sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Está difícil fazer a galinha voar


Tristemente reconhecido mundialmente como a economia dos vôos de galinha, o Brasil tem conseguido decepcionar até mesmo aqueles que esperavam a manutenção da nossa velha trajetória econômica de vôos de curta distância e baixa altura.

A galinha consegue pelo menos dar um bom salto nos primeiros instantes de seu vôo, mas nem isso estamos conseguindo mais replicar. A decolagem da nossa economia parece desnorteada, sem plano de vôo. Continuamos à espera de empurrões (benefícios) e quando não tem colheita na fazenda, o desespero aumenta.

O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) deu um banho de água fria nesta sexta-feira ao anunciar que o PIB (Produto Interno Bruto) do terceiro trimestre deste ano expandiu 0,1% frente ao trimestre anterior. O crescimento paupérrimo ainda é louvado por alguns integrantes do governo, pois nos salvou de um vexame ainda maior de retração no trimestre.

O número é ridiculamente baixo não somente para um país de porte emergente, mas para qualquer economia, independente de sua categoria, pois diante de um ambiente positivo e de elevada liquidez no mercado financeiro mundial, com vários países trabalhando dentro de um bom ritmo de expansão, espera-se, no mínimo, que uma economia seja puxada pelo resto do planeta ou ao menos tente acompanhar o ritmo.

A pesquisa do IBGE mostrou uma retomada econômica, que mal começou, já perdendo impulso. No primeiro trimestre de 20117 o Brasil cresceu 1,3% na comparação com o trimestre anterior. No segundo trimestre deste ano a expansão foi de apenas 0,7%, mesmo com medidas de impulso artificiais, como a liberação de saques do FGTS.

O vilão do resultado decepcionante deste terceiro trimestre recaiu sobre a agropecuária, não por ironia considerada a grande heroína do resultado do primeiro trimestre. Ou seja, quando tem colheita na fazenda, a economia vai bem. Quando não tem colheita, temos de suar para ganhar uns trocados.

Alguns analistas ressaltam que a FBCF (Formação Bruta de Capital Fixo) foi um ponto positivo do resultado terceiro trimestre deste ano. De fato, a FGCF subiu 1,6% em relação ao segundo trimestre de 2017, mas a base é muito baixa. Para uma taxa de investimento que está na lona, 1,6% a mais não representa quase nada. Mesmo com a alta deste terceiro trimestre, a taxa de investimento ficou em 16,1% do PIB, muito distante da média de países emergentes em torno de 30% PIB.

O fato é que parece difícil enxergar pontos positivos quando não se olha para a agropecuária. No acumulado dos três primeiros trimestres deste ano, o Brasil cresceu “incríveis” 0,6%, ante igual período de 2016. A indústria encolheu 0,9% e os serviços 0,2%. A agropecuária cresceu 14,5%, o único segmento que registra expansão acumulada no ano.

Não fosse a agropecuária, mais especificamente a supersafra de grãos de 2017, o Brasil ainda estaria em período recessivo. Somente a safra de milho deve crescer 54,9% neste ano, segundo projeções do LSPA (Levantamento Sistemático da Produção Agrícola). É possível imaginar que o país dos vôos de galinha só conseguiu sair da recessão porque vendeu muito milho.

Para fechar a semana azeda, temos de engolir o upgrade na Argentina. Nesta sexta-feira a agência de classificação de risco Moody’s elevou o rating dos hermanos de B3 para B2, com perspectiva estável, destacando as reformas macroeconômicas do governo Macri. A nota da Argentina ainda está abaixo da brasileira, mas a diferença diminuiu para três degraus.

Enquanto os argentinos comemoram o upside no rating soberano, mantendo trajetória ascendente, nós brasileiros, em trajetória descendente, cruzamos os dedos para não levarmos mais um downgrade. Merecido o upside argentino que de fato tem conseguido fazer reformas estruturantes relevantes, algo diferente do que se costuma chamar de reforma aqui no Brasil.

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8 comentários:

  1. Triste fato hein FI... Eu sempre me perguntei porque não rentabilizamos iguais aos outros emergentes. Depois que comecei a entender um pouquinho só de economia e política já deu para entender.

