quinta-feira, 30 de março de 2017

Relatório de Inflação crava corte de 1 p.p. na taxa Selic


O Banco Central divulgou na manhã desta quinta-feira o Relatório de Inflação do primeiro trimestre de 2017, informando as novas projeções para a inflação brasileira. No cenário de referência, a estimativa para o IPCA é de 3,9% em 2017 e 4,0% no fim de 2018.

Cabe ressaltar que os cálculos do cenário de referência são apurados levando em consideração uma taxa Selic e taxa de câmbio constantes durante todo o horizonte de projeções. Nesse caso, é considerada a meta da taxa Selic fixada na última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), em 12,25% ao ano. No próprio documento, os membros do Comitê consideram que as projeções do cenário de referência são pouco informativas num contexto de flexibilização da política monetária.

O foco está nas projeções de mercado, apuradas pelo boletim Focus. Atualmente, são esses números que norteiam as decisões do Copom. As expectativas para a taxa Selic na pesquisa Focus caíram em comparação aos valores utilizados na última reunião do Copom (fevereiro/2017). Agora, para o final de 2017, a mediana das projeções de mercado aponta Selic em 9,0% ao ano (queda de 0,50 p.p.). Para o fim de 2018, a mediana das estimativas de mercado caiu de 9,0% para 8,5% ao ano.

No câmbio, as expectativas cederam levemente de R$ 3,30 para R$ 3,28 no final de 2017 e mantiveram-se constantes para o final de 2018, em R$ 3,40.

Considerando a evolução para a taxa Selic e taxa de câmbio, a projeção do mercado indica que a inflação encerrará 2017 em 4,0% (0,2 p.p. abaixo do valor apurado na reunião do Copom de feveriro).  Para o fim de 2018, a projeção permaneceu aos 4,5%, sem alteração em relação à última reunião do Copom.

O Banco Central atribui à queda nas projeções de inflação ao processo de difusão mais profundo e consolidação da desinflação nos componentes mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária.

Com o respaldo do mercado mais otimista apontando projeções de inflação menores, o Banco Central tende aproveitar a janela de oportunidade para intensificar os cortes na taxa Selic, de 0,75 p.p. para 1,0 p.p. O trecho abaixo extraído do Relatório de Inflação deixou essa expectativa muito clara:

“a consolidação do cenário de desinflação mais difundida, que abrange os componentes da inflação mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária, fortalece a possibilidade de uma intensificação moderada do ritmo de flexibilização da política monetária, em relação ao ritmo imprimido nas duas últimas reuniões do Copom.”

A autoridade monetária também frisou que a extensão do ciclo de flexibilização dependerá das projeções e expectativas de inflação, inclusive para 2019. No documento apresentado hoje, a projeção do mercado para a inflação no fim do primeiro trimestre de 2019 está em 4,6%. As estimativas para a taxa de juros estrutural da economia brasileira (uma incógnita) também influenciarão a extensão do ciclo de afrouxamento, sabe-se lá como.

A princípio, o Banco Central deve encontrar terreno favorável para manter um agressivo ritmo de cortes na taxa Selic, já que suas projeções de curto prazo apontam inflação de 0,28%, 0,53% e 0,42% para março, abril e maio, respectivamente. Caso confirmado, a inflação dos últimos doze meses cairá para 4,15% em maio de 2017, cenário propício para manutenção do clima positivo entre os agentes.

As taxas de juros futuros da ponta curta subiram nesta quinta-feira, enquanto as taxas dos contratos de vencimento mais longo cederam. Essa distorção se deve às declarações do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que deu a possibilidade de revisão da meta de inflação para 2018 na reunião do CMN (Conselho Monetário Nacional) a ser realizada no mês de junho.

Caso a meta de inflação, atualmente em 4,5% ao ano, seja revisada para baixo em 2018, o Banco Central não poderá seguir com uma política de afrouxamento monetário agressiva por muito tempo, pois dificilmente conseguirá atingir o novo objetivo estabelecido pelo CMN.

A meta de inflação a ser perseguida em 2018 já foi estabelecida em 4,5% na reunião do CMN de junho do ano passado, mas pode ser revisada. Já a meta de inflação a ser perseguida pelo Banco Central em 2019 ainda não foi definida e será decidida na próxima reunião do CMN.

Na prática, apesar do desejo do governo, não há condições para redução da meta de inflação já em 2018, conforme apontam as próprias projeções do boletim Focus. Espera-se que as futuras alterações na meta de inflação sejam feitas na ordem de 0,50 p.p. Um corte de 0,25 p.p. na meta de inflação a ser perseguida, entretanto, apesar de simbólico e de pouca relevância, não deixa de ser um bom material de propaganda para a campanha de 2018. Mesmo sendo pequeno, o governo poderá usar o discurso de que conseguiu reduzir a meta de inflação após anos de descontrole.

Para o longo prazo, a situação tende a ser bem mais complicada. É improvável que o clima de otimismo do mercado com a inflação dure por muito mais tempo, tanto por razões técnicas, quanto por razões macroeconômicas.

A significativa onda compradora em contratos de juros futuros, iniciada em setembro de 2015, está se aproximando do ponto de esgotamento técnico. Os candles semanais são bem menores em relação aos candles emitidos no início da tendência, mostrando menos vigor da força compradora e mais competitividade no mercado.

As taxas praticadas hoje já se aproximam da taxa mínima, registrada em 2012 (em função da redução insustentável da taxa Selic a 7,25% ao ano). Nas condições atuais, o Banco Central não conseguirá reduzir a taxa Selic de forma sustentável para perto do patamar atingido em 2012, o que revela excesso de otimismo do mercado nos prêmios dos contratos de juros futuros. Além disso, os indicadores sinalizam elevado nível de sobrecompra e divergências gritantes que podem resultar no término da atual tendência de baixa das taxas de juros futuros.


Da parte macroeconômica, o rápido aumento do endividamento do governo brasileiro, com projeções apontando para insustentáveis 80% do PIB (Produto Interno Bruto) já em 2019, inviabiliza um recuo sustentado da taxa Selic a médio e longo prazo. Quanto pior a dinâmica fiscal, mais prêmio (ou seja, taxa de juros) os investidores/operadores exigirão para emprestar dinheiro ao governo.

