terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Procura-se ajuste fiscal


O Banco Central informou nesta terça-feira que as contas do setor público brasileiro em 2016 tiveram um rombo recorde de 155,8 bilhões de reais. O gigantesco déficit equivale a 2,47% do PIB (Produto Interno Bruto), marcando o pior desempenho já registrado desde o início da série histórica, em 2001.

O rombo de 2016 é bem superior ao saldo negativo registrado em 2015 (111,2 bilhões de reais ou 1,85% do PIB), já considerado alarmante, que por sua vez foi bem superior ao saldo negativo registrado em 2014 (32,5 bilhões de reais ou 0,56% do PIB).

Apesar de não se ouvir falar mais no palavrão “expansionismo fiscal”, com traumas gerados ainda na administração anterior, os números mostram que nada mudou no front fiscal. Não há comprometimento com um necessário corte de gastos, mas sim um teatro para convencer os investidores de que o futuro será muito melhor.

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, frisou que o resultado de 2016 ficou dentro da meta de déficit primário aprovada pela LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) no Congresso, de 163,9 bilhões de reais. Entretanto, não há motivo para comemorar um rombo que ficou dentro do objetivo, até porque uma das primeiras ações do governo Temer foi justamente elevar substancialmente a meta de déficit primário para 2016. O mercado, na época, engoliu a nova meta sem reclamar, pois havia empolgação com o impeachment recém concretizado.

Mesmo contando com um pagamento antecipado do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) ao Tesouro Nacional de 100 bilhões de reais no ano passado, a dívida bruta saltou de 65,5% do PIB em 2015 para 69,5% do PIB em 2016, uma das maiores do mundo para países emergentes ou em desenvolvimento.

Para 2017, a dívida pública brasileira tende a se manter neste forte ritmo de crescimento. O ano mal começou e já se projeta rombo de 143,1 bilhões de reais. Caso o País não repita o histórico dos últimos anos (revisar para cima o déficit primário no meio do ano corrente), o buraco de 2017 ainda será o segundo pior desde o início da série histórica.

A meta para 2017 é bem superior ao rombo obtido pelo último fechamento do ano fiscal do governo Dilma, revelando que, apesar de tantos discursos a favor do ajuste nas contas públicas, o governo Temer está usando mais o cheque especial do que sua antecessora.

A análise fria dos números mostra uma dinâmica insustentável para a dívida pública brasileira, ainda não devidamente atacada. A política fiscal se mantém em terreno fortemente expansionista, ainda muito longe de ingressar numa rota sustentável de superávits primários.

Cedo ou tarde, a depender da aprovação ou não da reforma da previdência, o governo precisará fazer uma escolha: cortar privilégios ineficientes (bolsa empresário, principalmente) ou subir/criar impostos (CPMF, por exemplo).

Independente da escolha, ela tem de ser feita preferencialmente até 2018. Com os atuais 35 partidos registrados no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e outras 56 siglas em processo de formação, o próximo presidente tende a encontrar um ambiente ainda mais caótico do que o atual.

Mesmo diante da baixaria dos últimos meses/anos, da insatisfação popular, do sentimento de falta de representação e da elevada fragmentação (uma das maiores do mundo), não há sequer discussão no Congresso para necessária redução do número de partidos, o que dificultará ainda mais a articulação do futuro presidente para aprovar medidas, principalmente as impopulares.

Ainda na agenda doméstica, destaque para o aumento da taxa de desemprego para 12% no trimestre encerrado em dezembro do ano passado, renovando nova máxima desde o início da série histórica em 2012. No acumulado do ano o Brasil perdeu 1,32 milhão de postos formais de trabalho, sendo que somente no mês de dezembro houve fechamento de 462 mil vagas.

O rápido fechamento dos postos de trabalho contrasta com uma inflação de 6,29% registrada em 2016, além do rombo de 155,8 bilhões de reais nas contas públicas. São números que fogem da lógica e revelam elevada desarrumação macroeconômica.

A bolsa brasileira subiu 0,57% nesta terça-feira, corrigindo parte das perdas sofridas no pregão anterior.


Nos Estados Unidos, o índice S&P500 fechou o pregão perto da estabilidade, se apoiando sobre a linha central de bollinger.


No Japão, o índice Nikkei tombou forte nesta terça-feira, reagindo negativamente às projeções do BoJ (Bank of Japan). A reunião de Comitê não alterou a política monetária, mas houve revisão positiva para as estimativas de crescimento para o ano fiscal de 2017 e 2018, o que pode significar uma menor necessidade de estímulos monetários no futuro.


Na Índia, a bolsa de Bombay também cedeu forte nesta terça-feira, confirmando topo ascendente na região dos 28k, ainda sem causar ameaça a tendência principal de alta iniciada aos 25,7k.
 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O decreto que foi longe demais


O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou na última sexta-feira um decreto polêmico suspendendo por 90 dias a entrada de cidadãos de sete países de maioria muçulmana (Iraque, Síria, Líbia, Somália, Sudão e Iêmen), além disso, o acolhimento de refugiados ficará suspenso por 120 dias, sendo que o País deverá aceitar, a partir deste ano, 50 mil refugiados, uma drástica redução frente ao limite de 110 mil praticado pela administração anterior.

O decreto gerou muita confusão nos aeroportos neste último fim de semana, pois todos foram pegos de surpresa, inclusive funcionários do governo norte-americano. Líderes políticos de vários países, inclusive de importantes aliados militares dos Estados Unidos, criticaram a medida tomada aparentemente de forma apressada e mal-intencionada.

Apesar de ser mais uma promessa de campanha que se torna realidade, Trump pode ter dado seu primeiro tiro no pé assinando um decreto sem aparentemente fazer consultas aos estrategistas do alto escalão de seu governo. Em função do elevado potencial de choque, indignação e riscos à política externa, o decreto foi publicado estranhamente com muita rapidez.

