quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Superávit primário some do mapa


A “brilhante” equipe econômica do governo Michel Temer anunciou nesta terça-feira revisão da meta fiscal a ser perseguida em 2017, 2018, 2019 e 2020. A meta de déficit para 2017 foi alterada de 139 bilhões de reais para 159 bilhões. A meta de déficit para 2018, ano eleitoral, foi alterada de 129 bilhões de reais para, também, folgados 159 bilhões de reais.

O velho discurso adotado para defender um rombo fiscal significativo (metas realistas) caiu por terra sem causar muito alarde no mercado.  Se no passado a elite financeira, econômica e empresarial brasileira criticava o governo por alterar no meio do percurso sua então meta de superávit primário para déficit primário, agora esses mesmos grupos parecem simplesmente aceitar confortavelmente o governo alterar no meio do percurso sua então meta de déficit primário significativamente elevada para uma nova meta de déficit primário ainda maior.

O mercado está tão receptivo a qualquer coisa que venha do governo, que nem parece prestar atenção às falas de Henrique Meirelles, ministro da Fazenda, e Dyogo Oliveira, ministro do Planejamento. Além das velhas e conhecidas desculpas esfarrapadas para justificar rombos fiscais tão elevados, o governo está culpando, agora, até mesmo a inflação baixa para uma arrecadação menor que a esperada anteriormente.

Esse fato curioso reforça a sinalização de que a equipe econômica, intitulada como ortodoxa (na teoria, claro), ainda desfruta de grande credibilidade no mercado. Os números catastróficos pouco importam nesse momento. Até mesmo a agência de classificação de risco S&P (Standard & Poor’s) deu seu voto de confiança para o novo rombo fiscal na noite desta terça-feira ao retirar o status de credit watch negativo para o rating brasileiro.

Ao retirar o credit watch, a S&P deixa de observar o Brasil para um possível rebaixamento dentro do período de 90 dias. O credit watch havia sido acionado pela S&P no dia 22 de maio deste ano e a decisão (rebaixar ou não o rating soberano) foi postergada ao máximo, o que permitiu a agência encontrar alívio temporário, apesar de a perspectiva se manter negativa.

Entre outras palavras, a S&P não descarta a possibilidade de novo rebaixamento na atual nota BB do Brasil no médio prazo (até meados de 2018), até porque a dinâmica da dívida pública segue assustadora, mas a inflação baixa e a estabilização da economia aliviaram o peso para um rebaixamento neste momento.

Há nítido excesso de foco no curto prazo, o que acaba camuflando o problema que está sendo empurrado silenciosamente para o longo prazo. A meta de déficit a ser perseguida em 2019 foi alterada de 65 bilhões de reais para incompreensíveis 139 bilhões, um belo presente para o próximo governo administrar.

A meta de 2020 também foi alterada. Até então, havia esperança de fazermos superávit simbólico de 10 bilhões de reais em 2020, o que ainda assim estaria muito longe do necessário para provocar reversão da trajetória de endividamento. Agora, o pobre superávit se transformou numa projeção de déficit fiscal de 65 bilhões de reais.

Não há, sequer, expectativa de quando vamos voltar a fazer superávit primário. Sumiu do mapa. Parece óbvio que não há mínimo esforço, por parte do governo, para reduzir despesas. Na prática, o que se observa é uma política de aumento de impostos (como foi o caso do PIS/Cofins sobre os combustíveis) e busca incansável por receitas extraordinárias/milagrosas.

Outro ponto que passou despercebido na noite desta terça-feira foi o primeiro movimento de ataque às grandes fortunas no País. O governo mudou a regra de tributação dos fundos de investimentos exclusivos (tal como as novas “metas” fiscais, precisam de aprovação do Congresso). A alteração pode simplesmente matar a embrionária indústria de gestão de patrimônio no Brasil.

Os fundos de investimentos exclusivos, principal produto da prateleira de uma gestora independente de fortunas, perderão a grande vantagem tributária de recolhimento do imposto de renda somente no resgate das cotas do fundo e serão equiparados aos demais fundos abertos.