Ainda não há sinalização de reversão na curva de juros futuros, mas em função das condicionantes técnicas e macro, é recomendável aos investidores/operadores, que surfam na ponta comprada dessa belíssima curva de juros, traçar uma estratégia de liquidações escalonadas parciais enquanto a porta de saída ainda está arreganhada.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Os campeões da noite


A equipe econômica do governo federal anunciou uma série de medidas de contingenciamento na noite desta quarta-feira com objetivo de tapar o rombo 58,2 bilhões no Orçamento de 2017 e assegurar o cumprimento da meta déficit fiscal de 139 bilhões para este ano.

Para tapar um grande buraco (58,2 bi) inserido dentro de outro muito maior (139 bi), o governo criou o famoso IOF para as cooperativas de crédito com o objetivo de arrecadar 1,2 bilhão neste ano, considerou receitas extras com relicitação de quatro hidrelétricas visando arrecadar 10,1 bilhões, cortou a desoneração da folha de pagamentos parcialmente com objetivo de arrecadar 4,8 bilhões em 2017 e bloqueou 42,1 bilhões em gastos públicos.

O corte de gastos é expressivo, mas muito possivelmente não será concretizado no montante total anunciado pelo governo. A receita extra estimada de 8,6 bilhões com precatórios não sacados ficou de fora dos cálculos do governo por cautela jurídica. O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, afirmou ser plausível considerar essas receitas no Orçamento. Isso significa que o bloqueio de gastos poderá cair para 33,5 bilhões após a confirmação do ingresso de receita com os precatórios.

Atualmente o bloqueio é de 20,1 bilhões a serem divididos entre todos os Ministérios, 10,5 bilhões ao Programa de Aceleração do Crescimento (ou seja, menos recurso para investimento, que já está em nível criticamente baixo), 5,4 bilhões de emendas parlamentares obrigatórias e 6,1 bilhões de emendas não obrigatórias.

O contingenciamento para os Ministérios vai gerar polêmica, pois o governo não detalhou como será a divisão, apenas ressaltou que respeitará os limites mínimos para setores esculhambados como saúde e educação. Não haverá cortes em programas sociais (o que é positivo), mas não se sabe o que ocorrerá com alguns privilégios incompreensíveis, mais custosos e ineficazes.

A parte da reoneração da folha de pagamentos também deixou a desejar. Meirelles anunciou o fim da desoneração da folha para a grande maioria das empresas brasileiras, mas elegeu os setores campeões, aqueles que ficaram de fora da nova regra e continuarão a serem beneficiados pagando menos tributos à União.

Transporte rodoviário, ferroviário e metroviário de passageiros, construção civil, obras de infraestrutura e comunicação (?) são os campeões da noite. Esses setores continuarão usando a desoneração na folha de pagamentos e não pagarão a conta que foi dividida entre os demais.

Esse tipo de atitude é simplesmente lamentável. O governo teve a chance de nivelar uma condição específica de tributação para todos os setores, mas não o fez, preferiu continuar com os velhos vícios de uma mão pesada intervencionista sobre a economia, o que causa irritação às empresas e setores não beneficiados. É mais do que sabido que um ambiente de condições micro desniveladas e excesso de privilégios inibe o crescimento, a inovação e o surgimento da concorrência.

No cenário externo, a quarta-feira marcou o início da contagem regressiva para a desfiliação do Reino Unido com a União Europeia. A primeira-ministra britânica, Theresa May, notificou o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, com uma carta formal informando a separação. Ambas as partes deverão acertar os termos de rompimento até o fim de março de 2019, quando a desfiliação será concretizada.

A União Europeia, abalada por uma série de crises nos últimos anos, tende a fazer o máximo possível para não oferecer termos generosos ao Reino Unido, caso contrário, poderá incentivar outros países-membros a fazerem o mesmo, num momento político desfavorável ao bloco, com a ascensão dos partidos anti-Europa em vários cantos do continente.

No mesmo dia em que a carta britânica foi entregue ao Conselho Europeu, as autoridades reguladoras da União Europeia decidiram barrar o acordo de fusão de 29 bilhões de euros entre a Deutsche Borse e a London Stock Exchange. A fusão daria origem à maior bolsa de valores da Europa. A data da decisão é simbólica e não uma mera coincidência. A oposição do órgão regulador europeu é um presságio dos momentos difíceis a serem enfrentados por ambas as partes nos próximos 2 anos.

Ainda na noite desta quarta-feira, a secretária de Transporte dos Estados Unidos, Elaine Chao, disse que o governo deve apresentar seu plano de infraestrutura de 1 trilhão de dólares em 10 anos ainda neste ano.

O anúncio de Chao foi feito num momento estratégico, já que muitos investidores/operadores em Wall Street começam a ficar inquietos com a demora na divulgação de novas informações sobre esse importante programa do governo. A derrota do governo na semana passada também tem deixado alguns participantes até então otimistas com um pé atrás.

O índice S&P500 fechou mais um pregão em alta, mantendo o movimento de recuperação de preços iniciado nesta semana, porém ainda abaixo da linha central de bollinger.


No Brasil, o índice Bovespa fechou mais um pregão em alta, ultrapassando a importante barreira da linha central de bollinger e LTB dos 69,5k. O rompimento agrega força ao movimento comprador de curtíssimo prazo, sugerindo interrupção da tendência de baixa iniciada aos 69,5k, além de criar abertura para teste na linha de resistência localizada na faixa dos 66k.


terça-feira, 28 de março de 2017

Chile cria seu outsider, de esquerda


O governo de esquerda da presidente chilena Michele Bachelet pode ser considerado um completo desastre. Em seu último ano de mandato, Bachelet enfrenta um índice de 74% de desaprovação por conta de uma série de promessas não cumpridas, escândalos de corrupção, mal uso de verbas públicas e desajustes macroeconômicos.

De maneira geral, a população no Chile, não diferente de outros países da América Latina, está desencantada com os políticos, muito em função dos escândalos de corrupção de grandes proporções que tomaram conta do governo.

A decepção com governos de esquerda na América Latina criou condições para retomada de políticos de direita ou outsiders em alguns países, mas o Chile está mostrando que esse movimento está longe de ser uma tendência pré-definida.

Isso significa que um outsider de esquerda pode surgir e ganhar força mesmo diante de um quadro de baixíssima popularidade de um atual governo de esquerda no poder. Alejandro Guillier, ex-comentarista de TV, é um fenômeno na política do Chile.

Para as eleições presidências que ocorrem em novembro deste ano, o esquerdista Guillier é forte candidato à vitória num país considerado referência na América Latina. Até o fim do ano passado, Guillier era relativamente desconhecido no Chile, mas seu discurso de outsider está funcionando. O fato de não ser filiado a nenhum grande partido também tem ajudado.

