quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Copom se prepara para a saideira


O extenso e significativo ciclo de afrouxamento monetário, iniciado pelo Copom (Comitê de Política Monetária) há cerca de pouco mais de um ano, pode estar chegando perto do fim. Empolgado com a velocidade de desinflação, o Banco Central não poupou cerimônia para cortar agressivamente a taxa Selic durante todo esse período, deixando o mercado enlouquecido com a situação relativamente atípica de ganhos expressivos alcançados em ativos de risco, principalmente nos contratos de juros futuros.

O mercado, entretanto, parece ter atingido ponto de embriaguez com as elevadas doses proporcionadas pelo Copom e não tem reagido como antigamente. Desde o mês de outubro, quando o Banco Central cortou a taxa Selic em 0,75 p.p., sinalizando redução moderada na magnitude de flexibilização monetária, não se observa mais aquela euforia na curva de juros futuros. Pelo contrário, as taxas voltaram a subir e alcançaram o patamar de dois dígitos na ponta longa, parecendo um clima de fim de festa ou prenúncio de uma saideira.

A sinalização de que a festa pode estar realmente acabando apareceu formalmente no comunicado do Copom emitido ao mercado nesta quarta-feira. O Banco Central reduziu a magnitude de flexibilização monetária, de 0,75 p.p. para 0,50 p.p. e avisou que, para a próxima reunião, a ser realizada nos dias 6 e 7 de fevereiro, a magnitude do corte poderá sofrer uma nova redução moderada.

Entre outras palavras, a taxa básica de juros, atualmente em 7%, tende a recuar para 6,75% em fevereiro de 2018, desde que o cenário evolua conforme esperado. Entende-se por cenário esperado qualquer sinal positivo de avanço na reforma da previdência, até porque, nenhuma autoridade monetária no mundo que não desfrute de independência tem audácia suficiente para traçar cenário (ou seja, neste caso específico, apostar) contra o governo. O cenário esperado do Banco Central é uma aposta na agenda de reformas e seus reflexos positivos na economia.

Sem dúvida uma aposta difícil e muito arriscada. Não por acaso, os membros do Copom acrescentaram uma ressalva importante no comunicado emitido na noite desta quarta-feira: “essa visão para a próxima reunião é mais suscetível a mudanças na evolução do cenário e seus riscos que nas reuniões anteriores”.

Isso significa que o esperado corte de 0,25 p.p. está longe de ser algo “garantido” em fevereiro de 2018. O trecho acima não transmite devida confiança da autoridade monetária, deixando a porta aberta para a primeira decisão do ano que vem, que pode ser, inclusive, nenhuma. Simplesmente uma manutenção da taxa básica de juros. Outro sinal de que estamos na saideira ou muito próximo dela é o fato de o comunicado apontar que “para frente, o Comitê entende que o atual estágio do ciclo recomenda cautela na condução da política monetária”.

Para frente, significa menção às próximas reuniões a serem realizadas nos dias 20 e 21 de março e 15 e 16 de maio. Portanto, se existe dúvida sobre o que fazer até o mês de fevereiro, esse mesmo ponto de interrogação não aparece para os meses seguintes do ano que vem. A recomendação de cautela na condução da política monetária, diante do atual estágio, é um forte sinal de interrupção do atual ciclo de cortes da taxa básica de juros.

Banco Central do Brasil em cima do muro sobre o que fazer em fevereiro, juntamente com a frágil base de apoio necessária para aprovação da reforma da previdência e/ou qualquer avanço positivo em alguma necessária medida de ajuste fiscal de curto prazo, além dos desdobramentos na política monetária e fiscal dos países desenvolvidos nos próximos meses, pode ser um prato cheio para volatilidade no mercado.

Nesta mesma quarta-feira, o RBI (Reserve Bank of India) manteve sua taxa básica de juros inalterada em 5,75% como medida de prevenção ao cenário macro, incluindo à inflação local que subiu para 3,58% no acumulado dos últimos 12 meses. Diferentemente do Brasil, inflação de 3,58% não é um número tão comemorado na Índia.

Lembrando que a meta de inflação a ser perseguida pelo RBI é de 4% ao ano, mas mesmo operando com certa folga abaixo da meta, a autoridade monetária local não quer abaixar sua guarda, pois entende que os riscos internos e externos não são desprezíveis e prefere aguardar os desdobramentos dos próximos meses antes de tomar uma decisão.

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