sexta-feira, 23 de junho de 2017

Cenário complexo e fluxo difuso


Crescimento acelerado da dívida pública e privada, ativos sobrevalorizados em várias praças financeiras mundiais, balanços de banqueiros centrais entupidos, pouca margem de manobra em política monetária e fiscal.

A enxurrada de liquidez sem precedente injetada no mercado financeiro mundial desde o fim da década passada evitou uma catástrofe financeira by subprime, mas criou o efeito colateral de um ambiente inóspito e muito perigoso ao asset allocation do futuro próximo.

Aos poucos, os bancos centrais que ainda não traçaram um plano para uma gigantesca desalavancagem financeira vão sinalizando em suas comunicações com o mercado orientações futuras de política monetária cada vez mais hawkish. Ao descartar, recentemente, possibilidade de mais cortes de juros, o BCE (Banco Central Europeu) mostra-se mover cautelosamente na direção do fechamento da torneira dos programas de estímulos monetários.

No Reino Unido, o BoE está com um pé no aperto monetário e já estuda, também, uma retirada gradual das medidas de acomodação nos próximos anos, mesmo com o Brexit. No Japão, o BoJ está enxergando a pressão do mercado com o seu insustentável balanço de aproximadamente 4,5 trilhões de dólares e vai, aos poucos, alterar sua comunicação para sinalizar uma mudança de postura no futuro. Na China, o Banco do Povo não esconde o esforço para enxugar o excesso de liquidez no sistema financeiro e reduzir o nível de endividamento das empresas e instituições locais.

Nos Estados Unidos, o FED, que também opera com um balanço insustentável de aproximadamente 4,5 trilhões de dólares, já está subindo a FFR (Federal Funds Rate - taxa básica de juros) e definiu na última reunião de Comitê a primeira etapa da estratégia de desalavancagem do sistema, com perspectiva de implantação já no fim deste ano.

Os sinais de alerta são claros. Os Bancos Centrais estão em mudança de rota e os ativos estão caros demais. Os governos estão sem margem fiscal e as empresas muito endividadas. O quadro está ficando cada vez mais complexo para o asset allocation, inviabilizado abertura de novas posições de longo prazo em ações, bonds e moedas.

A melhor defesa para o investidor, a nível global, enfrentar o mercado nos próximos anos é justamente encurtar o prazo das operações, para não ser pego por um eventual choque de preços. Já a nível local, o investidor precisa trabalhar asset allocation em função da queda da taxa Selic, mas está sem oportunidades de realocação no mercado financeiro.

Não há rota pré-definida para atravessar esse período de desalavancagem sem precedentes na história do capitalismo. Na fase inicial, o fluxo tende a se dispersar e encontrar caminhos inimagináveis, tal como aconteceu recentemente com os japoneses se entupindo de uridashis (apelido para os títulos denominados em lira turca) ao invés de dar preferência aos títulos brasileiros, até então teoricamente mais competitivos e menos arriscados.

Somente neste ano, os japoneses já compraram cerca de 517 milhões de dólares em uridashis. Já em títulos denominados em reais, as compras este ano atingiram apenas 383 milhões de dólares, sendo que no ano passado os japoneses compraram 2,9 bilhões de dólares em títulos verde e amarelo. Isso significa que já estamos perdendo a disputa pelo fluxo para a Turquia.

O fato de os japoneses, experts em mercados de renda fixa e moedas, enxergarem risco maior no Brasil do que na Turquia, é sinal de que temos de abrir o olho com os ativos disponíveis no mercado financeiro local.

Na bolsa de valores, a disparidade também é visível. Istambul ainda não trabalhou uma única perna de baixa relevante este ano. Mercado bullish, bem acima da média móvel de 200 períodos diária e fácil de operar.


Já no Brasil, a bolsa apresenta volatilidade significativamente maior, vendida, abaixo da média móvel simples de 200 períodos diária, lutando para se manter acima da principal região de suporte localizada na faixa dos 60.000 pontos.


A praça indiana, mesmo sobrecomprada, segue o mesmo tom do mercado turco. Índice renovando máxima do ano, com baixa volatilidade.


Na Rússia, as vendas seguem tomando conta dos pregões. Mercado bearish, renovando mínima do ano, abaixo da média móvel simples de 200 períodos diária.


A Coreia do Sul é bullish. Não tem sobrecompra que assuste o fluxo. Mercado em forte upside, renovando máxima do ano.


Já o mercado sul-africano perdeu o encanto neste ano. Não conseguiu emplacar uma perna de alta consistente e segue travado numa congestão, ameaçando perder o suporte da média móvel simples de 200 períodos diária.


As praças desenvolvidas seguem bullish, se deslocando em bloco, extremamente sobrecompradas. Nas praças emergentes, o capital se dispersou e perdeu a característica do movimento em bloco. Fluxos difusos não ocorrem com tanta frequência dentro de um mesmo segmento de mercado e podem sinalizar quem está nadando nu na onda de liquidez global.