As pesquisas de intenção de voto apontam segundo turno disputado entre o outsider de esquerda contra o já conhecido Sebastián Piñera, candidato de direita que promete restaurar o modelo chileno destruído por Bachelet.

Piñera é um político de carreira e já foi presidente do Chile entre 2010 a 2014, mas os investidores temem um disputado segundo turno por conta da força que os outsiders tem conquistado em vários países nos últimos anos.

O outsider de esquerda chileno é polêmico. Ano passado, considerou os fundos de pensão privados (uma indústria de 181 bilhões de dólares) como algo desastroso, acusando-os de deixar muitas pessoas mais pobres. Uma eventual vitória de Guillier no Chile poderá influenciar as eleições presidências no Brasil em 2018 e aumentar a incerteza política em toda a América Latina.

Na França, pesquisas de intenção de voto mais recentes apontam empate técnico no primeiro turno entre a candidata da extrema-direita anti-Europa Marine Le Pen e o centrista Emmanuel Macron. Entretanto, na simulação de segundo turno, Macron tem 68% dos votos e Le Pen apenas 38%.

O liberal François Fillon, conhecido como Thatcher francês (devido sua admiração por Margaret Thatcher), até pouco tempo atrás apontado como favorito à presidência da França, despencou nas pesquisas para o terceiro colocado, com atualmente apenas 18% das intenções de voto.

Fillon propõe corte de 500.000 cargos públicos, aumento da jornada de trabalho, enfraquecimento dos sindicatos e redução dos gastos públicos. Suas propostas foram bem recebidas pelos eleitores franceses, insatisfeitos com o socialismo do atual presidente François Hollande. Mas um escândalo com empregos fantasmas envolvendo a família de Fillon, avolumado pela dura propaganda da esquerda francesa, arruinou sua campanha, praticamente tirando fora da corrida eleitoral.

No cenário local, destaque para mais uma sinalização de falta de estratégia ou planejamento do governo. Exatamente uma semana após anunciar a retirada dos servidores estaduais e municipais da reforma da previdência, justificando invasão de competência, o governo volta atrás e afirma, agora, que dará seis meses para que Estados e municípios ajustem seus sistemas previdenciários após a sanção da reforma da Previdência ou adotem as regras aprovadas pelo Congresso.

A bolsa de valores mantém o movimento de alívio dos últimos dias, realizando teste na linha central de bollinger e LTB dos 69,5k. É o primeiro teste sobre uma região de resistência desde o início do movimento comprador de curtíssimo prazo iniciado na região dos 62,5k. A superação dessa região criará condições para o movimento comprador de curtíssimo prazo ganhar mais força, abrindo espaço técnico para retorno à região dos 66k. Caso a linha seja respeitada, as vendas voltam a dominar nos próximos pregões.


Nos Estados Unidos, o índice S&P500 subiu nesta terça-feira, voltando a encostar na linha central de bollinger. A aproximação de Trump com democratas moderados, visando aprovação da reforma tributária, tem melhorado o clima em Wall Street.


O dólar contra cesta de principais moedas globais encostou na mínima do ano, mantendo o movimento descendente. Moeda segue vendida no curto prazo, para alívio de Trump e sua equipe econômica.


segunda-feira, 27 de março de 2017

Trump vai buscar aproximação com os democratas


O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, falhou na semana passada ao tentar desmantelar o Obamacare. O fracasso de Trump é a mais nova evidência da elevada fragmentação do partido republicano, com algumas alas defendendo seus próprios ideais, independentemente da posição do partido.

O grande entrave para aprovação de uma nova lei da saúde partiu do grupo ultraconservador do partido republicano, conhecido como Freedom Caucus. Com cerca de 30 congressistas, o grupo se mostrou irredutível nas negociações, exigindo condições mais rigorosas que prejudicaria, principalmente, os norte-americanos mais pobres.

O revés da semana passada colocou fim à imagem de Donald Trump, um político que cumpre o que prometeu (acabar com o Obamacare era uma das principais propostas de sua campanha). Traumatizado pela derrota, Trump está ameaçando ignorar os parlamentares mais conservadores que relutam em seguir a agenda de seu partido.

O recado foi dado pelo próprio presidente dos Estados Unidos na última sexta-feira em pronunciamento após a derrota com o segundo adiamento da votação do Obamacare na Câmara dos Representantes. Trump afirmou que seu próximo foco é a aprovação da reforma tributária, sinalizando abertura para conversar com os parlamentares democratas (algo que não foi feito na tentativa de desmantelar o Obamcare).

O chefe de gabinete da Casa Branca, Reince Priebus, reforçou a posição de Trump ao dizer neste último domingo que uma ampla coalizão para a reforma tributária será formada, incluindo a participação de parlamentares democratas moderados. Priebus complementou afirmando que agora, mais do que nunca, está disposto a conversar com qualquer um.

A necessidade de busca de apoio dos democratas, por outro lado, derruba por terra a expectativa do mercado em torno da facilidade que Trump teria para governar um País com maioria de parlamentares republicanos na Câmara e no Senado. Esse novo cenário aumenta a incerteza política nos Estados Unidos, podendo deixar os mercados mais voláteis após um longo período de otimismo.

Na Europa, destaque para a primeira e importante vitória do partido da atual chancelar Angela Merkel, há 12 anos no poder. Seu partido (União Democrata Cristã) venceu com folga a eleição regional no estado de Sarre, jogando balde de água fria aos sociais democratas do SPD, liderados por Martin Schulz, até então considerado uma ameaça à reeleição de Merkel.

Na China, o governo anunciou mais uma medida para frear o avanço de preços no mercado imobiliário, onde existe forte suspeita de bolha. A partir de agora, novos projetos comerciais só podem ser vendidos para empresas qualificadas, instituições públicas e organizações sociais. Já os imóveis comerciais de segunda mão podem ser vendidos para pessoas físicas, desde que não tenham outras habitações em seus nomes. Além disso, os empréstimos para aquisições de imóveis comerciais para pessoas físicas estão suspensos.

Com as regras rígidas e preços extremamente elevados dos imóveis residências e, ainda, na falta de opções de investimento minimamente rentáveis no mercado financeiro local, as pessoas físicas partiram para a compra de imóveis comerciais como forma de investimento. Nas últimas semanas o governo vem anunciando uma série de restrições, na tentativa de conter o perigoso superaquecimento dos preços dos imóveis.

