sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Temor aumenta com os salvacionistas na América Latina


Dentro de um intervalo de dois anos, 14 dos 21 países latino-americanos realizarão eleições presidenciais. Ainda neste ano, haverá disputa no Chile e em Honduras. Em 2018 o caldeirão vai ferver no Brasil, México, Colômbia, Paraguai, Costa Rica e Venezuela. Para 2019, haverá disputa presidencial na Argentina, Uruguai, El Salvador, Panamá e Guatemala.

O mercado está relativamente tranquilo com a eleição presidencial do Chile, que já começa no dia 19 de novembro (primeiro turno). Sebastián Piñera, candidato conservador, de viés pró-mercado, e que inclusive já governou o país entre 2010 a 2014, é o grande favorito na disputa.

Piñera está com 32,8% das intenções de voto no primeiro turno, muito a frente do candidato de centro-esquerda Alejandro Guiller, com 13,8% das intenções de voto. Tanto Guiller, quanto Piñera, tentaram usar ao máximo a imagem de outsider. Porém, o fato de Guiller ser visto como uma sucessão da impopular centro-esquerda Michelle Bachelet, atual presidente do Chile, favoreceu para que Piñera pudesse crescer como outsider, porém com um discurso mais a direita. Bom lembrar que a esquerda de Bachelet falhou em seu plano de governo, o que culminou num período de fraco crescimento e desemprego de 6,7% no maior exportador de cobre do mundo.

A maior preocupação dos analistas, agências de rating e do próprio mercado é justamente com o calendário de 2018. O cenário base geral para os países no qual passarão por disputas presidenciais em 2018 é de baixo crescimento, sensação de insegurança, decepção com casos absurdos de corrupção e cansaço com políticos tradicionais, elementos considerados “fermentos poderosos” para ascensão não necessariamente de outsiders, mas de candidatos populistas ou salvacionistas.

A percepção é de que há potencial apoio considerável da população à figuras salvacionistas no México, Colômbia e Brasil. Enrique Peña Nieto, atual presidente do México, tem aprovação de apenas 12% e os maiores partidos de oposição (incluindo o esquerdista PRD) estão formando aliança para derrotar o partido do governo (PRI) nas eleições de 2018. O PRI governou o México por sete décadas até 2000, voltou ao poder em 2012 com Peña Nieto, mas agora parece que sua hegemonia está novamente ameaçada.

Na Colômbia, o partido da Farc (Força Alternativa Revolucionária do Comum), antiga guerrilha, enxergou espaço para disputar as eleições presidenciais com candidato próprio (seu principal líder, Rodrigo Londoño Echeverri). O primeiro turno das eleições presidenciais na Colômbia será em maio de 2018, mas as eleições legislativas para o Senado e Câmara ocorrerão em março deste ano, também com candidatos próprios da Farc. A disputa no Congresso será fundamental para investidores e agências de rating traçarem as perspectivas econômicas para o médio e longo prazo.

No Brasil o quadro é ainda mais complicado, pois o atual governo Temer, teoricamente de centro-direta, com discurso pró-mercado, trabalha com uma aprovação extremamente baixa (3% apenas da população), taxa de desemprego muito elevada (12,4%), recuperação econômica lenta, com PIB potencial ridiculamente baixo para países emergentes.

Um candidato, portanto, que utilizar o mesmo discurso/estratégia de Temer pode não conseguir apoio suficiente da população nas eleições presidenciais do ano que vem, já que os próprios indicadores econômicos pesam contra o discurso. A população não entende que os problemas atuais são consequência do passado desastroso da nova matriz econômica, o que pode enfraquecer um discurso com viés mais ortodoxo no próximo ano.

Grande parte dos analistas brasileiros acredita que o próximo presidente será um candidato de centro-direita, mas, apesar da grande necessidade de se colocar a casa em ordem, o mercado não parece tão confiante nesta hipótese. Convencer a população com medidas impopulares, semelhantes à agenda do governo Temer, para solucionar o gigantesco passivo fiscal, parece missão praticamente impossível, pois a realidade do crescimento baixo e desemprego alto pesam bastante na escolha do eleitor.

Na verdade, a baixa credibilidade do discurso ortodoxo, evidenciada pelos indicadores econômicos, juntamente com o clima de decepção com a classe política tradicional, abre espaço para salvadores da pátria surgirem com discursos diferentes, aproveitando-se do desespero por mudança.

