quinta-feira, 25 de maio de 2017

Governo Temer apresenta sinais de isolamento


A decisão do governo de convocar as Forças Armadas para conter a manifestação realizada na última quarta-feira em Brasília aumentou o viés negativo da atual crise política. Considerada por muitos como um gesto de desespero e autoritarismo, Temer revogou o polêmico decreto nesta quinta-feira, ratificando mais um comportamento errático do Planalto.

Convocar as Forças Armadas no momento em que o País pega fogo está longe de ser uma decisão sensata. Temer está possivelmente sofrendo os mesmos efeitos de isolamento que paralisaram o governo Dilma Rousseff há pouco mais de um ano atrás. As evidências estão cada vez mais claras.

Temer já perdeu quatro de seus cinco assessores especiais. Figuras políticas de peso não escondem articulação para discutir nomes alternativos à presidência numa eventual eleição indireta. Críticas aumentaram no Congresso, inclusive de partidos da base aliada. Sua permanente reprovação o colocou entre os cinco líderes menos populares do mundo, segundo a revista Time. Por fim, a atual crise política irá influenciar o julgamento do dia 6 de junho no TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Uma decisão desfavorável a Temer levaria à cassação do mandato e à pena de inelegibilidade. A decisão é vista por parlamentares da própria base aliada como uma saída honrosa ao presidente, que por sua vez se recusa a renunciar.

A reação do mercado nos últimos dias tem sido positiva em função da queda do dólar contra cesta de principais moedas globais, juntamente com elevação dos yields das Treasurys (títulos do Tesouro norte-americano), o que força investidores a buscarem alternativas em outras praças e ativos mais arriscados.

A tese de que uma eventual eleição indireta permitirá o andamento da agenda de reformas (utilizada por economistas e analistas para justificar a recente alta nos ativos brasileiros) é infundamentada. Não existe clima para nenhum líder conseguir 2/3 do Congresso nos próximos meses. Além da elevada fragmentação, muitos parlamentares (que aparentam já estar em campanha eleitoral para 2018) utilizarão a atual crise como marketing político.

S&P500 renovando nova máxima histórica com ganhos relevantes acumulados nos últimos seis pregões é o termômetro perfeito de um mercado insistentemente bullish.


No Reino Unido, mesmo com atentado terrorista e números decepcionantes da atividade do primeiro trimestre deste ano, a bolsa de Londres segue colada na máxima histórica, prestes a acionar mais um pivot de alta e renovar nível recorde.


No Japão, o índice Nikkei já encerrou o movimento de realização de lucros de curtíssimo prazo, conseguindo se apoiar acima da linha central de bollinger após renovar máxima deste ano. Mercado em tendência principal de alta.


Na Índia, a bolsa de Bombay voltou atacar a máxima histórica com um candle de força relevante. Praça com correções bem tímidas e ganhos relevantes acumulados nos últimos anos, ainda em forte tendência de alta.


O mercado russo segue se apoiando acima da média móvel simples de 200 períodos diária. O movimento corretivo, iniciado em fevereiro deste ano, demonstra sinais de esgotamento com formações de fundos ascendentes nos últimos meses.


A praça mexicana renovou a máxima do ano e segue numa forte tendência de alta iniciada aos 180 pontos, surpreendendo investidores que apostaram contra o México após a cerimônia de posse de Donald Trump.


O controverso ambiente político na Turquia não afetou o clima positivo no mercado local. Pelo contrário, a bolsa subiu mais de 27.000 pontos desde a fracassada tentativa de golpe de Estado ocorrida em 2016, fato que também abriu caminho para uma polêmica vitória do governo no referendo deste ano.


A bolsa de Xangai confirmou fundo duplo e disparou mesmo com a agência de classificação de risco Moody’s rebaixando a nota de crédito da China pela primeira vez em quase 30 anos. O downgrade (de A1 para Aa3) foi justificado pela agência por conta do desgaste com a desaceleração do crescimento e aumento dos riscos da dívida.


Acompanhando a onda compradora global, a bolsa brasileira conseguiu subir cerca de 3.000 pontos desde a mínima registrada no pregão do circuit-breaker. Obviamente o mercado está longe de alcançar o nível da pré-crise política, responsável por criar um candle totalmente atípico, mas ainda assim o desempenho dos últimos dias pode ser considerado surpreendente em função do forte ambiente de deterioração local.
  

A praça brasileira conseguiu se aproveitar do clima muito positivo observado nos últimos pregões. O mercado (a nível global) segue demonstrando irrelevância aos vários problemas locais e acúmulo de divergências macroeconômicas. Entretanto, os dois últimos candles no Ibovespa emitem certo sinal de alerta à força compradora com os pavios longos superiores relevantes, sinalizando que os players vendidos ainda não desistiram de suas posições. Mercado segue volátil, em briga intensa e aberta, exigindo atenção especial às posições de curtíssimo prazo.

6 comentários:

  1. Acredito que no Brasil o maior problema não seja a saída do Temer mas quem vai substituí-lo,porque a depender de quem com pausa das reformas e tumulto da organização já realizada os juros voltarão a subir.

    Há algum posicionamento do mercado em relação aos substitutos do Temer?

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    1. O mercado não está tão preocupado com a crise política neste momento. A dinâmica global está se impondo às condicionantes locais. Conforme demonstrado no texto, os ativos de risco seguem disparando em várias praças com problemas graves, tanto políticos, quanto econômicos.
      Abs,

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  2. "A tese de que uma eventual eleição indireta permitirá o andamento da agenda de reformas (utilizada por economistas e analistas para justificar a recente alta nos ativos brasileiros) é infundamentada."

    Discordo de você. Vão colocar alguém lá apenas pra aprovar as reformas, é uma agenda do país, eles querem garantir a própria aposentadoria. O ruim é que ninguém, e isso provavelmente já ocorreria, vai falar bem das reformas nas eleições de 2018. E se não houver ninguém que faça isso (as endosse), estaremos mal.

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    1. Estamos mal há muito tempo. Mesmo com o número positivo de superávit primário do mês passado, a dívida bruta saltou para 71,7% do PIB. Esse é o nosso problema central. Uma trajetória explosiva da dívida que o governo não consegue frear há muitos anos, pelo contrário, só tem piorado.

      É justamente por isso que acredito não haver clima para aprovação das reformas. No cenário mais positivo o governo (Temer ou seu substituto) terá de recomeçar o trabalho de articulação para avançar com a pauta num Congresso tenso e fragmentado. Juntar os cacos e formar maioria de 2/3 vai demandar tempo relevante, se é que isso seja possível. Os parlamentares que buscarão reeleição em 2018 tendem a não votar em medidas altamente impopulares a menos de um ano das eleições. Também não será inteligente do ponto de vista político de cada um deles se posicionarem próximos demais de uma figura de alta reprovação popular ou eventual líder não eleito pelo povo. Muitos parecem já estar em campanha.
      Abs,

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  3. FI,

    Não acha o mundo otimista demais? Cade os problemas dos BCs? Cade os problemas dos bancos na Europa, principalmente em Portugal, Espanha, Itália? Será que é pra tanto?

    Abs,

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    1. Sim, mas isso é normal. O mercado é soberano e ainda estamos em ciclo bull.

      Abs,

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