O alto-comissário da ONU, Zeid Raad al-Hussein, lembrou que a discriminação baseada exclusivamente na nacionalidade é proibida pelo direito internacional. Diversos líderes europeus, incluindo aliados de extrema relevância, como o Reino Unido, condenaram o decreto de Trump. O Parlamento iraquiano pediu ao governo uma retaliação contra os Estados Unidos, o que pode colocar em risco as operações militares que estão avançando com sucesso contra o Estado Islâmico no norte do País.

Entretanto, o maior efeito colateral a Donald Trump vem do seu próprio partido. Vários parlamentares republicanos já estão pedindo a revisão ou revogação da medida. Os influentes John McCain e Lindsey Graham assinaram um comunicado conjunto censurando a ação do presidente. Segundo os parlamentares, o decreto faz mais para ajudar o recrutamento das organizações terroristas do que para promover a segurança, pois sinaliza que os Estados Unidos não querem muçulmanos em seu território.

Jeff Flake, senador republicano do Arizona, considerou inaceitável que cidadãos com autorização de residência permanente nos Estados Unidos (green card) sejam detidos e tratados como potenciais terroristas. Já o senador republicano Bem Sasse lamentou profundamente que a medida envia um sinal de que os Estados Unidos vêem todos os muçulmanos como jihadistas. Charlie Dent disse que o que está acontecendo é ridículo e pediu a suspensão do decreto. Justin Amash, do Michigan, foi ainda mais duro afirmando que as ações são ilegais, arbitrárias, perturbadoras e inconsistentes com os valores e princípios do País, aconselhando que Trump deixe de governar através de decretos e colabore com o Congresso.

Foi criado, portanto, um atrito não desprezível de Donald Trump com sua importante base na Câmara e no Senado, possivelmente o mais forte desde as eleições. Caso a desavença não seja resolvida o mais rápido possível, o governo Trump poderá sentir dificuldade na aprovação de projetos que precisam passar pelo Congresso.

A desarmonia de Trump com parte de sua base abalou os investidores em Wall Street, que esperavam clima propício para aprovação de projetos de infraestrtura e expansionismo fiscal, vistos como positivos para os negócios.

O índice S&P500 abriu o pregão desta segunda-feira em forte baixa, mas conseguiu recuperar boa parte das perdas sofridas durante o pregão após Trump sinalizar um pequeno recuo ao amenizar uma restrição para detentores do green card. Ainda assim, o índice fechou a segunda-feira em leve baixa e a polêmica permanece.


O destaque ficou por conta do forte tombo verificado no mercado brasileiro. O IGP-M (Índice Geral de Preços-Mercado) acelerou a alta de 0,54% em dezembro do ano passado para 0,64% no mês de janeiro deste ano, mostrando mais uma vez aceleração da inflação, com alto risco de contágio ao IPCA já no fim do primeiro trimestre deste ano. É mais uma demonstração de inconsistência dos fundamentos domésticos com a desnecessária agressividade adotada pelo Banco Central em sua política de afrouxamento monetário.

O Índice Bovespa despencou nesta segunda-feira, perdendo a LTA dos 56,8k, ao mesmo tempo em que estourou o ponto de pullback da antiga resistência localizada nos 65,3k. O retorno das vendas confirmou o início de um ciclo de correção no mercado nacional, importante para aliviar os indicadores que estavam sobrecomprados, sem causar ameaça a tendência principal de alta.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Em mais um movimento estratégico, Trump parte para cima de Peña Nieto


O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou na última quarta-feira mais uma ordem executiva polêmica, desta vez ordenando a construção de um muro ao longo de toda a fronteira entre os Estados Unidos e o México, uma de suas principais promessas de campanha.

Como de costume, as ações de Trump continuam causando grande estardalhaço na mídia e algumas informações relevantes acabam passando despercebidas.

Não é a primeira vez que um presidente dos Estados Unidos decide criar uma barreira física na fronteira com o México. Entre os mais de três mil quilômetros de extensão entre os dois países, já existe aproximadamente mil quilômetros de cercas de concreto e outros tipos de barreiras já erguidas, que custaram ao governo norte-americano mais de 7 bilhões de dólares.

A estrutura já existente, entretanto, não é considerada suficientemente alta, forte e intransponível. O muro de Trump deve reforçar a barreira já existente e cobrir o restante da fronteira que está aberta.

Segundo o presidente dos Estados Unidos, o novo muro cobrirá 1.600 quilômetros e obstáculos naturais cuidarão do restante. Numa estimativa simples, Trump tende a construir 600 quilômetros a mais de barreira física, menos, portanto, do que os atuais obstáculos físicos já existentes.

O muro, na prática, é irrelevante. O que Trump está querendo, na verdade, é azedar o clima com o País vizinho que passa por sérias dificuldades domésticas. A pressão sobre Enrique Peña Nieto, presidente do México, com a construção do muro, aumentará, colocando os Estados Unidos em posição favorável em futuras negociações para reduzir seu grande déficit comercial (cerca de 60 bilhões de dólares) com o México.

Peña Nieto já caiu na primeira armadilha de Trump. O presidente do México afirmou ainda na quarta-feira que não pagaria pelo muro a ser construído na fronteira, em resposta aos ataques de Trump. Na manhã desta quinta-feira, o presidente dos Estados Unidos contra-atacou dizendo que se o México recusa a pagar pelo muro, Peña Nieto deveria cancelar sua visita a Washington agendada para a próxima semana.

Em situação desagradável, e sem ter o que fazer, o presidente do México acabou cancelando sua visita a Washington. Com a tensão aumentando entre os dois países, os mexicanos sentirão que Peña Nieto não está fazendo o necessário para assegurar seus interesses (leia-se emprego).

O presidente dos Estados Unidos quer um novo imposto de 20% sobre todas as importações do México para pagar o muro a ser construído na fronteira. Na verdade, o muro parece ser apenas um motivo (ou desculpa) para criação de um imposto de alto potencial de impacto. Produtos mexicanos 20% mais caros podem atrair algumas fábricas de volta aos Estados Unidos.

