sexta-feira, 12 de maio de 2017

Mercado feliz, povo deprimido


Michel Temer completou nesta semana 12 meses de governo. Com apenas 4% de aprovação, 14,2 milhões de pessoas desempregadas (número recorde), denúncias de corrupção, consumo patinando, ociosidade elevada na indústria, investimentos escassos e rombos fiscais insustentáveis, o legado deste primeiro ano de governo Temer ficou muito aquém do desejado.

A população está indignada, a economia não cresce, mas o mercado está feliz. A agenda de reformas do governo Temer compra certa esperança para o futuro. Ainda assim, os preços podem estar mostrando um otimismo exagerado, mas o mercado tem os seus próprios motivos para continuar comprando Brasil.

O movimento comprador em bonds de países desenvolvidos sofreu uma interrupção cerca de um mês atrás. As taxas voltaram a subir, impedindo especulação de curto prazo a favor da curva. Sem poder comprar os títulos soberanos mais seguros do mundo, investidores voltaram a olhar para os ativos de risco em praças emergentes, até porque as moedas fortes também estão se desvalorizando no curto prazo.

Apesar de operar com prêmio apertado, uma nova onda de fluxo comprador jogou o pré-fixado brasileiro de volta ao terreno de 1 dígito, renovando mínima do ano. A inflação de 0,14% em abril renovou apostas de que o Banco Central vai intensificar ainda mais o ciclo de cortes na taxa Selic, também contribuindo para valorização nos títulos da dívida soberana local.

  
O dólar contra real segue congestionado no curto prazo, mas oscilando próximo da principal linha de sustentação localizada na região psicológica dos R$ 3,00, sinalizando otimismo do mercado com a gestão Temer.


A bolsa de valores segue bullish, ganhou novo impulso ao conseguir se sustentar acima da linha de apoio dos 62,5k e hoje está muito próxima de retestar a máxima registrada este ano aos 69,5k, ainda com gordura para ser queimada antes de atingir nível de sobrecompra elevado.


A trajetória compradora no mercado de câmbio, juros e bolsa começou bem antes da posse de Michel Temer, não porque o impeachment era totalmente esperado, mas sim por conta do desconto observado nos ativos brasileiros à época frente às condições macro globais.

Players globais entraram no Brasil ainda em 2015 para aproveitar oportunidades generalizadas e sentiram segurança em alongar posições com a posterior evolução do processo de impeachment e formação da nova equipe econômica. O viés reformista e os nomes pró-mercado deixaram o clima mais tranquilo no mercado local, ainda que os resultados práticos continuem decepcionantes. É como num jogo de poker onde o blefe sustenta ganhos de uma mão fraca. Enquanto os investidores estrangeiros sentirem que há espaço para essa estratégia, continuarão mantendo posições.


Ásia

A China se prepara para realizar uma conferência internacional com objetivo de criar uma grande zona econômica que ligará a Ásia à Europa. A iniciativa, que partiu da China, é conhecida como “Fórum Um Cinturão, Uma Rota para a Cooperação Internacional”, terá duração de dois dias e contará com representantes dos Estados Unidos.

A presença dos Estados Unidos na conferência é resultado de um acordo entre o presidente chinês, Xi Jinping, e o presidente norte-americano, Donald Trump, no encontro de cúpula realizado no mês de abril. Trump se comprometeu em promover esforços para a cooperação econômica bilateral em troca de um plano de 100 dias para redução do déficit comercial dos Estados Unidos com a China.

Ainda assim, a participação dos representantes norte-americanos tende a ser apenas simbólica, como forma de depositar certo crédito a Xi Jinping para tocar o plano de 100 dias. Os dois principais players econômicos mundiais tendem a continuar jogando suas próprias cartas. A China em busca de maior abertura comercial e os Estados Unidos em rota contrária.

