quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Reforma da previdência não garante regra 2+2


A famosa regra 2+2, na qual é preciso alcançar 2% de crescimento econômico ao mesmo tempo em que o superávit primário seja de 2% do PIB, a ser perseguida pelo Brasil para buscar estabilização da trajetória de endividamento está longe de ser alcançada num cenário de curto e médio prazo, mesmo considerando aprovação de uma reforma da previdência completa. Numa versão enxuta da reforma aprovada, analistas consideram que o impacto fiscal positivo para os próximos 2/3 anos seria insignificante.

Os 2% de crescimento são factíveis para serem trabalhados dentro de um cenário de curto e médio prazo, mas os 2% de superávit primário parecem estar orbitando em outra galáxia, sem esperanças de serem alcançados até o final desta década, quando o nível de endividamento tende a se aproximar (ou mesmo ultrapassar) de perigosos 80% do PIB.

Segundo o economista Pedro Schneider, do banco Itaú, o governo conseguiria economizar cerca de 6 bilhões de reais em 2019 com aprovação do novo texto (versão enxuta) da reforma de previdência, o que por si só não seria suficientemente necessário para cumprimento do teto de gastos em 2019.

O governo brasileiro gasta mais da metade de seu orçamento preenchendo cheques, sendo as aposentadorias parte relevante destas despesas. Outros 20% são necessários para pagamento dos juros da dívida, preço salgado de nossa irresponsabilidade fiscal do passado. Somente os cheques e pagamentos de juros constituem, portanto, 75% dos gastos do governo. O número está muito acima de um limite aceitável, se distorcendo até mesmo da média de países da América Latina, que gastam 26% do orçamento com transferências e 10% com pagamento de juros da dívida.

A previdência precisa ser rigorosamente reformada no Brasil, mas não resolverá nosso gigantesco passivo fiscal a curto e médio prazo. Isso significa que, para ao menos estabilizar a trajetória de endividamento (hoje em forte ascendência), serão necessárias duras medidas adicionais de cortes imediatos de gastos ou aumento substancial da carga tributária.

Um estudo encomendado pelo ex-ministro Joaquim Levy ao Banco Mundial, cerca de dois anos atrás, ficou pronto nesta semana. O relatório do Banco Mundial aponta elevada ineficácia de nossos gastos e propõe algumas soluções para melhora na gestão dos recursos públicos. Chegou-se a conclusão de que o Simples Nacional, a Zona Franca de Manaus, o Inovar Auto, o PSI (Programa de Sustentação de Investimentos) e a desoneração da folha de pagamentos não alcançaram os resultados esperados e sequer melhoraram a eficiência da economia. A eliminação desses programas, portanto, não traria prejuízos em termos de eficácia e ainda poderia gerar economia de 2,03% do PIB, exatamente o “número mágico” da regra 2+2.

O Banco Mundial também sugere enxugamento de 1,29% do PIB nos gastos de estados e municípios e redução pela metade da diferença salarial dos servidores públicos federais em relação ao setor privado. De todos os países pesquisados pela instituição, o Brasil é onde os servidores públicos federais tem maior vantagem salarial em relação aos trabalhadores de funções semelhantes da iniciativa privada. A média mundial é de 17% a mais para servidores federais, sendo que no Brasil a vantagem alcança os 67%.

O relatório também aponta economia significativa apenas com mudanças nos procedimentos de compras públicas, atuação com mais eficácia no sistema de saúde e reforma no sistema de educação, medidas que poderiam ter impacto no curto prazo. Já a reforma da previdência é a medida de maior benefício fiscal, porém mais perceptível a longo prazo.

Entretanto, somente o que está relacionado à reforma da previdência (mesmo numa versão bastante desidratada frente à proposta original) tem ocupado as principais manchetes dos jornais. Para alguns, a bolsa de valores pode estar criando uma sensação (falsa) de que o mercado tem apostado na aprovação da reforma, apesar de na prática ser algo praticamente impossível. O governo não aparenta ter os 308 votos necessários para garantir aprovação em dois turnos na Câmara. Ainda assim, mesmo se passar na Câmara, o governo teria de iniciar outra batalha no Senado, já com os partidos em ritmo de campanha.