Não por acaso Trump está concentrando seus ataques contra o México, deixando, por exemplo, o Canadá de lado. Além do déficit comercial da ordem de 60 bilhões de dólares, Trump tem outro bom motivo para partir pra cima de Peña Nieto. O presidente do México é, atualmente, o político mais fraco entre os principais parceiros comerciais dos Estados Unidos.

Peña Nieto é altamente impopular, seu índice de rejeição é de cerca de 70% e manifestantes estão tomando as ruas do País pedindo sua renúncia. Os protestos ganharam volume após o presidente do México anunciar inesperadamente um aumento de até 20% nos preços da gasolina e do diesel.

O aumento é reflexo do corte de subsídios que mantinham os preços artificialmente baixos. Além disso, Peña Nieto se viu forçado a subir alguns impostos e cortar gastos com programas sociais na tentativa de conter o rápido avanço da dívida pública.

O choque nos preços dos combustíveis, por si só, pode levar o País a uma crise de inflação, desemprego e desaceleração econômica. A tensão com os Estados Unidos apenas aumenta a instabilidade para a economia mexicana, potencializando os efeitos negativos. Vulnerável, Peña Nieto não terá muito poder de barganha para renegociar o Nafta com os Estados Unidos.

No mercado de capitais, o clima de otimismo continua predominando nas principais praças financeiras mundiais. Nos Estados Unidos, o mercado acionário segue renovando máximas históricas.


Já o dólar contra cesta de principais moedas globais trabalha movimento corretivo de curto prazo, mas ainda distante da média móvel simples de 200 períodos diária e sem ameaçar a tendência principal de alta.


No Brasil, o índice Bovespa fechou mais um pregão em alta, aumentando o nível de sobrecompra à medida que novos candles de esgotamento temporário vão surgindo. Mercado segue comprado, porém esticado e perigoso para abertura de posições de curtíssimo prazo.
 

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Trump derruba mais uma barreira do governo Obama


O novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não quer perder tempo. Um dia após assinar o decreto que retirou formalmente os Estados Unidos da TTP, Trump aproveitou a tinta fresca da caneta para anunciar novas mudanças nesta terça-feira.

O destaque do dia ficou por conta das medidas anunciadas com objetivo de acelerar os grandes projetos de oleodutos de Keystone XL e Dakota Access, que estavam travados pelas ações ambientais da administração Obama.

Trump quer apresar a revisão e aprovação ambiental não só desses dois grandes projetos de infraestrutura energética, como de todos os demais projetos considerados de alta prioridade para o País, o que engloba a reconstrução de aeroportos, portos, estradas, pontes, entre outros.

Além de acelerar os projetos de Keystone XL e Dakota Access, a nova administração determinou que seja utilizado o aço norte-americano para a construção dos dutos. A implementação desses dois projetos tem potencial de reerguer o setor siderúrgico do País, abatido pela concorrência asiática, por sinal considerada por muitos analistas como desleal, principalmente de siderúrgicas chinesas, em função da taxa de câmbio e dos incentivos do governo local.

Ainda nesta terça-feira, Trump se reuniu com os principais diretores dos fabricantes de automóveis General Motors, Ford e Fiat Chrysler, reiterando sua intenção de fazer com que o setor crie mais empregos nos Estados Unidos. Entretanto, o presidente dos Estados Unidos reduziu seu tom com o setor nos últimos dias, após grandes fabricantes anunciarem uma nova onda de investimentos no País.

O movimento protecionista de Trump continua não abalando Wall Street. Pelo contrário, os mercados seguem comprados e os investidores voltaram às compras nesta terça-feira, empolgados com os oleodutos, levando o S&P500 para a máxima histórica.


O mercado de commodities continua se sustentando na máxima do ano passado, em movimento de recuperação de preços. Além dos projetos de infraestrutura defendidos pelo governo norte-americano, a demanda por commodities tende a continuar se reaquecendo no médio prazo, na medida em que os substanciais estímulos fiscais na China comecem a fazer efeito.


No Brasil, destaque para o anúncio de medidas do Banco Central visando a simplificação de regras e harmonização de procedimentos operacionais relacionados aos recolhimentos compulsórios (parcela de capital depositado pelos clientes que os bancos são obrigados a repassar ao Banco Central).

As mudanças criam condições para diminuição do custo do crédito no longo prazo, mas o impacto (com alto potencial de criar pressão inflacionária) não foi mensurado pela autoridade monetária, talvez para não atrapalhar a trajetória de revisões descendentes do mercado nas expectativas de inflação.

O índice Bovespa fechou o pregão desta terça-feira mostrando um candle de indecisão em região de sobrecompra. A sinalização pode favorecer abertura de posições vendedoras nos próximos pregões, embora o mercado ainda não tenha dado sinal mais concreto de esgotamento da força compradora no curtíssimo prazo.




segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Trump enterra TPP, o acordo que nunca saiu do papel


O decreto que retira formalmente os Estados Unidos do acordo comercial conhecido como TPP (Parceria Transpacífico) foi finalmente assinado nesta segunda-feira pelo novo presidente do País, Donald Trump.

Apesar do grande alarde provocado pela mídia em geral, o impacto da saída dos Estados Unidos foi praticamente insignificante à dinâmica dos principais mercados globais. A irrelevância dos investidores ao evento desta segunda-feira tem uma razão muito simples: a TPP nunca existiu.

O acordo, composto por 12 países signatários (Estados Unidos, Japão, Canadá, México, Austrália, Vietnã, Malásia, Peru, Chile, Brunei, Cingapura e Nova Zelândia), foi negociado durante a ineficiente administração Obama, que não conseguiu sequer avançar no Congresso norte-americano para conseguir aprovação.

Não é necessário fazer muito esforço para entender o motivo do insucesso de Obama. Para aumentar sua influência na região Ásia-Pacífico, os Estados Unidos iriam abrir ainda mais suas portas para mercados de baixo custo de produção. O efeito colateral do acordo (fuga de mais empresas norte-americanas para parques industriais na Ásia) estava muito alto para contrabalancear o aumento do poder de influência na região, que atualmente não é desprezível.

