terça-feira, 7 de novembro de 2017

Fatura está mais salgada para os países dos cinco frágeis


Analistas de investimentos de grandes bancos estrangeiros adoram criar nomes, expressões ou siglas fáceis de memorizar que simplifiquem a transmissão de suas respectivas visões macro em relatórios aos investidores. A estratégia, quando alcança repercussão relevante no mercado, também serve como marketing barato e eficaz aos bancos de investimentos.

O acrônimo BRIC, criado por Jim O’Neill, para se referir à força das economias do Brasil, Rússia, Índia e China, com posterior adesão da África do Sul (mudando o nome para BRICS), foi uma das grandes sacadas de O’Neill e uma bela jogada de marketing longo e barato ao Goldman Sachs na década passada.

Outras siglas tiveram repercussões temporárias fortes, como os PIGS (porcos, em inglês), no auge da crise do euro, para designar os quatro países com sérios problemas fiscais na Europa (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha). Já algumas não emplacaram, como a BIITS, tentativa do Deutsche Bank de designar um grupo de cinco países fragilizados.

Em 2013 o Morgan Stanley apareceu com a mesma ideia do Deutsche, mas ao invés de tentar criar um acrônimo para o grupo de países frágeis e/ou vulneráveis, simplesmente o apelidou de “os cinco frágeis”. A partir deste momento, Brasil, Índia, Indonésia, África do Sul e Turquia passaram a ser mundialmente conhecidos como os cinco países mais vulneráveis às mudanças econômicas, principalmente ao processo de normalização das políticas monetárias nas economias avançadas.

Muitos criticaram a formação do grupo dos cinco frágeis, considerando-a injusta. Nós, brasileiros, por exemplo, não aceitávamos ser comparados com a Turquia. Alguns analistas, inclusive de outros países, acharam a expressão um pouco pesada, contendo um viés talvez injustificadamente mais pessimista para esses cinco países.

Apesar de todo barulho, fato é que o Morgan Stanley estava correto. O título de 10 anos do Brasil está pagando um prêmio na faixa de 10% ao ano, em linha com a taxa praticada em 2013, quando a expressão foi criada. Bom lembrar que a nossa taxa subiu em 2013, 2014 e em 2015 alcançou quase 17%.

Os últimos dois anos foram de correções nos prêmios do Brasil, mas ainda estamos pagando juros de dois dígitos no título com vencimento em 10 anos, sendo que a taxa básica de juros opera aos 7,50%. O GAP entre a taxa básica de juros versus taxa futura de 10 anos revela desconfiança do mercado em diagnósticos de longo prazo.

A toda poderosa Índia, que cresce 5,7% ao ano, em pleno processo de reformas, com taxa básica de juros em 6%, inflação ancorada em 3%, tem que pagar 6,90% no título com vencimento em 10 anos. A taxa exigida pelo mercado hoje está praticamente 1 p.p. acima da mínima dos últimos anos.

A Indonésia paga 6,66% no título de 10 anos, acima dos bons tempos de rolagem/emissão da dívida a 5% ao ano durante 2012 e 2013. Apesar de mais salgado, o governo local está satisfeito com o prêmio atual, pois em 2015 a taxa se aproximou dos 10%. O retorno ao patamar de 5% parece um caminho difícil a ser traçado, já que a curva de juros futuros não aponta para baixo no longo prazo há um bom tempo.

O bond da África do Sul se distancia cada vez mais dos patamares alcançados em 2013. Hoje o governo paga 9,28% no título com vencimento em 10 anos, bem acima dos 6% alcançados quatro anos atrás, também com a curva de juros futuros de longo prazo apontando para cima.

O sal está carregado no título do governo Turco. Para emitir dívida com vencimento em 10 anos, o governo turco precisa pagar hoje ao mercado 11,92% ao ano, prêmio significativamente acima dos 6% praticados em 2013.


O Banco Central da Turquia, inclusive, se viu forçado a ativar, nesta semana, um mecanismo de emergência para injetar 1,4 bilhão de dólares no sistema financeiro com o objetivo de tentar deter a queda da lira turca e disparada dos yields, além de acalmar o mercado.

Apesar de não haver sinais de fuga de capitais, as taxas dos títulos da dívida soberana destes cinco países não estão em terrenos confortáveis. A liquidez no sistema financeiro global está mais alta quando comparada há quatro anos, mas mesmo assim as dificuldades de captação estão se mostrando visíveis nos prêmios.

O clima de aparente tranquilidade nas principais praças financeiras mundiais também tem camuflado o movimento defensivo de alguns investidores em bonds dos cinco frágeis. A ausência de uma espécie de alarme geral tocando no mercado pode criar acomodação para alguns governos não seguirem agendas estruturantes necessárias para restabelecer fundamentos macroeconômicos básicos a fim de se enfrentar um cenário futuro adverso de menor liquidez no sistema.

Mesmo com o FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) iniciando sua fase de desalavancagem no mês de outubro, permitindo o vencimento de uma pequena parcela de títulos de seu balanço e a China visando um crescimento menor na próxima década para desarmar riscos de um endividamento elevado, alguns governos ainda estão acostumados com as facilidades do passado e não se deram conta de que o cenário para o futuro tende a ser diferente.

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4 comentários:

  1. Parece que até a definição das eleições de 2018 o gap no bond brasileiro tenderá a ficar alto.

    O que você acha?

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    1. Acho que as razões para o GAP no bond são justificadas e as eleições de 2018 são importantes, mas longe de ser algum driver definitivo para o mercado. No fim das contas dependemos do humor dos investidores estrangeiros e das condições de negócios em outras praças financeiras, tanto as concorrentes emergentes, quanto às desenvolvidas.

      Abs,

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  2. Falando em mercado de capitas nacionais, este ano ele já movimentou em termos de crédito um volume 3x do que BNDES. As distorções estão sendo corrigidas. Não posso ficar um pouco mais otimista?

    http://www.valor.com.br/financas/5187079/mercado-de-capitais-volta-com-juro-baixo-e-contracao-do-bndes

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    1. Sim, as perspectivas para o mercado de crédito privado são boas. Tanto para o investidor, que hoje tem uma série de opções mais simples para buscar retorno no crédito privado, quanto para as empresas que terão acesso à captação no mercado.

      Abs,

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