O Ibovespa está puro e simplesmente plugado ao fluxo global comprador. Os principais índices de Wall Street renovaram máxima histórica mesmo com o FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) iniciando os trabalhos de desalavancagem de seu balanço e sinalizando nova elevação da taxa básica de juros no próximo mês. Londres está a menos de 200 pontos abaixo de sua máxima histórica mesmo com as dificuldades nas negociações com o Brexit e elevação da taxa básica de juros pelo BoE (Bank of England), pela primeira vez em uma década. Frankfurt também segue próximo de sua máxima histórica mesmo com a derrota de Angela Merkel na formação de um governo de coalizão.

O fato de os preços dos ativos mostrarem resiliência, a nível global, revela que os investidores continuam despreocupados com as sinalizações macroeconômicas, situação típica de mercados bullish. A busca frenética por retorno num cenário de escassez de promoções mantém o mercado eufórico, onde as quedas de curto prazo têm servido apenas de justificativa para investidores aumentarem suas posições.

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sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Mercado se anima com upgrade na Índia


Notícias de upgrades nos ratings de economias emergentes relevantes se tornaram muito raras, se não escassas, nos últimos longos anos. O status quo era de rebaixamentos de notas e revisões para perspectivas negativas.

Na última quinta-feira a agência de classificação de risco Moody’s quebrou a maré ruim anunciando upgrade no rating da Índia. A nota de classificação do título soberano indiano subiu de Baa3 (último degrau do grau de investimento) para Baa2, também alterando a perspectiva de estável para positiva. Esse foi o primeiro aumento no rating da Índia por parte da Moody’s nos últimos 14 anos.

A agência de classificação de risco considera que a Índia tem feito importantes progressos em um amplo programa de reformas econômicas. Embora algumas das séries de reformas estejam em fase inicial, o “pouco” do que já foi implementado na Índia foi suficiente para fazer a Moody’s acreditar que proporcionará base para melhorar o ambiente de negócios, aumentar a produtividade, estimular o investimento estrangeiro e, consequentemente, promover um crescimento forte e sustentável, com impacto positivo até mesmo a nível global.

Uma das principais cartadas de Arun Jaitley, ministro de Finanças da Índia, até o momento, está na criação do imposto sobre bens e serviços (taxa única e simplificada que elimina barreira ao comércio interestadual), medidas para enfrentar o excesso de empréstimos inadimplentes no sistema bancário, melhorias no quadro da política monetária e ações para reduzir a informalidade na economia.

Também merece destaque melhorias na frente fiscal, endossadas pela nova Lei de Gerenciamento de Responsabilidade Fiscal e Orçamentária, ampliando a transparência e credibilidade do governo.  A inflação segue confortavelmente baixa e as reservas internacionais aumentaram para máximos históricos, criando importantes amortecedores para absorver eventuais choques internos e externos.

A Moody’s projeta crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) de 6,7% no encerramento do ano fiscal em março de 2018, aumentando para robustos e sustentáveis 7,5% a médio e longo prazo, uma taxa significativamente maior do que a maioria de outros países emergentes.

A principal fraqueza da Índia está no nível de endividamento. Considerando apenas o quadro apresentado nos últimos parágrafos, a Índia poderia estar facilmente sonhando com uma nota A3, um patamar grau de investimento médio elevado. A elevada dívida publica é um duro fardo para o rating indiano e, consequentemente, acaba levantando uma muralha para alguns players globais.

As reformas realizadas até o momento criam confiança de que, pelo menos, o alto endividamento permanecerá estável a curto/médio prazo (ou seja, deixará de subir, o que já é um bom sinal), diminuindo a longo prazo. Traduzindo em números, a dívida preocupante da Índia é de 68% do PIB, significativamente superior à média de 44% do PIB para países rating Baa (Moody’s) ou BBB (Standard & Poor’s e Fitch).

Obviamente, o atual nível de endividamento absurdo de 74% do PIB no Brasil, combinado com os juros futuros ainda considerados elevados, é um preocupante e gravíssimo ponto fora da curva, não servindo como base de comparação para outros países, mesmo de nível inferior.

O upgrade da Índia quebrou, pelo menos por enquanto, o clima azedo que pairava sobre o mercado, especialmente nas praças emergentes. A bolsa da Índia reagiu para cima, fechando em forte alta pelo segundo pregão consecutivo, aos 33.342 pontos. O clima positivo contaminou outras praças emergentes, como Rússia, África do Sul e Brasil.