A retirada formal dos Estados Unidos, portanto, é apenas um descarte de serviços inacabados (e de baixo potencial) da administração anterior. O fato de Donald Trump assinar o decreto formalizando sua saída também não altera em nada as relações comerciais bilaterais já existentes entre os Estados Unidos e boa parte dos países signatários da TPP.

Além disso, a notícia não é nenhuma novidade, já que o próprio Donald Trump ressaltou diversas vezes durante sua campanha que se fosse eleito realizaria tal movimento nos primeiros dias de seu governo. O novo presidente dos Estados Unidos apenas cumpriu sua promessa dentro do prazo, algo cada vez mais raro entre políticos do mundo inteiro.

Em função da nítida preferência da mídia ocidental pela ex-candidata do partido Democrata, Hillary Clinton, desde o início da cobertura da campanha eleitoral norte-americana, Donald Trump continua sendo bombardeado por notícias tendenciosas e sensacionalistas.

Os acontecimentos dos últimos dias sugerem que a imprensa norte-americana (seguida de perto pela brasileira) tende a continuar extrapolando limites para atacar deliberadamente a nova administração, o que reforça a necessidade de os investidores trabalharem o filtro de informações e se atentarem à dinâmica macroeconômica.

Ainda nesta segunda-feira, Trump afirmou que vai conversar com os líderes do Canadá e do México para renegociar o Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte). O principal ponto a ser discutido entre os líderes dos três países está relacionado à imigração e segurança na fronteira.

Obviamente, Trump vai tentar reduzir ligeiramente seu grande déficit comercial com o México, o que tende a gerar impactos localizados na economia mexicana, mas muito longe de causar grandes mudanças de fluxo comercial entre os dois países.

O único fato concreto até o momento é que a bolsa do México está subindo forte desde a posse de Donald Trump. A LTB dos 222 pontos foi rompida com candle de força na última sexta-feira, acompanhada com novo surgimento de força compradora relevante no pregão desta segunda-feira, ratificando movimento de bear trap sobre o falso rompimento do suporte localizado nos 184 pontos.


A reação da bolsa do México é uma resposta do mercado frente ao excesso de prognósticos negativos traçados para País. Os primeiros discursos e ações de Donald Trump não confirmaram a catástrofe que se esperava para o México.

No Brasil, o índice Bovespa também subiu forte nesta segunda-feira, trabalhando movimento técnico relevante. A máxima de 2016 foi superada com marubozu, acionando mais um pivot de alta, agregando força à tendência principal de alta iniciada aos 37k.
  

Com isso, o mercado se distancia da faixa amarela traçada no gráfico acima (localizada na faixa dos 63k), considerada a última linha de resistência com força relevante a ser superada pela tendência principal de alta.

As outras duas linhas de resistências localizadas acima (69k e 73,5k), indicadas pelas linhas vermelhas no gráfico, não incorporam força vendedora relevante comparável às resistências superadas abaixo. Isso significa que do ponto de vista técnico o mercado está cada vez mais livre para se manter dentro da tendência principal de alta.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Donald Trump vai jogar no ataque


Contrariando a expectativa de alguns analistas e até de importantes líderes políticos globais, o velho e agressivo Trump das campanhas eleitorais não será tão diferente do novo Trump como presidente dos Estados Unidos.

Em discurso de posse nesta sexta-feira, Donald Trump, quadragésimo quinto presidente dos Estados Unidos, invocou o espírito nacionalista e criticou fortemente a classe política, duas grandes marcas de sua polêmica campanha eleitoral.

O novo presidente dos Estados Unidos enfatizou que vai colocar de volta os interesses de sua nação em primeiro lugar, reforçando perspectivas de revisões em alguns acordos comerciais, ameaçando o frágil processo de globalização. A posição de Donald Trump é, também, de enfrentamento ao presidente da China, Xi Jinping, que tem defendido vigorosamente o livre comércio.

Logo no primeiro dia de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, ficou claro que as relações comerciais entre as duas maiores potências globais estão se estremecendo. Não por acaso Xi Jinping tem se empenhado em marcar posição contraria as sinalizações de Trump, já que uma onda de protecionismo, puxada pelos Estados Unidos, jogaria a China em colapso, hoje a maior exportadora de bens do mundo.

Trump não só indicou que vai partir para o ataque contra a China, como também vai combater problemas internos utilizando mais fiscal para investir em infra-estrutura, conceder subsídios e aumentar as desregulamentações a fim de se criar mais empregos e impulsionar o crescimento econômico.

Conforme informação disponibilizada pelo site da Casa Branca, a nova administração terá como meta criar 25 milhões de empregos no País, além de retomar um ritmo anual de crescimento da ordem de 4% ao ano. Os números são ambiciosos e, se atingidos, podem provocar efeitos significativamente adversos.

O novo presidente dos Estados Unidos parece não ter se convencido de que o espaço para mais impulso fiscal é pequeno, já que a economia opera próxima do pleno emprego, com a inflação se ancorando no centro da meta. A insistência de Trump numa política fiscal mais expansionista poderá forçar o FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) responder com mais aperto na política monetária.

Na política externa, a nova administração tem como principal objetivo erradicar completamente o terrorismo islâmico da face da Terra, palavras mencionadas pelo próprio presidente dos Estados Unidos no seu discurso de posse. Para isso, a Casa Branca confirmou posteriormente que o novo governo realizará operações militares agressivas conjuntas e de coalizão quando necessário, além de trabalhar para cortar os financiamentos de grupos terroristas, promover guerra cibernética para combater propaganda e recrutamento e expandir o compartilhamento de informações.

Uma nova proposta de orçamento será apresentada ao Congresso com objetivo de reconstruir as Forças Armadas dos Estados Unidos, com boa possibilidade de rápida aprovação, já que um orçamento militar robusto sempre foi defendido pelos republicanos, que hoje ocupam a maioria tanto na Câmara, quanto no Senado.

