quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

O caos vai passar, mas a insanidade não


Ruas vazias, lojas fechadas, ônibus parados. Os saques, assaltos e assassinatos dispararam no Espírito Santo desde o início da greve dos policiais militares. A onda de criminalidade e total sensação de insegurança deixaram não só os capixabas, mas todos os brasileiros, em pânico.

Os números são impressionantes, mais de 100 assassinatos e 20 milhões de reais em saques. Em Vitória, capital do estado, somente na última segunda-feira ocorreram 200 furtos e roubos de veículos.

A greve é organizada por familiares de policiais acomodados em tendas e barracas na frente dos batalhões militares, impedindo a saída das viaturas. O movimento começou como um protesto não tão incomum realizado na última sexta-feira em frente a um Destacamento da Política Militar. O ato resistiu e os manifestantes decidiram passar a noite no local. A partir desse ponto as redes sociais, mais uma vez, fizeram o movimento ganhar proporções inimagináveis. O gesto comoveu outros familiares de policiais militares que saíram de suas residências para fazer o mesmo nos dias seguintes.

A principal reivindicação dos manifestantes está relacionada ao reajuste salarial. Segundo a Associação dos Oficiais Militares do Espírito Santo, o piso salarial de um soldado da Polícia Militar é de R$ 2.646,12, inferior à média nacional de R$ 3.980,00, que também pode ser considerada baixa em função dos riscos da profissão, mas, também, pela grande discrepância de salários entre servidores públicos.

Naturalmente, nos próximos dias, o caos vai passar no Espírito Santo com o reforço de tropas do Exército e da Força Nacional. Quando a greve se encerrar, as pessoas voltarão a levar uma vida cotidiana no estado. A insanidade, por outro lado, continuará existindo de forma gritante nos orçamentos da União, Estados e Municípios.

Cargos de super salários e super benefícios estão espalhados na estrutura do estado, criando uma disparidade significativa na folha de pagamento. Os poucos que recebem muito acabam gerando revolta entre os demais, que passam a exigir maiores salários. A referência para o salário da base da pirâmide sempre parte do topo.

O número de cargos públicos criados desde a década passada aumentou significativamente, a ponto de ser o principal objeto de desejo entre boa parte de estudantes universitários no País. Com mais cargos e mais super salários nas folhas de pagamentos, os governos estão asfixiados financeiramente.

Os grandes privilégios de alguns servidores públicos são apenas parte de um problema muito mais abrangente encravado em toda a cadeia política e econômica brasileira. O ex-ministro da Fazenda, Joaquim Levy, afirmou durante um fórum nacional em 2015 que o patrimonialismo está cobrando um preço muito alto.

O caos no Espírito Santo é apenas uma das várias faturas que a sociedade brasileira precisa pagar para sustentar esse modelo arcaico. Levy perdeu força durante o governo Dilma justamente por tentar combater o patrimonialismo, pois suas propostas afetariam privilégios de grandes grupos.

Há bastante tempo o economista Marcos Lisboa costuma dizer que nosso País virou uma república da meia-entrada. Vários grupos conseguem obter privilégios e benefícios do governo, debilitando a economia.

A partir do momento em que a carga tributária, nunca suficiente para cobrir privilégios cada vez maiores, atinge seu ponto de esgotamento após uma trajetória ascendente, os problemas começam a aparecer com mais freqüência.

Sem poder aumentar mais os impostos, o sistema deveria colapsar. Mas no Brasil, ao contrário do que se poderia esperar, os benefícios estão cada vez mais fortes e indestrutíveis. A regra entre diversos grupos é lutar pelos seus privilégios e não pela melhora do País. Prova disso é a preferência do governo em tocar uma agenda dificílima de reformas impopulares ao invés de rever o gigantesco peso das desonerações e subsídios no orçamento ou acabar com a farra dos super salários, super benefícios e excesso de cargos públicos.

