terça-feira, 29 de agosto de 2017

Ao BCE, só resta cruzar os dedos no câmbio


A épica escalada do euro frente ao dólar está causando dor de cabeça a Mario Draghi, presidente do BCE (Banco Central Europeu). A reunião de Jacksoh Hole, realizada na última semana com os principais banqueiros centrais mundiais, era a única esperança de curto prazo capaz de aliviar a intensa força compradora sobre o euro.

Contrariando as expectativas dos europeus, o encontro em Jackson Hole foi muito fraco e não sinalizou nenhuma novidade em matéria de política monetária. Janet Yellen, presidente do FED (Federal Reserve - Banco Central dos Estados Unidos), se manteve estrategicamente cautelosa. Uma sinalização de próximo passo no plano de desalavacagem do balanço da autoridade monetária norte-americana poderia reverter o jogo no mercado de câmbio.

Nada aconteceu. O FED está sendo cauteloso na política monetária justamente no momento em que o BCE precisa ser mais agressivo. Mario Draghi está sob pressão para anunciar logo o cronograma de interrupção gradual do seu programa de compras mensais de ativos na medida em que a economia da zona do euro consolida sua trajetória de recuperação.

No mercado, muitos enxergam que não há espaço para os programas de estímulos monetários continuarem até 2019 e o próximo ano deve ser marcado por reduções graduais no volume de compras mensais até o encerramento definitivo em dezembro de 2018.

Apesar da retomada do crescimento, o BCE não está conseguindo fazer a inflação acompanhar a trajetória esperada de aceleração. O índice de preços ao consumidor desacelerou em julho para 1,3% nos últimos 12 meses, ainda bem distante do centro da meta de 2% a ser perseguido.

O BCE não pode correr o risco de manter o programa de estímulos por muito mais tempo com a economia em crescimento, mas por outro lado precisa deste mesmo programa para tentar criar inflação. Enquanto isso, a discussão sobre a eficácia (baixa) do programa de compras na Europa está ganhando peso e o próprio fortalecimento do euro impede a retomada da inflação.

Não há o que fazer neste momento, pois o BCE está travado pelo quadro macroeconômico. Sem ajuda do FED e BoE (Bank of England), só resta cruzar os dedos para uma inversão técnica no câmbio.

O euro renovou máxima dos últimos dois anos contra o dólar durante o pregão desta terça-feira. Entretanto, com elevado nível de sobrecompra, os preços não se sustentaram e um início de movimento de realização de lucros pode ser observado na tarde de hoje, criando uma shooting star (estrela cadente), que pode abrir espaço para novos recuos temporários do euro nos próximos pregões.


Um natural recuo do euro contra o dólar aliviaria um pouco a situação complicada para o BCE no curto prazo, mas está longe de apresentar a solução desejada. A moeda é a sensação bullish do mercado de câmbio e seu movimento de médio e longo prazo está se fortalecendo cada vez mais, longe de apresentar uma reversão.


O gráfico mais expandido do euro contra o dólar revela importante rompimento ascendente de uma lona zona de congestão de pouco mais de dois anos, fato que impulsionou a retomada da média móvel simples de 200 períodos semanal. Mesmo com uma realização natural nas próximas semanas, o euro ainda estará com espaço livre para manter sua perna de alta principal e voltar a criar dor de cabeça para Mario Draghi.

Contra a libra esterlina, o quadro para o euro é ainda mais desafiador. A forte desvalorização da libra contra o euro desde o final de 2015 pode deixar os países europeus em desvantagem comercial com o avanço do Brexit e, ainda, mandar a importante massa de turistas britânicos para outros cantos do planeta.


O sentimento nas principais bolsas de valores na Europa segue negativo, destoado do status quo global. Frankfurt opera dentro de um forte canal de baixa, iniciando perda da média móvel simples de 200 períodos diária.
  

Paris está cedendo desde o mês de maio deste ano, também iniciando rompimento descendente da média móvel simples de 200 períodos diária. O candle desta terça-feira pode apresentar algum alívio à força compradora nos próximos dias, até porque tocou na base do canal de baixa, mas ainda sem apresentar sinalização de reversão na tendência.