Apesar de nenhum plano ter sido detalhado na tarde desta sexta-feira, o discurso de posse deixou claro que Donald Trump está empenhado em seguir suas promessas de campanha, criando um ambiente de incerteza a nível global.

Por outro lado, o receio continua não contaminando o mercado, mostrando que boa parte dos players ainda preferem aguardar os desdobramentos da administração Trump para traçarem cenários de médio e longo prazo.

O clima em Wall Street segue positivo e os principais índices acionários continuam colados em suas respectivas máximas históricas.


A Treasury de 10 anos (título do Tesouro norte-americano), considerada o termômetro do mercado para a política fiscal de Donald Trump, subiu ligeiramente nesta sexta-feira para 2,48%, ainda empurrada pelas últimas declarações da chair do FED, Janet Yellen.


O dólar contra cesta de principais moedas globais fechou em leve baixa nesta sexta-feira, trabalhando dentro de uma correção de curtíssimo prazo, sem causar ameaça à tendência principal de alta.


Ainda nesta sexta-feira, a Agência Nacional de Estatísticas informou que o PIB (Produto Interno Bruto) da China cresceu 6,8% no quarto trimestre de 2016, na comparação com o mesmo período do ano anterior. O resultado veio acima do esperado, impulsionado por uma política fiscal ainda muito expansionista, com gastos governamentais considerados excessivos combinados ao aumento da circulação do crédito na economia.

No acumulado de 2016 a economia chinesa expandiu 6,7%, ficando dentro da meta a ser perseguida pelo governo (entre 6,5% a 7%). Mesmo conseguindo cumprir seu objetivo, a China registrou no ano passado o ritmo de crescimento mais lento dos últimos 26 anos.

Para 2017, a expectativa é de continuação da trajetória de desaceleração do crescimento, onde a meta a ser perseguida será possivelmente revista de uma banda entre 6,5% a 7% para 6,5%. A redução gradual do ritmo de crescimento é necessária para que as lideranças políticas consigam conter os riscos da dívida, que tem aumentado significativamente nos últimos anos.

A bolsa de Xangai reagiu para cima, reforçando a formação de fundo duplo na região dos 3k. Mercado bem armado para superar a LTB 3,3k.


Na Europa, destaque para a reunião do BCE (Banco Central Europeu), onde as taxas de juros foram mantidas, bem como o cronograma do programa de compra de ativos, que será reduzido de 80 bilhões de euros mensais para 60 bilhões a partir de abril, com termino previsto para dezembro de 2017.

A reunião de política monetária, encerrada na última quinta-feira, foi marcada por intensa pressão para que a autoridade monetária da zona do euro respondesse à recente sinalização de aceleração da inflação. O Bundesbank (Banco Central da Alemanha) subiu suas críticas ao BCE, afirmando que as políticas tem corroído a riqueza dos poupadores e permitido economias mais fracas a fugir das reformas fiscais.

Em entrevista concedida após a reunião de Comitê, Mario Draghi, presidente da instituição, surpreendeu ao minimizar os riscos provocados pela aceleração da inflação, afirmando ainda não detectar sinais de uma tendência de alta após contabilizar o efeito do aumento dos preços do petróleo.

Draghi finalizou pedindo paciência aos mais críticos (recado dirigido especialmente ao Bundesbank), dizendo que as taxas de juros subirão na zona do euro a partir do momento em que houver aceleração no processo de recuperação do crescimento, quadro que ainda pode demorar para se materializar.

A bolsa de Frankfurt reagiu com otimismo, fechando o pregão desta sexta-feira em alta, colada na máxima histórica.


Na Inglaterra, o índice FTSE trabalha movimento técnico de alívio após o forte e impressionante rali dos últimos dois meses, responsável por jogar o mercado para elevado nível de sobrecompra.


No Brasil, o índice Bovespa fechou a sexta-feira em alta, renovando a máxima de 2017 e muito próximo de testar a máxima do ano passado, aos 65,3k. Mercado segue comprado.


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Yellen quer acelerar corrida pela taxa neutra


O aguardado discurso da chair do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), Janet Yellen, feito no fim de tarde desta quarta-feira, acrescentou informações relevantes ao futuro da Fed Funds não devidamente captadas pela mídia.

O destaque nos jornais ficou por conta do trecho em que Yellen afirma que faz sentido elevar gradualmente as taxas de juros, num quadro em que a economia dos Estados Unidos se aproxima do pleno emprego e inflação na meta. A mensagem pode transmitir uma falsa ideia de que o ritmo de aperto monetário implementado no passado, caracterizado como gradual, será mantido.

Entretanto, o ponto principal do discurso da chair do FED não foi a menção ao ritmo gradual de aperto monetário, mas o gesto de possível maior agilidade na busca pela taxa neutra. Yellen disse que esperar muito tempo para começar a mover-se em direção à taxa neutra poderia levar a uma surpresa desagradável no caminho, como inflação alta demais, instabilidade financeira, ou ambos.

A taxa de juros neutra é calculada pelo FED a fim de se descobrir em que patamar a Fed Funds (taxa básica de juros) precisa estar para manter a economia funcionando perfeitamente em pleno emprego e inflação ancorada na meta.

Estima-se que a taxa neutra esteja localizada ao redor de 3% ao ano, que é o patamar onde a mediana das projeções para a Fed Funds dos membros de Comitê para de subir e se mantêm estacionada no longo prazo.

Na última projeção divulgada ao mercado, a mediana das estimativas aponta que a Fed Funds só vai se aproximar do ponto neutro no fim de 2019, aos 2,9% ao ano. Entre os 17 membros do Comitê, apenas 6 esperam que a Fed Funds esteja acima de 3% no fim de 2019. Ainda existe um peso muito dovish nas perspectivas, o que só aumenta a margem para que projeções mais hawkish ganhem força nos próximos trimestres.


