sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Mercado se anima com upgrade na Índia


Notícias de upgrades nos ratings de economias emergentes relevantes se tornaram muito raras, se não escassas, nos últimos longos anos. O status quo era de rebaixamentos de notas e revisões para perspectivas negativas.

Na última quinta-feira a agência de classificação de risco Moody’s quebrou a maré ruim anunciando upgrade no rating da Índia. A nota de classificação do título soberano indiano subiu de Baa3 (último degrau do grau de investimento) para Baa2, também alterando a perspectiva de estável para positiva. Esse foi o primeiro aumento no rating da Índia por parte da Moody’s nos últimos 14 anos.

A agência de classificação de risco considera que a Índia tem feito importantes progressos em um amplo programa de reformas econômicas. Embora algumas das séries de reformas estejam em fase inicial, o “pouco” do que já foi implementado na Índia foi suficiente para fazer a Moody’s acreditar que proporcionará base para melhorar o ambiente de negócios, aumentar a produtividade, estimular o investimento estrangeiro e, consequentemente, promover um crescimento forte e sustentável, com impacto positivo até mesmo a nível global.

Uma das principais cartadas de Arun Jaitley, ministro de Finanças da Índia, até o momento, está na criação do imposto sobre bens e serviços (taxa única e simplificada que elimina barreira ao comércio interestadual), medidas para enfrentar o excesso de empréstimos inadimplentes no sistema bancário, melhorias no quadro da política monetária e ações para reduzir a informalidade na economia.

Também merece destaque melhorias na frente fiscal, endossadas pela nova Lei de Gerenciamento de Responsabilidade Fiscal e Orçamentária, ampliando a transparência e credibilidade do governo.  A inflação segue confortavelmente baixa e as reservas internacionais aumentaram para máximos históricos, criando importantes amortecedores para absorver eventuais choques internos e externos.

A Moody’s projeta crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) de 6,7% no encerramento do ano fiscal em março de 2018, aumentando para robustos e sustentáveis 7,5% a médio e longo prazo, uma taxa significativamente maior do que a maioria de outros países emergentes.

A principal fraqueza da Índia está no nível de endividamento. Considerando apenas o quadro apresentado nos últimos parágrafos, a Índia poderia estar facilmente sonhando com uma nota A3, um patamar grau de investimento médio elevado. A elevada dívida publica é um duro fardo para o rating indiano e, consequentemente, acaba levantando uma muralha para alguns players globais.

As reformas realizadas até o momento criam confiança de que, pelo menos, o alto endividamento permanecerá estável a curto/médio prazo (ou seja, deixará de subir, o que já é um bom sinal), diminuindo a longo prazo. Traduzindo em números, a dívida preocupante da Índia é de 68% do PIB, significativamente superior à média de 44% do PIB para países rating Baa (Moody’s) ou BBB (Standard & Poor’s e Fitch).

Obviamente, o atual nível de endividamento absurdo de 74% do PIB no Brasil, combinado com os juros futuros ainda considerados elevados, é um preocupante e gravíssimo ponto fora da curva, não servindo como base de comparação para outros países, mesmo de nível inferior.

O upgrade da Índia quebrou, pelo menos por enquanto, o clima azedo que pairava sobre o mercado, especialmente nas praças emergentes. A bolsa da Índia reagiu para cima, fechando em forte alta pelo segundo pregão consecutivo, aos 33.342 pontos. O clima positivo contaminou outras praças emergentes, como Rússia, África do Sul e Brasil.


Na China, o mercado permaneceu de mau humor por conta da revisão de projetos de parceria público-privada. O Ministério das Finanças endureceu as regras para aprovação de novos projetos, preocupado com os riscos da dívida, reforçando a agenda de longo prazo do governo de desalavancagem do crédito.

Nos Estados Unidos, destaque para aprovação do projeto de reforma tributária na Câmara dos Deputados, por 227 votos a favor e 205 contra, que prevê grandes cortes de impostos para pessoas físicas e jurídicas. Entretanto, o Senado trabalha com uma proposta diferente de reforma tributária, com algumas modificações em relação ao projeto da Câmara.

A expectativa é que a atual reforma aprovada na Câmara enfrente forte resistência no Senado, não somente pela visão diferente dos parlamentares das duas casas, mas também pelo fato de os republicanos possuírem maioria apertada no Senado, bem diferente da ampla maioria na Câmara.

Analistas da Nomura avaliam que há 60% de chance de aprovação de um pacote de reforma tributária mais simples no primeiro trimestre de 2018, 20% de aprovação de uma reforma robusta (similar à proposta da Câmara) e 20% de que nenhuma proposta seja aprovada.

Há uma tendência de entendimento entre deputados e senadores republicanos para um texto final mais simples e voltado para a proposta do Senado, não somente por “sensatez” fiscal, mas também por conta da estreita margem de vantagem que os republicanos possuem no Senado. Na Câmara, os republicanos estão folgados com 240 assentos, precisando apenas de 218 votos para aprovar uma reforma tributária. No Senado, os republicanos possuem 52 assentos, mas só podem perder dois votos para conseguir aprovar uma reforma tributária.

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