Na China, o mercado permaneceu de mau humor por conta da revisão de projetos de parceria público-privada. O Ministério das Finanças endureceu as regras para aprovação de novos projetos, preocupado com os riscos da dívida, reforçando a agenda de longo prazo do governo de desalavancagem do crédito.

Nos Estados Unidos, destaque para aprovação do projeto de reforma tributária na Câmara dos Deputados, por 227 votos a favor e 205 contra, que prevê grandes cortes de impostos para pessoas físicas e jurídicas. Entretanto, o Senado trabalha com uma proposta diferente de reforma tributária, com algumas modificações em relação ao projeto da Câmara.

A expectativa é que a atual reforma aprovada na Câmara enfrente forte resistência no Senado, não somente pela visão diferente dos parlamentares das duas casas, mas também pelo fato de os republicanos possuírem maioria apertada no Senado, bem diferente da ampla maioria na Câmara.

Analistas da Nomura avaliam que há 60% de chance de aprovação de um pacote de reforma tributária mais simples no primeiro trimestre de 2018, 20% de aprovação de uma reforma robusta (similar à proposta da Câmara) e 20% de que nenhuma proposta seja aprovada.

Há uma tendência de entendimento entre deputados e senadores republicanos para um texto final mais simples e voltado para a proposta do Senado, não somente por “sensatez” fiscal, mas também por conta da estreita margem de vantagem que os republicanos possuem no Senado. Na Câmara, os republicanos estão folgados com 240 assentos, precisando apenas de 218 votos para aprovar uma reforma tributária. No Senado, os republicanos possuem 52 assentos, mas só podem perder dois votos para conseguir aprovar uma reforma tributária.

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quinta-feira, 16 de novembro de 2017

México entra em bear market


Temido por investidores do mundo inteiro, o urso está de volta e desembarcou com fome na praça mexicana. Desde a recuperação ascendente de preços iniciada em 2016, o urso até tentou aparecer no México, aproveitando-se do temor criado pelo mercado em torno da candidatura de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, mas sem sucesso.

Seguindo o ambiente global extremamente positivo e de intensa busca por ativos de risco, a praça mexicana entrou em 2017 dentro de um forte rali, dando sequência à trajetória iniciada em 2016. Os investidores locais (e estrangeiros que compraram México este ano), pouco se importavam com a agenda de Trump para negociação do Nafta (bloco econômico formado por Estados Unidos, Canadá e México).

Atualmente, o maior parceiro comercial do México são os Estados Unidos, disparado. Essa ficha parece enfim ter caído no mercado. Conforme alerta de Wilbur Ross, Secretário de Comércio dos Estados Unidos, o fim do Nafta seria especialmente devastador para o México. Obviamente os Estados Unidos também seriam prejudicados, mas em menor intensidade. A visão da Casa Branca é a de que não conseguir um acordo é melhor do que ter um acordo ruim.

Um sinal de que a agenda de negociação não está avançando é o fato de os principais ministros dos Estados Unidos, Canadá e México, com autoridade sobre o Nafta, não estarem presentes na quinta rodada de discussões que ocorre nesta semana na Cidade do México. Apenas grupos de negociação de nível inferior se reunirão a partir desta sexta-feira.

As autoridades de alto nível destes três países se encontraram anteriormente na cúpula dos líderes da Apec (Cooperação Econômica Ásia-Pacífico), realizada no Vietnã. O encontro possivelmente não superou o desgaste acumulado no passado, que ficou nítido quando as autoridades norte-americanas relataram desapontamento com as discussões.

Os Estados Unidos querem firmar um novo pacto até março de 2018 e entre suas principais exigências estão o aumento da cota de produtos fabricados no país, principalmente para o setor automotivo, melhores leis trabalhistas no México, mudanças no processo de resolução de disputas e uma cláusula de caducidade que poderia forçar a renovação do acordo a cada cinco anos, ou suspendê-lo caso ao menos um dos membros não desejasse estendê-lo por mais 5 anos.

Apesar de o FMI (Fundo Monetário Internacional) ter ratificado neste mês que a economia do México segue resiliente, principalmente pela redução do déficit (pouco inferior a 50% do PIB) e melhora na regulamentação financeira, o urso está rugindo alto na praça mexicana.

