segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Shinzo Abe, o poder do status quo


Shinzo Abe, atual primeiro-ministro do Japão, mostrou ao mundo neste último domingo como o status quo pode não só garantir o seu espaço consagrado na política, como ratificar sua força numa era em que as redes sociais impulsionam por mudanças (nem sempre bem pensadas) em vários cantos do planeta.

No início do mês de outubro, Abe convocou eleições antecipadas como pretexto para continuar seu programa econômico (conhecido com Abenomia, respaldado basicamente numa política monetária ultra frouxa), fortalecer seu governo para propor mudanças relevantes na Constituição e reunir forças para lidar com a ameaça da Coreia do Norte.

Abe deu uma aula à primeira-ministra britânica Theresa May, que também convocou eleições antecipadas neste ano para fortalecer seu governo. O tiro de Theresa May saiu pela culatra ao perder maioria no Parlamento, mas Abe acertou em cheio, surpreendendo, inclusive, expectativas mais otimistas.

O primeiro-ministro do Japão obteve uma vitória avassaladora neste último domingo, abrindo caminho para um terceiro mandato de três anos e se tornar o premiê há mais tempo no cargo na história do país. Se conquistar também a presidência do Partido Liberal Democrata, a ser realizada em setembro de 2018, Abe poderá manter-se na chefia até 2021.

A coalizão de Abe conquistou incríveis 2/3 da Câmara dos Deputados, conhecida como meta da supermaioria, necessária para alterar a Constituição, por exemplo. Isso significa que, sem precisar conversar com a oposição, Abe teria os votos necessários para propor mudanças relevantes.

A principal mudança na mira de Abe é o artigo 9 da Constituição, que por sinal foi escrito e imposto pelos norte-americanos em 1946. É conhecida como Constituição pacifista, pois limita a utilização das Forças Armadas (apenas para autodefesa) e impede o país de declarar guerra.

A vitória de Abe mostra não só a possibilidade concreta de retorno da força militar japonesa na Ásia, permitindo uma atuação linha-dura com a Coreia do Norte, como manutenção do agressivo programa de recuperação econômica e tentativa de retorno da inflação através das políticas monetárias ultra frouxas praticadas pelo BoJ (Bank of Japão - autoridade monetária local), o que tende agradar o mercado.

Nikkei atingiu máxima dos últimos 21 anos impulsionado pela vitória esmagadora de Shinzo Abe. O mercado japonês segue trabalhando dentro de um forte rali nos últimos anos, estimulado, sobretudo, pelas compras maciças de ativos por parte do BoJ.

Com a inflação oscilando na casa dos 0,7%, longe de alcançar a meta de 2% a ser perseguida pelo Comitê de Política Moentária, e crescimento econômico modesto de 0,6%, a Abenomia tem espaço para prevalecer no Japão. A dívida de 250% do PIB (Produto Interno Bruto) não é um problema para Abe afrouxar a política fiscal e monetária, pois o BoJ, além de praticar juro negativo a curto prazo, trabalha com uma meta de buscar juros zero nos títulos do tesouro japonês de longo prazo.


Nos Estados Unidos, destaque para o primeiro passo da polêmica reforma tributária de Donald Trump. O Senado aprovou na semana passada, por 51 votos a 49, medida para acrescentar 1,5 trilhão de dólares ao déficit fiscal do governo norte-americano ao longo da próxima década. O projeto é  base necessária para abrir espaço aos cortes tributários propostos por Trump.

Se a proposta evoluir na Câmara (onde os republicanos possuem maioria folgada), uma nova espécie de “quantitative easing orçamentário” estará se desenhando para o futuro. O balanço do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) subiu cerca de 3,5 trilhões de dólares com os programas de compras de ativos desde o estouro da crise do subprime em 2008, mas muitos analistas afirmam que boa parte deste fluxo escorreu para o mercado (vide preços das ações, bonds, etc), não criando o efeito inflacionário esperado na economia.

Desta vez, a renúncia fiscal tende a criar uma bela injeção de capital "na veia" (economia), com implicações diretas sobre a inflação. É dinheiro que os norte-americanos poupariam com menor pagamento de tributos para consumir mais. Considerando que Trump prometeu renunciar até 6 trilhões de dólares a pessoas físicas e jurídicas, o primeiro passo no Senado é um sinal de alerta ao futuro da política de normalização das condições monetárias do FED, que até então tem contado com terreno para seguir no seu ritmo de extrema cautela.

