segunda-feira, 20 de março de 2017

Espetáculo de auto sabotagem


O Brasil definitivamente não é um ambiente propício para negócio. Os graves problemas estruturais acumulados há várias décadas poderiam ser até resolvidos com uma administração milagrosamente inteligente, respaldada pelo Congresso, mas ainda assim os empresários temeriam investir com vontade num País com tantas oportunidades e recursos naturais.

O impressionante escândalo provocado pela Operação Carne Fraca da Polícia Federal na última sexta-feira é a prova mais concreta de uma sociedade que parece repudiar o setor corporativo. Supostos pequenos incidentes se transformaram numa desnecessária tempestade em copo d’água, abatendo todo o segmento do agronegócio brasileiro.

As críticas partem desde a forma como a Polícia Federal atuou e divulgou suas informações ao excesso de sensacionalismo da imprensa. Fica difícil imaginar se o grande mal-entendido sobre a carne de papelão, por exemplo, como declara em nota a BRF, teria acontecido numa sociedade de cultura minimamente pró-mercado.

Mais impressionante é que a nível global, a fantasiosa carne de papelão brasileira parece ter ganhado mais repercussão negativa do que os recentes casos de gripe aviária, esses sim preocupantes. As ações da gigante americana Tyson Foods, que confirmou na semana passada o segundo caso de gripe aviária de alta patogenicidade, estão praticamente no mesmo valor de negócio do dia em que o anúncio foi feito. Pouco se fala, também, sobre o surto de gripe aviária no sudeste da França.

Já o Brasil está assistindo, neste exato momento, um grande tremor no seu agronegócio. O epicentro está na indústria da carne, mas inevitavelmente abala todo o setor. Quase duas décadas de trabalho árduo para agregar valor e elevada competitividade ao segmento (as exportações de carne subiram de 2 bilhões de dólares em 2000 para 14 bilhões de dólares em 2016) estão sendo destruídas em poucos dias por algo que pode ser qualificado como auto sabotagem.

As suspeitas de pequenos incidentes envolvendo uma insignificante parte de frigoríficos brasileiros (21 unidades supostamente envolvidas em eventuais irregularidades de um total de cerca de 4.850 plantas) não chegam nem perto dos números relacionados aos abates de aves sob risco de gripe aviária. A indústria de alimentos não está sobre ataque nos Estados Unidos, nem na França, mas no Brasil está sendo fuzilada.

O estardalhaço foi tão grande que os líderes de países importadores de carnes brasileiras estão sendo forçados a suspender seus negócios com o Brasil. A carne brasileira é comprovadamente uma das melhores e mais competitivas do mundo, atende os mercados mais rigorosos da União Europeia, Estados Unidos e Japão, mas diante de tanto escândalo os políticos precisaram tomar uma atitude para tranquilizar seus eleitores.

O poder da imagem para a indústria de alimentos é crucial. As empresas terão de investir pesado em propaganda, mas encontrarão dificuldade para reverter totalmente os impactos negativos. O trauma já foi criado. Os brasileiros conseguiram fazer em poucos dias um trabalho que os concorrentes do mercado externo não conseguiram em vários anos: destruir a imagem do nosso agronegócio, um dos poucos setores onde conseguimos ser competitivos no mercado global agregando valor.

No mercado de capitais, o Ibovespa voltou a encostar na importante linha de suporte localizada na região dos 64k. O alívio nesta segunda-feira ainda não é suficiente para destravar as vendas dominantes das últimas semanas. Mercado permanece vendido no curto prazo, com a linha de suporte fragilizada pela sequência de testes num curto espaço de tempo.


No mercado de câmbio o dólar voltou a se aproximar da mínima do ano contra o real, ainda vendido, sem apresentar novidade. A estratégia de sucesso na comunicação do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) tem conseguido manter tanto o dólar (contra cesta de principais moedas globais), quanto os rendimentos das treasuries (títulos do Tesouro norte-americano), comportados nos últimos dias.


Já o S&P500 marcou o terceiro pregão consecutivo de leve recuo, voltando a encostar na linha central de bollinger, principal ponto de apoio de curtíssimo prazo.
 

13 comentários:

  1. Sei la se em 21 já encontraram tudo isso imagina no resto. Acredito que o buraco seja mais embaixo , a boa é que o preço vai cair no mercado interno kkk

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    1. Se o setor se contrair o preço baixo não se sustenta por muito tempo no mercado interno. Além disso, as empresas podem muito bem migrar a produção para outros países menos hostis ao capital. Não foram confirmadas irregularidades em todos os 21 frigoríficos, mas sim suspeitas que precisam ser investigadas. Ainda assim, esse número é muito pequeno quando comparado ao total de plantas na ativa. Exportação de carne para o Japão, Estados Unidos e Europa é extremamente rigorosa, as empresas precisam obter certificações internacionais e precisam passar por intensa fiscalização dos próprios compradores. Todas essas exigências são cumpridas pelos frigoríficos brasileiros, foi um trabalho árduo de vários anos para conseguir entrar nos mercados mais selecionados para carne do mundo. E essa dificuldade foi mais uma questão de confiança do que na qualidade e competitividade do nosso produto. O Brasil não tinha uma imagem boa no mercado externo e o setor teve de batalhar muito para conseguir quebrar esse viés.

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  2. Concordo totalmente com você. É impressionante essa repercussão.