Trump não quer voltar atrás na decisão de abandonar a Parceria Transpacífico, mas seu principal aliado na Ásia está articulando votos dos demais membros para que o pacto entre em vigor sem os americanos. Shinzo Abe, premiê japonês, vai à Nova Zelândia na semana que vem para garantir apoio na reunião de ministros de comércio exterior dos 11 países membros da Transpacífico a ser realizada no dia 21 de maio no Vietnã.

Na Coreia do Sul, o liberal Moon Jae-In, presidente eleito na última terça-feira com 41,1% dos votos, parece não ter o mesmo punho firme de Trump em se tratando de Coreia do Norte. Moon Jae-In é filho de refugiados norte-coreanos e quer pacificar as relações com o regime de Pyongyang.


Oriente Médio

O mundo acompanhará de perto a eleição presidencial do Irã, no próximo dia 19 de maio. Companhias estrangeiras que desejam realizar negócios com o País estão otimistas, mas segurando o passo por conta da indefinição política.

Caso o atual presidente, Hassan Rouhani, consiga se reeleger, o País tende a se consolidar como opção de rota ao venture capital e roubar atenção ocupada hoje por algumas economias em desenvolvimento. Rouhani é um conservador moderado que busca mais diálogo com a comunidade internacional. Seus dois principais concorrentes, o ex-procurador geral Ebrahim Raisi e o governador de Teerã, Mohammad Bagher Ghalibaf, são conservadores linha-dura e não querem aproximação com o ocidente.


Europa

Os mercados seguem animados com a vitória tranquila do ex-banqueiro de investimentos Emmanuel Macron no segundo turno da eleição presidencial francesa. Macron quer implementar uma agenda de reformas na tentativa de tirar a economia do atoleiro da baixa competitividade, desemprego elevado e longo período de crescimento frustrante.

Suas propostas agradam investidores e trazem alívio aos líderes europeus, mas o clima político interno joga contra. Muitos franceses votaram com medo no segundo turno contra a radical Le Pen, mas não endossam as reformas de Macron. A campanha eleitoral revelou que quase metade do País prefere um papel maior do Estado na economia e não menor, como propõe Macron.

O novo presidente da França precisa vencer uma importante batalha já no próximo mês. Além de torcer para seu partido conseguir quantidade relevante de assentos nas eleições legislativas, Macron terá de formar maioria numa casa muito polarizada para conseguir apoio do Parlamento e tocar sua agenda.

Como de costume, nenhum receio tem abatido o humor nas praças europeiais, que seguem renovando máximas do ano. Mercados seguem bullish, mas em níveis de sobrecompra elevados.

14 comentários:

  1. Bancos centrais injetaram tanta liquidez que a situação são essas máximas ao redor do mundo. Só aguardando as sinfonias pararem de tocar (juros subirem?).

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    1. Desalavancagem financeira. Post: http://www.financasinteligentes.com/2017/05/panorama-macro-global.html

      Abs,

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  2. Todo este movimento altista na Bovespa, queda da Selic, DIs recuando, mas o desemprego (renda) continua piorando. Até onde vai a precificação de "expectativa" ganhando da realidade? O topo dos 73k pode ser a "fronteira final"?

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    1. Ninguém sabe responder rs... Estamos dentro de um ciclo bull, sem sinalização de reversão. As resistências mais relevantes no Ibovespa já foram superadas. Os 50k eram divisor de águas. Post: http://www.financasinteligentes.com/2016/04/o-que-o-mercado-esta-dizendo-e-voce_14.html

      Abs,

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  3. Você poderia escrever um post (ou indicar um artigo) que explique didaticamente por qual razão os principais BCs precisarão vender seus ativos?
    Por qual razão eles não podem se manter com eles, afinal rendem juros, não?

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    1. Na penúltima ata do FED já tem um esboço da estratégia de desalavancagem financeira. Os balanços dos banqueiros centrais precisam voltar a normalidade para garantir a credibilidade da moeda e do próprio sistema financeiro. Atualmente os balanços estão 3x acima do normal (número sem precedentes na história) e em algumas praças já há escassez de ativos para os programas de compra.
      Abs,

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  4. F.I a "finansfera" agradece o retorno! Parabéns pelo trabalho.