Isso significa que o cotista de um fundo de investimento exclusivo vai ter uma rentabilidade menor em decorrência do recolhimento rotineiro do imposto de renda. Meirelles afirmou que a medida é apenas uma antecipação da tributação. Na prática, o que está sendo feito é uma descarada mudança de regra para que alguns bilhões pinguem nos cofres do governo.

Não ficou claro se a mudança vai afetar fundos de venture capital e private equity, que também são classificados como fundos fechados. Caso positivo, a medida será um tremendo tiro no pé. Muitas vezes, fundos de private equity e venture capital são o único trampolim para startups se desenvolverem no Brasil.

No mercado de capitais, o índice Bovespa fechou o pregão mostrando nova sinalização de perigo às posições compradas de curto prazo. Outra shooting star apareceu após o mercado realizar contato com a principal linha de resistência localizada na região dos 69k, mostrando entrada de novas posições vendidas na praça.


21 comentários:

  1. ...Sr. Henrique Meirelles querendo ser presidente da republica e preparando seu terreno. Apesar de ser um nome que agradaria ao mercado, tem um grande conflito de interesses nisso.

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    1. Tem um bom histórico no Banco Central, mas não é nenhum FHC rs...

      Abs,

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  2. Ótimo post! Excelente análise macroeconômica, pelo fato do ano que vem ser ano eleitoral nota-se que o mercado já está precificando a "farra".

    Vamos ver se esse ciclo será sustentável ou apenas um voo de galinha.

    Abraços

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  3. Olá F.I.

    O governo literalmente entregou pra deus a questão orçamentária. Michel Temer vai passar a faixa com uma bomba fiscal pendurada nela para o próximo presidente em 2018...

    Você acha que no médio prazo corremos risco de calote branco, ou seja, o governo forçar aumento da inflação em decorrência de "jogar dinheiro" na praça? A se observar a fala de Meirelles sobre inflação e o risco de um presidente populista já para o próximo pleito.

    Abraços e Suce$$o!

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    1. Sem dúvida é uma bomba fiscal, com ou sem reforma da previdência. Infelizmente o tema não está sendo tratado com a devida seriedade. Essa possibilidade não é desprezível e nós investidores precisamos ter estratégia preparada para esse quadro adverso. Vamos ter uma noção melhor do que virá com os debates ano que vem e como será a formação do novo Congresso.

      Igualmente. Abs!

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    2. Nossa, só de pensar na formação do "novo congresso" já me dá calafrios!

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  4. É notável que o governo Dilma teve sua culpa nesses déficits do governo brasileiro. MAs essa situação não poderia ter sido apaziguada, caso, tivéssemos um congresso em 2015 disposto a resolver a situação fiscal do país e não uma guerra política com pautas bombas, buscas pelo poder, vaidade pessoal, enfim entre todas as mazelas do ser humano.....

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  5. MAs FI, essa tributação não entra em linha em uma tributação mais progressiva do que regressiva em pauta no Brasil? Ou você não concorda que a tributação no Brasil é excessivamente tributada aos mais pobres?

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    1. Concordo que a tributação precisa ser revista e existe um grande peso às camadas mais baixas da população, mas no que se refere aos fundos exclusivos, a medida vai simplesmente fazer com que pessoas/famílias com grandes fortunas procurem outros meios para alocação de capital. No fundo exclusivo, o cotista ou os poucos cotistas precisam arcar com os custos fixos (gestor, administrador, custodiante, auditor, etc). Nos fundos abertos, esses custos fixos são bem diluídos, por isso a necessidade do diferencial na tributação para fundos exclusivos, para que a ferramenta se torne atrativa e fomente a embrionária indústria de gestão de grandes fortunas no Brasil. Parece que o governo estava desesperado para arrumar alguns bilhões a mais e resolveu partir para cima das gestoras independentes de fortunas.