O índice STOXX 600 (mais amplo), também testou a base de um canal de baixa nesta terça-feira, mas já se distancia da média móvel simples de 200 períodos diária, reforçando o clima bearish na Europa.


No Brasil, o Ibovespa permanece sobrecomprado e perigoso para a ponta compradora a curtíssimo prazo mesmo com as dificuldades de surgimento de um natural movimento de realização de lucros. Já a perna principal (de alta) segue robusta, sem ameaça de reversão.


Destaque para o anúncio de redução do prazo de liquidação das operações no mercado à vista. Com objetivo de alinhar as práticas ao mercado norte-americano, a B3 vai ajustar no primeiro semestre de 2018 a liquidação das operações no mercado à vista dos atuais D+3 para D+2, o que pode ampliar a frequência dos negócios na bolsa.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Apareceu uma faísca no fim do túnel


Uma das melhores medidas da atual gestão Temer foi anunciada nesta histórica tarde de quarta-feira. Foi lançado um amplo plano de privatização no PPI (Programa de Parcerias e Investimentos), que por sinal foi muito bem recebido pelo mercado. Na lista estão 14 aeroportos, 11 blocos de linhas de transmissão de energia elétrica, 15 terminais portuários, rodovias e empresas públicas, entre elas as conhecidas Eletrobras, Casa da Moeda e Lotex.

Esta importante agenda vai certamente melhorar a qualidade dos serviços públicos, provocar redução sustentada dos preços, melhorar a infraestrutura, acabar com cabides de emprego, incentivar a concorrência, contribuir para retomada do crescimento com novos investimentos e de bônus criará recursos extras ao extremamente deficitário caixa do governo.

A Eletrobras é a grande estrela deste pacote de privatizações. Não somente pelo seu tamanho relevante, mas pelo que representa sua fuga às garras do Estado, que resultou num longo histórico de gestão nada positivo.

A “libertação” da Eletrobras ocorrerá através da emissão de papéis da empresa sem subscrição da União, que, protanto, será diluída e perderá o controle acionário da companhia. Ainda que a modelagem não esteja clara, somente este primeiro passo do governo já foi capaz de atrair atenção de algumas empresas chinesas e gestores de fundos de investimento na Europa e Estados Unidos.

Importante destacar que o atual status quo do mercado financeiro mundial é extremamente propício para implementação de programas de concessão/privatização. Com os preços salgados dos tradicionais ativos de renda fixa e renda variável renovando máximas do ano ou mesmo máximas históricas, alguns gestores tendem a buscar oportunidades diretas na própria economia real, comprando empresas ou montando parcerias com fundos de private equity.

Complementa a quarta-feira de boas notícias a aprovação, na comissão mista, da medida provisória que cria a TLP (Taxa de Longo Prazo), que por sua vez substituirá a custosa e problemática TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo).

Se passar no Congresso (considerando o largo placar na comissão mista, as chances são boas), a nova taxa de juros para o BNDES será definida com base no IPCA mais os rendimentos da NTNB, o que tornará a taxa do banco de fomento mais próxima das taxas praticadas livremente no mercado. Desta forma, as taxas de juros para toda a sociedade tendem a ser reduzidas gradualmente. Até então, grande parte da população custeava os subsídios para concessão de crédito barato ao pequeno grupo de amigos do rei.

Além disso, a TLP será importante para aumentar a potência da política monetária. O crédito muito barato da TJLP do passado, distorcido do resto da economia, forçava o Banco Central operar com uma carga de juros (Selic) maior para conseguir alcançar efeito desejado na política monetária.

Com a eliminação do subsídio na nova taxa do BNDES, haverá menor necessidade de carga de juros, facilitando, portanto, o trabalho do Banco Central. Em outras palavras, a TLP é um peso a menos a ser suportado ao alcance da taxa de juros neutra/estrutural (taxa de juros suficiente para manter a economia em crescimento sustentável com inflação ancorada na meta), abrindo espaço para extensão do atual ciclo de flexibilização monetária.

