quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Yellen quer acelerar corrida pela taxa neutra


O aguardado discurso da chair do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), Janet Yellen, feito no fim de tarde desta quarta-feira, acrescentou informações relevantes ao futuro da Fed Funds não devidamente captadas pela mídia.

O destaque nos jornais ficou por conta do trecho em que Yellen afirma que faz sentido elevar gradualmente as taxas de juros, num quadro em que a economia dos Estados Unidos se aproxima do pleno emprego e inflação na meta. A mensagem pode transmitir uma falsa ideia de que o ritmo de aperto monetário implementado no passado, caracterizado como gradual, será mantido.

Entretanto, o ponto principal do discurso da chair do FED não foi a menção ao ritmo gradual de aperto monetário, mas o gesto de possível maior agilidade na busca pela taxa neutra. Yellen disse que esperar muito tempo para começar a mover-se em direção à taxa neutra poderia levar a uma surpresa desagradável no caminho, como inflação alta demais, instabilidade financeira, ou ambos.

A taxa de juros neutra é calculada pelo FED a fim de se descobrir em que patamar a Fed Funds (taxa básica de juros) precisa estar para manter a economia funcionando perfeitamente em pleno emprego e inflação ancorada na meta.

Estima-se que a taxa neutra esteja localizada ao redor de 3% ao ano, que é o patamar onde a mediana das projeções para a Fed Funds dos membros de Comitê para de subir e se mantêm estacionada no longo prazo.

Na última projeção divulgada ao mercado, a mediana das estimativas aponta que a Fed Funds só vai se aproximar do ponto neutro no fim de 2019, aos 2,9% ao ano. Entre os 17 membros do Comitê, apenas 6 esperam que a Fed Funds esteja acima de 3% no fim de 2019. Ainda existe um peso muito dovish nas perspectivas, o que só aumenta a margem para que projeções mais hawkish ganhem força nos próximos trimestres.


Além disso, a mensagem de Yellen não é compatível com o atual timing presente nas últimas projeções para se alcançar a taxa neutra. Fim de 2019 significa esperar tempo demais para se alcançar o patamar ideal para a Fed Funds (taxa neutra). É um risco que a autoridade monetária norte-americana parece não estar disposta a correr.

Yellen tem motivos de sobra para querer acelerar o passo. Donald Trump vai fazer o discurso de posse nesta sexta-feira e detalhar melhor seus planos para a economia norte-americana. A julgar pelo tom de suas declarações nas últimas semanas e composição de sua equipe, Trump parece bem disposto a cumprir suas promessas de campanha.

Mesmo considerando uma improvável versão light de Donald Trump, o FED terá que responder ao processo de aceleração da inflação. Nesta quarta-feira o Departamento de Trabalho dos Estados Unidos informou que o IPC (índice de inflação oficial) subiu 0,3% no mês de dezembro, fechando o ano de 2016 com uma alta de 2,1%, marcando a inflação mais elevada desde 2011.

A inflação chegou na meta a ser perseguida pelo FED (2% ao ano) e, a partir de agora, não há margem para amortecer eventuais surpresas indesejáveis. Embora os membros do Comitê esperem que a inflação continue ancorada em 2% no fim de 2017, a aceleração do mês de dezembro exigirá mais atenção ao balanço de riscos e o FED não pode demorar muito para começar a preparar o mercado para mais uma elevação de 0,25 p.p. na Fed Funds.

A curva de juros futuros reagiu ao índice de inflação apontando para cima, o que pode por um fim ao ciclo de alívio iniciado em meados de dezembro do ano passado. O rendimento da Treasury de 10 anos (título do Tesouro norte-americano) saltou de 2,33% para 2,42%, trabalhando fundo duplo ascendente.


O S&P500 segue em movimento lateral de curto prazo, colado na máxima histórica, sem apresentar novidades.


