sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Giro macro global


Sem atrair muita atenção, o dólar contra cesta de principais moedas globais fechou em alta pela terceira semana consecutiva. O movimento de apreciação da moeda norte-americana ainda é muito incipiente e se destoa da derrocada acumulada neste ano.

Os investidores (principalmente estrangeiros) estão empolgados com os ralis nos preços dos ativos registrados em várias praças financeiras mundiais neste ano e ainda não demonstram preocupação com os possíveis impactos de uma eventual virada na trajetória principal da moeda norte-americana.

O apetite por ativos de risco e retornos elevados continua forte. As praças emergentes ou em desenvolvimento estão se destacando, apresentando retornos significativos no ano, mas o fluxo não está concentrado somente nas mais famosas ou menos arriscadas dentro do grau especulativo.

A África é um bom termômetro do nível de otimismo no mercado global. Nunca na história os governos africanos conseguiram emitir tantos eurobônus num só ano. Em 2017, as emissões já ultrapassam os 14,5 bilhões de dólares. Nenhum país africano possui grau de investimento e vários sofreram rebaixamento recentemente.

O caso mais chocante ocorre com Moçambique. O governo decretou moratória no início deste ano, não acenou para reestruturação da dívida com os investidores, mas mesmo assim os títulos soberanos de Moçambique apresentam o segundo melhor desempenho entre os mercados emergentes, acumulando impressionantes 31% de alta neste ano.

Segundo Jason Daw, estrategista-chefe de mercados emergentes do Société Générale, a compressão da volatilidade cambial tem estimulado ainda mais estratégias conhecidas como carry trade. Isso pode mostrar que os investidores não estão tão preocupados com os fundamentos dos ativos-alvos nas operações com carry trade, mas sim aproveitando as condições técnicas dos deslocamentos das moedas num quadro de ambiente positivo a nível global.

Além da sinalização dovish apresentada no gráfico de pontos da última reunião do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), bem como seu programa extremamente cauteloso de normalização das condições monetárias, outras autoridades monetárias seguem adotando estratégia semelhante, endossando o viés do mercado.

Villeroy de Galhau, membro do Conselho do BCE (Banco Central Europeu), disse que apesar de a autoridade monetária estar prestes a diminuir o ritmo de suas compras mensais de ativos, a política monetária ainda continuará expansionista. Peter Praet, economista-chefe do BCE, foi na mesma linha em sua última conferência em Berlim, ao afirmar que a nova calibragem do programa de compras não significa que os estímulos serão encerrados no futuro.

A inflação na zona do euro permaneceu em 1,5% no acumulado dos últimos 12 meses em setembro, ficando abaixo das expectativas do mercado (1,6%) e ainda distante do centro da meta a ser perseguida (2,0%). A pesquisa da Eurostat revelou que o aumento de preços permanece fraco, com expectativa de queda para os próximos meses, o que minimiza o risco de uma ação agressiva por parte do BCE no futuro.

Haruhiko Kuroda, presidente do BoJ (Bank of Japan), voltou a repetir que é muito prematuro desfazer o programa de estímulo e debater o fim da política monetária ultrafrouxa. O comunicado da última reunião do Comitê de Política Monetária mostrou novo adiamento do momento em que a meta de inflação seria alcançada. Agora, a expectativa é que a meta de 2,0% será atingida somente em algum momento do ano fiscal de 2020.

No Reino Unido, a Agência Nacional de Estatística informou que o PIB (Produto Interno Bruto) do segundo trimestre deste ano desacelerou para 1,5%, frente aos 1,8% registrados no trimestre anterior. É o crescimento mais fraco na comparação anual desde 2013, dificultando o cenário para o BoE (Bank of England), que precisa subir a taxa básica de juros para combater a inflação acima do centro da meta, fortemente influenciada pelo deslocamento da libra. Ainda assim, mesmo com uma possível elevação da taxa de juros, o BoE já alertou que não pretende alterar seu programa de estímulos monetários.

Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump enfim apresentou seu programa de cortes de impostos, uma de suas principais propostas de campanha. O plano propõe redução da alíquota-teto do imposto de renda de pessoa física dos atuais 39,6% para 35%. Para pessoas jurídicas, a proposta é reduzir significativamente a alíquota de 35% para 20%.

A proposta de reforma tributária de Trump foi criticada por alguns parlamentares de seu próprio partido, por favorecer empresas e famílias mais ricas, além de causar aumento significativo no déficit já elevado do governo norte-americano.

Importante destacar que apesar de possuir ampla maioria na Câmara e maioria apertada no Senado, Trump não tem conseguido grandes vitórias no Congresso desde a sua posse. O fracasso na revisão do sistema de saúde, principal agenda dos republicanos há muitos anos, deixa claro a baixa capacidade de articulação do presidente norte-americano.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Normalização acomodatícia


A reunião de dois dias do Fomc (Comitê de Política Monetária do FED – Banco Central dos Estados Unidos) encerrada nesta última quarta-feira apresentou uma chuva de novidades relevantes que ainda serão digeridas pelo mercado nos próximos dias/semanas.

A meta a ser perseguida pela FFR (Federal Funds Rate – taxa básica de juros) foi mantida para o intervalo entre 1% a 1,25%, confirmado as expectativas do mercado. Entretanto, muitos investidores ficaram confusos com a sinalização de que um novo aumento de 0,25 p.p. na meta da FFR ocorrerá ainda este ano.

Com a inflação ainda fraca, oscilando abaixo do centro da meta de 2% a ser perseguida pelo Comitê, esperava-se um tom mais cauteloso por parte da autoridade monetária com o processo de aperto monetário. O impacto inicial desta primeira sinalização, portanto, pode ser considerado hawkish.

Mas ao analisarmos o famoso gráfico de pontos do FED (mostra as projeções para a FFR de cada membro do Comitê), o movimento é significativamente dovish, acentuando-se frente às últimas projeções divulgadas no trimestre passado. A mediana das projeções para a FFR se manteve em 1,4% para 2017 e 2,1% para 2018. Para 2019, a expectativa para a FFR caiu de 2,9% para 2,7%.


A revisão descendente na projeção para a FFR de 2019 é considerada agressiva, pois se distancia do patamar de 3% considerado como taxa neutra e, até então, objetivo de longo prazo a ser alcançado pela política monetária. Agora, mesmo considerando um cenário de longer run (2021 em diante) a expectativa mediana é que a taxa básica de juros alcance apenas 2,8% ao ano.

Essa pode ser uma importante cartada do FED para manter a calmaria no mercado quando começar a reduzir seu balanço insustentável. Por incrível que pareça, não é um movimento forçado da autoridade monetária norte-americana. É uma nova brecha que está sendo usada. O viés dovish nas projeções para a FFR estão respaldados pela expectativa de manutenção do crescimento em ritmo de 2% nos próximos 3 anos, taxa de desemprego ao redor de 4,2% e taxa de inflação ancorada na meta de 2%, sem ameaça de rompimento ascendente.

A inflação, mais uma vez, continua sendo o grande destaque ou, como disse a própria chair do FED, Janet Yellen, um mistério. A projeção para o núcleo de inflação (media preferida do FED) caiu de 1,7% para 1,5% em 2017 e de 2,0% para 1,9% em 2018. Já a expectativa para a inflação oficial se manteve em 1,6% em 2017 e caiu de 2,0% para 1,9% em 2018.

O esperado aumento da inflação com a recuperação econômica e aquecimento do mercado de trabalho não veio e parece que não virá tão cedo. Nem mesmo o longer run para a inflação oficial aponta risco de rompimento do centro da meta. Neste quadro macro desenhado pelo FED, o espaço para subir os juros fica realmente cada vez menor. Mesmo com a economia operando em pleno emprego há um bom tempo, a inflação segue surpreendentemente fraca, forçando a taxa neutra para um patamar-alvo futuro cada vez menor.

Este fenômeno não ocorre somente nos Estados Unidos, mas em outras economias (tanto desenvolvidas, quanto emergentes), intrigando uma gama cada vez maior de economistas e membros votantes de política monetária dos bancos centrais. Se por um lado ninguém sabe a resposta do mistério da inflação baixa, muito menos há clareza sobre o que fazer com tanta liquidez injetada nos mercados desde o crash do subprime em 2008.