Atualmente, a bolsa do México é negociada aos 203,94 pontos, acumulando mais de 20% de queda desde pico registrado em julho deste ano, aos 255,83 pontos. Normalmente, analisas e investidores consideram mercado em ciclo bear quando a queda ultrapassa os 20% desde o último topo. Já mercados em ciclo bull são considerados quando a valorização ultrapassa 20% desde o último fundo.

O temor com a negociação do Nafta não é o único motivo que pode explicar a virada para bear market no México. A inflação local está em 6,37%, muito acima da meta de 3% a ser perseguida e o Banxico (Banco Central mexicano) não subiu a taxa básica de juros na última reunião de Comitê, atualmente em 7%.

O Banxico quer apostar num cenário de recuo da inflação no futuro, embora as condições atuais não estejam jogando a favor. Nós brasileiros conhecemos bem os perigos dessa estratégia. A taxa de juros do título da dívida soberana do governo mexicano, com vencimento em 10 anos, disparou de 6,70% no final de junho para 7,37%.


A moeda local também está levando um baile. O peso mexicano saiu dos 17,44 dólares em julho deste ano para 19,23 dólares. Agenda externa complexa, inflação alta, juros futuros disparando e câmbio derretendo não combinam com autoridade monetária sem ação.

Não por acaso, ou injustiça, o urso apareceu no México. A bolsa local acumula 12 semanas seguidas de queda, num movimento bastante atípico e que chama atenção do mercado, pois é a primeira praça financeira relevante a entrar em bear market desde 2016, abrindo possibilidade de contaminação para outras praças consideradas esticadas por alguns analistas.


Ainda não é possível afirmar se o sell-off no México tende a ser um evento local, mas o fato é que outras economias, principalmente as emergentes, incluindo o grupo dos cinco frágeis, estão começando a ver suas moedas serem depreciadas em relação ao dólar, taxas de juros futuros (referência títulos de 10 anos) subindo e bolsas cedendo.

O mesmo urso que bebe tequila também pode apreciar uma vodka, caipirinha, entre outras “bebidas”, ou não. Ao investidor brasileiro, cabe o velho conselho de não creditar peso relevante aos acontecimentos do nosso circo doméstico, como tem feito a mídia local, pois, antes de tudo, somos dependentes do cenário externo.

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sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Temor aumenta com os salvacionistas na América Latina


Dentro de um intervalo de dois anos, 14 dos 21 países latino-americanos realizarão eleições presidenciais. Ainda neste ano, haverá disputa no Chile e em Honduras. Em 2018 o caldeirão vai ferver no Brasil, México, Colômbia, Paraguai, Costa Rica e Venezuela. Para 2019, haverá disputa presidencial na Argentina, Uruguai, El Salvador, Panamá e Guatemala.

O mercado está relativamente tranquilo com a eleição presidencial do Chile, que já começa no dia 19 de novembro (primeiro turno). Sebastián Piñera, candidato conservador, de viés pró-mercado, e que inclusive já governou o país entre 2010 a 2014, é o grande favorito na disputa.

Piñera está com 32,8% das intenções de voto no primeiro turno, muito a frente do candidato de centro-esquerda Alejandro Guiller, com 13,8% das intenções de voto. Tanto Guiller, quanto Piñera, tentaram usar ao máximo a imagem de outsider. Porém, o fato de Guiller ser visto como uma sucessão da impopular centro-esquerda Michelle Bachelet, atual presidente do Chile, favoreceu para que Piñera pudesse crescer como outsider, porém com um discurso mais a direita. Bom lembrar que a esquerda de Bachelet falhou em seu plano de governo, o que culminou num período de fraco crescimento e desemprego de 6,7% no maior exportador de cobre do mundo.

A maior preocupação dos analistas, agências de rating e do próprio mercado é justamente com o calendário de 2018. O cenário base geral para os países no qual passarão por disputas presidenciais em 2018 é de baixo crescimento, sensação de insegurança, decepção com casos absurdos de corrupção e cansaço com políticos tradicionais, elementos considerados “fermentos poderosos” para ascensão não necessariamente de outsiders, mas de candidatos populistas ou salvacionistas.

