sexta-feira, 24 de março de 2017

Carne brasileira leva xeque mate na China


O presidente do Brasil, Michel Temer, afirmou nesta última quinta-feira que ligaria ainda neste mesmo dia ao presidente da China, Xi Jinping, na tentativa praticamente desesperada de fazer com que o gigante asiático volte atrás em sua decisão de suspender a importação de carne brasileira.

O impressionante e desnecessário escândalo provocado pela Operação Carne Fraca da Polícia Federal se transformou num lamentável show de horror a nível internacional, prejudicando sensivelmente um dos setores mais robustos da economia brasileira. O Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina e de aves, e o quarto em carne suína. Já a China, é a maior compradora mundial de carne brasileira.

Tanto a posição de maior player global de carnes, quanto o acesso ao gigante mercado consumidor chinês, estão seriamente ameaçados, após longos anos de trabalho árduo. A conversa de Temer com Xi Jinping era de suma importância, mas aparentemente falhou. Talvez seja melhor montar uma equipe corporativa e pegar um avião com urgência rumo à China.

Corrobora para suspeita de falha na investida brasileira o anúncio feito na manhã desta sexta-feira pelo primeiro-ministro chinês, Li Keqiang. Em visita a Austrália, Li Keqiang anunciou que a China eliminou todas as restrições sobre as importações de carne bovina australiana, o que mostra que o País está realmente fechando seu mercado de carnes para o Brasil e abrindo para a Austrália.

Anteriormente, apenas 11 vendedores australianos tinham autorização para exportar carne à China. Agora, a Austrália tem acesso expandido ao mercado consumidor chinês, se colocando como o primeiro grande País pronto para ocupar o espaço deixado pelo Brasil. Malcolm Turnbull, primeiro-ministro da Austrália, aproveitou o momento para jogar mais lenha na fogueira contra o Brasil, dizendo que sua produção, verde e de alta qualidade, garante a segurança alimentar da China.

Os australianos definitivamente conquistaram a confiança dos chineses e os benefícios não param por aí. O deslize do Brasil acelerou o movimento de aproximação entre as duas economias. Os chineses não só vão comprar mais carnes australianas, como também vão investir mais no País.

Durante a visita, o premiê chinês confirmou que a China State Construction Engineering vai construir um novo porto e uma linha ferroviária para uma mina a ser aprovada em Western Australia (um grande projeto de mineração de 6 bilhões de dólares autralianos), sinalizando um significativo aumento, no futuro, de fatia de mercado do minério de ferro australiano.

A China é o caso mais dramático para o Brasil neste momento, mas não é o único revés. No geral, estamos perdendo mercado em efeito dominó. Levantamento divulgado pelo Ministério da Agricultura mostra que subiu para 18 o número de países (ou blocos) que já adotaram alguma restrição à carne brasileira.

Já o presidente da ABIEC (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne), estimou que 96 milhões de dólares em carne bovina e derivados estão parados somente no porto de Santos, impedidos de seguir viagem por conta das restrições adotadas pelos importadores.

A União Europeia ameaça impor mais barreiras contra a carne brasileira, pressionando o governo Temer tomar “medidas mais decisivas”. A estratégia do governo de minimizar o problema tem irritado os diplomatas europeus, o que pode agravar ainda mais a situação para os exportadores brasileiros. Os chineses também se mostram insatisfeitos, pedindo uma ação mais enérgica por parte do governo brasileiro, cobrando uma investigação mais profunda e punições rigorosas.

Como se não bastasse todo o prejuízo causado até o momento, a resposta do governo não tem sido adequada, o que contribui para agravar ainda mais a situação. A estratégia de minimizar o problema se tornou uma marca do governo Temer (presente desde o impeachment), mas só funcionou quando o assunto foi direcionado ao público interno.

No mercado de capitais, as atenções dos investidores/operadores continuaram voltadas à nova ofensiva de Trump para desmantelar o Obamacare. O presidente dos Estados Unidos deu um ultimato para que os parlamentares de seu partido aprovassem a lei da saúde nesta sexta-feira. O texto não seria mais alterado. Era tudo ou nada.

E deu nada. Sem conseguir apoio necessário, a votação foi retirada da pauta da Câmara dos Representantes. Agora, Trump vai deixar de lado a reforma da saúde e tocar o barco. O próximo alvo é a reforma tributária. Como Trump perdeu no Obamacare, a pressão para vitória na área tributária aumentou.

Desta vez, a batalha tende a ser menos difícil no Congresso, já que alguns parlamentares democratas são favoráveis às reduções de tributos. O S&P500 fechou a semana com a maior baixa do ano, vendido no curtíssimo prazo.


No Brasil, o índice Bovespa fechou a semana em leve baixa, mostrando candle de indecisão, apesar de se manter vendido no curto prazo. A LTA dos 37k foi testada e respeitada nesta semana, mas ainda segue ameaçada. Caso haja rompimento nesta respectiva linha de tendência, as regiões de suporte mais abaixo serão fragilizadas.