É como juntar o útil ao agradável. Já que a inflação não sobe, qual a pressa para tirar os cerca de 14 trilhões de dólares (considerando somatória de todos os bancos centrais) injetados no sistema financeiro global? Ou mesmo, porque desalavancar o sistema, se o modus operandi não apresenta risco? Essa é a mensagem do FED embutida nas entrelinhas do comunicado ao mercado e posterior entrevista coletiva de Janet Yellen.

A normalização do balanço da autoridade monetária norte-americana vai, enfim, começar no próximo mês. Mas o processo será apenas um teatro e não necessariamente causará desalavancagem minimamente substancial do sistema financeiro.

Os números são insignificantes. A partir de outubro deste ano, o FED deixará de reinvestir 10 bilhões de dólares por mês dos títulos que forem vencendo em sua carteira. O limite de não reinvestimento aumentará em 10 bilhões de dólares a cada três meses, até alcançar o teto de 50 bilhões de dólares por mês.

Considerando o atual balanço da autoridade monetária norte-americana, a desalavancagem estimada está muito longe de sinalizar qualquer aproximação com os níveis registrados no passado. Talvez isso nem vá acontecer, pois o FED não quer apontar o volume-alvo a ser perseguido em seu balanço.

No gráfico abaixo podemos notar a velocidade de crescimento do balanço do FED, de pouco menos de 1 trilhão de dólares em 2008 para os atuais 4,5 trilhões de dólares. Deixar de reinvestir alguns bilhões de dólares por mês não vai fazer esse gráfico mergulhar rumo à mínima histórica, nem perto disso. Já se especula no mercado que ao final deste longo processo de desalavancagem teatral, o FED ainda continue com uma carteira de cerca de 3 trilhões de dólares em títulos hipotecários e do Tesouro.
  

Com o cenário macro favorável (crescimento moderado, pleno emprego e inflação muito baixa) é muito conveniente ao FED buscar risco numa desalavancagem acomodatícia. Ou seja, o não reinvestimento a conta gotas vai permitir que o sistema continue operando com liquidez elevada, ainda muito acima dos níveis adequados/normais da década passada.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Janela aberta para o FED defender sua moeda


Janet Yellen, presidente do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), assistiu de camarote o encontro anual de banqueiros centrais mundiais realizado no mês passado em Jackson Hole. A estratégia, naquele momento, era pressionar Mario Draghi, presidente do BCE (Banco Central Europeu), a sair da acomodação excessivamente dovish de seu programa de compras mensais.

O FED estava literalmente incomodado em antecipar qualquer novidade relacionada ao seu programa de normalização monetária, já que o BCE estava se locomovendo em rota agressivamente dovish, impactando fluxos financeiros e preços dos ativos, principalmente no mercado de bonds e de moedas.

Agora, esse incômodo não existe mais. O BCE já sinalizou que vai encarar o mercado em sua próxima reunião de Comitê e anunciar o cronograma para redução do volume de compras mensais de ativos. Quase que imediatamente, o BoE (Bank of England) passou a mostrar possibilidade de aumento da taxa básica de juros nos próximos meses.

A pausa no viés extremamente dovish das duas principais autoridades monetárias na Europa criou uma janela de oportunidade para o FED deixar de ser tão cauteloso quanto nos bimestres anteriores e voltar a engrossar sua voz no mercado.

Para se livrar da exagerada fantasia dovish, o FED precisa apenas anunciar os detalhes do seu plano de desalavancagem financeira. Por mais que a desalavancagem desta fase inicial comece num volume muito pequeno (inexpressivo) e num ritmo muito gradual, o simples fato de dar o pontapé, com o comunicado adequado, será um importante driver para acertar os preços dos ativos esticados demais no curto prazo.

O dólar contra cesta de moedas globais é o grande alvo a ser perseguido. A significativa derrocada da moeda norte-americana neste ano criou efeito cascata de busca por oportunidades em ativos de risco em várias praças financeiras mundiais. O capital tem circulado em plena euforia nos mercados globais, retroalimentando o clima extremamente otimista.