No Japão, apesar de o BoJ (autoridade monetária local) frisar que não pretende alterar sua política monetária frouxa por um algum tempo, cresce a pressão para que os membros do Comitê subam a meta de rendimento para os títulos do tesouro japonês de 10 anos. Desde novembro do ano passado, o rendimento se matem acima da meta de 0% a ser perseguida pelo BoJ.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Carne brasileira leva xeque mate na China


O presidente do Brasil, Michel Temer, afirmou nesta última quinta-feira que ligaria ainda neste mesmo dia ao presidente da China, Xi Jinping, na tentativa praticamente desesperada de fazer com que o gigante asiático volte atrás em sua decisão de suspender a importação de carne brasileira.

O impressionante e desnecessário escândalo provocado pela Operação Carne Fraca da Polícia Federal se transformou num lamentável show de horror a nível internacional, prejudicando sensivelmente um dos setores mais robustos da economia brasileira. O Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina e de aves, e o quarto em carne suína. Já a China, é a maior compradora mundial de carne brasileira.

Tanto a posição de maior player global de carnes, quanto o acesso ao gigante mercado consumidor chinês, estão seriamente ameaçados, após longos anos de trabalho árduo. A conversa de Temer com Xi Jinping era de suma importância, mas aparentemente falhou. Talvez seja melhor montar uma equipe corporativa e pegar um avião com urgência rumo à China.

Corrobora para suspeita de falha na investida brasileira o anúncio feito na manhã desta sexta-feira pelo primeiro-ministro chinês, Li Keqiang. Em visita a Austrália, Li Keqiang anunciou que a China eliminou todas as restrições sobre as importações de carne bovina australiana, o que mostra que o País está realmente fechando seu mercado de carnes para o Brasil e abrindo para a Austrália.

Anteriormente, apenas 11 vendedores australianos tinham autorização para exportar carne à China. Agora, a Austrália tem acesso expandido ao mercado consumidor chinês, se colocando como o primeiro grande País pronto para ocupar o espaço deixado pelo Brasil. Malcolm Turnbull, primeiro-ministro da Austrália, aproveitou o momento para jogar mais lenha na fogueira contra o Brasil, dizendo que sua produção, verde e de alta qualidade, garante a segurança alimentar da China.

Os australianos definitivamente conquistaram a confiança dos chineses e os benefícios não param por aí. O deslize do Brasil acelerou o movimento de aproximação entre as duas economias. Os chineses não só vão comprar mais carnes australianas, como também vão investir mais no País.

Durante a visita, o premiê chinês confirmou que a China State Construction Engineering vai construir um novo porto e uma linha ferroviária para uma mina a ser aprovada em Western Australia (um grande projeto de mineração de 6 bilhões de dólares autralianos), sinalizando um significativo aumento, no futuro, de fatia de mercado do minério de ferro australiano.

A China é o caso mais dramático para o Brasil neste momento, mas não é o único revés. No geral, estamos perdendo mercado em efeito dominó. Levantamento divulgado pelo Ministério da Agricultura mostra que subiu para 18 o número de países (ou blocos) que já adotaram alguma restrição à carne brasileira.

Já o presidente da ABIEC (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne), estimou que 96 milhões de dólares em carne bovina e derivados estão parados somente no porto de Santos, impedidos de seguir viagem por conta das restrições adotadas pelos importadores.

A União Europeia ameaça impor mais barreiras contra a carne brasileira, pressionando o governo Temer tomar “medidas mais decisivas”. A estratégia do governo de minimizar o problema tem irritado os diplomatas europeus, o que pode agravar ainda mais a situação para os exportadores brasileiros. Os chineses também se mostram insatisfeitos, pedindo uma ação mais enérgica por parte do governo brasileiro, cobrando uma investigação mais profunda e punições rigorosas.

Como se não bastasse todo o prejuízo causado até o momento, a resposta do governo não tem sido adequada, o que contribui para agravar ainda mais a situação. A estratégia de minimizar o problema se tornou uma marca do governo Temer (presente desde o impeachment), mas só funcionou quando o assunto foi direcionado ao público interno.

No mercado de capitais, as atenções dos investidores/operadores continuaram voltadas à nova ofensiva de Trump para desmantelar o Obamacare. O presidente dos Estados Unidos deu um ultimato para que os parlamentares de seu partido aprovassem a lei da saúde nesta sexta-feira. O texto não seria mais alterado. Era tudo ou nada.

E deu nada. Sem conseguir apoio necessário, a votação foi retirada da pauta da Câmara dos Representantes. Agora, Trump vai deixar de lado a reforma da saúde e tocar o barco. O próximo alvo é a reforma tributária. Como Trump perdeu no Obamacare, a pressão para vitória na área tributária aumentou.

Desta vez, a batalha tende a ser menos difícil no Congresso, já que alguns parlamentares democratas são favoráveis às reduções de tributos. O S&P500 fechou a semana com a maior baixa do ano, vendido no curtíssimo prazo.


No Brasil, o índice Bovespa fechou a semana em leve baixa, mostrando candle de indecisão, apesar de se manter vendido no curto prazo. A LTA dos 37k foi testada e respeitada nesta semana, mas ainda segue ameaçada. Caso haja rompimento nesta respectiva linha de tendência, as regiões de suporte mais abaixo serão fragilizadas.


Nota: o governo brasileiro mudou o jogo e conseguiu sua primeira vitória neste sábado ao anunciar a retirada de parte das suspensões impostas pela China à carne brasileira. O Chile também reviu sua decisão na mesma linha, impondo restrições, agora, somente aos 21 estabelecimentos que estão sendo investigados.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Freedom Caucus no sapato de Trump


A articulação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, falhou em seu primeiro e importante teste no Congresso. Convicto em desmantelar o Obamacare no dia de seu sétimo aniversário, Trump tentou fazer algumas alterações de última hora no texto, mas não conseguiu alcançar os votos necessários de parlamentares de seu próprio partido para aprovar a nova legislação da saúde.

A votação, marcada para a noite desta quinta-feira, teve de ser adiada indefinidamente, podendo azedar o humor dos investidores/operadores no mercado. A nova lei da saúde é vista como um teste crucial das habilidades de articulação de Trump com o Congresso para conseguir implementar suas promessas de campanha, principalmente a tão aguardada reforma tributária (com forte redução de impostos) e investimentos pesados em infra-estrutura.

