quinta-feira, 29 de junho de 2017

Bonds desarmam compras nas praças desenvolvidas


Uma nova correria para fechamento de posições compradas no mercado da dívida soberana se alastrou rapidamente nas praças de países desenvolvidos nestes últimos dias, ofuscando o clima extremamente otimista observado no mercado financeiro mundial.

Poucos investidores tem se arriscado abrir posições contra a onda bullish que atinge os preços de diversos ativos no mercado de capitais. Mesmo ciente da fragilidade deste movimento, em função do excesso de sobrepreço, a ordem continua sendo assumir o risco e surfar a espuma da onda.

O mercado cobrou seu preço novamente. A taxa de juros da Treasury de 10 anos (título do Tesouro norte-americano – referência global), disparou nos últimos dias, rompendo a LTB da máxima registrada em 2017 após a formação de fundo na região dos 2,18%.

  
A linha íngreme revela que a virada para a venda foi muito rápida, acionando stops de investidores posicionados na ponta comprada. A nova disparada das taxas de juros futuros reflete o receio com o endurecimento da política monetária no Reino Unido e na zona do euro.

Em poucos dias, a taxa de juros do título alemão de 10 anos saiu da base da congestão de curto prazo aos 0,20% para o topo da zona de congestão (e principal linha de resistência) aos 0,48%. O movimento brusco aumenta a chance de um possível rompimento nas próximas semanas, o que se confirmado renovará máxima do ano.


Choque semelhante está ocorrendo no rendimento das gilts (títulos do Tesouro britânico). O yield do papel com prazo de 10 anos rompeu a linha de resistência de uma cunha descendente. O mercado respondeu socando venda pesada, já mirando teste na máxima do ano.


A correria também pode ter sido influenciada pela divulgação do relatório anual do BIS (Banco de Compensações Internacionais – instituição máxima dos principais bancos centrais mundiais), ocorrido no último domingo. No documento, o BIS alertou que os principais bancos centrais devem avançar com as políticas de aperto monetário, mesmo com eventuais turbulências no mercado financeiro.

Num recado ao BCE (Banco Central Europeu), BoE (Bank of England) e BoJ (Bank of Japan), o BIS afirmou que os formuladores de políticas precisam aproveitar a melhoria das perspectivas econômicas para acelerar o fim de programas de flexibilização quantitativa e tirar as taxas básicas de juros dos níveis recordes de baixa.

O chefe de pesquisa do BIS, Hyun Song Shin, ressaltou que mesmo que haja choques de curto prazo, seria muito mais aconselhável manter o curso do processo de normalização, pois uma súbita aceleração da inflação (o que não seria nada surpreendente após um longo período de afrouxamento monetário), forçaria os bancos centrais agirem com choque de juros para cima, prejudicando o crescimento.

Não por acaso o FED tem demonstrado viés cada vez mais hawkish em seus comunicados, pois não se pode subestimar a inflação, principalmente num sistema de elevada liquidez como o atual.

Considerando a elevada complexidade global, causa certo espanto a notícia de que o CMN (Conselho Monetário Nacional) fixou o centro da meta de inflação brasileira em 2019 para 4,25% e, para 2020, a 4,0%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.

Justamente no momento em que não só o BIS, mas banqueiros centrais de grande importância ao sistema financeiro mundial, mostram-se preocupados com o cenário futuro para a inflação, o CMN toma uma medida austera, tirando margem de gordura para o Banco Central fazer o seu papel de impulsionar o crescimento.

A decisão parece tecnicamente inadequada e de cunho político, talvez numa tentativa de demonstrar que a agenda econômica avança e, portanto, não foi contaminada pela crise política.

Não há clareza quanto à reação da inflação quando o PIB (Produto Interno Bruto) voltar para a casa dos 2%. Cabe ressaltar que a inflação acumulada dos últimos 12 meses (3,59%) continua totalmente incompatível com o desempenho da economia no período. Era de se esperar uma inflação muito menor, ou mesmo leve deflação. Além disso, a redução da meta de inflação não tem respaldo no quadro fiscal, com uma dívida explosiva em forte trajetória de crescimento.

As principais bolsas de valores mundiais tombaram nesta quinta-feira, em reação à forte virada no mercado de bonds. Nos Estados Unidos, o índice S&P500 voltou para a linha inferior de bollinger. Bandas fechadas e olhos atentos, mercado pronto para definir nova pernada.