No mercado de capitais o clima segue positivo. O dólar contra real volta a se aproximar da mínima do mês de agosto aos R$ 3,10. Os contratos de juros futuros seguem comprados, com a ponta curta já renovando mínima do mês e a ponta longa retomando aproximação. Na bolsa, o Ibovespa acionou mais um pivot de alta ao superar a principal zona de resistência localizada aos 69k.


Mercado bullish, renovando fôlego da perna intermediária de alta iniciada aos 60,5k. Há espaço técnico para teste e possível rompimento do tão sonhado topo histórico da bolsa brasileira. Entretanto, é necessário cautela no curtíssimo prazo, em função dos níveis elevados de sobrecompra.

Wall Street se mantém azeda no curtíssimo prazo, com o quadro político local pesando sobre os negócios. O movimento vendedor cria necessário alívio natural aos preços e não emite sinal de ameaça à tendência principal de alta.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Bonds de mercados emergentes entram no estágio da euforia


A curva de rendimento da Treasury (título do tesouro norte-americano) voltou a cortar para compra no mês de julho após alguns sustos na primeira metade do ano. Não foi necessário alcançar a máxima de 2016 (2,60% no título de 10 anos) para voltar atrair fluxo comprador de gestores de fundos de renda fixa.

O mercado também voltou a comprar títulos do tesouro alemão (hoje pagando 0,40% ao ano, ante máxima de 0,60% registrada pouco menos de dois meses atrás), títulos do tesouro britânico (hoje pagando 1,07%, ante 1,31% no mês de julho) e até mesmo os títulos do tesouro japonês, que voltaram para muito perto da meta de zero a ser perseguida pelo BoJ.

Entretanto, o mais recente movimento comprador de bonds de mercados desenvolvidos não está tão forte quanto o histórico dos últimos anos, até porque os investidores estão cientes da mudança de rota, em curso, de seus banqueiros centrais.

Com pouca margem de ganhos empolgantes observadas nas praças desenvolvidas, players de renda fixa estão se entupindo de títulos de renda fixa de mercados emergentes. Curvas de juros cortadas para compra nas praças emergentes não são nenhuma novidade no mercado. A virada começou entre 2013 e 2014, mas pegou força mesmo somente no início de 2016.

Pode-se afirmar, pelas características técnicas, que os últimos 20 meses de negócios com títulos de renda fixa em praças emergentes são equivalentes à euforia observada nos mercados desenvolvidos com os lançamentos dos programas de estímulos monetários. Em outras palavras, somente a partir de 2016 os mercados emergentes passaram a experimentar o devido gosto dos programas de quantitative easing.

O Vanguard Emerging Markets Government Bond (medida de desempenho dos títulos públicos de mercados emergentes) está rasgando máxima aos 20.270 pontos. A LTA intermediária de 2016 chama atenção pela sua inclinação insustentável.


A forte arrancada dos últimos 20 meses está mantendo indicadores em região de sobrecompra por um longo período de tempo, o que também revela dificuldade de o índice replicar o forte desempenho do passado recente nos próximos meses/anos. Enquanto isso, o MACD já apresenta uma grande sinalização de divergência de baixa no índice da Vanguard, sinalizando aumento dos riscos para abertura de novas posições compradas.

O conhecido ETF de bonds de mercados emergentes do JP Morgan corrobora com a mesma sinalização técnica emitida pelo índice da Vanguard. Ou seja, o diagnóstico se mantém mesmo no caso de índices com metodologia um pouco diferente.


A euforia não está restrita aos títulos soberanos. Os títulos de renda fixa corporativos de mercados emergentes estão apresentando desempenho atípico. O iShares Emerging Markets Corporate Bond trabalha dentro de um forte upside, renovando máxima seguida de máxima, acumulando longo período de sobrecompra e, também, já apresentando divergência de baixa.
  

O apetite por títulos de renda fixa de praças emergentes é tão grande que até mesmo o mercado de high yield (onde o risco é ainda mais elevado) entrou para a festa. Um triângulo ascendente foi estourado para cima em 2016, atraindo intensa força compradora.


O ETF de Bonds High Yield de mercados emergentes acumula cerca de 30% de valorização desde 2016, mas também acumula longo período de sobrecompra, juntamente com sinalização de divergência de baixa no MACD.