Nota: o governo brasileiro mudou o jogo e conseguiu sua primeira vitória neste sábado ao anunciar a retirada de parte das suspensões impostas pela China à carne brasileira. O Chile também reviu sua decisão na mesma linha, impondo restrições, agora, somente aos 21 estabelecimentos que estão sendo investigados.

3 comentários:

  1. 1) Temer deveria mostrar ao exterior que os acusados de fraude na vigilância sanitária serão julgados e condenados e não que a qualidade da carne brasileira é boa: o foco da Carne Seca foi esse, corrupção, e não a qualidade da carne como disse um juiz.
    Deveria mostrar que os funcionários de frigoríficos e do governo que causaram tanto dano à imagem nacional serão punidos a rigor e a investigação abrangerá todos os níveis, até os mais altos escalões. Isso tranquilizaria mais os paises importadores.
    Contudo, não se nota nenhuma medida dele nesse sentido. P. ex. circula na imprensa que a deputada Kátia Abreu, quando ministra da Agricultura, foi negligente ao perceber que determinado indicado a cargo de alto escalão e agora acusado no Carne Seca cometia atos ilícitos. Deveria ter encaminhado o caso à Justiça, porém o que fez: apenas o demitiu. Sabe-se agora que a permanência dele foi vivamente defendida pelo atual ministro da Justiça, entre outros. Por que será, hein?!
    Quanto à PF, apenas procedeu da mesma forma que tem atuado sempre e que permitiu alcançar os excelentes resultados até aqui desde o início da Lava-Jato. Ela apenas cumpriu com eficácia suas atribuições previstas: combate coordenado ao crime organizado em escala nacional. Aliás, estranho tanto alvoroço em torno da Carne-Seca, o que não acontecia antes. Até teorias conspiratórias têm aparecido (como a do Clube de Engenharia do RJ) de que tudo não passa de conspiração do grande capital estrangeiro (Cargill, etc..) para açambarcar o comércio de carne, alijando os frigoríficos nacionais dos contratos, assim como ocorreu antes no caso das petrolíferas e do governo americano com relação à Petrobrás.
    Tudo isso serve de justificativa para respaldar projetos em curso contra Abuso de Autoridade, num ataque também frontal à Lava-Jato, assim como invalidação de depoimentos pelo vazamento não-autorizado das delações. Unem-se esquerda e direita no mesmo objetivo; deter a limpeza ética que permitirá concorrências justas no capitalismo brasileiro, livres das ligações criminosas entre poder público e empresas privadas, sobretudo as grandes, porque as pequenas estão alijadas desse contexto.

    2) Tump se queixou que a bancada do partido democrata votou em peso contra suas medidas para derrubar o Obamacare.
    Pelo que me lembro, no governo Obama (o primeiro, parece) a bancada republicana votou em peso contra o Obamacare, mas como a democrata era maioria então, não obstante alguns votos contra, o projeto foi aprovado.
    Parece que, como dono de empresa e acostumado a dar ordens, ele bola os projetos sem antes conversar com a bancada, para chegar a um consenso, ou pelo menos maioria. Vai ter muito que aprender...

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    1. No item 1) discordo quanto à limpeza ética. Para haver concorrência justa no mercado brasileiro, o governo teria que, primeiramente, acabar com o chamado bolsa empresário (estimativa de gastos de mais de 220 bilhões somente neste ano). E para reduzir a corrupção, na minha avaliação o único caminho é via redução do tamanho do Estado. O Brasil antes da Lava-Jato não vai ser diferente do Brasil depois da Lava-Jato. A Itália, por exemplo, mesmo com a Operação Mãos Limpas (uma das maiores da história da Europa), continua sendo altamente corrupta. A diferença é que depois do Mãos Limpas a corrupção se tornou mais sofisticada. As figuras novas que surgiram, como Silvio Berlusconi, se mostraram tão corruptas (ou até mais) do que seus antecessores. A Operação Mãos Limpas foi considerada um sucesso no curto prazo, mas um tremendo fracasso a longo prazo. Basta checar a atual situação da Itália nos dias de hoje. Se o problema não for atacado na raiz (tamanho do Estado), não há solução.
      Com relação ao item 2), não foi falta de diálogo por parte de Trump. Ele esteve muito perto de conseguir os votos necessários. O problema é que existe um grupo de ultraconservadores de mente fechada dentro do partido republicano que defende seus próprios ideais e não costuma ceder em vários pontos. É muito mais fácil negociar com democratas moderados, acho que essa foi a grande lição do Obamacare.

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  2. FI,

    Estou aqui na minha torcida firme para que caia .. rs ...

    Sobre carne fraca... melhor esperar um pouco para ver os desdobramentos ... dou mais credibilidade a PF do que ao Temer e aquele ministro da agricultura ..

    Abs,

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