Além disso, a mensagem de Yellen não é compatível com o atual timing presente nas últimas projeções para se alcançar a taxa neutra. Fim de 2019 significa esperar tempo demais para se alcançar o patamar ideal para a Fed Funds (taxa neutra). É um risco que a autoridade monetária norte-americana parece não estar disposta a correr.

Yellen tem motivos de sobra para querer acelerar o passo. Donald Trump vai fazer o discurso de posse nesta sexta-feira e detalhar melhor seus planos para a economia norte-americana. A julgar pelo tom de suas declarações nas últimas semanas e composição de sua equipe, Trump parece bem disposto a cumprir suas promessas de campanha.

Mesmo considerando uma improvável versão light de Donald Trump, o FED terá que responder ao processo de aceleração da inflação. Nesta quarta-feira o Departamento de Trabalho dos Estados Unidos informou que o IPC (índice de inflação oficial) subiu 0,3% no mês de dezembro, fechando o ano de 2016 com uma alta de 2,1%, marcando a inflação mais elevada desde 2011.

A inflação chegou na meta a ser perseguida pelo FED (2% ao ano) e, a partir de agora, não há margem para amortecer eventuais surpresas indesejáveis. Embora os membros do Comitê esperem que a inflação continue ancorada em 2% no fim de 2017, a aceleração do mês de dezembro exigirá mais atenção ao balanço de riscos e o FED não pode demorar muito para começar a preparar o mercado para mais uma elevação de 0,25 p.p. na Fed Funds.

A curva de juros futuros reagiu ao índice de inflação apontando para cima, o que pode por um fim ao ciclo de alívio iniciado em meados de dezembro do ano passado. O rendimento da Treasury de 10 anos (título do Tesouro norte-americano) saltou de 2,33% para 2,42%, trabalhando fundo duplo ascendente.


O S&P500 segue em movimento lateral de curto prazo, colado na máxima histórica, sem apresentar novidades.


No Brasil, o índice Bovespa fechou o pregão desta quarta-feira em leve baixa, próximo da principal linha de resistência localizada na faixa dos 65,3k. Apesar de se aproximar da sobrecompra, o mercado segue comprado e tecnicamente bem armado para trabalhar rompimento da máxima do ano passado. Caso o rompimento seja confirmado nas próximas semanas, a tendência principal de alta, iniciada aos 37k, será ainda mais fortalecida.
 

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Reino Unido quer ruptura total com a União Europeia


A primeira-ministra britânica, Theresa May, colocou um fim às especulações sobre os objetivos do Reino Unido na negociação para a saída da União Europeia.

O discurso da premiê britânica revela que o Reino Unido não quer adotar uma postura de estar meio dentro e meio fora da União Europeia, frustrando novamente a expectativa de algumas lideranças do bloco, que acreditavam possuir mais cartas na manga para uma negociação favorável.

O Reino Unido quer estar totalmente fora do mercado comum da União Europeia após o fim das negociações que podem durar dois anos e se reafirmar como um player global que busca negociar livremente fora da Europa.

Com o status de uma potência autônoma, o Reino Unido também vai negociar acordos de livre comércio com a União Europeia, sob um novo modelo, mais ousado e ambicioso, no qual deve ser detalhado nos próximos meses.

Theresa May não quer buscar um Brexit suave, pois entende que sua economia está em vantagem em relação a vários países da zona do euro, por possuir moeda própria e autoridade monetária independente.

Esse diferencial pode ser o fator decisivo para um sucesso do Reino Unido no Brexit. O gráfico abaixo (libra contra euro) mostra que as condições estão melhorando para os britânicos abocanharem uma parte maior do mercado consumidor europeu. O movimento de queda da libra contra o euro começou em 2015 e se intensificou em 2016, já operando abaixo da média móvel simples semanal de 200 períodos, confirmando uma consolidação de tendência. A desvalorização é considerada significativa.


Na briga por fatia de mercado, num ambiente altamente competitivo e de baixa pressão da demanda global, a forte desvalorização da libra é mais benéfica do que prejudicial ao novo Reino Unido.

Mesmo com a recente aceleração da inflação, atingindo o nível mais alto em dois anos e meio, ainda há margem sobre a meta de inflação para o BoE (Bank of England) responder com mais cautela no curto prazo. Futuramente, no médio e longo prazo, o aperto das condições monetárias no Reino Unido tende a ser compensado pelo fortalecimento do crescimento, influenciado pelo aumento das exportações com uma moeda mais fraca.

No Brasil, destaque para a divulgação da ata do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) na manhã desta terça-feira, deixando clara a tentativa da autoridade monetária de empurrar a economia via cortes agressivos na taxa básica de juros.

O fraco e decepcionante desempenho da atividade local parece ser uma preocupação maior do que o balanço de riscos para a inflação. Mesmo com o mercado projetando inflação de 4,81% no fim de 2017 (boletim Focus da semana passada, avaliado pelo Comitê), a autoridade monetária considera que as expectativas estão ancoradas.

No documento, o Banco Central revela que a extensão do ciclo de corte de juros e possíveis revisões no ritmo de flexibilização continuarão dependendo das projeções e expectativas de inflação, bem como da evolução dos fatores de riscos acompanhados.

Levando em consideração a decisão de cortar 0,75 p.p. na taxa básica de juros diante da complexidade do quadro macroeconômico, as próximas reuniões de Comitê podem continuar surpreendendo o mercado, já que não parece haver uma rota razoavelmente pré-definida, sustentada por fundamentos, mas sim uma ambição por juros menores o mais rápido possível.

Outro ponto interessante está no retorno das intervenções da autoridade monetária no mercado de câmbio local. Bastou o dólar apresentar condições técnicas de retomada da trajetória altista (martelo colado na linha inferior de bollinger em região de sobrevenda, confirmado por um candle de força relevante no pregão seguinte) para a autoridade monetária atuar com leilões de swaps tradicionais, equivalente à venda futura de dólares.