Inegavelmente os títulos de renda fixa de mercados emergentes estão em euforia, surfando, somente recentemente, a potência dos programas de quantitative easing dos principais bancos centrais mundiais.

Ainda não há sinalização de reversão neste forte movimento comprador e os investidores com posições abertas seguem com confortáveis margens de gordura para administrarem ganhos de posições. Entretanto, considerando a situação técnica e o descasamento macro-fiscal de algumas praças, o elástico está esticado na compra.

Tal como nos mercados de ações de praças emergentes, os bonds destas referidas praças seguem comprados, mas agora com riscos elevados demais para abertura de novas posições longas. A onda pode estar na espuma, exigindo estratégias mais focadas em curto/médio prazo aos que ainda querem entrar.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Superávit primário some do mapa


A “brilhante” equipe econômica do governo Michel Temer anunciou nesta terça-feira revisão da meta fiscal a ser perseguida em 2017, 2018, 2019 e 2020. A meta de déficit para 2017 foi alterada de 139 bilhões de reais para 159 bilhões. A meta de déficit para 2018, ano eleitoral, foi alterada de 129 bilhões de reais para, também, folgados 159 bilhões de reais.

O velho discurso adotado para defender um rombo fiscal significativo (metas realistas) caiu por terra sem causar muito alarde no mercado.  Se no passado a elite financeira, econômica e empresarial brasileira criticava o governo por alterar no meio do percurso sua então meta de superávit primário para déficit primário, agora esses mesmos grupos parecem simplesmente aceitar confortavelmente o governo alterar no meio do percurso sua então meta de déficit primário significativamente elevada para uma nova meta de déficit primário ainda maior.

O mercado está tão receptivo a qualquer coisa que venha do governo, que nem parece prestar atenção às falas de Henrique Meirelles, ministro da Fazenda, e Dyogo Oliveira, ministro do Planejamento. Além das velhas e conhecidas desculpas esfarrapadas para justificar rombos fiscais tão elevados, o governo está culpando, agora, até mesmo a inflação baixa para uma arrecadação menor que a esperada anteriormente.

Esse fato curioso reforça a sinalização de que a equipe econômica, intitulada como ortodoxa (na teoria, claro), ainda desfruta de grande credibilidade no mercado. Os números catastróficos pouco importam nesse momento. Até mesmo a agência de classificação de risco S&P (Standard & Poor’s) deu seu voto de confiança para o novo rombo fiscal na noite desta terça-feira ao retirar o status de credit watch negativo para o rating brasileiro.

Ao retirar o credit watch, a S&P deixa de observar o Brasil para um possível rebaixamento dentro do período de 90 dias. O credit watch havia sido acionado pela S&P no dia 22 de maio deste ano e a decisão (rebaixar ou não o rating soberano) foi postergada ao máximo, o que permitiu a agência encontrar alívio temporário, apesar de a perspectiva se manter negativa.

Entre outras palavras, a S&P não descarta a possibilidade de novo rebaixamento na atual nota BB do Brasil no médio prazo (até meados de 2018), até porque a dinâmica da dívida pública segue assustadora, mas a inflação baixa e a estabilização da economia aliviaram o peso para um rebaixamento neste momento.

Há nítido excesso de foco no curto prazo, o que acaba camuflando o problema que está sendo empurrado silenciosamente para o longo prazo. A meta de déficit a ser perseguida em 2019 foi alterada de 65 bilhões de reais para incompreensíveis 139 bilhões, um belo presente para o próximo governo administrar.

A meta de 2020 também foi alterada. Até então, havia esperança de fazermos superávit simbólico de 10 bilhões de reais em 2020, o que ainda assim estaria muito longe do necessário para provocar reversão da trajetória de endividamento. Agora, o pobre superávit se transformou numa projeção de déficit fiscal de 65 bilhões de reais.

Não há, sequer, expectativa de quando vamos voltar a fazer superávit primário. Sumiu do mapa. Parece óbvio que não há mínimo esforço, por parte do governo, para reduzir despesas. Na prática, o que se observa é uma política de aumento de impostos (como foi o caso do PIS/Cofins sobre os combustíveis) e busca incansável por receitas extraordinárias/milagrosas.