      Abs,

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  6. FI, uma forma de se proteger contra um calote Branco seria comprando imoveis? Acredito que em uma disparada da inflação ativos físicos seriam uma boa medida de proteção. Rodrigo

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    1. Rodrigo, não necessariamente. No primeiro momento, a melhor forma de se proteger de uma disparada da inflação é através de swaps de IPCA. Gestores de alguns fundos podem utilizar essa estratégia. O investidor pessoa física também pode montar sua própria proteção através das COEs (estruturas), que já chegam prontas na prateleira. Basicamente, quanto mais a inflação sobe, maior será o retorno da estrutura. Quanto menos a inflação subir, menor será o retorno da estrutura. Elas podem ser acompanhadas de travas de baixa. Na minha avaliação é o melhor produto para momentos como esse. Hoje alguns instituições já comercializam COEs de IPCA no mercado. No segundo momento, após o choque, com a inflação já estourada e um sinal perspectiva melhor, uma realocação para juros futuros, LTNs ou NTNBs (ou mesmo fundos de renda fixa com esse perfil) pode-se mostrar vantajosa, pois nesse caso o investidor estará comprando ativos extremamente baratos, com elevado potencial de valorização a curto/médio prazo.

      Abs,

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    2. Tenho minhas dúvidas em relação à esses COEs. São muito complicados e as corretoras estão spammando isso loucamente. Sempre fico com o pé atrás quando algo é muito propagandeado.

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    3. Na verdade os COEs são feitos justamente para descomplicar. O risco é da instituição emitente e não da instituição que faz a distribuição. Talvez o problema possa estar ocorrendo com a forma de comunicação de sua corretora ou assessor. Lamentável essa estratégia de spammar qualquer tipo de produto. Se tiver dúvidas, pode me perguntar. E-mail: financasinteligentes@gmail.com

      Abs,

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    4. Interessante essa estratégia de Swaps de IPCA, porque eu definitivamente não creio que seja possível manter essa inflação baixa com um deficit primário (o nominal nem se fala mais) até sabe-se lá deus quando.

      Vou ver se na minha corretora eles tem algum COE com essa estratégia.

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  7. Minha teoria é que o mercado vai continuar nos 60k até meados de 2018. Nas eleições com grandes chances de um populista, a coisa desaba e daí pra pior.

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    1. Concentre-se no cenário macro e na sua estratégia operacional. Nós estamos em um cenário de risco elevado, mas o mercado é sempre soberano.

      Abs,

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  8. A solução é colocar Michel. Aí delimitava onde está.

    Dilma

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  9. Aposto na saída de Meirelles antes do final do governo de transição. Os motivos "técnicos" são óbvios: O ministro da Fazenda falhou miseravelmente na tentativa de equilibrar o orçamento, a economia passou de recessão para profunda depressão, não houve nenhuma ação eficaz tomada pelo Sr. Ministro, existem atritos graves do Meirelles com o ministério do Planejamento e dentro do próprio ministério da Fazenda. Veja que a unica ação inteligente, tomada no governo de transição, que foi a injeção de dinheiro do FGTS na economia, foi capitaneada pela equipe politica e não pela equipe econômica. Some-se a isso a situação politica do Meirelles. Desde algum tempo está claro que tem objetivo da assumir a presidência e deu claro sinais de conspiração (para não dizer traição) em vários momentos recentes. Existe ainda algo não esclarecido na biografia do Meirelles. Qual a função que tinha na presidencia do conselho da J&F ? O Joesley não mencionou o nome Meirelles em nem sequer uma frase de sua delação. Ou o Joesley protegeu o Meirelles ou podemos imaginar que o Meirelles era uma "Rainha da Inglaterra" na presidencia do conselho ? Penso que a primeira alternativa é mais factível. A cada dia dica mais claro que o velho Meirelles atua como proxy do capital estrangeiro ou invés de atuar no interesse dos Brasileiros.

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  10. Penso que essa mudança nos déficits fiscais é diretamente ligada a uma frustração de reforma da Previdência mais robusta. Imagino que quando propuseram essas metas de longo prazo, foram otimistas demais nos termos das reformas.

    Isso implicará em crescimento baixo por mais anos do que o esperado. Para não haver uma implosão do establishment de privilégios, vamos precisar gastar mais uma década de vôo de galinha.

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