quinta-feira, 16 de novembro de 2017

México entra em bear market


Temido por investidores do mundo inteiro, o urso está de volta e desembarcou com fome na praça mexicana. Desde a recuperação ascendente de preços iniciada em 2016, o urso até tentou aparecer no México, aproveitando-se do temor criado pelo mercado em torno da candidatura de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, mas sem sucesso.

Seguindo o ambiente global extremamente positivo e de intensa busca por ativos de risco, a praça mexicana entrou em 2017 dentro de um forte rali, dando sequência à trajetória iniciada em 2016. Os investidores locais (e estrangeiros que compraram México este ano), pouco se importavam com a agenda de Trump para negociação do Nafta (bloco econômico formado por Estados Unidos, Canadá e México).

Atualmente, o maior parceiro comercial do México são os Estados Unidos, disparado. Essa ficha parece enfim ter caído no mercado. Conforme alerta de Wilbur Ross, Secretário de Comércio dos Estados Unidos, o fim do Nafta seria especialmente devastador para o México. Obviamente os Estados Unidos também seriam prejudicados, mas em menor intensidade. A visão da Casa Branca é a de que não conseguir um acordo é melhor do que ter um acordo ruim.

Um sinal de que a agenda de negociação não está avançando é o fato de os principais ministros dos Estados Unidos, Canadá e México, com autoridade sobre o Nafta, não estarem presentes na quinta rodada de discussões que ocorre nesta semana na Cidade do México. Apenas grupos de negociação de nível inferior se reunirão a partir desta sexta-feira.

As autoridades de alto nível destes três países se encontraram anteriormente na cúpula dos líderes da Apec (Cooperação Econômica Ásia-Pacífico), realizada no Vietnã. O encontro possivelmente não superou o desgaste acumulado no passado, que ficou nítido quando as autoridades norte-americanas relataram desapontamento com as discussões.

Os Estados Unidos querem firmar um novo pacto até março de 2018 e entre suas principais exigências estão o aumento da cota de produtos fabricados no país, principalmente para o setor automotivo, melhores leis trabalhistas no México, mudanças no processo de resolução de disputas e uma cláusula de caducidade que poderia forçar a renovação do acordo a cada cinco anos, ou suspendê-lo caso ao menos um dos membros não desejasse estendê-lo por mais 5 anos.

Apesar de o FMI (Fundo Monetário Internacional) ter ratificado neste mês que a economia do México segue resiliente, principalmente pela redução do déficit (pouco inferior a 50% do PIB) e melhora na regulamentação financeira, o urso está rugindo alto na praça mexicana.

Atualmente, a bolsa do México é negociada aos 203,94 pontos, acumulando mais de 20% de queda desde pico registrado em julho deste ano, aos 255,83 pontos. Normalmente, analisas e investidores consideram mercado em ciclo bear quando a queda ultrapassa os 20% desde o último topo. Já mercados em ciclo bull são considerados quando a valorização ultrapassa 20% desde o último fundo.

O temor com a negociação do Nafta não é o único motivo que pode explicar a virada para bear market no México. A inflação local está em 6,37%, muito acima da meta de 3% a ser perseguida e o Banxico (Banco Central mexicano) não subiu a taxa básica de juros na última reunião de Comitê, atualmente em 7%.

O Banxico quer apostar num cenário de recuo da inflação no futuro, embora as condições atuais não estejam jogando a favor. Nós brasileiros conhecemos bem os perigos dessa estratégia. A taxa de juros do título da dívida soberana do governo mexicano, com vencimento em 10 anos, disparou de 6,70% no final de junho para 7,37%.


A moeda local também está levando um baile. O peso mexicano saiu dos 17,44 dólares em julho deste ano para 19,23 dólares. Agenda externa complexa, inflação alta, juros futuros disparando e câmbio derretendo não combinam com autoridade monetária sem ação.

Não por acaso, ou injustiça, o urso apareceu no México. A bolsa local acumula 12 semanas seguidas de queda, num movimento bastante atípico e que chama atenção do mercado, pois é a primeira praça financeira relevante a entrar em bear market desde 2016, abrindo possibilidade de contaminação para outras praças consideradas esticadas por alguns analistas.


Ainda não é possível afirmar se o sell-off no México tende a ser um evento local, mas o fato é que outras economias, principalmente as emergentes, incluindo o grupo dos cinco frágeis, estão começando a ver suas moedas serem depreciadas em relação ao dólar, taxas de juros futuros (referência títulos de 10 anos) subindo e bolsas cedendo.

O mesmo urso que bebe tequila também pode apreciar uma vodka, caipirinha, entre outras “bebidas”, ou não. Ao investidor brasileiro, cabe o velho conselho de não creditar peso relevante aos acontecimentos do nosso circo doméstico, como tem feito a mídia local, pois, antes de tudo, somos dependentes do cenário externo.

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6 comentários:

  1. Olá FI, será que o IBOV também já não pode ser considerado em bear market? Porque desde o topo já tivemos uma boa queda inclusive com rompimento de resistências.

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    1. Olá, tecnicamente ainda não, pois não atingiu 20% de queda desde o último topo (78k).

      Abs,

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  2. Boa noite, FI.

    A independência financeira tornou-se o sonho de muitos pequenos investidores ao longo dos últimos anos e vários blogs surgiram, assim, muitos compartilham suas respectivas estratégias de alocação, tipos de investimentos, etc. Todavia, o cerne da questão perpassa por um* aspecto basilar que seria a rentabilidade real da carteira de investimento. Neste cenário político-econômico extremamente conturbado como realizar estimativas para tal intento? A TSR de acordo com algumas leituras indicam que 4% seria o "número mágico" para manutenção do patrimônio investido. A pergunta "capciosa" seria o quão factível seria a obtenção dessa condição com relativa segurança, num país marcado por sucessivas crises e que dispõe de um dragão ora adormecido.

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    1. Boa noite,

      Pode ter certeza que a sua preocupação é semelhante a de muitos investidores espalhados pelo mundo afora buscando independência financeira, não somente no Brasil. Talvez minha opinião não vá ser a resposta que você está procurando, pois particularmente não gosto de queimar neurônio com esse tipo de coisa. Eu, por exemplo, não me preocupo com isso, nem com o que poderá acontecer no mercado (semana que vem, mês que vem, ano que vem, na próxima década e por aí vai..), pois sei o que fazer independente do que acontecer. Para o investidor, basta conhecimento e estratégia operacional eficaz para não somente se defender, mas aproveitar oportunidades que surgem em qualquer cenário (principalmente nas crises). Mesmo no caso de um quadro de inflação elevada, existem formas de não somente proteger o capital, mas de acelerar o ganho real da posição. Há 20 anos atrás isso talvez não seria possível, mas hoje com os derivativos e operações estruturadas, tudo ficou muito mais fácil. Então o meu conselho é usar tempo para estudar o mercado e trabalhar uma estratégia operacional eficaz. O resto é responsabilidade do Sr. Mercado. Se precisar de auxílio, basta me enviar um e-mail.

      Abs,

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  3. Boa noite, FI.

    Voce oferece assessoria independente?

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    1. Olá,

      Sim, para maiores informações me envie um e-mail: robson@jb3assessoria.com.br

      Abs,

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