segunda-feira, 19 de junho de 2017

Viés dovish volta para mesa


O tom hawkish presente no comunicado emitido após a última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil) perdeu um pouco de força nesta segunda-feira com a divulgação da nota com os apontamentos do presidente Ilan Goldfajn em evento com investidores institucionais do banco Bradesco nesta segunda-feira em São Paulo.

O famoso trecho: “em função do cenário básico e do atual balanço de riscos, o Copom entende que uma redução moderada do ritmo de flexibilização monetária em relação ao ritmo adotado hoje deve se mostrar adequada em sua próxima reunião“, presente no último comunicado do Copom, forçou alguns analistas/economistas reverem suas estimativas para o nível da taxa Selic ao final do ciclo de afrouxamento monetário.

A expectativa de que a taxa básica de juros irá cair, mas não tanto quanto se projetava no passado recente, não está tão clara quanto parecia nos documentos do Banco Central. Goldfajn acrescentou uma nova mensagem nesta segunda-feira deixando as portas abertas para um cenário em que a estimativa anterior de alvo para taxa Selic se confirme.

Ao comentar sobre os impactos (negativos) que as incertezas do ambiente político possam criar sobre a formação de preços e estimativas para a taxa de juros estrutural, o presidente do Banco Central explicou que existe a possibilidade de que esses efeitos se anulem fazendo com que a trajetória prospectiva (para a taxa básica de juros) seja equivalente a trajetória vigente anteriormente.

Em outras palavras, o panorama do Banco Central que vigorava antes de a crise política estourar pode não sofrer alterações relevantes, ou mesmo ser mantido. É um elemento novo, que tira o peso hawkish presente nos últimos documentos do Copom. Essa mudança de tom pode ser uma reação ao clima de relativa tranqüilidade visto mercado financeiro nacional nas últimas semanas.

Importante ressaltar que o ambiente no mercado interno é fortemente influenciado pelo ciclo bullish nas principais praças financeiras mundiais. Os ativos de renda fixa e renda variável estão sobrevalorizados e os investidores seguem buscando risco com o objetivo de aumentar a rentabilidade de seus respectivos portfólios no curto prazo.

Já as projeções de mercado, coletadas pela pesquisa Focus, para inflação de 2017 e 2018 corroboram para manutenção de um viés ainda dovish na política monetária. A expectativa para o IPCA de 2017 caiu de 3,71% para 3,64%, com boa distância do centro da meta de 4,5%. Para 2018, a projeção caiu de 4,37% para 4,33%, distanciando-se do centro da meta a ser perseguido.

O quadro raro de um País que não cresce, mesmo depois de um tombo fenomenal, tem respaldado as reduções nas estimativas do IPCA. A inflação baixa no Brasil é um forte sinal de falha na estratégia de política econômica e não um motivo de comemoração. Entretanto, o Banco Central tende a dar cada vez mais peso às projeções de inflação, “justificando” um cenário otimista, para, assim, não fugir do alvo para a taxa Selic, estimado hoje em 8,5% ao ano.

As taxas dos contratos de juros futuros continuam em queda livre no curto prazo, já devolvendo boa parte da alta provocada pelo estouro da crise política no mês passado, tranquilizando o Banco Central.

A curva para 2020, por exemplo, voltou afundar pra dentro do patamar de um dígito, pagando prêmio de 9,51% ao ano, já se aproximando da mínima. O mercado de juros futuros doméstico voltou a operar com prêmio magro, influenciado pela nova corrida global por bonds de países emergentes.


Já o mercado de ações opera lateralizado no curtíssimo prazo, pressionado pelo peso da venda em função da formação do topo duplo na região dos 69,5k no mês passado. Preços pouco abaixo da média móvel simples de 200 períodos diária, mais ainda sinalizando quadro de intensa briga entre players em posições compradas versus posições vendidas. A vantagem continua para os vendedores, mas preços acima do suporte de 60,3k evita o acionamento de stops de posições compradas.



Europa

O BoE (Bank of England) mostrou forte sinal de divisão na última reunião de Comitê encerrada na quinta-feira da semana passada. Apesar do recente sinal de desaceleração econômica, três integrantes do Comitê apoiaram um inesperado aumento da taxa básica de juros. Os outros cinco integrantes, incluindo o presidente, votaram a favor da manutenção dos juros. A votação foi a mais apertada desde 2007.

A disparada do dólar frente a libra, iniciada ainda em 2014, é a principal pedra no sapato do BoE. Uma resposta da política monetária ao movimento do câmbio tem sido prorrogada em função das incertezas com o Brexit, mas a divisão deste mês mostrou que a política de juros ultra baixo está perto do fim para os britânicos.
  

Mesmo com o recuo de curto prazo no câmbio, a inflação alcançou 2,9% mês passado, bem acima do centro da meta a ser perseguida de 2% ao ano. Neste primeiro trimestre de 2017, o PIB do Reino Unido já sentiu o efeito da inflação local maior, registrando o pior desempenho entre as sete principais economias desenvolvidas do mundo.

Na França, o presidente Emmanuel Macron conquistou maioria dominante na eleição parlamentar ocorrida no último domingo. A República em Marcha (partido de Macron) e seu partido aliado Movimento Democrático conquistaram 350 das 577 cadeiras, abrindo boas condições para o presidente francês tocar sua importante agenda de reformas.


Ásia

O BoJ (Bank of Japan) não surpreendeu na semana passada e deixou inalterada sua estratégia de política monetária. Haruhiko Kuroda, presidente do banco central, assegurou aos investidores temerosos que a autoridade monetária japonesa ficará atrás da curva do FED (Federal Reserve – Banco Central norte americano), ou seja, ainda não há sequer perspectiva para iniciar uma desalavancagem no mercado local, embora as estimativas econômicas para o médio e longo prazo seguem melhorando.

Por fim, as principais bolsas de valores na China têm contribuído para reforçar sinais de que o mercado financeiro global opera na fase final de um ciclo bullish. A forte entrada de investidores pessoa física no mercado está incentivando as bolsas locais (Zhengzhou, Xangai e Dalian) lançarem produtos inovadores, tais como derivativos de frutas e de eletricidade.

Já existem projetos para lançamentos de contratos futuros de maçãs, tâmaras, produtos químicos e antracite, uma variedade compacta do carvão. Segundo a Associação de Futuros da China, um recorde de 4 bilhões de contratos futuros foram negociados ano passado, representando uma alta de 16% em relação à quantidade registrada em 2015.

4 comentários:

  1. Mais uma vez, obrigado pelos posts!

    A qualidade é tanta que eles deveriam ser pagos.

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  2. Leitura diária/semanal.
    Parabéns.

    Obrigado por disponibilizar o teu tempo.

    Att,
    edo

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  3. Tô pessimista, FI. Vou me proteger. As reformas não serão mais aprovadas. E 2018 é uma incógnita, possivelmente negativa. Valeu, Janot e Globo.

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  4. Pois é, FI.

    Tá difícil saber no q investir. Diminuição fiscal nos eua deve levar a aumento da cotação do dólar, ao mesmo tempo que deve frear o crescimento americano, inibindo o investimento nas ações de lá.

    Ficar aqui é ver nosso poder de compra ser diminuído pela desvalorização do real.

    Sinceramente, não faço ideia de qual caminho tomar. Tem alguma ideia? rsrs

    O único lado que vejo potencial de ganho é investir em small caps exportadoras. Será q estou certo?

    Abraço

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