As reformas são essenciais, mas não provocarão alívio de curto e médio prazo no endividamento do governo brasileiro, em rota insustentável. Esse é o reflexo da insanidade presente no Brasil, o governo quer combater uma dívida de 70% do PIB (Produto Interno Bruto), podendo chegar a 80% do PIB já em 2019, tirando algumas centenas de milhões da população, carente de serviços públicos minimante razoáveis, ao invés de recuperar as dezenas ou mesmo centenas de bilhões que correm pelo ralo em privilégios e benefícios a determinados grupos.

14 comentários:

  1. Ainda que o governo não tenha feito boas reformas e não olhado o problema como um todo visto que o RJ, RS e ES quebrados, acho que o que mais falta nessas horas são pessoas de atitudes, pessoas que assim como os familiares dos PM de ES não aguentaram mais e foram impedir seus parentes de se expor na rua com o minimo de seguraça. Nosso pais carece de bons administradores públicos e sinceramente não vejo uma saida a curto e medio prazo, primeiro por que a minha geração já esta falando (pessoas da casa dos 30) e a proxima geração eu não tenho o mínimo de esperança. Enfim faltam mais Dorias, Moros, Holiday, pessoas que nem todos mundo gostam mas apresentam ideias diferentes do que a gente tem visto e que talvez tenha efeitos a longo prazo.
    Abraço e parabens pela ótima reflexão/texto/opinião.

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  2. FI,

    Perfeito!

    O ajuste fiscal desse (des)governo é uma piada! Só para dar um exemplo, você sabia que cerca de 5.000 petistas, TODOS com cargos comissionados, ainda estão tranquilos lá em Brasília?

    E sabe o que o Vampiro, que é nada mais nada menos que um frouxo, falou a respeito disso? Que não é hora de fazer caça às bruxas! Tem como a coisa dar certo com esse pensamento?

    A verdade é que o Bananil é um país de castas. Se você for da casta judiciária ou politica, terá uma vida de rei! Agora, se você for da casta comum, que é a de 99,99% da população, terá que (sobre)viver para sustentar essa pouca vergonha que acontece com os nossos impostos...

    A situação está crítica e tudo indica que vai piorar ainda mais.

    Abraços!

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    1. Não sabia investidor livre, mas também não me surpreendo com a notícia. Era de se esperar.
      Abs,

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  3. FI,

    Não vai ser dessa vez que viraremos a Suiça .. rs ..

    Abs,

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  4. Eu confesso que não vejo como o Brasil vai conseguir levar essa situação até 2022. As pessoas estão completamente fora da realidade e acham que o Estado pode gastar o que quiser e deu pra bola.

    Agora o problema é que os poucos responsáveis acabam se ferrando pelos inúmeros irresponsáveis.

    Quando eu vejo servidor público eu fico até Feliz, porque na época de vacas gordas ninguém reclamava dos reajustes, aí agora que o dinheiro acabou estão todos desesperados.

    Tem mais é que se ferrar mesmo pra ver se aprende.

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    1. 2022 é muito tempo, não acho que aguentamos até lá do jeito que está. A dívida bruta tende a ultrapassar os 80% do PIB já em 2019. Acima desse patamar, é quase que um caminho sem volta, fica muito difícil reverter.

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  5. Ótimo artigo, FI! Como diria o Sergio Porto, é o óbvio ululante!
    Sugestão para artigo: falar sobre o Patrimonialismo
    Abraço!

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  6. Suas palavras deveriam ser escutadas por essa quadrilha que governa nosso País, contudo suas palavras são como quem prega em um Deserto, abçs FI.

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  7. Excelente post FI e obrigado por atender minha sugestão. O que aconteceu aqui com a policia foi uma vergonha. Para mim um ataque terrorista, movimento totalmente ilegal, enfim. Entretanto o que motivou o movimento, foi o sentimento de injustiça. O ES é um dos estados com o melhor balanço fiscal da federação, mesmo com o desatre da Samarco e a queda de arrecadação com royalts. Agora as pessoas estão cansadas de serem única e exclusivamente as massacradas com o ajsute fiscal que como você falou deixa de fora todos os privilégios dos nossos nobres ou clerigos pomposos.
    Ajuste fiscal para todos!

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  8. FI, excelente artigo, como sempre. Por favor nunca deixe de escrever este blog!!!

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