quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Apareceu uma faísca no fim do túnel


Uma das melhores medidas da atual gestão Temer foi anunciada nesta histórica tarde de quarta-feira. Foi lançado um amplo plano de privatização no PPI (Programa de Parcerias e Investimentos), que por sinal foi muito bem recebido pelo mercado. Na lista estão 14 aeroportos, 11 blocos de linhas de transmissão de energia elétrica, 15 terminais portuários, rodovias e empresas públicas, entre elas as conhecidas Eletrobras, Casa da Moeda e Lotex.

Esta importante agenda vai certamente melhorar a qualidade dos serviços públicos, provocar redução sustentada dos preços, melhorar a infraestrutura, acabar com cabides de emprego, incentivar a concorrência, contribuir para retomada do crescimento com novos investimentos e de bônus criará recursos extras ao extremamente deficitário caixa do governo.

A Eletrobras é a grande estrela deste pacote de privatizações. Não somente pelo seu tamanho relevante, mas pelo que representa sua fuga às garras do Estado, que resultou num longo histórico de gestão nada positivo.

A “libertação” da Eletrobras ocorrerá através da emissão de papéis da empresa sem subscrição da União, que, protanto, será diluída e perderá o controle acionário da companhia. Ainda que a modelagem não esteja clara, somente este primeiro passo do governo já foi capaz de atrair atenção de algumas empresas chinesas e gestores de fundos de investimento na Europa e Estados Unidos.

Importante destacar que o atual status quo do mercado financeiro mundial é extremamente propício para implementação de programas de concessão/privatização. Com os preços salgados dos tradicionais ativos de renda fixa e renda variável renovando máximas do ano ou mesmo máximas históricas, alguns gestores tendem a buscar oportunidades diretas na própria economia real, comprando empresas ou montando parcerias com fundos de private equity.

Complementa a quarta-feira de boas notícias a aprovação, na comissão mista, da medida provisória que cria a TLP (Taxa de Longo Prazo), que por sua vez substituirá a custosa e problemática TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo).

Se passar no Congresso (considerando o largo placar na comissão mista, as chances são boas), a nova taxa de juros para o BNDES será definida com base no IPCA mais os rendimentos da NTNB, o que tornará a taxa do banco de fomento mais próxima das taxas praticadas livremente no mercado. Desta forma, as taxas de juros para toda a sociedade tendem a ser reduzidas gradualmente. Até então, grande parte da população custeava os subsídios para concessão de crédito barato ao pequeno grupo de amigos do rei.

Além disso, a TLP será importante para aumentar a potência da política monetária. O crédito muito barato da TJLP do passado, distorcido do resto da economia, forçava o Banco Central operar com uma carga de juros (Selic) maior para conseguir alcançar efeito desejado na política monetária.

Com a eliminação do subsídio na nova taxa do BNDES, haverá menor necessidade de carga de juros, facilitando, portanto, o trabalho do Banco Central. Em outras palavras, a TLP é um peso a menos a ser suportado ao alcance da taxa de juros neutra/estrutural (taxa de juros suficiente para manter a economia em crescimento sustentável com inflação ancorada na meta), abrindo espaço para extensão do atual ciclo de flexibilização monetária.

No mercado de capitais o clima segue positivo. O dólar contra real volta a se aproximar da mínima do mês de agosto aos R$ 3,10. Os contratos de juros futuros seguem comprados, com a ponta curta já renovando mínima do mês e a ponta longa retomando aproximação. Na bolsa, o Ibovespa acionou mais um pivot de alta ao superar a principal zona de resistência localizada aos 69k.


Mercado bullish, renovando fôlego da perna intermediária de alta iniciada aos 60,5k. Há espaço técnico para teste e possível rompimento do tão sonhado topo histórico da bolsa brasileira. Entretanto, é necessário cautela no curtíssimo prazo, em função dos níveis elevados de sobrecompra.