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  5. Claro que a alta começou por causa da expectativa de impeachment. Os ativos não estavam baratos, estavam precificando o futuro que era projetado na época: PT se recusando a adotar responsabilidade nos gastos públicos, já que é impopular, causando calote nos títulos do tesouro em cerca de 5 anos OU hiperinflação ao emitir títulos novos pagando os antigos.

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    1. Claro que não rs.. Para tirar a prova, basta verificar os deslocamentos em bonds, ações e moedas em outras praças financeiras mundiais no mesmo período. Discordo de alguns pontos do seu comentário:

      1) Dilma tentou fazer ajuste fiscal, por isso colocou Levy na Fazenda. As primeiras semanas do segundo mandato do governo Dilma foram marcadas por uma série de medidas impopulares, tanto é que passou a perder apoio da própria base. Quando Levy deu o segundo passo avançando para cortes em subsídios ineficientes (principalmente na reoneração da folha), o jogo virou de vez, Dilma ficou isolada, sem apoio e as críticas intensificaram na mídia. A situação fiscal que já era ruim no governo Dilma se deteriorou ainda mais no governo Temer. Os déficits aumentaram (mesmo com as receitas extras tiradas da cartola do Meirelles), ao invés de diminuírem. Definitivamente não há responsabilidade no governo atual, o ajuste necessário está sendo empurrado a longo prazo num momento em que o endividamento se aproxima dos insustentáveis 80% do PIB. Não fazer nada para frear o crescimento da trajetória do endividamento já no curto prazo é uma grande irresponsabilidade, pois deixará o próximo governo com uma bomba fiscal na mão, com ou sem reforma da previdência aprovada.

      2) A expectativa de calote criada em 2015 era claramente infundamentada, tanto em função do nível do endividamento quanto da própria dinâmica da dívida pública. As obrigações em moedas estrangeiras eram totalmente cobertas na época (e ainda são) pelas reservas do Banco Central. Já a dívida interna ainda estava longe de um nível que representasse perigo na época, o que está deixará de ser a partir dos próximos anos se nada for feito.

      3) Quanto ao movimento de alta nos preços dos ativos, a expectativa do impeachment em nada contribuiu para a direção tomada pelo mercado. Pode ter ajudado aumentar o impulso, mas não foi o driver que definiu a direção do fluxo, nem sua força-base. Todas as praças emergentes e em desenvolvimento acompanhada pelos investidores estrangeiros cravaram fundo entre janeiro e fevereiro de 2016, e posteriormente passaram a subir, mesmo período em que o Ibovespa cravou movimento idêntico. Isso ocorreu porque os ativos de países emergentes foram castigados em 2015 por conta das estratégias dos bancos centrais de países desenvolvidos. Algumas praças subiram mais, outras subiram menos. O nível forte do upside, na maioria dos casos, ocorreu por conta do excesso de peso na venda em 2015. Na média, o ganho tem sido expressivo de janeiro/2016 até hoje. O índice MSCI de Mercados Emergentes subiu mais de 50% nesse período.

      Abs,

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    2. Lendo e aprendendo. Realmente sua visão é diferenciada. Como outro colega que comentou no posto anterior, eu acharia justo investir em seus conselhos para formação de carteiras de investimento. Já pensou em oferecer este conteúdo?

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  6. Pelo que estou vendo, a SELIC não vai se sustentar nos 8.00 por muito tempo. E tem gente dizendo que vai a 7. Qual a sua opinião? Pra mim vai ser só até a próxima eleição esta "euforia" de queda de juros. A batata vai ficar muito mais quente para o próximo Governo.

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    1. Não tem piso para a Selic no curto prazo. O problema é a sustentação em patamar muito baixo a médio e longo prazo com o endividamento tão elevado e economia com fundamentos bem deteriorados.

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