sexta-feira, 7 de abril de 2017

Um recado em forma de 59 Tomahawks


O massacre de Ghuta, periferia de Damasco, ocorrido em 21 de agosto de 2013, lançado pelo governo sírio Bashar al-Assad, chocou toda a comunidade internacional. Mais de 1.400 pessoas morreram vítimas de gás sarin.

Em resposta, o então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, traçou sua linha vermelha na Síria, numa clara sinalização de que as forças militares norte-americanas iriam intervir no conflito.

O mundo olhava atentamente para Washington à espera de um ataque, que não ocorreu. Pouco depois de estabelecer a linha vermelha, Obama retrocedeu, submetendo sua decisão ao Congresso, eliminando qualquer possibilidade de ação militar no curto prazo.

O recuo dos Estados Unidos na Síria não só foi vergonhoso, como ofereceu condições para o crescimento do Estado Islâmico no País, além de criar brecha para milícias iranianas e forças especiais russas entrarem no conflito ao lado de Bashar al-Assad. A decisão humilhante de Obama também irritou vários aliados dos Estados Unidos na época, inclusive, seu relacionamento com François Holland, presidente da França, ficou prejudicado permanentemente.

Cerca de quatro anos após o massacre de Ghuta, forças sírias realizaram um suposto novo ataque químico em Khan Cheikhoun, deixando mais de 80 mortos, chocando novamente toda a comunidade internacional.

Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, condenou o ataque e disse que algo deve acontecer Bashar al-Assad. Ao contrário de seu antecessor, Trump tomou uma difícil decisão com rapidez surpreendente. Na manhã desta sexta-feira, uma chuva de 59 mísseis Tomahawk destruiu a base aérea de Shayrat, na cidade de Homs, de onde se acredita que partiram os caças sírios que lançaram o ataque químico nesta semana.

Esta é a primeira vez que os Estados Unidos atacam diretamente as forças de Assad em seis anos de guerra, marcando uma reviravolta na política externa americana. Trump enviou uma advertência não só a Bashar al-Assad, mas também um recado à Rússia, ao Irã e a Coreia do Norte. É um ato simbólico, mas que demonstra a força de uma potência e recupera parte do respeito perdido no passado.

Uma vasta gama de aliados dos Estados Unidos na Ásia, Europa e Oriente Médio apoiaram o ataque na Síria. Há muitos anos não se via manifestações generalizadas de aliados apoiando ações militares norte-americanas tão rapidamente, o que pode ser uma sinalização de reaproximação com importantes implicações geopolíticas.

No Brasil, o quadro fiscal segue bombardeado pelo fogo amigo. Após abrir a porteira da reforma da previdência, o governo lamentavelmente permitiu passar mais uma boiada nesta última quinta-feira. Os novos grupos de beneficiários provocarão uma redução de 15% a 20% na economia estimada em 10 anos com a mudança do regime previdenciário, o que representa uma quantia expressiva de 112 bilhões a 160 bilhões de reais no período.

Como se não bastasse, o governo piorou significativamente o déficit primário para 2018 nesta sexta-feira. A nova meta a ser perseguida foi revisada de um rombo de 79 bilhões para incríveis 129 bilhões de reais.

A equipe econômica segue utilizando o mesmo discurso de transparência e credibilidade fiscal, pois ainda conta com certo nível de tolerância do mercado, mas na prática o que se observa é um desastre sem precedentes em termos de política fiscal.

Pior, o governo utiliza um discurso ortodoxo que não tem se materializado. A estratégia era convencer empresários a investir e, assim, destravar a economia e recuperar os fundamentos fiscais. Não funcionou. Até porque, as atitudes não estão correspondendo aquilo que se esperava no passado. Na prática, a situação fiscal só tem piorado e o processo de recuperação econômica, prorrogado. Isso não só agride profundamente os fundamentos da austeridade, como também estimula a volta das políticas heterodoxas em 2018.

A bolsa de valores fechou a semana em leve baixa, sem apresentar novidade em relação aos dias anteriores.


Nos Estados Unidos, o índice S&P500 também fechou a semana em leve baixa.


8 comentários:

  1. FI,

    Pra um governo tampão e impopular até que esta de bom tamanho.
    Será feito somente um basicão para garantir o país até 2018.

    Torço pra que em 2018 aconteça uma coalizão PMDB/PSDB (mais os menores partidos) com Dória. Seria um rolo compressor. Seria uma máquina privatizadora e diminuidora do Estado brasileiro. Dória tem pulso, tem simpatia, tem ideias boas, etc.

    Será que sou um otimista sem fundamentos? Rss.

    Abraço!