Em particular, as agências de classificação de risco não parecem dispostas a esperar o resultado das eleições no Brasil para tomar uma decisão sobre o nosso atual rating BB, dois níveis abaixo do grau de investimento. A Standard & Poor’s emitiu um alerta recentemente de que a nota brasileira pode ser rebaixada, caso as mudanças nas regras de aposentadoria e pensão não aconteçam em tempo hábil de dar algum respiro ao próximo governo.

Nesta sexta-feira, vazou informação de que a Moody’s pode rebaixar o rating de até três grandes economias da América Latina (muito possivelmente o Brasil faz parte deste grupo no alvo da Moody’s) e não esperará os resultados das próximas eleições presidenciais.

Para o caso brasileiro, a reforma da previdência está se mostrando fator fundamental não somente para Moody’s, mas Standard & Poor’s e Fitch, tomarem uma decisão logo. Não há tempo para discussões sobre o que fazer com os insustentáveis déficits fiscais. A trajetória do nível de endividamento está se aproximando de um caminho sem volta, quando combinada com a carga de juros atuais (contratos futuros). Se não atacarmos o problema com urgência e devido rigor, estaremos comprando passagem para descer mais um degrau na escala de rating.

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9 comentários:

  1. Até poucos dias atrás as coisas estavam aparentemente bem no IBOV, inclusive com perspectivas de alta e com perspectivas bastante positivas no curto e médio prazo em empresas como Vale e Petrobras.
    "De repente" a bolsa entra numa maré de baixas com pequenos ganhos e consequente perda de pontos.
    Mesmo empresas com balanços postivos e boas perspectivas futuras estacionaram ou perderam valor.

    Descobriram que haverá eleição em 2018 só agora?
    A que se deve toda essa volatilidade? Peloque vejo as perspectivas ositivas já estão se tornando negativas pra muitos aparentemente por simples especulação.

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    1. Pelo que li, deve-se ao discurso da não aprovação ou do enfraquecimento da reforma da previdência. Convenhamos, essa alta foi até demais. Mas acho que uma forte reversão só viria em 2018, a depender do que ocorrerá nas eleições.

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    2. Esse sentimento é justificável, pois a bolsa veio de uma puxada forte desde os 60k no mês de junho, deixando muitos participantes acomodados com a facilidade de deslocamento atípico da bolsa nesses últimos meses. No momento, o mercado segue em fase de correção, iniciada aos 78k no início do mês de outubro.

      Abs,

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    3. Tem muita empresa que vem bem, com boa governança, potencial de ganhos, balanço positivo etc. Mesmo assim caíram.
      A correção não cabe para todas as ações, tem empresas que tem condições de subir.

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    4. Assim como tem casos de empresas que se valorizam bastante. Isso é relativamente normal. Mas a médio e longo prazo essas distorções tendem a ser corrigidas pelo mercado.

      Abs,

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  2. Porém, crescendo 0,7% este ano e se crescermos 3% ano que vem, o cenário muda pra ortodoxia. Além disso, as pessoas devem repetir os extremos, afinal, política enche o saco. É a aposta do Alckmin que, na minha opinião, é quem melhor lê o cenário.

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    1. Não sei se o cenário mudaria para ortodoxia, pois ainda considerando PIB de 3% ou até um pouco mais, o desemprego continuaria elevado, PIB per capta ainda baixo e distante de superar o patamar pré-crise.

      Abs,

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  3. Bom dia, FI.

    Dada a complexidade atual do quadro político-econômico qual sua estimativa para a taxa de juros reais no próximo quinquênio? Poderíamos estimar um valor médio de 3,5%? E, parabéns pelo trabalho!

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    1. Vixi... Não tenho a menor ideia rs... Muita coisa pode acontecer, principalmente num mercado tão volátil quanto o nosso, com potencial de impacto sobre o juro real. Hoje o cenário pode sinalizar X, dentro de algumas semanas/meses pode mostrar 2X. Além disso, estamos na dependência da estratégia dos bancos centrais de economias desenvolvidas para o médio e longo prazo, que podem afetar diretamente os prêmios nas praças emergentes. O nosso dever de casa, como investidores, é tentar que acompanhar o movimento/direcional do mercado e aproveitar eventuais oportunidades. Obrigado!

      Abs,

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