10 comentários:

  1. "Se a proposta evoluir na Câmara (onde os republicanos possuem maioria folgada), uma nova espécie de “quantitative easing orçamentário” estará se desenhando para o futuro. O balanço do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) subiu cerca de 3,5 trilhões de dólares com os programas de compras de ativos desde o estouro da crise do subprime em 2008, mas muitos analistas afirmam que boa parte deste fluxo escorreu para o mercado (vide preços das ações, bonds, etc), não criando o efeito inflacionário esperado na economia."

    Um artigo do Mises colocou que esse dinheiro não foi para o mercado porque o FED passou a remunerar todos os depósitos dos bancos lá, não somente os relativos ao compulsório.
    Este é o link: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2585

    Hunter

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    1. Olá Hunter,

      São atualmente 2,173 trilhões de dólares em excesso de reservas, frente a uma máxima de 2,699 trilhões registrada em agosto de 2014. Neste gráfico é possível acompanhar os números atualizados: https://fred.stlouisfed.org/series/EXCSRESNS
      Mês passado surgiu comentários sobre isso no blog, para dar uma olhada, basta acessar este link: http://www.financasinteligentes.com/2017/09/normalizacao-acomodaticia.html#comment-form

      Abs,

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    2. Então, FI.
      Nesse caso, com essa regra introduzida em 2008 (de remunerar inclusive o excedente), na verdade, quanto mais os juros subirem, mais dinheiro os bancos tenderiam a estacionar no FED, não acha?
      Com isso, não teríamos um efeito contrário ao clássico: ou seja: quanto maiores os juros, maior a contração monetária e, mais difícil de a inflação subir?

      Hunter

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    3. Hunter, em tese sim. Mas não raro a prática segue o que estava no script ou o esperado. Com baixas taxas de desemprego e manutenção do atual ritmo de crescimento, os bancos podem aumentar o volume nas operações de crédito.

      Abs,

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  2. O gráfico do endividamento mostra claramente que após o estouro da bolha imobiliária do Japão no início dos anos 90, o governo nipônico deixou de lado a responsabilidade fiscal.

    Digamos que o Japão continue com o PIB crescendo menos que o endividamento, até quando os players vão continuar financiando esta loucura keynesiana?

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    1. Alemão,

      Com política monetária trabalhando juro negativo no compulsório e meta de juro zero a longo prazo (hoje o título do tesouro japonês de 10 anos está pagando 0,07% ao ano), não há razão para convencer qualquer político no mundo a fazer controle fiscal. Com o longo período de inflação muito baixa e distante do centro da meta, juntamente com o cenário de envelhecimento da população e queda não desprezível do índice demográfico, essa parece ser a única solução para o Japão.

      Abs,

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    2. Uma política econômica que há 20 anos não surte efeito desejado não me parece ser a única solução.

      Quanto mais o governo japonês se endividar mais recursos retira do setor privado, fora que o BoJ já detentor de uma grande parte dos ativos vinculados à empresas privadas do Japão.

      Assim, a tendência é a produtividade ir caindo cada vez mais (claro, ainda alta), o setor público ficar cada vez mais inchado e a economia continuar definhando.

      Enfim, visões diferentes. Abraço.

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    3. Na verdade a economia está relativamente boa, crescendo na faixa de 1,4% ao ano. Para um país do porte do Japão, é um ritmo considerado satisfatório. O desemprego também segue baixo. A Abenomia foi uma aposta ousada, implementada há cerca de 3/4 anos atrás, justamente porque antes dela outras estratégias não funcionaram.

      Abs,

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  3. Eu acho bizarro boa parte desses keynesianos malucos, desde 1990 (estouro da bolha japonesa) o japão virou uma loucura keynesiana e o PIB do pais está praticamente estagnado desde então.

    Mas ainda assim todos continuam batendo na mesma tecla e acreditando que "dessa vez será diferente". Pra mim só há duas explicações lógicas, ou eles simplesmente estão cegos e não conseguem enxergar a realidade, ou eles sabem que mudar radicalmente o rumo da politica monetária e fiscal iria causar uma grave recessão no inicio (embora no longo prazo os resultados fossem positivos).

    É inconcebível isso, o PIB estagnado desde 1995 e eles ainda acreditam nessa politica monetária bizarra.

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    1. Desde o início da Abenomia, o PIB reagiu e hoje opera na faixa de 1,4% ao ano. Taxa de desemprego em mínima recorde aos 2,8%. Inflação muito baixa. Juro zero. Qual político no mundo não iria apertar o "power" fiscal? rs.. Não gosto de defender escola X ou Y, também não me agrada certas práticas keynesianas, mas os números mostram que o experimento funcionou. O problema parece ter ficado para o longo (ou longuíssimo) prazo.

      Abs,

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