saber.
    Abracao!!!

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    1. Sim. Todo mundo está de olho nos bonds, pois os prêmios melhoraram nos países desenvolvidos, principalmente nos Estados Unidos, mas ainda não houve atração relevante de fluxo, pois esses mercados estão na venda. Como em algumas praças emergentes a onda compradora é forte (Brasil é um dos focos), muitos ainda estão surfando a favor da curva, acumulando os ganhos em posição com a queda das taxas futuras. A lógica é ganhar ao máximo com as taxas em mercados emergentes (que ainda estão compradores) e posteriormente realocar nos prêmios mais gordos em praças desenvolvidas, onde em algum momento a curva vai virar para compra. Como os ganhos em algumas praças emergentes são robustos (inclui Brasil), muitos podem acabar segurando as posições até atingir o "osso" ou o elástico ficar esticado demais na compra. A gordura expressiva acumulada permite pagar pra ver. A partir do momento em que os investidores estrangeiros enxergarem que o prêmio atingiu o limite e a curva reverter sua trajetória, parte relevante do capital tende a sair de bonds emergentes em direção aos bonds de praças desenvolvidas. Aos estrangeiros, ficar hold em bonds brasileiros, por exemplo, é arriscado demais em função da trajetória dívida/PIB. A dívida do Brasil é uma das mais altas do mundo entre uma cesta de países emergentes e em desenvolvimento e segue em trajetória de crescimento.
      Abs,

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  3. FI,

    Seu texto de hoje foi uma janela de clareza em meio ao nevoeiro econômico e político que nosso Brasil tem enfrentado na última década.

    Abs

    Miguel

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  4. Parabéns pela análise crítica e a qualidade dos textos! Sua resposta sobre o fluxo de capitais dimensiona a dinâmica dos fatos. Além disso, o mercado parece "menosprezar" o risco político e seus eventuais desdobramentos. O castelo de cartas pode sofrer um desmonte a qualquer momento!

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  5. Selic abaixo de 11 em 2017 será irresponsabilidade e politicagem

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    1. Bem ou mal, cedo ou tarde, o mercado vai determinar o piso para a Selic e cobrará o preço posteriormente se não fizermos o dever de casa corretamente.

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  6. Boa tarde. Qual sua opiniao sobre o sistema de reserva fracionárias? Ele ajuda a promover o desenvolvimento ou escraviza a população?

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    1. Não tenho nenhuma crítica ao sistema de reserva fracionária, principalmente agora que o Basileia III está sendo implementado. Funciona muito bem no mundo inteiro e não há outra opção disponível (pelo menos eu não conheço).

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    2. Ih rapaz, lastrear em algo físico/real é algo tão complexo que ninguém quer cogitar, afinal era assim uma vez e não deu certo.

      Mais cedo ou mais tarde as pessoas se darão conta do que é o sistema de reservas fracionárias e que não possuem nada além de dígitos na tela, a casa caiu, dirão alguns.

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  7. FI a concretizar se o cenario que vc descreveu, o posicionamento deveria ser inflacao e dolar. 2013 tivemosvim cenario semelhante com Dilma reduzindo na marra os juros. 2013 os fixados deram excelente retorno e 2014/15 o dolar rendeu bem. É essa a logica de posicionamento, quando o mercado virar ir para pos fixados e depois para o dolar, ou é prudente alocar gradualmente nos dois?

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    1. Sem dúvida são ativos potenciais, mas particularmente não tomo decisões desta forma. As alocações são feitas conforme apontamento da estratégia operacional, onde a compra/venda/manutenção precisam ter alguns pré-requisitos. A análise macro é importante para clarear o terreno para o investidor, ajudar identificar se o mercado está em distorção e qual o nível da distorção, auxiliar na identificação de oportunidades, agregar conforto psicológico às posições carregadas, etc.

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  8. FI,

    Bom post ... concordo contigo ... espero q de tempo de realizar lucro na especulação .. rs ..

    Abs,

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  9. Caro FI, ótimo post!
    Gostaria apenas de aprofundar sua opinião do bolsa empresário, que você abordou no primeiro comentário ao leitor:
    Partindo da premissa de que nossas empresas não são competitivas, abrir mercado e oferecer nossos ativos na bacia das almas não seria contraproducente?
    Li notícia de que consultorias apontam 2017 para um ano de aquisições no brasil apenas de ordem financeira (comprar barato pra vender caro).
    Questiono até que ponto é benéfico o fim/diminuição das isenções ou empréstimos subsidiados.
    Veja...não estou politizando, sou totalmente contra a escolha de "campeões nacionais", mas tenho certa dó ao antever o fim de empresas que, no frigir dos ovos, geravam divisas para o país.
    Qual sua opinião a respeito?
    Abraços, Pepe

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    1. Creio que boa parte das empresas se adaptariam ao novo cenário, que na verdade seria um novo normal. A dupla Dilma-Mantega deixou muitos empresários acomodados, não havia necessidade de conceder tantos benefícios. Fazendo uma reversão gradual, o risco será minimizado.
      Abs,

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  10. Primeiramente, parabéns pelo excelente trabalho! Já escrevi isso algumas vezes aqui, mas sempre é bom repetir!

    Além da tentativa de reanimar a economia, não estaria o Banco Central atuando de modo que, em eventual crise externa, possa elevar os juros no futuro para conter a saída de divisas do País (eu leio Jim Rickards. rs)? Ou isso não passa pela cabeça dos técnicos do Bacen? Abraços

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    1. Obrigado!
      Bem observado. Talvez o Banco Central esteja minimizando esse risco, já que a perda do grau de investimento criou cenário oposto do que se esperava, inclusive houve forte ingresso de capitais pouco tempo após o ocorrido.
      Abs,

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