Na Alemanha, o índice DAX saiu na frente. As bandas de bollinger voltaram a abrir, sinalizando nascimento de uma perna de baixa. O candle desta quinta-feira marcou o sinal bearish mais forte do ano, limpando as compras do mercado.


No Brasil, o Ibovespa demonstra descolamento de curtíssimo prazo, levemente acima da linha central de bollinger. Apesar do respiro dos últimos dois dias, o mercado mantém viés bearish abaixo da resistência dos 64,2k e média móvel simples de 200 períodos diária.


13 comentários:

  1. Parabéns pelo trabalho!

    Infelizmente, nosso país segue mergulhado numa atmosfera distópica e temos um batalhão de trôpegos e corruptos à frente desta nau. As motivações pessoais sobrepõem o interesse da coletividade e seguimos, mais uma vez, na contramão da história.

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  2. "...tirando margem de gordura para o Banco Central fazer o seu papel de impulsionar o crescimento."

    Seria mesmo, papel do BC, impulsionar o crescimento?

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    1. Não. Acabei de perceber que a minha frase gerou dupla interpretação rs.. O Banco Central pode atuar como coadjuvante no crescimento, ou seja, fazer a sua parte para criar impulso, desde que a inflação continue ancorada na meta. O ator principal para impulsionar a economia é o governo federal, através da política econômica tocada pelo Ministério da Fazenda.

      Abs,

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  3. FI, apenas uma sugestão:
    Ao final de todos os posts vc poderia adotar como esse pessoal adota nesse site: http://engenhariae.com.br/
    Eles deixam a seguinte msg ao final:
    "Achou útil essa informação? Compartilhe com seus amigos! xD

    Deixe-nos a sua opinião aqui nos comentários."

    Para o seu caso voce poderia deixar um link que explica a situação do canal, ou para aquele post que tem as contas para as pessoas depositarem.

    Exemplo: "Gostou desse texto? Nos incentive a produzir mais clicando aqui: "
    E aí é ou algum link para suas contas diretas ou algum link que monetarize seu blog.

    Bom, como gosto bastante do seu canal me preocupo. mas é só uma sugestão, abraços. Não precisa publicar se não quiser.

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    1. Agradeço a sugestão e preocupação. Infelizmente poucos contribuíram, mas vou continuar fazendo o possível para manter o blog ativo. Gostei das dicas, vou criar algo parecido e uma página para ficar mais visível.

      Abs,

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  4. PIB voltar para casa dos 2% nos próximos anos? Tá otimista hein? Sem as reformas, duvido.

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    1. Sim, é bem provável que até 2019 o PIB volte para casa dos 2%. Ainda assim é um número considerado medíocre para país emergente.

      Abs,

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  5. FI, qualquer dia vc nos explica algo sobre o que nos diz as "barrigas" de curva de spread entre os diversos títulos, de inflação ou prefixados etc?
    Agora, por exemplo, diante disso que vc falou, vc aconselharia venda dos longos e manutenção de posição nos pré curtos?
    Mas por outro lado os longos "travam" por longo prazo as (ainda obscenas) taxas brasileiras... Enfim...
    Mto obr!!
    Deve haver pros e contras...
    Obr!!

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    1. Tesourarias gostam de adotar estratégia diferente para curtos e longos. Eu prefiro ser mais simples, em caso de operação de curto/médio prazo, detectar a tendência e montar posição a favor da curva, não pegar um vencimento muito longo, mas também não pegar um muito curto. Fazer meio termo e feijão com arroz rs... Se o mercado estiver operando com prêmio muito magro na curva, encurtar o stop ou então ficar de fora. Travar taxa para longo prazo, neste caso usando títulos públicos, somente em momentos de pânico.

      Abs,

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  6. Voce vê o itau, como grande player brasileiro, “segurando as pontas” no mercado financeiro com uma certa união com o governo? Há despeito disso há um certo monopólio no mercado brasileiro, podendo o mesmo, analisar cenários semelhantes com “olhos diferentes"?

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    1. Na minha avaliação há muita vista grossa no mercado. Temos um problema fiscal gravíssimo, além da atípica falta de crescimento após um longo período de estagnação e posterior recessão. Pode ser que tenha muito interesse em jogo e o governo não parece ter só o apoio das instituições financeiras, mas de grande parte do setor privado. Não fosse esse suposto apoio, acho que já teria caído. Sempre bom lembrar que a Dilma começou perder sustentação, na minha avaliação, quando o então ministro Joaquim Levy comprou briga com certos peixes grandes, na tentativa de fazer ajuste fiscal.

      Abs,

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