quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Na contramão do mundo, mais uma vez


Indicadores de atividade industrial das principais economias mundiais continuam surpreendendo positivamente os investidores e empresários, mostrando ímpeto mais forte dos últimos três anos no movimento de recuperação.

Na China, o Índice Gerente de Compras se manteve praticamente estável no mês de janeiro deste ano na comparação com o mês de dezembro do ano passado, oscilando de 51,4 pontos para 51,3 pontos, revelando manutenção de expansão da atividade manufatureira, sustentada pela injeção de crédito no sistema financeiro, onde os empréstimos bancários atingiram novo recorde.

No Japão, o Índice Gerente de Compras subiu de 52,4 pontos em dezembro/2016 para 52,7 pontos em janeiro/2017, mostrando força relevante no movimento de recuperação da atividade iniciado cerca de doze meses atrás.

Na Índia, a atividade industrial conseguiu sair do terreno de contração, voltando novamente a demonstrar expansão. O Índice Gerente de Compras registrou 50,4 pontos em janeiro deste ano, contra 49,6 pontos registrados no mês anterior.

A indústria da Rússia segue em forte ralli de expansão, atingindo incríveis 54,7 pontos em janeiro deste ano, alta frente aos 53,7 pontos registrados em dezembro do ano passado, nível já considerado altamente satisfatório. Há pouco mais de um ano atrás a atividade manufatureira russa amargava em contração.

A forte reviravolta da indústria russa virou um case de sucesso e revela que, ao contrário de alguns países (não é necessário citar nomes), a economia estava muito bem preparada para aproveitar o movimento de reação dos preços das commodities. O nível de expansão da atividade industrial russa é tão forte que já se aproxima do pico registrado em 2006/2007, período conhecido como pré-subprime, onde economias e mercados atingiram seus pontos máximos.

Na zona do euro, o Índice Gerente de Compras renovou nova máxima dos últimos seis anos ao registrar 55,2 pontos em janeiro/2017, contra 54,9 pontos de dezembro do ano passado. A expansão da atividade industrial dos Estados Unidos também renovou máxima em mais de dois anos ao atingir 55 pontos em janeiro/2017, alta frente aos 54,3 pontos registrados no mês anterior.

As máquinas estão a todo vapor ao redor do mundo, o que provocou impulso do Índice Global de Manufatura calculado pelo Instituto Markit em parceria com o JP Morgan para o nível máximo de expansão registrado em 2013.


Os indicadores econômicos estão confirmando os prognósticos de aceleração do processo de retomada do crescimento a nível global neste ano, que por sua vez tende a ser acompanhado pela retomada da inflação (ou aumento de inflação) em vários países.

O Brasil, lamentavelmente e, mais uma vez, não conseguiu pegar carona no processo de retomada da atividade global. Repetindo vexames do passado, a economia brasileira está na contramão do mundo.

O nosso gráfico do Índice Gerente de Compras é desolador. Enquanto o mundo está colado na máxima de 2013, a atividade industrial brasileira está muito abaixo do ponto mínimo registrado em 2013.


Além de não conseguir encontrar forças para se recuperar, a indústria brasileira segue afundando em terreno de contração. O Índice Gerente de Compras caiu de 45,2 pontos em dezembro de 2016 para 44 pontos em janeiro de 2017, nível significativamente baixo, incompatível com mercados emergentes ou mesmo em desenvolvimento.

A depressão da atividade manufatureira é mais um sinal de alerta para a expressiva desarrumação da economia brasileira. A pesquisa de janeiro continua apontando que apesar do otimismo dos empresários para o futuro, uma série de condições inapropriadas está barrando a retomada da produção. Além do ambiente de negócios ruim, o aumento do custo de produção (influenciado pelos preços mais altos dos insumos) jogou a inflação de preços cobrados pelas fábricas para o ritmo mais alto desde junho do ano passado, ultrapassando sua média de longo prazo.

Os números capturados pela pesquisa do Instituto Markit contrastam com as projeções de inflação do Banco Central. Este, por sua vez, demonstra estar determinado em continuar cortando agressivamente a taxa Selic, num movimento de política monetária possivelmente insustentável e comprometedor para o futuro da inflação.

No mercado de capitais, o índice Bovespa mostrou nova sinalização de fraqueza com o pavio longo superior no candle desta quarta-feira, mantendo o mercado vendido no curtíssimo prazo, mas sem apresentar ameaça a tendência principal de alta


Nos Estados Unidos o índice S&P500 fechou o pregão desta quarta-feira próximo da estabilidade, ainda se sustentando sobre a linha central de bollinger. O Comitê de Política Monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) decidiu manter a fed funds (taxa básica de juros) na faixa entre 0,50% a 0,75% ao ano, ratificando o cenário positivo para a economia, mas sem emitir nenhum sinal sobre o momento do próximo aumento. 

  
O destaque do dia no País ficou mais uma vez por conta de mudanças relevantes evidenciadas pela nova administração. O presidente Donald Trump adotou uma postura bastante agressiva em relação ao Irã após realização de um teste de míssil balístico de médio alcance.

Michael Flynn, assessor de segurança nacional, declarou que os Estados Unidos colocaram oficialmente o Irã sob advertência. A medida marca uma mudança considerável no tratamento dos Estados Unidos com o Irã, o que pode abrir espaço para criação de novas sanções. Cabe ressaltar que o acordo nuclear realizado em 2015 pelo ex-presidente Barack Obama gerou certa tensão por sinalizar um abrandamento na postura dos Estados Unidos com o Irã. Flynn disse que ao invés de agradecer os Estados Unidos pelo acordo nuclear, o Irã está agora se sentindo encorajado.

7 comentários:

  1. Com um Estado protecionista e anticoncorrência, só pode acontecer isso. Premiando a ineficiência e garantindo a reserva de mercado dos barões da indústria.

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  2. Parabéns FI por suas análises sempre muito bem estruturadas. Sem dúvida, é o melhor blog de análise macro que conheço. Já pensou em fazer um podcast semanal? Abraço e obrigado

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  3. FI,

    Heheh tranquilo ... não precisamos de industrias .. vamos vender commodities rs ....

    Será que vendi o ibov cedo demais?

    hehehe

    Abs,

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  4. Pensando em um horizonte de 3 anos, visto que nossa bolsa vem de desvalorizações grandes e longas, como avalia a perspectiva de valorização nos próximos anos para o ibov ? valeu

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    1. O Brasil está em bull market. Isso vale tanto para a renda fixa, quanto para a renda variável. Mas até quando esse ciclo vai durar não faço a menor ideia rs..

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  5. O Brasil é um País com muito endividamento. Tanto pessoas como empresas possuem dívidas, não são todos, mas creio que são a maioria.
    Esse fato aliado a carga tributária, burocracia e média salarial baixa resulta em lentidão para reação do mercado interno graças a falta de dinheiro para consumir, já que os consumidores estão endividados e ganham pouco em sua maioria.
    Falta de crédito para as empresas, falta de capital para investir ou mesmo saldar dívidas, o que engessa a possibilidade de crescimento e ao mesmo tempo faz com que as empresas percam competitividade no cenário doméstico e internacional.
    Problemas relacionados a infra estrutura também prejudicam alguns setores. Enfim a situação é complexa e antiga.

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