O FED, obviamente, não está preocupado com o elástico esticado (ao menos no curto prazo) em alguns ativos de praças financeiras de economias desenvolvidas e emergentes. A preocupação é com o nível baixo da moeda norte-americana e seus impactos sobre a inflação, confiança e trajetória de crescimento.

O ponto técnico da moeda norte-americana também é propício para aumentar a eficácia de uma possível atuação de defesa do FED. O dólar contra cesta de principais moedas globais acaba de perder a principal sustentação de médio prazo, localizada no ponto de apoio de 2015 e 2016, na mesma região da média móvel simples de 200 períodos semanal.


Um comunicado mais firme, diferente do tom extremamente dovish das últimas reuniões, poderia jorrar um pouco de receio ou medo no mercado de capitais, influenciando investidores, atualmente muito expostos aos ativos de risco, a procurarem proteção no dólar, inflando, portanto, a força compradora na moeda.

Na hipótese de ressurgimento de predominância da força compradora no dólar, um bear trap seria fatalmente armado, forçando investidores vendidos na moeda a desmontarem suas posições, o que só alimenta a força do potencial de upside.

Além disso, os rendimentos das Treasurys respaldam o espaço para a estratégia de defesa da moeda. O título do tesouro norte-americano com vencimento em 10 anos está pagando 2,23%, relativamente próximo da mínima de 2017 e muito distante do objetivo de longo prazo/taxa neutra para a Fed Funds Rate (hoje estimado em 3% ao ano). O rendimento, portanto, mostra excesso de expectativa do mercado com uma rota muito dovish que o FED não tem condições de perseguir nos próximos anos.


Até o presente momento, não somente os investidores e players no mercado de capitais, como os demais banqueiros centrais de países emergentes ou em desenvolvimento estão surfando a onda dovish do FED, BCE e BoE.

O Bank of Russia, por exemplo, assim como o Bacen, aproveita o bom momento para cortar ao máximo sua taxa básica de juros. Na semana passada, a autoridade monetária da Rússia cortou a taxa de juros de 9% para 8,5% e adiantou que esse movimento poderá se repetir durante os próximos dois trimestres.

Com o dólar até então vendido no mundo inteiro, as moedas locais, consequentemente, estão mais fortes. Esse quadro tem se sido altamente benigno para inflação, favorecendo recuo dos índices oficiais em vários países.

Para a infelicidade de banqueiros centrais (como o brasileiro) que surfam esse bom momento externo, a manutenção desse quadro benigno no câmbio ao longo dos próximos trimestres (ou do próximo ano) está cada vez mais difícil. Caso o instinto do FED se confirme, a defesa do dólar poderá influenciar efeito cascata em mudanças de estratégias de política monetária nos próximos trimestres.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Buy, buy, buy!


Na corrida para descontar o atraso dos últimos anos, o Índice Bovespa segue trabalhando dentro de uma forte tendência principal de alta, iniciada aos 37,5k em janeiro de 2016. Nesta histórica segunda-feira, o antigo topo histórico, formado em 2008, foi enfim superado.

O rompimento da máxima histórica no Brasil em nada surpreende dentro de um contexto mais amplo, a nível global. Na verdade, nós estávamos (e ainda estamos) atrasados. O mercado brasileiro estava em dívida de upside, tanto na comparação com as praças desenvolvidas, quanto na comparação com as praças emergentes.

A recente melhora do cenário doméstico foi cantada aos quatro cantos do país como grande válvula de impulso para nossa superação da máxima histórica. O diagnóstico presente na mídia não parece o mais correto, até porque os fundamentos permanecem deteriorados. Esse descompasso, por sinal, é característica muito comum detectada em nascimentos de ciclos de bull market.

O mais recente driver responsável por empurrar preços de ativos para cima vem, mais uma vez, de um importante banqueiro central. Seguindo o tom de cautela adotado pelo FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) nos últimos meses, o BCE (Banco Central Europeu) surpreendeu em sua última reunião de política monetária ao não detalhar um plano para a necessária redução de compras de ativos mensais.

