sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Giro macro global


Sem atrair muita atenção, o dólar contra cesta de principais moedas globais fechou em alta pela terceira semana consecutiva. O movimento de apreciação da moeda norte-americana ainda é muito incipiente e se destoa da derrocada acumulada neste ano.

Os investidores (principalmente estrangeiros) estão empolgados com os ralis nos preços dos ativos registrados em várias praças financeiras mundiais neste ano e ainda não demonstram preocupação com os possíveis impactos de uma eventual virada na trajetória principal da moeda norte-americana.

O apetite por ativos de risco e retornos elevados continua forte. As praças emergentes ou em desenvolvimento estão se destacando, apresentando retornos significativos no ano, mas o fluxo não está concentrado somente nas mais famosas ou menos arriscadas dentro do grau especulativo.

A África é um bom termômetro do nível de otimismo no mercado global. Nunca na história os governos africanos conseguiram emitir tantos eurobônus num só ano. Em 2017, as emissões já ultrapassam os 14,5 bilhões de dólares. Nenhum país africano possui grau de investimento e vários sofreram rebaixamento recentemente.

O caso mais chocante ocorre com Moçambique. O governo decretou moratória no início deste ano, não acenou para reestruturação da dívida com os investidores, mas mesmo assim os títulos soberanos de Moçambique apresentam o segundo melhor desempenho entre os mercados emergentes, acumulando impressionantes 31% de alta neste ano.

Segundo Jason Daw, estrategista-chefe de mercados emergentes do Société Générale, a compressão da volatilidade cambial tem estimulado ainda mais estratégias conhecidas como carry trade. Isso pode mostrar que os investidores não estão tão preocupados com os fundamentos dos ativos-alvos nas operações com carry trade, mas sim aproveitando as condições técnicas dos deslocamentos das moedas num quadro de ambiente positivo a nível global.

Além da sinalização dovish apresentada no gráfico de pontos da última reunião do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), bem como seu programa extremamente cauteloso de normalização das condições monetárias, outras autoridades monetárias seguem adotando estratégia semelhante, endossando o viés do mercado.

Villeroy de Galhau, membro do Conselho do BCE (Banco Central Europeu), disse que apesar de a autoridade monetária estar prestes a diminuir o ritmo de suas compras mensais de ativos, a política monetária ainda continuará expansionista. Peter Praet, economista-chefe do BCE, foi na mesma linha em sua última conferência em Berlim, ao afirmar que a nova calibragem do programa de compras não significa que os estímulos serão encerrados no futuro.

A inflação na zona do euro permaneceu em 1,5% no acumulado dos últimos 12 meses em setembro, ficando abaixo das expectativas do mercado (1,6%) e ainda distante do centro da meta a ser perseguida (2,0%). A pesquisa da Eurostat revelou que o aumento de preços permanece fraco, com expectativa de queda para os próximos meses, o que minimiza o risco de uma ação agressiva por parte do BCE no futuro.

Haruhiko Kuroda, presidente do BoJ (Bank of Japan), voltou a repetir que é muito prematuro desfazer o programa de estímulo e debater o fim da política monetária ultrafrouxa. O comunicado da última reunião do Comitê de Política Monetária mostrou novo adiamento do momento em que a meta de inflação seria alcançada. Agora, a expectativa é que a meta de 2,0% será atingida somente em algum momento do ano fiscal de 2020.

No Reino Unido, a Agência Nacional de Estatística informou que o PIB (Produto Interno Bruto) do segundo trimestre deste ano desacelerou para 1,5%, frente aos 1,8% registrados no trimestre anterior. É o crescimento mais fraco na comparação anual desde 2013, dificultando o cenário para o BoE (Bank of England), que precisa subir a taxa básica de juros para combater a inflação acima do centro da meta, fortemente influenciada pelo deslocamento da libra. Ainda assim, mesmo com uma possível elevação da taxa de juros, o BoE já alertou que não pretende alterar seu programa de estímulos monetários.

Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump enfim apresentou seu programa de cortes de impostos, uma de suas principais propostas de campanha. O plano propõe redução da alíquota-teto do imposto de renda de pessoa física dos atuais 39,6% para 35%. Para pessoas jurídicas, a proposta é reduzir significativamente a alíquota de 35% para 20%.

A proposta de reforma tributária de Trump foi criticada por alguns parlamentares de seu próprio partido, por favorecer empresas e famílias mais ricas, além de causar aumento significativo no déficit já elevado do governo norte-americano.

Importante destacar que apesar de possuir ampla maioria na Câmara e maioria apertada no Senado, Trump não tem conseguido grandes vitórias no Congresso desde a sua posse. O fracasso na revisão do sistema de saúde, principal agenda dos republicanos há muitos anos, deixa claro a baixa capacidade de articulação do presidente norte-americano.

8 comentários:

  1. Primeiramente, parabéns por mais um ótimo post, desta vez destacando o cenário macroeconômico mundial!
    Realmente, fico bem curioso de ver os diversos mercado de capitais com suas LTAs extremamente íngremes, sustentando uma alta insustentável! Rs, curioso né?

    No mais, também fico no aguardo de como a inflação irá se comportar daqui pra frente. É interessante ver como ela não está se comportando como o esperando com os diversos estímulos por parte dos Bancos Centrais.

    Grande Abraço FI!

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  2. Esse pŕoximo crash vai ser muito feio.

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  3. Evidente que vão continuar com a farra expansionista: Banco centrais estão numa encruzilhada ( armadilha de liquidez.)

    Enquanto isso investidores de fundos com grande volume em recursos alocados em caixa vem buscando arbitrar yields e trades nos países emergentes.

    A maior bolha de todos os tempos continua sendo inflada pelos bancos centrais, quanto mais sobe mais perigoso fica! recentemente ouve um fenômeno nunca antes visto na história econômica : títulos junks estão negociando sem premio de risco .

    O que vai acontecer quando FED e os outros asseclas reduzirem seus balanços? Na verdade estão há uns 3 anos enrolando o mercado, nem eles sabem mais o que fazer vão carrega a bomba até onde for possessível.

    Enquanto isso grandes especuladores vem realizando lucro parcial e jogando para ativos sem bolha e mercado com valuation favorável.

    Abraço


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    1. Sim, a última vez em que o FED foi realmente hawkish foi no discurso do Bernanke antecipando o fim do quantitative easing. Os mercados levaram um tremendo o choque e os banqueiros centrais ativaram o modo cautela para acalmar os ânimos e manter o status quo nos preços dos ativos. E assim continuam levando rs..

      Abs,

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  4. Olá finanças inteligentes.

    Seu post me fez me refletir sobre situação do Brasil, se a Moçambique está está tendo resultado econômico sem esforço, então nosso país não está melhorando assim tão rápido ...



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    1. Na verdade o sucesso no mercado de bonds tem pouca relação com a situação macro local. É uma distorção em função da busca alucinante do mercado por retornos mais elevados.

      Abs,

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