A percepção é de que há potencial apoio considerável da população à figuras salvacionistas no México, Colômbia e Brasil. Enrique Peña Nieto, atual presidente do México, tem aprovação de apenas 12% e os maiores partidos de oposição (incluindo o esquerdista PRD) estão formando aliança para derrotar o partido do governo (PRI) nas eleições de 2018. O PRI governou o México por sete décadas até 2000, voltou ao poder em 2012 com Peña Nieto, mas agora parece que sua hegemonia está novamente ameaçada.

Na Colômbia, o partido da Farc (Força Alternativa Revolucionária do Comum), antiga guerrilha, enxergou espaço para disputar as eleições presidenciais com candidato próprio (seu principal líder, Rodrigo Londoño Echeverri). O primeiro turno das eleições presidenciais na Colômbia será em maio de 2018, mas as eleições legislativas para o Senado e Câmara ocorrerão em março deste ano, também com candidatos próprios da Farc. A disputa no Congresso será fundamental para investidores e agências de rating traçarem as perspectivas econômicas para o médio e longo prazo.

No Brasil o quadro é ainda mais complicado, pois o atual governo Temer, teoricamente de centro-direta, com discurso pró-mercado, trabalha com uma aprovação extremamente baixa (3% apenas da população), taxa de desemprego muito elevada (12,4%), recuperação econômica lenta, com PIB potencial ridiculamente baixo para países emergentes.

Um candidato, portanto, que utilizar o mesmo discurso/estratégia de Temer pode não conseguir apoio suficiente da população nas eleições presidenciais do ano que vem, já que os próprios indicadores econômicos pesam contra o discurso. A população não entende que os problemas atuais são consequência do passado desastroso da nova matriz econômica, o que pode enfraquecer um discurso com viés mais ortodoxo no próximo ano.

Grande parte dos analistas brasileiros acredita que o próximo presidente será um candidato de centro-direita, mas, apesar da grande necessidade de se colocar a casa em ordem, o mercado não parece tão confiante nesta hipótese. Convencer a população com medidas impopulares, semelhantes à agenda do governo Temer, para solucionar o gigantesco passivo fiscal, parece missão praticamente impossível, pois a realidade do crescimento baixo e desemprego alto pesam bastante na escolha do eleitor.

Na verdade, a baixa credibilidade do discurso ortodoxo, evidenciada pelos indicadores econômicos, juntamente com o clima de decepção com a classe política tradicional, abre espaço para salvadores da pátria surgirem com discursos diferentes, aproveitando-se do desespero por mudança.

Em particular, as agências de classificação de risco não parecem dispostas a esperar o resultado das eleições no Brasil para tomar uma decisão sobre o nosso atual rating BB, dois níveis abaixo do grau de investimento. A Standard & Poor’s emitiu um alerta recentemente de que a nota brasileira pode ser rebaixada, caso as mudanças nas regras de aposentadoria e pensão não aconteçam em tempo hábil de dar algum respiro ao próximo governo.

Nesta sexta-feira, vazou informação de que a Moody’s pode rebaixar o rating de até três grandes economias da América Latina (muito possivelmente o Brasil faz parte deste grupo no alvo da Moody’s) e não esperará os resultados das próximas eleições presidenciais.

Para o caso brasileiro, a reforma da previdência está se mostrando fator fundamental não somente para Moody’s, mas Standard & Poor’s e Fitch, tomarem uma decisão logo. Não há tempo para discussões sobre o que fazer com os insustentáveis déficits fiscais. A trajetória do nível de endividamento está se aproximando de um caminho sem volta, quando combinada com a carga de juros atuais (contratos futuros). Se não atacarmos o problema com urgência e devido rigor, estaremos comprando passagem para descer mais um degrau na escala de rating.

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terça-feira, 7 de novembro de 2017

Fatura está mais salgada para os países dos cinco frágeis


Analistas de investimentos de grandes bancos estrangeiros adoram criar nomes, expressões ou siglas fáceis de memorizar que simplifiquem a transmissão de suas respectivas visões macro em relatórios aos investidores. A estratégia, quando alcança repercussão relevante no mercado, também serve como marketing barato e eficaz aos bancos de investimentos.

O acrônimo BRIC, criado por Jim O’Neill, para se referir à força das economias do Brasil, Rússia, Índia e China, com posterior adesão da África do Sul (mudando o nome para BRICS), foi uma das grandes sacadas de O’Neill e uma bela jogada de marketing longo e barato ao Goldman Sachs na década passada.