Apesar de estar se preparando para reduzir seu programa de estímulos monetários, o BCE está mais preocupado, no momento, em acalmar os investidores, assim como tem feito o FED desde a era Bernanke. Ardo Hansson, membro do Conselho do BCE, reafirmou nesta segunda-feira que a estratégia da autoridade monetária é conscientizar o mercado de que o processo de normalização será muito gradual.

Uma decisão será tomada somente no próximo encontro de outubro, mas ela não será nada traumática. Muito pelo contrário, o processo de redução do volume mensal de compras será tão pequeno e demorado a ponto de não causar efeito prático no mercado.

Na verdade, poucos no mercado entendem que o processo já se iniciou. Em dezembro de 2016 o BCE decidiu agendar um corte 20 bilhões no seu volume de compras mensais a partir do mês de abril de 2017. Até então BCE continuou comprando 80 bilhões de euros no mercado. A partir do mês e abril, o BCE passou a comprar 60 bilhões de euros. O GAP de 3 meses criado entre a data de anúncio de corte e a data da efetivação foi suficiente para fazer os investidores se esquecerem ou deixarem de se preocupar com a redução no volume de compras mensal.

20 bilhões de euros a mais ou a menos não altera em absolutamente nada o atual quadro de excesso de liquidez no sistema. O BCE poderia até mesmo interromper integralmente a partir do próximo dia útil seu programa de compras mensais, atualmente em 60 bilhões de euros, que ainda assim não iria causar impacto do ponto de vista da liquidez no sistema.

Considerando apenas o atual programa de estímulo do BCE, foram mais de 2 trilhões de euros injetados no sistema através de compras de ativos. Reflexo do transbordamento de liquidez pode ser notado pela a emissão de eurobônus pelo Tajiquistão ou mesmo na nivelação dos prêmios dos títulos de alto risco denominados em euros com as super seguras Treasurys norte-americanas (isso nunca aconteceu antes).

Analistas do Bank of America Merrill Lynch calculam que os bancos centrais inundaram os mercados com mais de 14 trilhões de dólares em diversos programas de estímulos implementados em vários países desde o estouro da crise do subprime. É como se uma China fosse transformada em dinheiro e injetada no mercado.

A tática do BCE parece ser justamente a de reforçar o status de excesso de liquidez no sistema financeiro. Assim, aos poucos, conseguem convencer os investidores de que mesmo com uma redução gradual no volume de compras mensais, a política monetária permanecerá muito expansionista. Até porque, o capital que já foi injetado não será retirado do sistema tão cedo.

O tom mais dovish do BCE realinhou sua postura com o excesso de cautela do FED, juntamente com o BoE (Bank of England) e BoJ (Bank of Japan). Os mercados no mundo inteiro responderam com intensificação de ralis. As praças europeias, que até então operavam vendidas, descoladas do mundo, voltaram a trabalhar na ponta comprada.

O quadro é de euforia generalizada. S&P500 voltou para máxima histórica em uma forte arrancada, Nikkei mal realizou e já se sustentou no primeiro ponto de suporte (média móvel simples de 200 períodos diária), Bombay (Índia) voltou para máxima do mês, trabalhando reaproximação com a máxima histórica, os russos estão subindo sem parar, atropelando níveis de sobrecompra e o mercado turco opera praticamente na vertical, um foguete sobrecomprado desde o mês de abril.

São vários os casos de ralis impressionantes mundo afora. São vários os casos de sobrepreço em descompasso com os fundamentos domésticos. São vários os casos de bolhas em formação. Não é pra menos, boa parte dos 14 trilhões de dólares injetados pelos bancos centrais estão "passeando" no mercado de capitais.

A superação da máxima histórica no Índice Bovespa parece, portanto, apenas um reflexo tardio dos impactos dos programas de relaxamento quantitativo. Estamos acumulando um excelente desempenho desde janeiro de 2016, mas ainda pode ser pouco comparado ao nível de euforia global.