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  3. Me vejo obrigado a discordar. Primeiro que se acharam em só 21, é porque os escassos recursos da PF não dão conta de investigar a fundo toda a roubalheira que se dá no Brasil (em frigoríficos, empreiteiras, Petrobrás, Eletrobrás, etc.) O quanto mais cavasse, mais acharia. Segundo, acho que o povo brasileiro, ou ao menos uma parte relevante dele, finalmente cansou de ser roubado pelo governo em todas as esferas, e há um vento a favor de operações como essa. Finalmente estamos vendo políticos na cadeia. É preciso sim fiscalizar e punir com extremo rigor, para que os políticos se sintam desencorajados de manter seu modus operandi, de saquear e pilhar o dinheiro do contribuinte. E também o empresário deve aprender que a forma de lidar com um pedido de propina é denunciando e não entrando no esquema. Discordo da sua opinião de ser uma questão do país ser pró-mercado ou não, até porque toda essa roubalheira que vemos é um conluio entre políticos no topo da cadeia alimentar e empresários que injetam muita grana para ter acesso a esse tipo de tratamento diferenciado, coisa que não está ao alcance de 99.99% dos empresários aí fora. E falo isso como pequeno empresário que sente na pele, todos os dias, a dificuldade que é empreender no Brasil se você não tiver um esquema. Então, se tivermos que pagar com perda de valor de empresas como Petrobrás e JBF para que os atores desse esquema podre entendam que a era disso acabou no Brasil, que seja.

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    1. Quanto ao primeiro ponto, muito dificilmente outros frigoríficos apresentarão essas suspeitas de irregularidades (bom lembrar que precisam ser confirmadas), já que a carne é rigorosamente inspecionada, não somente pelo governo, mas pelos próprios importadores. Se houvesse algum esquema de irregularidade, o Brasil não estaria conseguindo exportar o produto para os mercados mais selecionados do mundo. Quando ao segundo ponto, concordo que há uma insatisfação generalizada, mas as punições e o rigor não vão impedir que os políticos continuem roubando. Só existe uma forma de combater com eficácia a corrupção: reduzir o tamanho do Estado.

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  4. Infelizmente, Fi, parece que só assim as coisas funcionam no Brasill

    Há 10 anos o Sindicato dos Fiscais Federais Agropecuários vem alertando o Ministério da Agricultura sobre o esquema de venda ilegal de carnes desbaratado. A maioria das denúncias, segundo o sindicato, parou em processos administrativos que se arrastam na pasta em Brasília e nas diretorias regionais.
    Fonte: Último Segundo - iG @ http://ultimosegundo.ig.com.br/colunas/blog-esplanada/2017-03-20/fiscais-carne-estragada.html

    No Brasil as coisas só funcionam no grito generalizado. Não viu a Lava-Jato?! O Emílio Odebrecht (pai do Marcelo), em depoimento recente à Justiça disse que a corrupção vem desde a época do pai dele... Aliás, lembro-me de um artigo publicado no Valor Econômico de fins de 2015 ou início de 2016 (se não me engano) dizendo que o Marcelo tinha ido às Forças Armadas procurar velhos amigos, pedindo para intercederem pelo filho; os militares se eximiram de meter a mão na cumbuca dos civis. Resultado: o velho abriu a boca agora!

    Este é nosso Brasil e a Carne Fraca e a Lava-Jato nos mostram que tanto espalhafato é necessário, a menos que sejamos lenientes como a Dilma o foi em recente entrevista ao Valor dizendo ter visto que todas as empresas estrangeiras que concorreram a recente rodada de petróleo também tinham feito corrupção...
    Tal como Lula preconiza: fazer vista grossa à Lava-Jato cujos impactos econômicos, segundo ele, estão "quebrando" as empresas brasileiras (em: http://www.valor.com.br/politica/4905146/economistas-ligados-lula-debatem-plano-emergencial)...

    Lamento que tais escândalos possam interferir nas reformas, mas fazer o quê? Esperar a aprovação delas para só então retornar ao combate à corrupção?
    Excesso de leniência é pusilanimidade, ou coisa pior... Sem ética, não pode haver política econômica saudável!

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    1. Não tenho dúvida de que desse jeito as coisas não irão funcionar. Todo o setor foi abatido por conta da proporção extremamente exagerada que se tornou esse caso e pelo excesso de informações desencontradas. É uma tremenda tempestade em copo d'água. Todo esse alvoroço criado no Brasil não chega nem perto do que ocorreu em lugares onde há realmente problemas sérios, que são os casos confirmados de gripe aviária.

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  5. FI,

    Sobre a carne ..estou esperando .. mas a pf tem ficado mais esperta ultimamente .. antes divulgavam qq faísca e os políticos vinham em cima e acabam com qq investigação .. inclusive montando um monte de cpis que nunca deram em nada ...

    Ultimamente a hora que sai a primeira paulada, já tem a 2a .. a 3a .. tudo no gatilho ... vamos ver... agora...se eu tiver q acreditar na pf ..ou no Temer e no ministro da agricultura .. é fácil ...

    SP500 estreitando as bandas hein ... vai ficar interessante ... espero que pra baixo . .antes de ir pra cima ... rs ..

    Abs,

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  6. Admirável o seu comentário. Após vários anos trabalhando no ramo, posso afirmar que um grupo da PF que quer se promover prejudicou empresários e funcionários públicos (acreditem) sérios em sua imensa maioria. Que empresário vai investir sabendo que pode ser "investigado" por quem não entende nada do que está ouvindo?

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    1. Agradeço pela sua valiosa contribuição. Infelizmente esses detalhes relevantes não vem a público.

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  7. Olá,gostaria da sua opinião sobre a lei,já aprovada,da compra de terra rural irrestrita para estrangeiros,e sua consequência pro mercado brasileiro.

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    1. Olá,
      Eu não acompanhei de perto a tramitação da lei, mas não vejo problema algum. O importante é que as regras sejam cumpridas, independente de quem quer que seja o proprietário do terreno.

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