Outras siglas tiveram repercussões temporárias fortes, como os PIGS (porcos, em inglês), no auge da crise do euro, para designar os quatro países com sérios problemas fiscais na Europa (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha). Já algumas não emplacaram, como a BIITS, tentativa do Deutsche Bank de designar um grupo de cinco países fragilizados.

Em 2013 o Morgan Stanley apareceu com a mesma ideia do Deutsche, mas ao invés de tentar criar um acrônimo para o grupo de países frágeis e/ou vulneráveis, simplesmente o apelidou de “os cinco frágeis”. A partir deste momento, Brasil, Índia, Indonésia, África do Sul e Turquia passaram a ser mundialmente conhecidos como os cinco países mais vulneráveis às mudanças econômicas, principalmente ao processo de normalização das políticas monetárias nas economias avançadas.

Muitos criticaram a formação do grupo dos cinco frágeis, considerando-a injusta. Nós, brasileiros, por exemplo, não aceitávamos ser comparados com a Turquia. Alguns analistas, inclusive de outros países, acharam a expressão um pouco pesada, contendo um viés talvez injustificadamente mais pessimista para esses cinco países.

Apesar de todo barulho, fato é que o Morgan Stanley estava correto. O título de 10 anos do Brasil está pagando um prêmio na faixa de 10% ao ano, em linha com a taxa praticada em 2013, quando a expressão foi criada. Bom lembrar que a nossa taxa subiu em 2013, 2014 e em 2015 alcançou quase 17%.

Os últimos dois anos foram de correções nos prêmios do Brasil, mas ainda estamos pagando juros de dois dígitos no título com vencimento em 10 anos, sendo que a taxa básica de juros opera aos 7,50%. O GAP entre a taxa básica de juros versus taxa futura de 10 anos revela desconfiança do mercado em diagnósticos de longo prazo.

A toda poderosa Índia, que cresce 5,7% ao ano, em pleno processo de reformas, com taxa básica de juros em 6%, inflação ancorada em 3%, tem que pagar 6,90% no título com vencimento em 10 anos. A taxa exigida pelo mercado hoje está praticamente 1 p.p. acima da mínima dos últimos anos.

A Indonésia paga 6,66% no título de 10 anos, acima dos bons tempos de rolagem/emissão da dívida a 5% ao ano durante 2012 e 2013. Apesar de mais salgado, o governo local está satisfeito com o prêmio atual, pois em 2015 a taxa se aproximou dos 10%. O retorno ao patamar de 5% parece um caminho difícil a ser traçado, já que a curva de juros futuros não aponta para baixo no longo prazo há um bom tempo.

O bond da África do Sul se distancia cada vez mais dos patamares alcançados em 2013. Hoje o governo paga 9,28% no título com vencimento em 10 anos, bem acima dos 6% alcançados quatro anos atrás, também com a curva de juros futuros de longo prazo apontando para cima.

O sal está carregado no título do governo Turco. Para emitir dívida com vencimento em 10 anos, o governo turco precisa pagar hoje ao mercado 11,92% ao ano, prêmio significativamente acima dos 6% praticados em 2013.


O Banco Central da Turquia, inclusive, se viu forçado a ativar, nesta semana, um mecanismo de emergência para injetar 1,4 bilhão de dólares no sistema financeiro com o objetivo de tentar deter a queda da lira turca e disparada dos yields, além de acalmar o mercado.

Apesar de não haver sinais de fuga de capitais, as taxas dos títulos da dívida soberana destes cinco países não estão em terrenos confortáveis. A liquidez no sistema financeiro global está mais alta quando comparada há quatro anos, mas mesmo assim as dificuldades de captação estão se mostrando visíveis nos prêmios.

O clima de aparente tranquilidade nas principais praças financeiras mundiais também tem camuflado o movimento defensivo de alguns investidores em bonds dos cinco frágeis. A ausência de uma espécie de alarme geral tocando no mercado pode criar acomodação para alguns governos não seguirem agendas estruturantes necessárias para restabelecer fundamentos macroeconômicos básicos a fim de se enfrentar um cenário futuro adverso de menor liquidez no sistema.