Superamos a primeira barreira na LTB do canal de baixa (círculo 1) e, agora, atropelamos a última resistência técnica do índice (círculo 2), ratificando, mais uma vez, o status de mercado bullish.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Bye bye juro real


A Selic mal se aproximou da mínima histórica atingida forçadamente em 7,25% durante o governo Dilma, em 2013, e o mercado já prepara o champanhe não só para celebrar o retorno da taxa básica de juros ao piso histórico, como também o rompimento da mínima.

Na reunião de dois dias encerrada nesta quarta-feira, na qual o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) decidiu cortar a taxa Selic em 1 ponto percentual, para 8,25% ao ano, a rota ficou mais clara para uma renovação da mínima histórica na taxa básica de juros.

No comunicado divulgado na noite desta quarta-feira, o Comitê deixou claro que a atual conjuntura econômica reforça expectativa de taxa básica de juros abaixo da taxa estrutural. A taxa de juros neutra (ou estrutural, como se refere o Banco Central), é aquela que permite o crescimento econômico sustentável sem provocar pressão inflacionária ou mesmo desinflacionaria. Ou seja, é o nível de juros que matem o crescimento equilibrado, com a inflação ancorada na meta.

Apesar de não ser possível identificar com clareza o atual patamar de juros neutro no Brasil (necessário teste real para confirmar os cálculos), estima-se que esse ponto esteja oscilando entre 6% a 7%. Considerando uma estimativa pessimista para a taxa de juros neutra em 7%, está praticamente sacramentado o rompimento da mínima histórica da taxa Selic no médio prazo.

Por quê? O Banco Central ressaltou em seu comunicado que a conjuntura econômica prescreve política monetária estimulativa, ou seja, taxa de juros (Selic) abaixo da taxa estrutural. Além disso, a autoridade monetária vê como adequada, para as próximas reuniões, uma redução moderada na magnitude de flexibilização monetária, antevendo encerramento gradual do ciclo.

Atenção para o uso das expressões “moderada” e “gradual”, palavras-chave de orientação dovish de política monetária adotadas por banqueiros centrais do mundo inteiro. Na primeira parte, a expressão moderada revela intenção de redução do atual ritmo de flexibilização de 1 p.p. para 0,75 p.p. no próximo encontro a ser realizado nos dias 24 e 25 de outubro e possível nova redução de 0,75 p.p. para 0,50 p.p. no encontro dos dias 5 e 6 de dezembro. A Selic, portanto, fecharia 2017 aos 7,00%.

Na segunda parte, o Banco Central usa o gradualismo para antever o encerramento do atual ciclo de cortes da taxa Selic, ou seja, apesar de ser possível enxergar o fim da linha, ainda não estamos perto de alcançá-la. Essa passagem do comunicado transmite a ideia de pelo menos mais uma nova rodada de corte no início de 2018, o que jogaria a taxa Selic abaixo do então patamar de juro neutro.

Em outras palavras, o cenário traçado pelo comunicado do Copom divulgado nesta quarta-feira cria expectativa de uma taxa básica de juros entre 6,50%/6,75% ao ano já no início de 2018. Considerando a expectativa de inflação suavizada nos próximos 12 meses do Boletim Focus (4,19%), a taxa de juro real no Brasil tende a oscilar em torno de míseros 2,50% baixo no próximo ano.

Para a economia, a queda do juro nominal e do juro real será positiva para impulsionar a retomada do crescimento. Por outro lado, para os investidores conservadores brasileiros, mal acostumados com o longo período de juros elevados, o novo panorama será uma tremenda dor de cabeça.

Empurrados pelo Banco Central, muitos investidores deverão abandonar posições em pós-fixados para buscar ativos de risco no mercado de capitais, ou mesmo na economia real. Quando a taxa Selic caiu para mínima em 7,25% na gestão anterior, muitos seguraram posições em função da nítida insustentabilidade do movimento. O tombo no passado foi forçado, o mercado estava mal humorado e as expectativas de inflação estavam altas.

Desta vez o quadro é diferente. Não há expectativa de inflação acima do centro da meta (pelo contrário), o que sustenta a política de afrouxamento monetário. O câmbio está comportado e não há represamento de preços administrados. É praticamente um outro mundo do ponto de vista exclusivo da política monetária.