Outro ponto que passou despercebido na noite desta terça-feira foi o primeiro movimento de ataque às grandes fortunas no País. O governo mudou a regra de tributação dos fundos de investimentos exclusivos (tal como as novas “metas” fiscais, precisam de aprovação do Congresso). A alteração pode simplesmente matar a embrionária indústria de gestão de patrimônio no Brasil.

Os fundos de investimentos exclusivos, principal produto da prateleira de uma gestora independente de fortunas, perderão a grande vantagem tributária de recolhimento do imposto de renda somente no resgate das cotas do fundo e serão equiparados aos demais fundos abertos.

Isso significa que o cotista de um fundo de investimento exclusivo vai ter uma rentabilidade menor em decorrência do recolhimento rotineiro do imposto de renda. Meirelles afirmou que a medida é apenas uma antecipação da tributação. Na prática, o que está sendo feito é uma descarada mudança de regra para que alguns bilhões pinguem nos cofres do governo.

Não ficou claro se a mudança vai afetar fundos de venture capital e private equity, que também são classificados como fundos fechados. Caso positivo, a medida será um tremendo tiro no pé. Muitas vezes, fundos de private equity e venture capital são o único trampolim para startups se desenvolverem no Brasil.

No mercado de capitais, o índice Bovespa fechou o pregão mostrando nova sinalização de perigo às posições compradas de curto prazo. Outra shooting star apareceu após o mercado realizar contato com a principal linha de resistência localizada na região dos 69k, mostrando entrada de novas posições vendidas na praça.


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Kim recua após China ser pressionada nos bastidores


Uma força tarefa realizada pelo primeiro escalão do governo norte-americano neste último final de semana obteve rápido sucesso com suas ações nos bastidores, aliviando as tensões do mercado com a crise da Coreia do Norte.

Inicialmente, o chefe do Estado maior dos Estados Unidos, Joseph Dunford, se deslocou à Coreia do Sul para renovar as garantias de proteção ao seu aliado. Nenhuma declaração provocativa foi emitida por Dunford, que se reuniu com o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, para alinhar uma estratégia de curto prazo com atuação mais diplomática.

Seul, capital da Coreia do Sul (metrópole com mais de 10 milhões de habitantes), está a pouco mais de 30 quilômetros do paralelo 38, onde as duas Coreias se dividem. Seria, portanto, um alvo extremamente fácil não só para os mísseis de Kim Jong-un, como da própria artilharia terrestre norte-coreana.

Entretanto, o presidente da Coreia do Sul não tem demonstrado tanta preocupação com a escalada de tensão com seu vizinho do norte. Moon Jae-in disse que independentemente dos altos e baixos, a situação nuclear norte-coreana deve ser tratada de forma pacífica.

Também um alvo relativamente fácil dos norte-coreanos, o Japão segue demonstrando uma postura mais cautelosa, evitando enviar mensagens em tom provocativo à King Jong-um. O premiê japonês, Shinzo Abe, ativou e posicionou estrategicamente seu sistema de defesa antimísseis Patriot. Além disso, Abe disse que vai tentar convencer os norte-coreanos a não dispararem mísseis em direção a Guam.

Mas somente ações de Japão e Coreia do Sul não seriam o suficiente para reduzir as tensões no curto prazo. O xeque-mate diplomático partiu da China e teve efeito imediato. Robert Lighthizer, conselheiro do comércio de Donald Trump, disse que avalia a possibilidade de abrir uma investigação contra as práticas comerciais de empresas chinesas que obrigam firmas norte-americanas a abdicarem dos direitos de propriedade intelectual, o que certamente causaria abalo nas relações comerciais entre os dois países.

Em se tratando de comércio com os Estados Unidos, os chineses continuam mostrando que estão jogando na defensiva, evitando qualquer tipo de atrito. Os indicadores econômicos do gigante asiático voltaram a mostrar sinais de cansaço nos últimos meses, revelando possível desaceleração para o terceiro trimestre. A China depende de sua balança comercial muito favorável com os Estados Unidos para administrar seu processo de transformação do modelo de crescimento.