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  2. Um aspecto que uma parte da sociedade e da classe política ainda não se deu conta é de que pela primeira vez na história não há mais a opção de estimular a economia através do aumento dos gastos públicos.
    Toda vez que a economia esfriava no Brasil os diferentes governos vinham com planos mirabolantes que iriam fazer nossa economia decolar. No entanto só provocava mais um voo de galinha.
    Fazer reformas nunca foi prioridade. Era só abrir o cofre, aumentar os gastos e estimular o consumo.
    Agora não há mais essa opção. Não se pode mais monetizar a dívida nem há mais espaço para aumento de gastos.
    A saída que sobra é o investimento privado e atração de poupança externa. Mas quem quer investir num país emperrado pela burocracia, com moeda instável, insegurança jurídica, péssima infraestrutura, com violência endêmica e ainda correndo o risco de um líder populista voltar ao poder?
    Eu realmente acho que a crise atual é uma grande oportunidade, mas como não perdermos a oportunidade de perder uma oportunidade, corremos os riscos de fazermos reformas, como a trabalhista e da previdência, e passarmos anos estagnados esperando pelo salvador da pátria que não virá.

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    1. Meu amigo, a reforma é necessária, mas aceitar essa que estão propondo é uma verdadeira barbárie. So um louco para apoia-la! A reforma tem que vim de cima e isso que estão propondo não passa nem perto de acertar os verdadeiros privilegiados, os poderes legislativo e judiciário. Fora a seria de isenção que vários setores da economia, como o agronegócio, estão recebendo. Essa reforma não passa de um tapa buraco, para voo de galinha.

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  3. Dá vontade d chorar 😭😭😭😭

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  4. Como disse certa vez o ex-ministro da fazenda Eugenio Gudin "O Brasil foi a amante que eu mais amei e a que mais me corneou". Seremos sempre o pais que vive frustando a expectativa de todos.

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  5. Boa tarde, está no prospecto algum texto que trate do frenesi das criptomoedas? Há uma escalada na valorização e no número destas, inclusive, a bolsa de Chicago negociará contratos futuros de bitcoin. Os grandes players já buscam alternativas para surfar este movimento. Todavia, parece-me prudente plagiar o "mago de Omaha":
    1. Seja cuidadoso quando todos estiverem eufóricos e seja eufórico quando todos estiverem cuidadosos.
    2. Quando alguém vê o vizinho ficando mais rico, começa a evolução natural da bolha. Bastam três coisas para sua formação: os inovadores, os imitadores e os idiotas.
    A diversificação e uma reduzida alocação neste tipo de ativo, talvez, não invalide sua presença na carteira. Não obstante, traria outras questões como a estratégia (trader ou holder) a implementar, enfim, um tema amplo.

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  6. Boa noite...em se falando em voos de galinha gostaria de saber dos amigos leitores...se o Brasil de Lula surfava em commodities como os "analistas" do grande partido brasileiro "globo" afirmava..como podemos dizer então como o amigo FI acaba de observar ...como será a pequeno prazo? FI lembra de nossa historia de pequenos e fracos voos...além de medíocres avanços, o que esperar das novas eleições ? Algum salvador?...Antes de mais nada gostaria de agradecer o texto do FI e por favor nada de FlaxFlu de PTxPSDB de FitnessXNormais...EsquerdaXDireita...apenas os de bom senso pra elevar o debate.

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  7. O Brasil parece cumprir sua função de coadjuvante na economia mundial desde os primórdios. A farra da liquidez mundial juntamente a uma perspectiva de agenda econômica pró-mercado subsidiaram a valorização no mercado de capitais e uma redução do risco país, todavia, as reformas estruturais no sentido amplo não parece factível pelo lobby de determinados setores, especialmente, o financeiro. Os acórdãos efetuados no judiciário para manutenção de velhas raposas no poder sob a imunidade do foro denotam que aqueles que sofrem sanções correspondem a ponta do iceberg. A corrupção está arraigada em nossa cultura e a renovação política parece algo distante visto os prováveis candidatos. A reforma política seria algo crucial para mudança neste paradigma, mas, observa-se que todos legislam em causa própria para manutenção do status quo, então, como vislumbrar uma perspectiva diferente no establishment?

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