Ilan Goldfajn, presidente do Banco Central, afirmou nesta terça-feira que a autoridade monetária poderá sempre fornecer hedge a empresas se os mercados não estiverem funcionando bem e se houver problemas de liquidez.

Entretanto, ao que parece, não há problemas desta ordem no mercado. Muito pelo contrário, o real está descolado frente a uma cesta de principais moedas globais, se mostrando mais fortalecido nos últimos meses. A intervenção do Banco Central, após detectar movimento de retomada do dólar nos últimos dois dias, sinaliza que o câmbio pode estar sendo utilizado como ferramenta de política monetária como forma de contrapeso aos cortes agressivos na taxa básica de juros, pois a manutenção de um real forte evita criar pressão inflacionária.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Selic de 1 dígito só se for no grito


A história mostra que o investidor sempre precisa tomar muito cuidado em momentos de unanimidade de opiniões no mercado. A decisão do Banco Central de cortar 0,75 p.p. da taxa básica de juros na última quarta-feira agradou o governo, economistas (ortodoxos e heterodoxos), gestores de fundos, empresários, representantes de associações empresariais e sindicatos.

No meio de tanta euforia com a expectativa de novos cortes agressivos nas próximas reuniões do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central), alguns economistas já estão projetando taxa Selic de 1 dígito no fim deste ano. A expectativa não parte apenas de economistas com viés heterodoxo, mas também de economistas com viés ortodoxo, inclusive daqueles que fizeram duras críticas ao último ciclo de afrouxamento monetário promovido pela gestão anterior.

O próprio presidente da República se sentiu confortável em afirmar que a taxa básica de juros deve cair para 1 dígito. Deixando de lado o agravante relacionado a um comentário deste tipo (já que o mercado está fazendo vista grossa), não há condições para um recuo sustentado tão forte da taxa Selic neste ano, talvez nem no próximo.

Há um conjunto de fatores relacionados à desarrumação macroeconômica que tendem a continuar pressionando a inflação no médio/longo prazo. São problemas que só serão solucionados com a melhora no ambiente de negócios através de um planejamento de longo prazo e não com ações pontuais de curto prazo.

Mas a principal razão que inviabiliza cortes agressivos e sustentados da taxa Selic é o próprio governo. Não há menor condição de um país grau especulativo reduzir drasticamente sua taxa básica de juros no curto prazo trabalhando um orçamento com déficit de 2,5% do PIB (Produto Interno Bruto), rombo considerado significativo.

Como se não bastasse os inevitáveis efeitos de pressão inflacionária criados por uma política fiscal expansionista, chegará o momento em que os investidores reavaliarão as condições (taxa de juros) para financiar a dívida elevada de um País grau especulativo, que por sinal se mantêm em forte trajetória de crescimento e ainda distante de uma reversão (redução do endividamento).

Mesmo com a implementação das reformas, não há perspectiva de o governo voltar a fazer o necessário superávit primário nos próximos anos, pois os grandes privilégios, como o ineficaz “bolsa empresário”, que pressionam seriamente o fiscal, não estão sendo combatidos. O FMI (Fundo Monetário Internacional) espera que o Brasil só volte a fazer superávit primário a partir de 2020. Mostrando-se incapaz de colocar as contas em dia, o governo será o principal empecilho para a queda sustentada da taxa Selic.

O Banco Central pode continuar cotando os juros agressivamente nas próximas reuniões de Comitê e jogar a taxa básica de juros para 1 dígito até o fim deste ano, mas será um movimento à base do grito, sem respaldo dos atuais fundamentos e que possivelmente trará sérias consequências ao futuro.

Dentro do esperado, o mercado local reage com otimismo à decisão do Banco Central. O clima positivo no ambiente de negócios inviabiliza reflexão dos investidores sobre as consequencias futuras. Além disso, a expectativa de novos recuos agressivos da taxa Selic empurra investidores muito posicionados em ativos pós-fixados para assumir posições de risco no mercado.

Como existe muito capital concentrado em pós-fixado, fruto do longo período de juros altos, o potencial de fluxo para os ativos de risco é enorme caso o Banco Central continue trabalhando dentro da rota apresentada na última quarta-feira. Por outro lado, os gestores de fundos (principalmente multimercados), que já se posicionaram a favor da curva, tendem a focar mais no fluxo daqui pra frente, tentando identificar a entrada da massa para desovarem suas posições, até porque os prêmios dos juros futuros já começam a ficar achatados.

As curvas da ponta longa já iniciaram rompimento da mínima do ano, mostrando intensificação da força compradora. O contrato de juros futuros que vence em 2022 já está pagando 10,98% ao ano. Já os contratos da ponta curta estão abaixo da mínima registrada em 2014 (antigo e importante ponto de suporte). O contrato de juros futuros que vence em 2019, por exemplo, fechou a semana pagando 10,52% ao ano.


A bolsa de valores atropelou a principal resistência de curto prazo localizada na região dos 62,9k, agregando força a perna de alta intermediária iniciada aos 56,8k, com espaço para buscar a máxima do ano passado nas próximas semanas.


No cenário externo o clima segue positivo com boa parte das praças financeiras coladas em máximas históricas ou máximas anuais. Nos Estados Unidos o índice S&P500 trabalha movimento lateral de curtíssimo prazo, colado no topo histórico.
 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Banco Central fecha os olhos e pisa no acelerador


O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) decidiu nesta quarta-feira cortar agressivamente a taxa básica de juros em 0,75 p.p., para 13% ao ano. O resultado da reunião surpreendeu parte do mercado, que esperava um corte menos agressivo de 0,50 p.p.

Apesar da expectativa dominante em 0,50 p.p. de corte na taxa Selic, o clima estava favorável no ambiente doméstico para um corte maior de 0,75 p.p. O Banco Central aproveitou a janela de oportunidade (clima propício) para intensificar o ciclo de afrouxamento monetário rapidamente, agradando tanto o governo (que tem a ilusão de que uma Selic menor resolverá os problemas de crescimento), quanto o mercado (que quer uma Selic menor para ampliar os ganhos nas posições de pré-fixados).