A pressão funcionou. Nesta segunda-feira, o Ministério do Comércio da China emitiu uma proibição contra diversas importações da Coreia do Norte (incluindo carvão, minério de ferro, chumbo e frutos do mar), que entra em vigor a partir de amanhã. A ação da China está em linha com as sanções da ONU anunciadas este mês, mas o timing de implementação surpreendeu, já que os países tem um prazo de até 30 dias para cumprirem à resolução.

Xi Jinping, presidente da China, provavelmente foi mais além, aplicando uma espécie de “sossega-leão” em Kim Jong-un. A Coreia do Norte recuou inesperadamente nesta segunda-feira ao afirmar que vai observar as ações dos Estados Unidos por mais um tempo antes de tomar uma decisão sobre o plano de atacar a área em torno de Guam.

Wall Street reagiu positivamente. O índice S&P500 subiu forte nesta segunda-feira, recuperando toda a perda sofrida com o tombo da última quinta-feira, já realizando teste sobre a linha central de bollinger.


A bolsa de Seul trabalhou formação de fundo na região dos 2.310 pontos, abrindo espaço para recuperação ascendente dos preços, contribuindo assim para o fortalecimento da atual perna principal de alta.


No Japão, Nikkei fechou o pregão desta segunda-feira com um doji totalmente fora da bollinger inferior, retirando o peso da recente perda da linha de suporte de uma zona de congestão de curto prazo.


No Brasil, o índice Bovespa voltou a subir forte, já se aproximando novamente da principal faixa de resistência localizada na região dos 69k. O rápido retorno da força compradora compromete posições vendidas ainda em aberto, fragilizando a referida zona de resistência. Mercado segue impulsionado pelo cenário externo favorável, desconectado do quadro macro local.
 

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Trump carimba shooting star em Wall Street


Um relevante sinal técnico de alerta às posições compradas de curto prazo em Wall Street foi emitido na tarde desta terça-feira, com grande ajuda do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Mantendo o ritmo da forte perna de alta de curto prazo, os índices de ações iniciaram o dia renovando mais uma vez novas máximas históricas, quase que desafiando a “lei da gravidade” no mercado de capitais.

Tudo parecia indicar para mais um dia de festa aos touros de Wall Street até aparecer Donald Trump com mais um de seus discursos polêmicos. O presidente dos Estados Unidos disse na tarde desta terça-feira que é melhor a Coreia do Norte não fazer mais ameaças ao seu país, caso contrário será atingida por fogo e fúria como nunca viu.

A declaração de Trump surgiu pouco depois de o Ministério da Defesa do Japão ter emitido alerta de avanço considerável no programa de armas nucleares norte-coreano, já alcançando possivelmente ogivas nucleares.

O Conselho de Segurança da ONU impôs novas sanções à Coreia do Norte neste último sábado devido aos contínuos testes de mísseis. O presidente norte-coreano, Kim Jong-un, disse que as sanções infringem a soberania de seu país e que está pronto para dar aos Estados Unidos uma severa lição com sua força nuclear em resposta a qualquer ação militar/hostil norte-americana.

Na semana passada Trump havia advertido que estava preparado para usar força caso seja necessário para impedir os avanços dos programas de mísseis da Coreia do Norte, mas que preferia uma ação mais diplomática, com as sanções.

O discurso desta terça-feira é uma provocação em tom mais forte por parte de Donald Trump, o que abre espaço para retaliação de Kim Jong-un também em tom mais alto, como já ocorreu em outras ocasiões.

Apesar de ser inviável uma guerra entre os dois países, o mercado não tem demonstrado devida preocupação frente ao perigoso jogo de poker entre os dois líderes. Além do mais, existe um temor de que a estratégia de Trump com a Coreia do Norte possa acirrar ainda mais os nítidos atritos criados com China e Rússia recentemente, afetando as relações comerciais entre as principais economias do planeta.

Sob esse receio, Wall Street virou a mão muito rapidamente na tarde desta terça-feira, devolvendo os ganhos relevantes acumulados durante o pregão. Por conta desse movimento, os principais índices de ações norte-americanos emitiram candle do tipo shooting star (ou estrela cadente), em zona de sobrecompra e tendências maturadas, o que reforça uma sinalização de reversão à vista.