O grupo ultraconservador da Câmara dos Representantes, conhecido como Freedom Caucus, é a pedra no sapato de Trump. Com cerca de 30 congressistas, o Freedom Caucus é considerado a ala mais radical do Partido Republicano e se posiciona contra as propostas de Trump para a nova lei da saúde por considerá-las brandas demais. O problema é que, se o presidente dos Estados Unidos atender as exigências rigorosas do Freedom Caucus, certamente perderá apoio da ala mais moderada (Tuesday Group) do Partido Republicano.

Trump precisa de 216 votos dos 435 congressistas na Câmara para aprovar a nova lei e partir para a mesma batalha no Senado. Com a oposição Democrata já posicionada para votar unida para defender o Obamacare, se apenas 22 republicanos votarem junto com os democratas (ou seja, contra as mudanças), Trump será derrotado.

O levantamento feito pelo New York Times nesta quinta-feira aponta que 33 dos 237 deputados republicanos ainda são contra o texto para mudança da lei da saúde. Já a conta feita pelo Washington Post mostra que 37 republicanos são contra as mudanças defendidas por Trump.

O peso vem justamente do Freedom Caucus, pois o grupo costuma votar unido na Câmara dos Representantes. Se Trump convencer a ala mais radical de seu partido, conseguirá derrubar o Obamacare e cumprir sua principal promessa de campanha.

Apesar do adiamento da votação, as circunstâncias não estão tão desfavoráveis ao presidente dos Estados Unidos. Mark Meadows, presidente do Freedom Caucus, disse que houve progressos nas negociações, sinalizando que um acordo pode estar próximo.

O índice S&P500 fechou o dia de lado, após ensaiar uma retomada durante o pregão que não se sustentou em função do adiamento da votação na Câmara dos Representantes. Apesar de o jogo estar aberto, o mercado segue vendido no curtíssimo prazo, sem apresentar novidade.


No Brasil, o índice Bovespa também fechou o pregão de lado, vendido no curto prazo, sem apresentar novidade.

  
Na Europa, destaque para a forte demanda das instituições financeiras ao programa TLTRO (Operações de Refinanciamento Direcionadas de Longo Prazo, com taxa de juro zero). O BCE (Banco Central Europeu) concedeu um total de 233,5 bilhões de euros, marcando a maior quantia líquida desde a criação do programa.

Os bancos entraram forte na TLTRO por temerem que as condições para a autoridade monetária continuar tocando seus agressivos programas de estímulos monetários estão cada vez mais restritas. O BCE já acumula saldo de impressionantes 2,28 trilhões de euros em compras de ativos no mercado, possivelmente indo além do seu limite.

Nesta quinta-feira, Mario Draghi, presidente do BCE, fez uma afirmação pouco usual ao insinuar que está terminando o prazo para os bancos colocarem a casa em ordem. Excessos de capacidade, ineficiência e “ativos de legado” (possivelmente podres) são fatores que contribuem para a baixa lucratividade dos bancos. Segundo Draghi, está chegando o momento de os bancos encontrarem respostas aos seus próprios desafios.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Acabaram as cartas da manga


A amplamente esperada entrevista coletiva com o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles e o ministro do Planejamento, Dyogo de Oliveira, realizada no fim da tarde desta quarta-feira, decepcionou o mercado que contava com uma solução para o gigantesco rombo dentro de uma meta primária já significativamente deficitária a ser perseguida neste ano.

A primeira frustração começou logo na projeção revisada para o PIB (Produto Interno Bruto) de 2017. Quando foi elaborada a peça orçamentária, o governo estimou que a economia cresceria 1,6% neste ano. O mercado estava ciente do excesso de otimismo da equipe econômica na projeção para o PIB, mas a redução foi mais drástica do que se esperava. Agora, o governo projeta um crescimento de apenas 0,5% em 2017.

Com uma expectativa bem menor de crescimento, o governo teve de rever para baixo sua projeção de arrecadação. Como, na prática, não está havendo cortes de gastos (pelo contrário, nesta nova estimativa, por exemplo, as despesas primárias são 3,4 bilhões maiores que as previstas no Orçamento), ao somar todas essas revisões foi encontrado um rombo de 58,2 bilhões de reais para o cumprimento de uma meta de déficit primário de 139 bilhões de reais. Ou seja, faltam 58,2 bilhões para o governo conseguir fechar o ano devedor em 139 bilhões. Uma verdadeira catástrofe.

A equipe econômica deveria anunciar nesta quarta-feira como deverá tapar esse novo buraco de 58,2 bilhões para conseguir cumprir a meta de déficit primário. Entretanto, num gesto bastante incomum, Meirelles afirmou que vai divulgar o corte de despesas e um possível aumento de impostos somente na próxima terça-feira.

O ministro da Fazenda empurrou a solução para a próxima semana porque está avaliando possível ingresso de recursos (entre 14 bilhões a 18 bilhões de reais) no Orçamento em decisões judiciais favoráveis à União (julgamento dos casos das usinas hidrelétricas e precatórios).

Contar com uma receita extra, vindas de vitórias na Suprema Corte, para tapar um buraco no Orçamento dentro de um buraco ainda maior na meta a ser perseguida, é uma clara sinalização de que acabaram as cartas na manga. O governo parece não saber o que fazer para tapar novos buracos e, por isso, precisa de mais tempo, talvez a espera de um milagre.

A única certeza que parece estar sobre a mesa é mais um lamentável aumento de impostos. Meirelles afirmou que existe uma boa possibilidade de elevação tributária para cobertura de parte do rombo divulgado no relatório desta quarta-feira, mas não entrou em nenhum detalhe.

Mesmo com a máquina pública tão inchada, o governo se recusa tocar uma agenda para cortar gastos desnecessários e ineficientes. Grande parte dos cidadãos brasileiros que acompanham o noticiário político e econômico sabe onde o serviço precisa ser feito para cortar o excesso: privilégios, salários, cargos públicos, fundo partidário, entre outros. Uma boa tesourada nessas áreas colocaria o governo em situação de superávit primário.

No cenário externo, o ataque terrorista ao Parlamento britânico dominou os noticiários, onde 5 pessoas morreram e mais de 40 ficaram feridas depois que um carro avançou sobre os pedestres. Um policial que estava protegendo o Parlamento morreu. O agressor foi baleado por outro policial.

Mark Rowley, autoridade máxima britânica de contraterrorismo, afirmou que o agressor agiu supostamente inspirado no terrorismo islâmico, mas recusou revelar sua identidade. O atentado aconteceu às vésperas das eleições na França, podendo alimentar ainda mais a crescente onda da extrema-direita e/ou pressionar os atuais líderes europeus a tomarem atitudes mais enérgicas em relação à segurança.

