quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Bye bye juro real


A Selic mal se aproximou da mínima histórica atingida forçadamente em 7,25% durante o governo Dilma, em 2013, e o mercado já prepara o champanhe não só para celebrar o retorno da taxa básica de juros ao piso histórico, como também o rompimento da mínima.

Na reunião de dois dias encerrada nesta quarta-feira, na qual o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) decidiu cortar a taxa Selic em 1 ponto percentual, para 8,25% ao ano, a rota ficou mais clara para uma renovação da mínima histórica na taxa básica de juros.

No comunicado divulgado na noite desta quarta-feira, o Comitê deixou claro que a atual conjuntura econômica reforça expectativa de taxa básica de juros abaixo da taxa estrutural. A taxa de juros neutra (ou estrutural, como se refere o Banco Central), é aquela que permite o crescimento econômico sustentável sem provocar pressão inflacionária ou mesmo desinflacionaria. Ou seja, é o nível de juros que matem o crescimento equilibrado, com a inflação ancorada na meta.

Apesar de não ser possível identificar com clareza o atual patamar de juros neutro no Brasil (necessário teste real para confirmar os cálculos), estima-se que esse ponto esteja oscilando entre 6% a 7%. Considerando uma estimativa pessimista para a taxa de juros neutra em 7%, está praticamente sacramentado o rompimento da mínima histórica da taxa Selic no médio prazo.

Por quê? O Banco Central ressaltou em seu comunicado que a conjuntura econômica prescreve política monetária estimulativa, ou seja, taxa de juros (Selic) abaixo da taxa estrutural. Além disso, a autoridade monetária vê como adequada, para as próximas reuniões, uma redução moderada na magnitude de flexibilização monetária, antevendo encerramento gradual do ciclo.

Atenção para o uso das expressões “moderada” e “gradual”, palavras-chave de orientação dovish de política monetária adotadas por banqueiros centrais do mundo inteiro. Na primeira parte, a expressão moderada revela intenção de redução do atual ritmo de flexibilização de 1 p.p. para 0,75 p.p. no próximo encontro a ser realizado nos dias 24 e 25 de outubro e possível nova redução de 0,75 p.p. para 0,50 p.p. no encontro dos dias 5 e 6 de dezembro. A Selic, portanto, fecharia 2017 aos 7,00%.

Na segunda parte, o Banco Central usa o gradualismo para antever o encerramento do atual ciclo de cortes da taxa Selic, ou seja, apesar de ser possível enxergar o fim da linha, ainda não estamos perto de alcançá-la. Essa passagem do comunicado transmite a ideia de pelo menos mais uma nova rodada de corte no início de 2018, o que jogaria a taxa Selic abaixo do então patamar de juro neutro.

Em outras palavras, o cenário traçado pelo comunicado do Copom divulgado nesta quarta-feira cria expectativa de uma taxa básica de juros entre 6,50%/6,75% ao ano já no início de 2018. Considerando a expectativa de inflação suavizada nos próximos 12 meses do Boletim Focus (4,19%), a taxa de juro real no Brasil tende a oscilar em torno de míseros 2,50% baixo no próximo ano.

Para a economia, a queda do juro nominal e do juro real será positiva para impulsionar a retomada do crescimento. Por outro lado, para os investidores conservadores brasileiros, mal acostumados com o longo período de juros elevados, o novo panorama será uma tremenda dor de cabeça.

Empurrados pelo Banco Central, muitos investidores deverão abandonar posições em pós-fixados para buscar ativos de risco no mercado de capitais, ou mesmo na economia real. Quando a taxa Selic caiu para mínima em 7,25% na gestão anterior, muitos seguraram posições em função da nítida insustentabilidade do movimento. O tombo no passado foi forçado, o mercado estava mal humorado e as expectativas de inflação estavam altas.

Desta vez o quadro é diferente. Não há expectativa de inflação acima do centro da meta (pelo contrário), o que sustenta a política de afrouxamento monetário. O câmbio está comportado e não há represamento de preços administrados. É praticamente um outro mundo do ponto de vista exclusivo da política monetária.

O tombo da Selic é sustentado sobretudo pelo clima extremamente positivo no mercado de capitais a nível global, que tem feito investidores e gestores de fundos devorarem ativos de risco nas praças emergentes. O prêmio da LTN, que encostou nos 17% no final de 2015, afunda cada vez mais no terreno de 1 dígito. Hoje, o título mais curto, com vencimento em 2020, está pagando 8,35% ao ano.