O S&P500 está com suas bandas de bollinger fechadas, num possível prenúncio de nascimento de uma perna de baixa. A principal reta de suporte está localizada na faixa dos 2,400 pontos, relativamente distante dos preços atuais.


A situação do Dow Jones chega a ser mais dramática. Shooting star colada na bollinger superior, em nível de sobrecompra atipicamente elevado, surgindo após uma também atípica sequência de 10 pregões consecutivos de alta, em todos eles renovando máxima histórica. A principal reta de suporte de curto prazo também está relativamente distante, localizada na região dos 21.200 pontos.
  


As condições técnicas para os preços iniciarem trajetória de correção em Wall Street são consideradas fortes. Ainda assim, um hipotético mercado vendedor nas próximas semanas está longe de causar ameaça à tendência principal de alta, em função da grande gordura apresentada pelos índices acionários para correção saudável.

No Brasil, o Ibovespa replicou a shooting star de Wall Street. Candle de pavio longo relevante, em perna de alta relativamente maturada, fora da bollinger superior, em zona de sobrecompra elevada, bem abaixo do principal ponto de resistência de curto prazo localizado aos 69k. Mercado tende a ficar pesado para venda no curto prazo, mas ainda sem apresentar sinal de ameaça à tendência principal de alta.


Na agenda local, destaque para o fortalecimento da possibilidade de mais uma mudança na meta fiscal (sendo que o atual déficit de 139 bilhões de reais para 2017 já é considerado absurdamente elevado), além da proposta em estudo para criação de uma alíquota de 30% ou 35% de Imposto de Renda para quem ganha mais de 20 mil reais por mês e da tributação de lucros e dividendos.

Porém, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, foi enfaticamente contra a proposta em estudo do governo, indo contra a sinalização emitida mais cedo por Michel Temer e integrantes da equipe econômica. No início da noite, Michel Temer retrocedeu na criação do imposto. Rodrigo Maia falou mais alto e tem conquistado cada vez mais a simpatia do mercado.

De uma forma ou de outra (direta ou indiretamente) está claro que existe mais um novo buraco a ser tapado dentro da cratera fiscal. Não somente na meta de 2017, mas também na de 2018. Como o governo se recusa cortar certos privilégios, nós vamos pagar mais essa conta, como de costume.

A justificava a ser apresentada, também como de costume, para possível revisão de um rombo maior no quadro fiscal é a famosa frustração de receita. Na visão do governo, a culpa não é da gastança, mas sim de receitas que deveriam entrar no caixa, mas que por algum motivo não estão entrando.

A não ser que ocorra um milagre de o Brasil voltar a crescer em ritmo de economia emergente (ou seja, ao menos 4% ao ano) a curto/médio prazo, o próximo presidente terá de administrar uma bomba fiscal.

Para complicar, conforme estudo do FMI (Fundo Monetário Internacional), o crescimento per capita da América Latina será de apenas 1,6% no médio prazo, empurrada pela âncora brasileira. Para feito de comparação, essa é a mesma taxa registrada nos últimos 25 anos para a região e, ainda, bem inferior ao crescimento de 2,6% per capita estimado para os países em desenvolvimento de forma geral.

Como bem disse recentemente Alberto Ramos, economista-chefe do Goldman Sachs para a América Latina. “Nós não investimos o suficiente, não poupamos o suficiente, não comercializamos o suficiente, não educamos o suficiente. O que você esperava? Não vamos crescer o suficiente."

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Porta aberta para reforma tributária


O presidente Michel Temer renasceu das cinzas nesta última quarta-feira. Por 263 votos a favor e apenas 227 contra, a denúncia de corrupção passiva apresentada pela PGR (Procuradoria Geral da República) não será levada ao Supremo Tribunal Federal.

O resultado da votação na Câmara mostrou uma oposição enfraquecida, muito longe de alcançar os 342 votos necessários para autorizar o Supremo a dar andamento ao processo. Mesmo com aprovação de apenas 5% da população, pior que a da ex-presidente Dilma antes de sofrer o impeachment, Temer consegue se resistir dentro de uma bolha formada por expressivo número de parlamentares fiéis à base e/ou agenda de reformas.