A bolsa de Londres despencou novamente no pregão desta quarta-feira, já se aproximando da primeira (frágil) linha de suporte aos 7.271 pontos.


Nos Estados Unidos o índice S&P500 fechou o pregão em leve alta, ainda vendido no curtíssimo prazo, aguardando o desfecho da importante disputa a ser travada amanhã no Congresso.


No Brasil, o índice Bovespa trabalhou movimento de alívio, fechando o pregão em alta de 0,86%. O respiro é um movimento técnico de pullback sobre a região de pivot dos 64k e ainda é insuficiente para alterar a tendência descendente iniciada aos 69,4k.
 

terça-feira, 21 de março de 2017

Está aberta a porteira


Mal entrou em campo de batalha e a reforma da previdência já sofreu duas grandes baixas. Paulo Paim, senador do PT (RS), protocolou nesta terça-feira um requerimento de criação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) com objetivo de apurar eventuais desvios de recursos da Previdência Social.

Acompanhado de líderes de sindicatos e de 58 assinaturas de senadores (eram necessárias apenas 27), Paim protocolou o pedido de criação da CPI, prometendo provar, através de dados de fiscais da Receita, que a Previdência é superavitária.

Embora as assinaturas coletadas por Paim não confirmem a existência de uma forte resistência a ser enfrentada pelo governo (já que os parlamentares da base assinaram o pedido com intenção de conduzir a CPI ao caminho menos traumático possível), o problema está criado e suas consequências são imprevisíveis. Além disso, a CPI poderá atrasar a tramitação da reforma, fazendo o Planalto perder o timing para articulação.

A segunda grande baixa foi anunciada pelo próprio presidente Michel Temer. Cedendo às pressões do Congresso, o governo decidiu retirar os servidores estaduais e municipais da reforma da previdência, justificando evitar invasão de competência.

O motivo apresentado parece ser mais uma desculpa esfarrapada para conseguir apoio defendendo interesses de determinada parcela da população.  Isso significa que, a partir de agora, as mudanças para os servidores municipais e estudais devem partir dos Legislativos regionais.

Os governadores e prefeitos dificilmente conseguirão alcançar força necessária para aprovar uma reforma tão impopular com o governo federal se retirando da briga, de uma forma que praticamente dá sinal verde para manutenção das atuais regalias aos servidores.

A mudança anunciada por Temer também tende a enfraquecer o lendário ajuste fiscal supostamente em curso no Brasil, onde a meta para este ano (rombo de 139 bilhões de reais) está, inclusive, ameaçada. Como se não bastasse, após a concessão de hoje, outros grupos/setores/categorias vão certamente lutar para conseguirem ficar de fora do pacote de maldade previdenciário. Onde passa um boi, passa uma boiada.

A terça-feira também foi marcante para o mercado de capitais. Wall Street sucumbiu, interrompendo a sequência de quatro meses de clima muito positivo. As vendas apareceram com força no pregão da bolsa de Nova York influenciadas pelo receio com a votação da legislação da saúde proposta pelos republicanos, na próxima quinta-feira.

O mercado teme que o partido não vá conseguir a maioria necessária para aprovar as mudanças. A reforma do sistema de saúde é o primeiro grande teste de Donald Trump no Congresso. Se for rejeitada, os investidores/operadores entenderão não haverá condições para aprovação da reforma tributária (com significativa redução de impostos). Os republicanos dominam as duas casas, mas alguns parlamentares se mostram dissidentes.

O S&P500 fechou o pregão em forte queda, colado na mínima, confirmando o nascimento de uma nova perna de baixa, aos 2,4k. Não há regiões de suporte relevante até a média móvel simples de 200 períodos diária.


Os mercados europeus sentiram o baque vindo de Wall Street. Em Londres, o índice FTSE cravou topo na região dos 7.447 pontos.


Em Frankfurt, o índice DAX também emitiu sinalização de topo, já iniciando o rompimento descendente da linha central de bollinger.


A praça mexicana, que trabalhava dentro de um bom movimento de recuperação nos últimos dias/semanas, fechou o pregão em forte baixa, sinalizando esgotamento da perna de alta iniciada na região dos 180 pontos.


Na Rússia, o principal índice do mercado acionário cravou uma estrela cadente no pregão de hoje, confirmando topo descendente na região dos 1.139 pontos, agregando força à tendência de baixa iniciada no mês passado.


No Brasil, o índice Bovespa afundou novamente nesta terça-feira, perdendo a principal linha de suporte de curto prazo localizada na região dos 64k. Com um topo descendente confirmado em 66,6k, a tendência de baixa iniciada no mês de fevereiro, aos 69,4k, ganha mais força, ameaçando jogar o índice de volta à média móvel simples de 200 períodos diária.
 

segunda-feira, 20 de março de 2017

Espetáculo de auto sabotagem


O Brasil definitivamente não é um ambiente propício para negócio. Os graves problemas estruturais acumulados há várias décadas poderiam ser até resolvidos com uma administração milagrosamente inteligente, respaldada pelo Congresso, mas ainda assim os empresários temeriam investir com vontade num País com tantas oportunidades e recursos naturais.

O impressionante escândalo provocado pela Operação Carne Fraca da Polícia Federal na última sexta-feira é a prova mais concreta de uma sociedade que parece repudiar o setor corporativo. Supostos pequenos incidentes se transformaram numa desnecessária tempestade em copo d’água, abatendo todo o segmento do agronegócio brasileiro.

As críticas partem desde a forma como a Polícia Federal atuou e divulgou suas informações ao excesso de sensacionalismo da imprensa. Fica difícil imaginar se o grande mal-entendido sobre a carne de papelão, por exemplo, como declara em nota a BRF, teria acontecido numa sociedade de cultura minimamente pró-mercado.

Mais impressionante é que a nível global, a fantasiosa carne de papelão brasileira parece ter ganhado mais repercussão negativa do que os recentes casos de gripe aviária, esses sim preocupantes. As ações da gigante americana Tyson Foods, que confirmou na semana passada o segundo caso de gripe aviária de alta patogenicidade, estão praticamente no mesmo valor de negócio do dia em que o anúncio foi feito. Pouco se fala, também, sobre o surto de gripe aviária no sudeste da França.

Já o Brasil está assistindo, neste exato momento, um grande tremor no seu agronegócio. O epicentro está na indústria da carne, mas inevitavelmente abala todo o setor. Quase duas décadas de trabalho árduo para agregar valor e elevada competitividade ao segmento (as exportações de carne subiram de 2 bilhões de dólares em 2000 para 14 bilhões de dólares em 2016) estão sendo destruídas em poucos dias por algo que pode ser qualificado como auto sabotagem.

