quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Yellen quer acelerar corrida pela taxa neutra


O aguardado discurso da chair do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), Janet Yellen, feito no fim de tarde desta quarta-feira, acrescentou informações relevantes ao futuro da Fed Funds não devidamente captadas pela mídia.

O destaque nos jornais ficou por conta do trecho em que Yellen afirma que faz sentido elevar gradualmente as taxas de juros, num quadro em que a economia dos Estados Unidos se aproxima do pleno emprego e inflação na meta. A mensagem pode transmitir uma falsa ideia de que o ritmo de aperto monetário implementado no passado, caracterizado como gradual, será mantido.

Entretanto, o ponto principal do discurso da chair do FED não foi a menção ao ritmo gradual de aperto monetário, mas o gesto de possível maior agilidade na busca pela taxa neutra. Yellen disse que esperar muito tempo para começar a mover-se em direção à taxa neutra poderia levar a uma surpresa desagradável no caminho, como inflação alta demais, instabilidade financeira, ou ambos.

A taxa de juros neutra é calculada pelo FED a fim de se descobrir em que patamar a Fed Funds (taxa básica de juros) precisa estar para manter a economia funcionando perfeitamente em pleno emprego e inflação ancorada na meta.

Estima-se que a taxa neutra esteja localizada ao redor de 3% ao ano, que é o patamar onde a mediana das projeções para a Fed Funds dos membros de Comitê para de subir e se mantêm estacionada no longo prazo.

Na última projeção divulgada ao mercado, a mediana das estimativas aponta que a Fed Funds só vai se aproximar do ponto neutro no fim de 2019, aos 2,9% ao ano. Entre os 17 membros do Comitê, apenas 6 esperam que a Fed Funds esteja acima de 3% no fim de 2019. Ainda existe um peso muito dovish nas perspectivas, o que só aumenta a margem para que projeções mais hawkish ganhem força nos próximos trimestres.


Além disso, a mensagem de Yellen não é compatível com o atual timing presente nas últimas projeções para se alcançar a taxa neutra. Fim de 2019 significa esperar tempo demais para se alcançar o patamar ideal para a Fed Funds (taxa neutra). É um risco que a autoridade monetária norte-americana parece não estar disposta a correr.

Yellen tem motivos de sobra para querer acelerar o passo. Donald Trump vai fazer o discurso de posse nesta sexta-feira e detalhar melhor seus planos para a economia norte-americana. A julgar pelo tom de suas declarações nas últimas semanas e composição de sua equipe, Trump parece bem disposto a cumprir suas promessas de campanha.

Mesmo considerando uma improvável versão light de Donald Trump, o FED terá que responder ao processo de aceleração da inflação. Nesta quarta-feira o Departamento de Trabalho dos Estados Unidos informou que o IPC (índice de inflação oficial) subiu 0,3% no mês de dezembro, fechando o ano de 2016 com uma alta de 2,1%, marcando a inflação mais elevada desde 2011.

A inflação chegou na meta a ser perseguida pelo FED (2% ao ano) e, a partir de agora, não há margem para amortecer eventuais surpresas indesejáveis. Embora os membros do Comitê esperem que a inflação continue ancorada em 2% no fim de 2017, a aceleração do mês de dezembro exigirá mais atenção ao balanço de riscos e o FED não pode demorar muito para começar a preparar o mercado para mais uma elevação de 0,25 p.p. na Fed Funds.

A curva de juros futuros reagiu ao índice de inflação apontando para cima, o que pode por um fim ao ciclo de alívio iniciado em meados de dezembro do ano passado. O rendimento da Treasury de 10 anos (título do Tesouro norte-americano) saltou de 2,33% para 2,42%, trabalhando fundo duplo ascendente.


O S&P500 segue em movimento lateral de curto prazo, colado na máxima histórica, sem apresentar novidades.


No Brasil, o índice Bovespa fechou o pregão desta quarta-feira em leve baixa, próximo da principal linha de resistência localizada na faixa dos 65,3k. Apesar de se aproximar da sobrecompra, o mercado segue comprado e tecnicamente bem armado para trabalhar rompimento da máxima do ano passado. Caso o rompimento seja confirmado nas próximas semanas, a tendência principal de alta, iniciada aos 37k, será ainda mais fortalecida.
 

4 comentários:

  1. O curioso é que na realidade o FED não está controlando a FFR (Federal Funds Rate), ele está manipulando apenas a taxa de juros que ele próprio paga sobre as reservas em excesso depositadas pelos bancos no Banco Central.

    Esses dias estava vendo alguns dados sobre os EUA e é interessante que na verdade o movimento de aperto monetário já começou antes mesmo de o FED ter elevado o juros pela primeira vez lá no final de 2015. Desde a metade de 2014 o FED começou um movimento claro no sentido de começar a "enxugar" a base monetária.

    Adoro o blog tanto pelas noticias quanto pela análise feita, parabéns!

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    1. Muito interessante seu comentário, tenho acompanhando apenas a FFR efetiva, que fechou dezembro em 0,54% ao ano, colada, portanto, na parte de baixo da atual banda a ser perseguida (0,50% a 0,75%).

      Com relação ao enxugamento da base monetária, a última informação que registrei pela comunicação do FED foi o plano de normalização das condições monetárias divulgado no fim de 2014. Depois disso não surgiram mudanças ou informações adicionais ao plano. Passado pouco mais de dois anos, pude perceber que até o momento o FED está seguindo sua estratégia. Para buscar a meta da FFR, o FED utiliza as linhas de recompra overnight, mas o histórico mostra que ainda não querem fugir da banda inferior. Já a carteira gigantesca de ativos do FED (que é o grande problema para o futuro) será reduzida de forma gradual e previsível através do encerramento ou diminuição dos reinvestimentos dos rendimentos de seu estoque de títulos, a depender das condições econômicas e financeiras após o inicio do ciclo de aperto monetário, sendo que ainda não há perspectiva para venda dos ativos lastreados em hipotecas. Concluída a fase de desalavancagem, que a princípio tende a ser bastante longa (uma década ou mais), o FED deve manter uma carteira bem menor, composta apenas por Treasurys, necessária para garantir o cumprimento da meta para a FFR.

      Obrigado!

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    2. Alto nível a discussão ... bom pra eu aprender alguma coisa ...

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    3. FI,

      Dados interessantes sobre os juros dos EUA ....

      Abs,

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