Wall Street se mantém azeda no curtíssimo prazo, com o quadro político local pesando sobre os negócios. O movimento vendedor cria necessário alívio natural aos preços e não emite sinal de ameaça à tendência principal de alta.

15 comentários:

  1. Realmente é melhor um ladrão esperto do que uma ladra ignorante!
    Tomara que melhore cada vez mais!

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  2. Fala FI,

    A notícia aparentemente é boa, contudo, todos nós sabemos que a máfia estatal só tomou essa atitude porque o país está quebrado!

    Levando isso em conta, precisamos ver se as coisas realmente vão acontecer, afinal, todo mundo sabe como são as "privatizações" daqui, vide a Vale, onde o governo continuou mandando nela depois da "venda".

    Abraços!

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    1. É uma notícia muito boa, por dois motivos básicos:
      1) Sinal de imposição da economia sobre a política. Sem margem de manobra, e percebendo o nível de pressão fiscal para o próximo ano, o governo tomou esta atitude louvável.
      2) Sinal de evolução ideológica. Apesar de todo ceticismo da mídia, a notícia foi bem recebida pela população, o que mostra certa conscientização dos graves problemas fiscais e estruturais. Privatizações são defendidas por muitos brasileiros que foram aos protestos de massa entre 2013-2016. É uma agenda importante e que está ganhando força. Há 15/20 anos, falar em privatização era quase que um insulto.

      Abs,

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    2. Tenho notado que a palavra "privatização" deixou de ser palavrão e passou a ser usada com mais naturalidade pelos políticos. Repare hoje como o Dória repete a palavra, comparado como o Alckmin morria de medo de pronunciá-la nas eleições de 2006. Sinal de avanço ideológico, ou de aperto no bolso mesmo.

      FI, você acha que esta mudança de mentalidade pode diminuir as chances do Lula se eleger ano que vem (caso não seja impedido de se candidatar)? Tenho notado que ele radicalizou muito o discurso, e torço para que isso afaste a classe média de votar nele.

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    3. Sim, parece que a classe média está aos poucos mudando sua mentalidade em alguns pontos. Precisa evoluir muito, mas já é alguma coisa. Acho que essa radicalização do discurso do Lula é um desespero para pressionar por um desfecho favorável na justiça (uma mobilização social pró-Lula talvez) e conseguir se candidatar.

      Abs,

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  3. Finalmente uma boa notícia. Aliás, duas.

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    1. Sim, e vai gerar efeito dominó positivo para o mercado de capitais. Não somente com a economia aos poucos se desapegando da heterodoxia, mas também por forçar as empresas procurarem o mercado para captarem recursos. Com o fim da farra da TJLP, o empresário vai ter que estudar opções de captação de recursos diretamente no mercado de capitais para não ter que bater na porta do banco.

      Abs,

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  4. Achei pouco, mas já é uma novidade. Faltaram Correios, BB, CEF, Petrobras e a miríade de empresas que tem o governo como acionista importante. Temos que torcer para o próximo governo manter as reformas. Não acho que dará tempo de fazer todas essas "privatizações" até o fim do ano.

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    1. Sim, é apenas o primeiro passo, mas o mais importante. Eletrobras, por exemplo, será um marco. Estamos quebrando paradigmas. Possivelmente outras privatizações surgirão ao longo dos próximos anos.

      Abs,

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  5. Parabéns pelo trabalho.

    O mercado global segue esticado nos ativos de risco, todavia, o IBOV está descontado em relação aos pares. O decoupling que ocorreu nos últimos anos dificultou à gestão de risco e parece que o mercado seguirá ignorando a bolha dos bonds.

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  6. Olá FI, oque você acha dos retornos da Eletrobras privatizada no longo prazo? Você acha que ela pode ser uma Tractebel ou vai ser como as outras do mercado?

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    1. A tendência é melhorar, mas ainda é muito cedo pra avaliar.

      Abs,

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