As suspeitas de pequenos incidentes envolvendo uma insignificante parte de frigoríficos brasileiros (21 unidades supostamente envolvidas em eventuais irregularidades de um total de cerca de 4.850 plantas) não chegam nem perto dos números relacionados aos abates de aves sob risco de gripe aviária. A indústria de alimentos não está sobre ataque nos Estados Unidos, nem na França, mas no Brasil está sendo fuzilada.

O estardalhaço foi tão grande que os líderes de países importadores de carnes brasileiras estão sendo forçados a suspender seus negócios com o Brasil. A carne brasileira é comprovadamente uma das melhores e mais competitivas do mundo, atende os mercados mais rigorosos da União Europeia, Estados Unidos e Japão, mas diante de tanto escândalo os políticos precisaram tomar uma atitude para tranquilizar seus eleitores.

O poder da imagem para a indústria de alimentos é crucial. As empresas terão de investir pesado em propaganda, mas encontrarão dificuldade para reverter totalmente os impactos negativos. O trauma já foi criado. Os brasileiros conseguiram fazer em poucos dias um trabalho que os concorrentes do mercado externo não conseguiram em vários anos: destruir a imagem do nosso agronegócio, um dos poucos setores onde conseguimos ser competitivos no mercado global agregando valor.

No mercado de capitais, o Ibovespa voltou a encostar na importante linha de suporte localizada na região dos 64k. O alívio nesta segunda-feira ainda não é suficiente para destravar as vendas dominantes das últimas semanas. Mercado permanece vendido no curto prazo, com a linha de suporte fragilizada pela sequência de testes num curto espaço de tempo.


No mercado de câmbio o dólar voltou a se aproximar da mínima do ano contra o real, ainda vendido, sem apresentar novidade. A estratégia de sucesso na comunicação do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) tem conseguido manter tanto o dólar (contra cesta de principais moedas globais), quanto os rendimentos das treasuries (títulos do Tesouro norte-americano), comportados nos últimos dias.


Já o S&P500 marcou o terceiro pregão consecutivo de leve recuo, voltando a encostar na linha central de bollinger, principal ponto de apoio de curtíssimo prazo.
 

sexta-feira, 17 de março de 2017

Riscos aumentam na medida em que banqueiros centrais tomam seus próprios rumos


A velha estratégia de atuação em bloco dos principais banqueiros centrais mundiais, observada desde o estouro da crise do subprime em 2008, responsável por evitar uma catástrofe financeira, definitivamente chegou ao fim.

As respostas das autoridades monetárias à severa crise do passado criaram uma série de efeitos colaterais heterogêneos em vários cantos do planeta e as economias, agora, apresentam problemas distintos, exigindo novas abordagens dos banqueiros centrais.

As diferentes estratégias de política monetária entre o FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) e o BCE (Banco Central Europeu) são as mais visíveis para o mercado, mas uma abordagem macro focada apenas nesses dois banqueiros centrais pode transmitir a falsa impressão de que existe apenas duas escolhas de rota (A ou B) disponível nas mesas dos Comitês de Política Monetária.

O FED está respondendo ao avanço da inflação na economia norte-americana (que se aproximou da meta) com uma política de aperto monetário mais agressiva. A Fed Funds (taxa básica de juros) está subindo mais rápido do que no passado recente, forçando uma calibragem (para cima) nas expectativas para a taxa de juros de longo prazo.

A inflação na zona do euro também colou na meta de 2% a ser perseguida pelo BCE. Entretanto, a autoridade monetária insiste em manter sua política agressiva de estímulos monetários. Além de não prever nova redução no volume de compras de ativos mensais, o BCE sequer imagina a possibilidade de elevação da taxa básica de juros, mesmo a longo prazo.

Além de ter de responder aos problemas econômicos, o BCE precisa ficar alerta ao cenário político local. Os lideres europeus respiram aliviados com a vitória de Mark Rutte na Holanda, mas o atual primeiro-ministro precisou mudar sua estratégia de gestão às vésperas das eleições. Rutte partiu pra cima da Turquia para angariar votos de uma crescente onda nacionalista em seu País (que por sinal se espalha por toda a Europa).

O candidato da extrema-direita, Geert Wilders, anti-Europa e anti-Islã, ficou em segundo lugar nas eleições. Wilders perdeu, mas seu partido alcançou 20 assentos no Parlamento, tornando-se o segundo maior do País. O partido do primeiro-ministro Rutte obteve 33 cadeiras, inferior aos 41 assentos conquistados em 2012.

No Reino Unido, o BoE (Bank of England) mostra-se em cima do muro. Quer subir a taxa básica de juros, mas falta coragem. O pé está no acelerador, mas não tão fundo quanto na zona do euro. Haverá uma disputa de fluxo entre os dois blocos a partir do Brexit e nenhum banqueiro central parece querer se arriscar demais.

Na última reunião de política monetária do BoE, Kristin Forbes votou pela elevação da taxa básica de juros, representando a primeira divisão do Comitê desde julho do ano passado, surpreendendo o mercado. Mais curioso é que Forbes votou contra a decisão de manter os juros inalterados, mas foi a favor da manutenção do programa de compras de ativos. Isso significa que o BoE não deve seguir a rota do FED (que decidiu subir os juros somente após a total interrupção dos programas de estímulos monetários), mas também não quer seguir a rota extremamente flexível do BCE.

O Banco Popular (autoridade monetária da China), que está na fogueira do mercado, também navega numa rota solitária. As taxas de juros de recompra reversa (curto prazo) subiram novamente nesta semana, marcando o terceiro aumento em três meses. Já a taxa básica de juros continua inalterada em 4,35%.

O ajuste do Banco Popular nas taxas de recompra reversa é uma tentativa de conter o aumento dos riscos financeiros, num cenário local de endividamento elevado, fuga de capitais e desvalorização do iuan frente ao dólar. A autoridade monetária chinesa insiste em afirmar que não está apertando sua política monetária, para não criar pânico no mercado. Um aumento na taxa básica de juros poderia conter com mais eficácia a saída de fluxo e estabilizar a taxa de câmbio, mas por outro lado poderia implodir uma crise de crédito em função da elevada alavancagem do sistema financeiro, onde há suspeita de parcela relevante de crédito de baixa qualidade.