O tombo da Selic é sustentado sobretudo pelo clima extremamente positivo no mercado de capitais a nível global, que tem feito investidores e gestores de fundos devorarem ativos de risco nas praças emergentes. O prêmio da LTN, que encostou nos 17% no final de 2015, afunda cada vez mais no terreno de 1 dígito. Hoje, o título mais curto, com vencimento em 2020, está pagando 8,35% ao ano.

O contrato de juros futuros com vencimento em 2019 está pagando 7,62%, apresentando um prêmio relativamente pequeno frente a expectativa para a taxa Selic no curto/médio prazo. O contrato de 2019 conseguiu romper, inclusive, o piso registrado em 2013 quando a Selic caiu para os 7,25%, revelando o quão está otimista o mercado.


Nas pontas mais longas, as mínimas de 2013 já estão sendo alcançadas. O contrato de juros futuros com vencimento em 2022 está pagando 9,35%, pouco acima dos 9,16% registrados em 2013.


Mesmo diante do gravíssimo quadro fiscal (o que coloca em dúvida a estabilidade de juro real muito baixo no Brasil em longo prazo) os investidores continuam eufóricos na ponta longa dos juros futuros. O risco dos contratos longos pode ser considerado elevado em relação ao prêmio praticado hoje, mas o foco do fluxo parece estar no ganho de curto/médio prazo a favor da tendência e não no carregamento da posição.

Na bolsa de valores o clima de otimismo prevalece sobre os negócios, retardando cada vez mais um necessário movimento natural de realização de lucros. A estrela cadente de terça-feira, seguida por o marubozu desta quarta-feira, colada na bollinger superior, em sobrecompra elevada, numa pernada consolidada, sinaliza excesso de euforia a curtíssimo prazo, esticando preços de forma atípica.
  

Apesar do risco de realizações naturais no curtíssimo prazo, o mercado segue dentro de um ciclo bullish identificado há cerca de um ano e meio atrás.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Recessão acaba, mas falta empolgação


A pequena alta de 0,2% do PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil no segundo trimestre deste ano, comparado com o crescimento de 1% registrado no primeiro trimestre, confirmou o fim de uma longa e dolorosa recessão.

Esta é a primeira sequência de dois trimestres seguidos de alta no PIB desde o início de 2014. O resultado positivo deste segundo trimestre foi puxado pelo desempenho do setor de serviços (alta de 0,6%) e pelo consumo das famílias (avanço de 1,6%), que acabou sendo o grande destaque dos números divulgados hoje pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Discute-se no mercado que a desaceleração da inflação, juntamente com a queda da taxa Selic, influenciou o crescimento do consumo das famílias brasileiras. Essa constatação pode estar distorcida pelos saques das contas inativas do FGTS. Considerando o grau de instrução financeira da população brasileira, o dinheiro extra do FGTS que entrou para os orçamentos de muitas famílias se transformou, muito possivelmente, em consumo.

Desconsiderando o potencial efeito dos saques das contas inativas do FGTS sobre o PIB, a economia brasileira voltaria registrar retração neste segundo trimestre, até porque a agropecuária ficou estável e a indústria recuou 0,5%. Além disso, o cenário econômico no acumulado dos últimos quatro trimestres ainda é negativo em 1,4%.

Tecnicamente é possível afirmar que o País saiu da recessão com dois trimestres seguidos de crescimento, mas, por enquanto, é apenas isso. Não há muito que comemorar em nossos dados de crescimento e, por conta disso, a formação bruta de capital fixo (ou taxa de investimento, essencial para retomada sustentada do crescimento) permanece ridiculamente baixa.

Na comparação com o primeiro trimestre deste ano, a formação bruta de capital fixo recuou 0,7%, registrando a quarta queda consecutiva. Isso significa que estamos investindo apenas 15,5% do PIB, número significativamente baixo até para um País desestabilizado. O ideal para economia de nosso porte é que a taxa de investimento esteja, pelo menos, ao dobro do que estamos registrando atualmente.