Além disso, Temer não enfrenta protestos de massa nas ruas e conta com o apoio da elite financeira e empresarial brasileira, pontos relevantes que endossam os pilares de sua base aliada no Congresso.

Enquanto o presidente continuar articulando para avançar com a agenda de reformas estruturantes, seu cargo parece estar garantido no Planalto. Conseguir 263 votos com a memória ainda fresca da população referente os escândalos da JBS não é nada desprezível.

Considerando o racha do PSDB na votação de ontem, a bolha que protege Temer no Congresso pode ser considerada inferior ao grupo de parlamentares pró reformas, o que sem dúvida abre boa perspectiva para novas mudanças à frente. Inclusive, alguns parlamentares que votaram contra o presidente na Câmara afirmaram em plenário serem favoráveis a agenda de reformas.

Talvez possa ser um pouco audacioso pensar nesse momento nos 308 votos necessários para aprovação da necessária reforma da previdência, mas as condições para avanço de outra reforma importante, a tributária, ficaram muito boas.

O ministro da Secretaria do Governo, Antonio Imbassahy, já admitiu que pode votar a reforma tributária nos próximos meses, antes mesmo da reforma da previdência. Parte das mudanças a serem apresentadas na reforma tributária exigiria apenas 257 votos para serem aprovadas, pois não seria necessário alterar a Constituição (o caminho seria feito através de lei complementar).

O governo já provou que possui os 257 votos e não seria tão difícil alcançar eventuais 308 votos para mudança na carga tributária, já que o tema é de grande interesse de partidos como o PSDB. O desgaste para os parlamentares também seria menor, quando comparado ao desgaste provocado por uma mudança na previdência. A reforma tributária não sofre tanta resistência da sociedade e seu nível de impopularidade ainda é baixo.

O mercado está confiante. O dólar contra real voltou para a mínima do mês de julho, mantendo-se cortado para venda, abaixo da média móvel simples de 200 períodos diária e muito próximo de sua principal área de suporte localizada na faixa dos R$ 3,04 aos R$ 3,08.


Os contratos de juros futuros seguem em queda livre, renovando mínima do ano a cada semana. Nesta quinta-feira, a curva para 2020 fechou pagando prêmio de apenas 8,59%.
  

Muitos no mercado estão enxergando possibilidade de as taxas dos contratos de juros futuros caírem mais 1 ponto percentual aproximadamente, com o Banco Central mantendo um tom ainda muito dovish na política monetária. A curva apresenta espaço para um pouco mais de valorização nas posições, embora o elástico encontra-se esticado, o que limita o foco de curto prazo e exige atenção redobrada no manejo das posições.

A bolsa de valores fechou o pregão desta quinta-feira em leve baixa, num movimento de realização de lucros considerado adequado e saudável em função da sequencia de cinco pregões consecutivos de alta.


Mercado trabalhou formação de resistência, a princípio temporária, na região dos 67,3k, com boa distância sobre a linha central de bollinger, LTA dos 60,5k e suporte intermediária dos 64,5k, o que mantém tranquilidade de investidores posicionados na ponta comprada.

No cenário externo, destaque para a esperada mudança no tom da comunicação do BoE (Bank of England). O Comitê de Política Monetária decidiu manter a taxa básica de juros inalterada, na mínima histórica, mas alertou que os juros podem subir um pouco mais do que o mercado espera dentro de um ano. Além disso, o programa de compra de ativos deve terminar como o previsto em fevereiro de 2018, sem expectativa de ser prorrogado.

O tom mais hawkish do BoE ocorre mesmo com revisão da previsão de crescimento deste ano de 1,9% para 1,7%, o que mostra preocupação maior com o retorno da inflação no Reino Unido.

Ainda na Europa, o Banco Central da República Checa realizou um movimento histórico nesta quinta-feira ao subir sua taxa básica de juros de 0,05% para 0,25%, primeiro aperto monetário em quase 10 anos.

Apesar de ser uma economia relativamente irrelevante, o acontecimento na República Checa tem um fator simbólico de peso, pois revela o início de uma fase de reversão dos longos anos de políticas de estímulos monetário agressivos. A República Checa é a primeira peça do dominó a tombar rumo à normalização da política monetária em toda a Europa.