No Japão, o Comitê de Política Monetária do BoJ (Bank of Japan), decidiu manter a taxa básica de juros inalterada, assim como a meta de rendimento para os títulos do governo de 10 anos e o forte programa de compras de ativos mensais.

Ao contrário de outras economias desenvolvidas, a inflação no Japão se mantém baixa e muito distante do centro da meta de 2% ao ano. Haruhiko Kuroda, presidente do BoJ, disse que manterá uma política monetária ultrafrouxa ainda por um longo período, mesmo com outros banqueiros centrais buscando rotas distintas.

Com os Bancos Centrais mostrando que estão tomando seus próprios rumos, diante das complexidades dos ambientes locais, os investidores/operadores tendem a encontrar mais dificuldade para alocação de recursos nos próximos meses/anos.

Ao deixarem de agir em bloco, os banqueiros centrais induzem os mercados a fazerem o mesmo. Isso significa que o desempenho relativamente homogêneo dominante nos últimos anos nas principais praças financeiras mundiais tende a cair por terra. 

Com fluxos dispersos e mais instáveis, os riscos para os ativos aumentam significativamente, o que exigirá análises e estratégias diferenciadas para cada praça, bem diferente da facilidade encontrada desde 2009. Isso significa que as tendências devem ser mais curtas e voláteis daqui pra frente e alguns ciclos de mercado podem ser quebrados.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Moody’s crava mudança de rota para o rating brasileiro


A agência de classificação de risco Moody’s alterou a perspectiva para o rating brasileiro na tarde desta movimentada quarta-feira, pegando o mercado e o próprio governo de surpresa. Ao contrário das inúmeras decepções acumuladas nos últimos anos, desta vez o quadro é de entusiasmo.

A Moody’s elevou a perspectiva para o rating brasileiro de negativa para estável. Apesar de ser um movimento teoricamente de pouca relevância, já que a nota do País continua em Ba2 (dois níveis abaixo do grau de investimento), uma simples melhora na perspectiva, depois de tantos anos desastrosos, agrega impacto psicológico relevante num momento extremamente crucial.

Em novembro do ano passado, a agência de classificação de risco Fitch fez uma reavaliação do quadro macroeconômico e reafirmou sua nota BB (dois níveis abaixo do grau de investimento) para o Brasil. Cerca de um mês atrás, a agência de classificação de risco Standard & Poor’s também fez a sua revisão e seguiu os mesmos passos da Fitch, mantendo o rating BB e perspectiva negativa.

O Brasil precisava de um voto de confiança por conta do esforço do governo em matéria de política econômica (apesar de insuficiente) e melhora no quadro inflacionário. Ele veio no timing perfeito, justamente no mesmo dia em que parte da população se mobiliza contra a importante reforma da previdência.

O voto de confiança da Moody’s aumenta a força do governo para seguir com sua dificílima agenda de reformas estruturantes e pode comprar apoio dos agentes, que ainda estão céticos em relação à retomada do crescimento. Uma pequena melhora no humor dos investidores/empresários será capaz de fazer a roda da economia parar de girar no sentido anti-horário.

A velocidade do processo de retomada econômica dependerá do nível de eficácia da articulação do Planalto com o Congresso, mas a melhora na perspectiva deverá reduzir a dificuldade desse trabalho. Em seu novo cenário base, a Moody’s considera crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) entre 0,5% a 1% neste ano e 1,5% em 2018, com inflação ancorada na meta.

A surpresa com a Moody’s é mais um fator para dar respaldo à manutenção do movimento comprador em ativos de risco brasileiros, mas é preciso ficar atento à extensão e ao nível de entusiasmo no mercado.

Apesar do reconhecimento de melhora no quadro macroeconômico, o fiscal continua sendo um grave problema ainda sem solução para o longo prazo. A própria Moody’s espera que a relação dívida/PIB do Brasil aumente de 70% em 2016 para insustentáveis 80% em 2019. Não existe precedente de País emergente no mundo com uma dívida tão alta quanto à brasileira e, ainda, com um custo tão perverso.

O próximo presidente do Brasil vai assumir uma bomba fiscal, a não ser que a carga tributária ultrapasse 40% do PIB (algo inimaginável). Um problema deste tamanho deve tomar conta das campanhas dos partidos políticos, com debates de baixa qualidade (além dos próprios potenciais candidatos), ambiente propício para a polarização gerar consequências imprevisíveis.

Com as projeções para a taxa de desemprego em dois dígitos ainda em 2018, juntamente com os impactos negativos de curto prazo das reformas estruturais (se forem aprovadas), o governo Temer (PMDB) terá de tomar uma decisão difícil no final deste ano: ou se mantêm firme na rota pró-mercado, praticamente inviabilizando uma continuação, ou pisa no acelerador para buscar aproximação com a massa e tentar uma sucessão em 2018.

Na agenda externa desta quarta-feira, o FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) confirmou as expectativas dominantes no mercado e subiu a faixa de intervalo da meta para a Fed Funds (taxa básica de juros) em 0,25 p.p., para 0,75% a 1% ao ano, marcando o segundo aumento em três meses.

A comunicação da autoridade monetária norte-americana tem se mostrado fenomenal no sentido de manter o bom nível de humor dos investidores/operadores no mercado em meio à intensificação do ciclo de aperto monetário.

Novamente, o FED frisou em seu comunicado que a estratégia continua gradual, sem admitir qualquer mudança de rota, apesar de estar fazendo isso na prática. A Fed Funds está subindo mais rápido do que no passado recente, mas as palavras usadas na comunicação da autoridade monetária seguem comovendo (ou hipnotizando) o mercado.

O S&P500 subiu nesta quarta-feira, interrompendo o movimento corretivo de curtíssimo prazo, com a confirmação de sustentação dos preços sobre a linha central de bollinger.


As novas projeções divulgadas ao final do encontro de dois dias nesta quarta-feira revelam manutenção do PIB na faixa de 2% ao longo dos próximos anos, taxa de desemprego em 4,5% e inflação ancorada nos 2%. A mediana das estimativas para a Fed Funds se manteve em 1,4% para 2017 e 2,1% em 2018, onde atualmente está o foco do mercado. Entretanto, para 2019, a mediana subiu de 2,9% para 3,0%. O ajuste é pequeno, mas revela que na medida em que os juros de curto prazo vão subindo, os membros do Comitê vão calibrando suas estimativas para as taxas mais longas.

A bolsa brasileira também reagiu com otimismo após a divulgação do comunicado do FED. O mercado fechou na máxima do dia, confirmando suporte na região dos 64k e retomada do movimento ascendente.