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    1. Olá Pedro,
      Olhando friamente os números, na minha avaliação, não está de bom tamanho. Pelo contrário, a situação está piorando de forma acentuada. É anormal uma economia qualificada como emergente não conseguir engatar trajetória de recuperação digna após um longo período recessivo (quase depressivo). O fiscal se tornou uma bomba que vai explodir no próximo governo, isso é praticamente inevitável e sem precedentes para uma economia emergente (além do tamanho da dívida, o custo é insustentável). Além disso, não há força para tocar uma reforma política, crucial para futuras mudanças. O presidencialismo de coalizou atingiu ponto de esgotamento com os mais de 30 partidos no Congresso. E não adianta culparmos apenas a gestão anterior, a equipe atual também tem sua parcela de culpa. O que se propôs não funcionou, muito por conta daquilo que não se fez. Apesar do que transparece no discurso do governo, não estamos numa rota ortodoxa e isso agride os fundamentos da austeridade na visão do povo, o que deixa a porta aberta para o retorno da heterodoxia e sabe-se lá onde isso vai parar.
      Abs,

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    2. Quando o mercado parará com a lua de mel, sairá da anestesia? Eleições em 18? Peço, por favor, a bola de cristal do FI (sem ironias).

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    3. Difícil rs... Mas acho que não aguenta até 2018

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    4. FI,

      Primeiramente, se eu estiver insistindo num assunto desnecessário pro blog, me fale, por gentileza.

      Seguindo: o atual governo é feito de muita gente ligada à coalizão do anterior, vide o Meirelles que foi um braço direito do Lula no BC.

      Dito isso, não adianta esperarmos muita coisa da gestão que ai está. Por isso que digo que estão fazendo um basicão. Se deixarem uma reforma da previdência, algumas privatizações, um dispositivo pra frear parte do gasto (PEC do teto), etc, como legado, já estará de bom tamanho.

      Obviamente, não é o ideal e o necessário pra situação, mas, infelizmente, é o que sobrou depois do aparelhamento do governo anterior.

      Repito o que falei mais acima: torço pra que em 2018 o Dória seja apoiado por uma parceria PMDB/PSDB, tendo como programa de campanha as privatizações e redução da máquina. Isso mostraria apoio popular pra fazer o rolo compressor andar.

      Por fim, bem que no pós 2018 poderia acontecer uma constituinte com forte apoio popular por uma reforma constitucional de perfil liberal.

      Buenas, acho que ja divaguei além da conta.


      Ah, obrigado pelo espaço pra troca de idéias (queria ter agradecido antes mas sempre esqueço).

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    5. Pedro,
      De forma alguma. O espaço é livre e suas contribuições são importantes. Sem dúvida a PEC do teto foi um avanço, mas isoladamente seu efeito prático é simbólico. Se o governo não cortar gastos, a PEC do teto não funcionará. O espaço para austeridade no Brasil é gigantesco, há muito desperdício de recursos e subsídios comprovadamente ineficazes. Para isso, o governo precisa recuperar a capacidade de gestão sobre o orçamento. Se o orçamento continuar engessado, vamos continuar rodeando o problema sem atacá-lo. A impressão que fica é que estamos perdidos na selva andando em círculo. A reforma da previdência seria um marco para deixarmos de andar em círculo, mas com tantos recuos do governo em pouco tempo, o sistema tende a continuar desigual. Ou seja, determinados grupos continuarão usufruir os mesmos benefícios e os demais pagarão a conta. Perde-se a equidade, que era o ponto central da reforma. Perde-se a capacidade estimada de economia. Penso que da forma como está fluindo, é melhor não fazer reforma da previdência (ou faz bem feito, ou não faz) e usar o capital político para combater outros desequilíbrios de forma mais eficaz. Acho que o Dória teria condições de criar uma imagem de outsider e vencer em 2018. O problema é que se não haver reforma política, ele não terá condições de governar.
      Abs,

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    6. FI,
      Respeitosamente, discordo quanto à reforma da previdência ter de ser mais isonômica ou então que não se faça.
      Na minha opinião, uma reforma previdenciária só será justa quando for pra alterar pro sistema de capitalização. Qualquer outra coisa será sempre desigual.
      Ainda sobre essa reforma, apesar dos recuos (já tradicionais do Temer), a idade mínima está mantida. Acho isso importante.
      Sobre existir bastante coisa pra cortar na carne da máquina, concordo perfeitamente. A PEC do teto precisa de redução do orçamento pra ser mais eficaz, mas, como eu disse, é o que se tem no momento.
      Se olharmos pro passado, a gente entende por que o Brasil é tão desleixado com a gestão fiscal. Sempre que a situação ficava insustentável era só ligar a impressora. Felizmente, desde o Plano Real e a LRF melhoramos muito com relação a isso. Mas ainda é tudo recente.
      Enfim, vamos acompanhando.

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  2. FI,

    Interessante o dado histórico de 2013...

    Por aqui o mercado tá mais tenso com a reforma da previdência ... na dúvida ... penso em comprar uns "seguros" hehehe ..

    Abs,

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