Entretanto, considerando a complexidade do balanço de riscos para a inflação (pressões internas e externas), o Banco Central está buscando risco desnecessário ao ampliar agressivamente o ritmo de flexibilização da política monetária, se deslocando de forma acelerada para uma rota mais dovish.

Na manhã desta quarta-feira, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) informou que o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), considerado a inflação oficial no Brasil, avançou 0,30% no mês de dezembro do ano passado, mostrando aceleração em relação a alta de 0,18% registrada no mês anterior.

A inflação do setor de serviços subiu 0,65% no mês de dezembro, frente aos 0,42% registrados no mês de novembro, voltando a sinalizar ritmo incompatível com o cumprimento da meta. A pressão de preços do setor de serviços tem peso relevante (ou deveria ter) no balanço de riscos para a inflação, já que os consumidores não conseguem importar serviços e acabam aceitando os preços praticados por empresas locais. Uma inflação de serviços elevada indica cenário de baixa concorrência e dificuldades de empreendedorismo, sustentando o desequilíbrio entre oferta e demanda.

No acumulado de 2016 o IPCA fechou com alta de 6,29%, muito distante, portanto, do centro da meta a ser perseguido (4,5%) e levemente abaixo do teto da margem de tolerância (6,5%). O número foi considerado positivo e comemorado no mercado, mas o fato é que não há nada animador numa inflação que, ainda, apenas demonstra sinais de que retornou ao padrão verificado nos últimos seis anos (com exceção de 2015): oscilar ao redor do teto da margem de tolerância.

A inflação de 2016 também continua mostrando sinal de elevado descasamento com o desempenho da economia. O FMI (Fundo Monetário Internacional) projeta retração de 3,3% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2016. Já a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) espera uma contração de 3,4% no PIB do Brasil de 2016, o que deve marcar dois anos de forte recessão, já que em 2015 o PIB caiu 3,8%. A grande distorção entre inflação versus PIB é preocupante, pois demonstra manutenção da deterioração dos fundamentos macroeconômicos.

Ainda assim, mesmo diante do complexo balanço de riscos, o Banco Central decidiu aumentar o corte na taxa básica de juros, de 0,25 p.p. para 0,75 p.p. Lamentavelmente, o comunicado emitido após a reunião de Comitê está repleto de avaliações supostamente tendenciosas.

O Banco Central considera que, no âmbito externo, os efeitos do fim do chamado interregno benigno têm sido limitados. Essa afirmativa parece desconsiderar o movimento global de valorização do dólar (apesar de existir uma distorção temporária contra o real) e as esperadas revisões para cima nas projeções de inflação dos principais banqueiros centrais mundiais, que por sinal estão traçando uma rota de política monetária menos dovish do que a verificada nos últimos anos.

O comunicado também ressalta que o processo de desinflação mais difundido atingiu componentes mais sensíveis à política monetária e ao ciclo econômico, embora a inflação de serviços tenha acelerado para 0,65% no mês de dezembro do ano passado.

No texto, o Banco Central credita peso ao recuo das projeções de inflação no cenário de referência para 2017 e 2018, feitas sob a metodologia de manutenção da taxa Selic e taxa de câmbio durante todo o horizonte de previsões. Entretanto, no cenário de mercado, onde a metodologia é diferente (considera evolução da taxa Selic e taxa de câmbio no horizonte de projeções), ainda não há expectativa de ancoragem da inflação à meta em 2017.

No encontro anterior, realizado em 30 de novembro de 2016, o Comitê decidiu reduzir a taxa Selic em 0,25 p.p. Naquela ocasião, a previsão do mercado (boletim Focus) apontava para uma inflação de 4,93% no fim de 2017. No encontro realizado em 19 de outubro de 2016, a previsão do mercado para a inflação no fim de 2017 era de 5,04% e o Comitê também optou por reduzir a taxa Selic em 0,25 p.p.

Hoje, a previsão do mercado para a inflação no fim de 2017 está em 4,81%. Pode-se notar um padrão de recuo nas projeções de inflação do mercado na faixa de 0,10 p.p. entre o intervalo de reuniões do Copom, mas, desta vez, a resposta da política monetária veio com um corte agressivo de 0,75 p.p.

Para tentar justificar a intensificação do corte com as projeções de inflação do mercado, o Banco Central começa a empurrar o cumprimento do objetivo (convergência da inflação para a meta de 4,5%) para 2018, ano em que as projeções de mercado apontam ancoragem da inflação ao centro da meta.

Quanto mais o Banco Central se apoia sobre as projeções de longo prazo para tomar suas decisões, maior o risco assumido pela política monetária. Eventos adversos devem surgir em 2017 (como nos anos anteriores) e, desta vez, a autoridade monetária não contará, possivelmente, com a desinflação das contas de energia elétrica (que já estão em bandeira verde) e com o fator câmbio (real valorizado, descasado com as demais moedas).

No cenário externo, o novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, concedeu sua primeira entrevista coletiva desde a sua eleição. Não houve divulgação de novidades relacionadas ao seu plano de governo. O evento foi marcado por críticas justificadas à imprensa norte-americana, especialmente a rede CNN, que desde a campanha eleitoral tem extrapolado limites para se posicionar contra Donald Trump.

O presidente eleito aproveitou a coletiva de imprensa para anunciar que vai se separar da administração de seus negócios a fim de evitar conflitos de interesse. Seus ativos serão transferidos para um trust e seus dois filhos tomarão o controle de suas empresas.

A coletiva não afetou a dinâmica do mercado local, com os principais índices de Wall Street trabalhando dentro de uma tendência de alta, colados em máximas históricas, sem apresentar novidades.


A bolsa brasileira encerrou o pregão desta quarta-feira em leve alta, mas ainda abaixo da principal resistência localizada na região dos 62,9k. Caso essa barreira seja superada nos próximos pregões, a atual tendência de alta ganhará força, impulsionando o índice para a máxima registrada no ano passado.