O contrato de juros futuros com vencimento em 2019 está pagando 7,62%, apresentando um prêmio relativamente pequeno frente a expectativa para a taxa Selic no curto/médio prazo. O contrato de 2019 conseguiu romper, inclusive, o piso registrado em 2013 quando a Selic caiu para os 7,25%, revelando o quão está otimista o mercado.


Nas pontas mais longas, as mínimas de 2013 já estão sendo alcançadas. O contrato de juros futuros com vencimento em 2022 está pagando 9,35%, pouco acima dos 9,16% registrados em 2013.


Mesmo diante do gravíssimo quadro fiscal (o que coloca em dúvida a estabilidade de juro real muito baixo no Brasil em longo prazo) os investidores continuam eufóricos na ponta longa dos juros futuros. O risco dos contratos longos pode ser considerado elevado em relação ao prêmio praticado hoje, mas o foco do fluxo parece estar no ganho de curto/médio prazo a favor da tendência e não no carregamento da posição.

Na bolsa de valores o clima de otimismo prevalece sobre os negócios, retardando cada vez mais um necessário movimento natural de realização de lucros. A estrela cadente de terça-feira, seguida por o marubozu desta quarta-feira, colada na bollinger superior, em sobrecompra elevada, numa pernada consolidada, sinaliza excesso de euforia a curtíssimo prazo, esticando preços de forma atípica.
  

Apesar do risco de realizações naturais no curtíssimo prazo, o mercado segue dentro de um ciclo bullish identificado há cerca de um ano e meio atrás.

24 comentários:

  1. Quando eu vejo a bolsa subindo sem parar, juros caindo forte e o mercado nessa euforia louca a única coisa que consigo pensar é no tamanho do tombo se der uma "zebra" ano que vem nas eleições.

    Porque essa euforia não parece condizente com um rombo fiscal e todas as incertezas políticas.

    Final do ano vou colocar tudo em tesouro selic e ver o que nos aguarda em 2018.

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    1. Situação típica de mercados bullish. Os preços parecem sempre estar à frente dos fundamentos. Deixe que o mercado mostre seu ponto de saída. Sorte na estratégia.

      Abs,

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  2. Sem contar que, com as atrapalhadas do Janot publicamente relevadas, o governo se fortaleceu. Os ministros já voltaram a falar da previdência, indicando que a votariam ainda este ano. É possível.

    O próximo presidente pode pegar uma situação bem menos complicada. Estou levemente otimista.

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    1. Sim, também acho que o governo se fortaleceu. Mas mesmo com aprovação da reforma da previdência, o próximo presidente vai encontrar uma situação fiscal perversa, pior do que o caos atual. A reforma da previdência não resolve nosso problema fiscal a curto/médio prazo. Não há sequer perspectiva de reversão na trajetória da dívida pública. A queda da taxa Selic, respaldada pela desaceleração da inflação, tem efeito positivo, mas o principal driver desse nosso ciclo bullish vem de fora.

      Abs,

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  3. Olá FI

    pelo menos no curto prazo teremos que nos preparar para esse novo cenário. (juros reais baixos) Pois ficamos muito mal acostumados com taxas de 16,14% isso para não citar outras que tivemos. E isso nos deixou acomodados, que por sinal, não é bom.

    Abraços

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    1. Exatamente II, essa acomodação formou uma grande massa de investidores conservadores no Brasil e que agora precisarão correr contra o tempo para rever conceitos, estudar o mercado e montar uma estratégia operacional eficaz.

      Abs,

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    2. É difícil conciliar a vida de investidor conservador e de profissional em busca de crescimento pessoal na carreira para poder voar mais alto nos investimentos (aportes maiores...).

      É possível apontar luzes para esse investidor conservador estudar? Heheh...

      Abraços e ótimo post!

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    3. Sim, dê uma olhada nesses ebooks gratuitos neste link: http://www.financasinteligentes.com/p/mercado-breve-introducao.html

      Precisando de auxílio/orientação, basta me enviar um e-mail: financasinteligentes@gmail.com

      Sou assessor de investimentos e posso lhe ajudar com o que for necessário, sem custo e sem comprometimento. Sucesso na estratégia e bons estudos.

      Abs,

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  4. Gostei da análise. Vamos ver se o cenário político do ano que vem mudará alguma coisa.

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  5. É amigo, a rapadura era doce, mas não era mole rsrs...
    Daqui por diante o Brasil pode ser outro.
    Sucesso, abraço!
    Bagual

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  6. Não consigo confiar num movimento assim tão eufórico rumo a juros reais nesse patamar.
    A maior movimentação - que vem de fora - ainda insiste em excesso de liquidez, com bolhas e bolhas mantendo-se de forma bem perigosa.
    O Fed insiste em retardar a correção...
    creio que até 2019-2020 o grande estouro ocorrerá, aí nada adiantarão tais expectativas de céu de brigadeiro.

