segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Toshins tememoros com Trump é bom para o Brasil


Os famosos fundos hedge japoneses especialistas em câmbio e títulos de renda fixa, conhecidos como toshins, podem estar adicionando mais gás ao mercado da dívida pública e privada em praças emergentes, especialmente Brasil e Rússia.

O longo histórico de juros baixos no Japão fizeram dos toshins um dos maiores especialistas em renda fixa do mundo inteiro. Sem muitas opções rentáveis no mercado local, muitos japoneses aplicam suas economias em fundos toshins para buscarem rentabilidade minimamente razoável em bonds de outras praças.

Por serem especialistas, os movimentos dos japoneses são acompanhados de perto por gestores de recursos do mundo inteiro. Muitos querem surfar a mesma onda dos toshins e, normalmente, quando um viés é descoberto, ocorre efeito cascata.

Dados recentes revelam que os toshins estão temerosos com a administração Trump, seja pela perspectiva de déficit fiscal e inflação maior ou pela resposta que o FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) precisa dar este ano em matéria de política monetária. Juros subindo mais rápido e Trump no ataque são motivos mais do que suficientes para manutenção da cautela.

Os toshins não estão querendo pagar para ver. O movimento de desmonte de posições compradas em treasurys (títulos do Tesouro norte-americano) começou no mês de novembro do ano passado e se intensificou no mês seguinte. Somente no mês de dezembro, o saldo líquido dos japoneses em treasurys ficou negativo em 21,3 bilhões de dólares.

O valor representa apenas uma fração sobre a posição estimada de 1,1 trilhão de dólares em treasurys nas mãos dos japoneses. Para o mercado mais líquido do mundo pode parecer pouco, mas para as praças emergentes a quantia é significativa.

Ao vender treasurys, os toshins imediatamente procuram outras opções no mercado global para não ter que pagar o pedágio (juro quase zero) em títulos do governo japonês. Uma pesquisa feita com 16 estrategistas de instituições financeiras globais, entre eles o Mitsubishi UFJ Kokusai Asset Management e Mizuho Bank, apontou Brasil e Rússia como destino predileto para aplicações em moedas e títulos locais.

A tendência de queda do dólar contra o real, atualmente na mínima do ano passado, uma das mais fortes no mundo, colabora para atrair mais carry-trade para o Brasil. Além disso, a intensificação dos cortes na taxa básica de juros acelera o processo de tomada de decisão dos investidores estrangeiros que estão de olho nos bonds brasileiros. O estrangeiro com dedo no gatilho para títulos de renda fixa no Brasil tem de agir rápido para não pegar pré-fixados com taxas ainda menores e nem surfar uma onda fria de pós-fixado.


De novembro/2016 (mês em que os toshins começaram a registrar saldo negativo em treasurys) até o fechamento do pregão nesta segunda-feira, o contrato de juros futuros com vencimento em 2022 despencou 2,36 pontos.


Novembro é justamente o mês em que Donald Trump se elegeu presidente dos Estados Unidos. Na medida em que os discursos foram alimentando uma perspectiva de déficit fiscal maior e inflação mais elevada, o fluxo comprador em bonds brasileiros foi ficando cada vez mais intenso.

Com a incerteza pairando sobre os Estados Unidos, os ativos de risco brasileiros respondem ao cenário local de inflação em desaceleração no curto prazo combinado com a perspectiva de aprovação de mais reformas estruturais.

O índice Bovespa alcançou nova máxima do ano no pregão desta segunda-feira, acionando importante pivot de alta na perna intermediária iniciada aos 56,8k. O movimento também aciona mais força à tendência principal de alta iniciada aos 37k. Mercado segue comprado.
 

5 comentários:

  1. Muito interessante! Nunca ouvi falar dos Toshins.
    Você considera possível que esses fundos, após o lucro com juros e valorizaçao do real, saírem rapidamente e gerar um efeito inverso na nossa moeda? Como acompanhar isso em nosso mercado?
    Obrigado!

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    1. Sim, isso não é incomum. Os japoneses não costumam ficar hold em praças emergentes. O fluxo pode se reverter rapidamente, apesar de não haver sinalização para tal movimento.
      Abs,

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  2. FI,

    Interessante .... não conhecia isso ...

    Abs,

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  3. "A tendência de queda do dólar contra o real, atualmente na mínima do ano passado, uma das mais fortes no mundo, colabora para atrair mais carry-trade para o Brasil"
    Não entendi. Não era para ser o oposto? Pois, quanto mais barato o dólar, menos reais os japonas podem comprar e aplicar por aqui...

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    1. Não, o importante é a trajetória da moeda. Com o real numa tendência de alta, fica mais fácil para fazer carry, pois o preço de saída tende a ser maior comparado ao preço de entrada. Ou seja, quando a posição for desmontada, o estrangeiro tende a ter mais reais na mão para trocar por dólar.

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