Infelizmente não há sinais de retomada consistente da formação bruta de capital fixo por dois motivos básicos: (i) o governo faz “ajuste fiscal” com corte de investimentos e (ii) os investidores/empresários continuam operando em modo defensivo por não estarem convencidos de uma recuperação digna do crescimento.

Está muito claro que a economia precisa de um empurrão dos investimentos para iniciar uma trajetória de crescimento sustentada. Com o clima de incerteza ainda elevado, este impulso inicial precisa partir do setor público. Mas na prática, o que tem ocorrido, é um empurrão pra baixo do governo. Como se não bastasse os cortes de investimentos, as metas de déficits fiscais insustentáveis são revisadas, ao mesmo tempo, para cima, criando um verdadeiro repelente de capital.

A incerteza política tem sido usada incorretamente como desculpa principal para justificar a queda dos investimentos. Obviamente é um fator de peso na tomada de decisão, mas perfeitamente natural e gerenciável. Todo cálculo para tomada de decisão de investidores/empresários embute a variável política em qualquer canto do planeta.

Os problemas relacionados à baixa taxa de investimentos no Brasil são basicamente estruturais, ainda não devidamente atacados pelo governo. Neste quadro, pode-se esperar manutenção de uma retomada tímida do crescimento nos próximos trimestres, mas longe do ritmo esperado de um país classificado como emergente.

No mercado de capitais o clima permanece otimista, inflado nesta sexta-feira por uma bateria de indicadores positivos. O Índice Gerente de Compras da China subiu de 51,1 pontos em julho para 51,6 pontos em agosto, alcançando máxima dos últimos seis meses.


Os números da pesquisa na China, feita pelo Instituto Markit em parceria com o Grupo Caixin, mostraram que a expansão da atividade manufatureira foi puxada pelas encomendas para exportações (aumento no ritmo mais forte em mais de sete anos) e novos negócios (crescimento mais forte dos últimos três anos), ratificando cenário de demanda robusta interna e externa, renovando ânimos positivos dos investidores em várias praças financeiras mundiais.

Nos Estados Unidos, o Índice Gerente de Compras derrapou de 53,3 pontos em julho para 52,8 pontos em agosto, mostrando perda do ímpeto de expansão da atividade industrial. Além disso, a criação de vagas no mercado de trabalho desacelerou mais do que o esperado, de 189 mil em julho para 156 mil em agosto, ficando, portanto, abaixo da média mensal de 176 mil vagas deste ano. A taxa de desemprego subiu de 4,3% para 4,4%.

Os resultados mais fracos da atividade industrial e do mercado de trabalho corroboram para manutenção de uma política monetária mais cautelosa por parte do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), o que em outras palavras significa ciclo de aperto monetário em ritmo menos intenso do que o observado neste ano e início muito tímido (impacto quase zero) da longa fase de desalavancagem financeira.

Na zona do euro, o Índice Gerente de Compras acelerou ainda mais no mês de agosto, de 56,6 pontos para 57,4. Mesmo com o fortalecimento da moeda, a pesquisa revelou que as encomendas para exportação cresceram no ritmo mais rápido desde fevereiro de 2011. Os dados divulgados nesta sexta-feira adicionam pressão para que o BCE (Banco Central Europeu) volte a reduzir seu programa de compras de ativos já neste ano.

No Brasil, o Índice Gerente de Compras deixou de patinar na faixa de 50 pontos registrada no mês de julho para 50,9 pontos no mês de agosto, revelando leve expansão da atividade manufatureira. A pesquisa constatou melhora de demanda por produtos brasileiros, tanto no mercado interno, quanto no mercado externo, com a Argentina, em especial, ocupando destaque em novos negócios.

Por outro lado, já foi possível constatar aumento dos custos com insumos em ritmo acima da tendência, influenciados pelos aumentos dos impostos, preços de energia e combustíveis. As empresas conseguiram proteger suas margens, repassando os custos extras aos preços dos produtos finais, uma importante sinalização de possível retomada da inflação nos próximos meses. Este pode ser o primeiro indicativo de que o GAP para cortes agressivos na taxa Selic (rodadas de 0,75 p.p. a 1 p.p.) está chegando ao fim.