Mesmo com o FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) iniciando sua fase de desalavancagem no mês de outubro, permitindo o vencimento de uma pequena parcela de títulos de seu balanço e a China visando um crescimento menor na próxima década para desarmar riscos de um endividamento elevado, alguns governos ainda estão acostumados com as facilidades do passado e não se deram conta de que o cenário para o futuro tende a ser diferente.

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quarta-feira, 1 de novembro de 2017

A lógica de Trump para trocar seis por meia dúzia


A nomeação do novo chair do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), prevista para amanhã, vazou no Wall Street Journal. Confirmando as expectativas de muitos no mercado, a fonte da matéria publicada no fim de tarde desta quarta-feira afirma que Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, nomeará Jerome Powell como próximo presidente do FED.

O mandato de quatro anos da atual chair do FED, Janet Yellen, expira em fevereiro do próximo ano. Powell tem perfil dovish, muito parecido com o de Yellen, que sucedeu Ben Bernanke, também de perfil dovish. Se confirmado, Powell dará prosseguimento a uma era de lideres dovish dentro do banco central mais poderoso do mundo.

Trump criticou duramente a atual chair do FED durante sua campanha eleitoral, mas mudou de opinião nos últimos meses, chegando até mesmo a considerar mantê-la no cargo. A substituição de Yellen por Powell tende a não causar nenhuma alteração no viés extremamente cauteloso da política monetária norte-americana.

Powell é atual membro do Conselho de Governadores do FED e sempre defendeu a linha de atuação da atual chair Janet Yellen. Trump está trocando seis por meia dúzia na política monetária, talvez, não por conta das duras críticas direcionadas à Yellen em sua campanha, mas, provavelmente, porque quer mudar a lei Dodd-Frank e Powell, membro do partido republicano, apesar de apoiar a lei, já sinalizou que é possível torná-la mais eficaz.

A famosa Dodd-Frank tem cerca de 2.300 páginas e, entre os principais destaques, estão nos maiores requisitos de capital e obrigação de os bancos se submeterem anualmente a testes de estresse que medem suas respectivas resistências às crises financeiras. Trump não quer mudar esta parte da lei, mas sim uma outra norma-chave conhecida como Regra Volcker (o nome é uma homenagem ao glorioso trabalho do ex-presidente do FED, Paul Volcker).

Basicamente, a Regra Volcker proíbe que os bancos utilizem dinheiro garantido pelo governo para fazer apostas especulativas no mercado que ameaçam o sistema financeiro. É uma forma de limitar riscos excessivos tomados pelas instituições financeiras no passado, como no episódio do crash do subprime (2008) e da própria “Baleia de Londres” (trader do JP Morgan que apostou muito alto em posições erráticas e acabou tomando 6,2 bilhões de dólares de prejuízo).

Obama teve de queimar muito capital político para aprovar a Regra Volcker em 2013, na gestão Bernanke, mesmo depois de todo o escândalo provocado pela crise do subprime e com bastante atraso na implementação da nova lei. A pressão de Wall Street para revisão da Regra Volcker é enorme e Trump está pegando carona neste movimento, o que agrada o mercado.

As chances de afrouxamento na Regra Volcker não são pequenas. Trump, Wall Street e o partido republicano em peso apoiam uma mudança. O próprio Jerome Powell já sinalizou que a regra deveria ser reescrita para os bancos menores, ou mesmo diminuir as regulações, que são consideradas pesadas demais por muitos em Wall Street.

Na tarde desta quarta-feira o FED encerrou sua reunião de política monetária sem apresentar novidades. Com inflação em 1,3%, distanciando-se da meta de 2% a ser perseguida, não há riscos para mudança na trajetória extremamente lenta e gradual de redução do balanço da autoridade monetária (iniciado no mês de outubro), bem como aumento a conta-gotas da taxa básica de juros, no qual uma nova elevação de 0,25 p.p. deverá ocorrer em dezembro deste ano.

Na Europa, destaque para a decisão dovish do BCE (Banco Central Europeu) na última reunião de Comitê. Muito pressionado para agir, tanto pelas condições do deslocamento ascendente da moeda, quanto pela estratégia do banqueiro central do outro lado do Atlântico, a autoridade monetária europeia decidiu, enfim, reduzir o seu volume mensal de compras de ativos.