15 comentários:

  1. muita terminologia estrangeira que dificulta o entendimento das mensagens , desfavorecendo o interesse das análises. Fale em português pois somente 10 a 15 % têm vontade de abdicar do nosso idioma pátrio !!!

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    1. Por favor me inclua entre os 15% (acho que é bem mais que isso). Se você não estuda materiais em língua inglesa, você não leva suas finanças a sério o suficiente, pois à exceção de alguns sites como o do Finanças Inteligentes, não existem materiais bons em língua portuguesa.

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    2. Eu fiquei tão curioso com essa reclamação que fui contar as palavras estrangeiras. Acabei que fiz um glossário com as expressões que não são explicadas no próprio texto, mesmo desconfiando que não vai ajudar, visto que o problema deve ser mais o jargão financeiro, normal a um blog que tem "Finanças" no título:

      by subprime: à crédito de risco
      asset allocation: alocação de ativos
      hawkish: comportamento de falcão
      bonds: títulos
      bullish: comportamento de touro
      bearish: comportamento de urso
      upside: ascendente
      Brexit: saída do Reino Unido da União Européia

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    3. Tento evitar utilizar demais essas palavras, mas é a linguagem do mercado e em alguns casos a tradução para o português não transmite corretamente a ideia da expressão.

      Abs,

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    4. Tais termos são corriqueiros no meio e sua análise continua sendo diferenciada. O Jornal Nacional está aí para o povão...

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  2. A queda da taxa selic, significa que pode haver mudanças de investimentos em renda fixa, para o ibovespa ou depende do asset location? Em suma, em cenários de queda da selic no Brasil, a bolsa brasileira sempre apresenta fluxo maior comprador?

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    1. Não existe correlação pré-definida, mas uma possibilidade maior de responder aos movimentos das taxas de juros. O mercado é sempre soberano e não raro surpreende no direcional. No último ciclo de afrouxamento monetário, por exemplo, iniciado em 2011, a bolsa não vingou e até cedeu com a queda da taxa Selic. Não significa que vá repetir o mesmo padrão desta vez, mas que existem outras variáveis que podem se sobrepor e direcionar os preços dos ativos.

      Abs,

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  3. Diante dessa forte desalavancagem financeira. Tirando milhões das praças globais, provavelmente desvalorizando títulos públicos.
    Seria interessante montar posição em ouro, por exemplo?

    Edo

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    1. Sim, ouro e/ou prata. E fora do mercado financeiro, em ativos reais. Atentar ao timing para aproveitar o fim do ciclo bullish com a devida gestão de risco e não se precipitar indo com tudo agora na proteção, esperar o sinal do mercado. Por outro lado, no momento atual, os portfólios já exigem ao menos uma pequena proteção em commodities metálicas e/ou ativos reais.

      Abs,

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    2. Voce considera Fundo Imobiliario como ativo real? USD pode ser considerado como "seguro"? Abs

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    3. FII tem lastro em ativo real, mas não é ativo real. Os riscos de um investidor com FII e outro com imóvel (escritura em seu nome) são bem diferentes. Sim, USD pode ser usado como seguro, mas é preciso ter estratégia para operar câmbio.

      Abs,

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  4. Outro excelente texto FI,

    Ja algum tempo tenho gradualmente reduzido a exposicao e indo para DI/Cash/USD. A magica esta em como surfar o final da bolha (onde entrega grande parte da valorizacao) sem ser pego no contrape. Agradeco muito pelos ensinamentos contidos no seu livro e nos posts compartilhados. Abs

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    1. Exato. O fim do ciclo bullish é a fase mais perigosa, mas a de maior potencial de ganho. Imagina! O mérito é todo seu por conseguir colocar em prática (= psicológico) uma estratégia simples, mas bastante eficaz.

      Abs,

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  5. Artigo bem interessante!
    Lembro de um trecho do "Investidor inteligente", do Graham, que recomendava aos americanos manter um porção do patrimônio em ações estrangeiras (mercado emergente), pois, segundo ele, não há correlação direta entre os fluxos dos nossos mercados (EUA x Emergentes), sugerindo que quando estoura alguma bolha no Dow ou S&P 500, normalmente o capital alocado no exterior minimiza o prejuízo.
    Vc discorda desse racional? O que acha?
    Haveria alguma chance de quando virar o mercado nos desenvolvidos o Brasil ser beneficiado com algum fluxo?
    Abraços e parabéns pelo trabalho.
    @ofrugalista

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    1. Existe uma tendência/perspectiva, mas não uma espécie de obrigação. O mercado nem sempre se desloca conforme o esperado. Alguns padrões podem durar por longos períodos, mas em algum momento fatalmente serão quebrados. Em alguns momentos os mercados se deslocam em bloco. Parece dança de flamingos. Em outros momentos o fluxo se dispersa, parecendo galinhas fugindo da raposa dentro do galinheiro rs...
      Obrigado!

      Abs,

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