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    1. Sim, há indícios de bolhas em formação. Mas é bom evitar acertar o timing do estouro e fazer o possível para aproveitar ao máximo o movimento. São justamente nos ciclos bullish que os portfólios alcançam rentabilidade significativa. Quando o inverno chegar, voltamos a hibernar rs..

      Abs,

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  7. Sensacional como sempre FI !! Abraços e um Bom feriado !!

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  8. Bom dia. COm esta euforia toda, você acha que os déficits até 2020-21, já estão precificados pelo mercado??
    Abç

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    1. Não acredito muito em qualquer tipo precificação no mercado, já que as variáveis capazes de impactar preços de ativos são diversas e muitas vezes não estão relacionadas com os fundamentos/perspectivas macro. O que ocorre atualmente é uma onda de sentimento otimista não só no Brasil, mas em vários outros mercados, especialmente nas praças emergentes. Essa onda de otimismo é sustentada pelo excesso de liquidez no sistema, recentemente (últimos 2 anos) alimentada pelas condições de preços dos ativos em praças desenvolvidas e principalmente pelas estratégias de política monetária do FED, BCE, BoJ e BoE.

      Abs,

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  9. Grande análise FI.
    Dos dois assuntos, estou bem interessado sobre o comportamento da economia após esse ciclo de estímulos monetários com a queda da Taxa Básica. Fico com uma duvida: Como podemos ter tanta certeza de uma estabilidade da inflação após essa forte injeção de capital na economia?

    Sobre a Bovespa, noto que a LTA esta sustentável, mas a realização de lucros a curto/médio prazo parece inevitável. Vamos ver como ela (assim como outros ativos variáveis) se comportam diante desse novo cenário do "digam adeus as RF com taxas atrativas", rs.

    Grande abraço, parabéns FI!

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    1. Obrigado Rafael!
      Essa pergunta está causando grandes discussões no mundo inteiro e creio que no futuro o resultado disso se dará pela renovação de certos conceitos econômicos. Japão e Europa são os casos mais chocantes. Alguns membros do BCE, incluindo o próprio presidente Mario Draghi, já sinalizaram sobre a necessidade de revisão de alguns conceitos.

      Abs,

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  10. FI, vc acredita nos índices de inflação informado pelo governo? Eu não acredito por isso prefiro me arriscar na economia real. Rodrigo

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    1. Olá Rodrigo,
      Não servirá exatamente para o seu cálculo de inflação pessoal, mas por outro lado não vejo nenhuma distorção para o cálculo de inflação oficial. É uma boa referência.

      Abs,

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  11. Fala Finanças, que análise show mano. não conhecia o seu blog, vim pelo blog do surfer, e adorei os conteúdos, serei um frequentador assíduo dessa maravilha de blog. Quando ao cenário macroeconômico, realmente para o investidor conservador está ficando bem complicado, vai exigir um pouco mais de desenvoltura já que as taxas estão despencando, talvez se aventurar pela economia real, através de negócios, ou a renda variável, inflando ainda mais a disparada do Ibov, que creio que com essa melhorar a galera vai correr grande parte para a bolsa. Vi em algumas análises apontando para quem tiver oportunidade de comprar títulos longos prefixados para manter a taxa já que a perspectiva é de queda.

    Sucesso ai na jornada mano, e mais uma vez parabéns pelo conteúdo. tenho interesse em trabalhar no âmbito financeiro também, tenha algumas dicas conselhos e orientações para quem está iniciando e quer mergulhar nesse mundo?

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    1. Obrigado Maromba Investidor, igualmente!
      Sim, antes de tudo você precisa decidir se quer trabalhar como assalariado para instituições financeiras ou ter mais flexibilidade e seguir de forma autônoma. Há mercado interessante para ambas. Na primeira opção, as oportunidades estão mais em São Paulo. Na segunda opção, não depende tanto da sua localização. Também em ambos os casos são necessárias certificações, a depender da atividade a ser desenvolvida. Certificações Anbima: http://www.anbima.com.br/pt_br/educar/certificacoes/perguntas-e-respostas.htm. Certificação Ancord: http://www.ancord.org.br/agentes-autonomos-de-investimento-e-empregados-de-instituicoes-financeiras/. Certificações Apimec: http://www.apimec.com.br/Apimec/Default.aspx.

      Abs,

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