A partir de janeiro de 2018, o BCE vai comprar 30 bilhões de euros em ativos no mercado local, ante os 60 bilhões de euros atuais. O volume de compras mensais foi reduzido pela metade, mas para compensar algo que poderia ser considerado um movimento hawkish, o programa foi novamente prorrogado.

Programado para ser encerrado em janeiro do ano que vem, o programa de compras foi estendido por mais nove meses. Portanto, o BCE continuará comprando papéis no mercado até setembro do próximo ano, anulando completamente qualquer expectativa de efeito que um corte de 30 bilhões no programa de compras teria no mercado. Pelo contrário, cortar pela metade o volume de compras, mas estendê-lo por mais nove meses aumentará a liquidez até então projetada no sistema.

Mario Draghi, presidente do BCE, confirmou o viés de cautela da autoridade monetária ao destacar em sua entrevista para a imprensa o fato de a inflação na zona do euro continuar muito baixa (atualmente em 1,4% no índice oficial, com o núcleo recuando a 0,9%) e distante do centro da meta de 2% a ser perseguida, o que, na visão dos membros do Comitê, exige suporte de uma política monetária ainda bastante estimulativa.

O BoJ (Bank of Japan), segue firme na sua política monetária ultra expansionista. Manteve a taxa de juros de curto prazo em -0,1% e meta de perseguir juro zero no rendimento do título do tesouro nacional de 10 anos. Haruhiko Kuroda, presidente do BoJ, reforçou sua promessa de manter o afrouxamento monetário agressivo até que a inflação se estabilize acima dos 2% (objetivo ainda muito distante de ser alcançado).

Na Rússia, o Banco Central cortou a taxa básica de juros em 0,25 p.p., de 8,50% ao ano para 8,25% ao ano, seguindo estratégia semelhante adotada no Brasil, porém não com tanta sede ao pote. A taxa de inflação ronda os 3% no acumulado dos últimos 12 meses, abaixo da meta de 4% a ser perseguida. Apesar de o Banco Central russo ter deixado a porta aberta para novos cortes na taxa básica de juros, o ritmo de corte é mais cauteloso, já que existe preocupação com os riscos de retomada da inflação a médio e longo prazo.

Num comparativo simples, o Banco Central da Rússia parece estar justificadamente mais preocupado com o balanço de riscos para a inflação a médio e longo prazo, enquanto o Banco Central do Brasil parece estar mais focado no oportunismo de curto prazo, talvez não depositando devida preocupação frente às barreiras estruturais econômicas (sempre visíveis nos processos de retomada do crescimento) e gravíssimo quadro fiscal.

O processo de retomada econômica no Brasil está em curso, ainda em fase inicial, por enquanto sem sinais de ameaça à meta de inflação ou desequilíbrio, mas por outro lado não demonstra o ímpeto de fortes recuperações observadas no passado.

O Índice Gerente de Compras, calculado pelo Instituto Markit, subiu de 50,9 pontos em setembro para 51,2 pontos no mês de outubro, revelando expansão moderada da atividade manufatureira. O nível de emprego na indústria subiu pela primeira vez desde 2015, numa importante mudança direcional. Destaque para o mercado interno, principal força do processo de expansão do indicador no mês de outubro, compensando a primeira queda dos últimos seis meses no volume de vendas para o exterior.


Este primeiro sinal de fraqueza dos negócios no mercado externo pode ser uma preocupação, já que o dólar contra real subiu cerca de 0,10 pontos no mês de outubro. Não é uma alta considerada expressiva, mas ainda assim a indústria nacional sentiu, mesmo com o mundo em aceleração do processo de crescimento. Essa nova dificuldade da indústria revela o velho e conhecido problema da baixa competitividade de nossos produtos no mercado global.

Na China, o vice-ministro do Escritório do Grupo Central de Liderança de Assuntos Financeiros e Econômicos do Partido Comunista, Yang Weimin, disse que o país não vai buscar somente a expansão econômica na próxima décda, mas sim dar mais foco a qualidade do crescimento. A China sempre buscou duplicar seu PIB e renda per capta a cada década. Porém, a partir de 2021, essas metas ambiciosas de crescimento tendem a ser deixadas de lado (até porque as dívidas corporativas e de governos estão muito elevadas), marcando uma nova estratégia de desenvolvimento econômico no longo prazo.

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