No Brasil, o índice Bovespa fechou o pregão desta quarta-feira em leve baixa, próximo da principal linha de resistência localizada na faixa dos 65,3k. Apesar de se aproximar da sobrecompra, o mercado segue comprado e tecnicamente bem armado para trabalhar rompimento da máxima do ano passado. Caso o rompimento seja confirmado nas próximas semanas, a tendência principal de alta, iniciada aos 37k, será ainda mais fortalecida.
 

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Reino Unido quer ruptura total com a União Europeia


A primeira-ministra britânica, Theresa May, colocou um fim às especulações sobre os objetivos do Reino Unido na negociação para a saída da União Europeia.

O discurso da premiê britânica revela que o Reino Unido não quer adotar uma postura de estar meio dentro e meio fora da União Europeia, frustrando novamente a expectativa de algumas lideranças do bloco, que acreditavam possuir mais cartas na manga para uma negociação favorável.

O Reino Unido quer estar totalmente fora do mercado comum da União Europeia após o fim das negociações que podem durar dois anos e se reafirmar como um player global que busca negociar livremente fora da Europa.

Com o status de uma potência autônoma, o Reino Unido também vai negociar acordos de livre comércio com a União Europeia, sob um novo modelo, mais ousado e ambicioso, no qual deve ser detalhado nos próximos meses.

Theresa May não quer buscar um Brexit suave, pois entende que sua economia está em vantagem em relação a vários países da zona do euro, por possuir moeda própria e autoridade monetária independente.

Esse diferencial pode ser o fator decisivo para um sucesso do Reino Unido no Brexit. O gráfico abaixo (libra contra euro) mostra que as condições estão melhorando para os britânicos abocanharem uma parte maior do mercado consumidor europeu. O movimento de queda da libra contra o euro começou em 2015 e se intensificou em 2016, já operando abaixo da média móvel simples semanal de 200 períodos, confirmando uma consolidação de tendência. A desvalorização é considerada significativa.


Na briga por fatia de mercado, num ambiente altamente competitivo e de baixa pressão da demanda global, a forte desvalorização da libra é mais benéfica do que prejudicial ao novo Reino Unido.

Mesmo com a recente aceleração da inflação, atingindo o nível mais alto em dois anos e meio, ainda há margem sobre a meta de inflação para o BoE (Bank of England) responder com mais cautela no curto prazo. Futuramente, no médio e longo prazo, o aperto das condições monetárias no Reino Unido tende a ser compensado pelo fortalecimento do crescimento, influenciado pelo aumento das exportações com uma moeda mais fraca.

No Brasil, destaque para a divulgação da ata do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) na manhã desta terça-feira, deixando clara a tentativa da autoridade monetária de empurrar a economia via cortes agressivos na taxa básica de juros.

O fraco e decepcionante desempenho da atividade local parece ser uma preocupação maior do que o balanço de riscos para a inflação. Mesmo com o mercado projetando inflação de 4,81% no fim de 2017 (boletim Focus da semana passada, avaliado pelo Comitê), a autoridade monetária considera que as expectativas estão ancoradas.

No documento, o Banco Central revela que a extensão do ciclo de corte de juros e possíveis revisões no ritmo de flexibilização continuarão dependendo das projeções e expectativas de inflação, bem como da evolução dos fatores de riscos acompanhados.

Levando em consideração a decisão de cortar 0,75 p.p. na taxa básica de juros diante da complexidade do quadro macroeconômico, as próximas reuniões de Comitê podem continuar surpreendendo o mercado, já que não parece haver uma rota razoavelmente pré-definida, sustentada por fundamentos, mas sim uma ambição por juros menores o mais rápido possível.

Outro ponto interessante está no retorno das intervenções da autoridade monetária no mercado de câmbio local. Bastou o dólar apresentar condições técnicas de retomada da trajetória altista (martelo colado na linha inferior de bollinger em região de sobrevenda, confirmado por um candle de força relevante no pregão seguinte) para a autoridade monetária atuar com leilões de swaps tradicionais, equivalente à venda futura de dólares.


Ilan Goldfajn, presidente do Banco Central, afirmou nesta terça-feira que a autoridade monetária poderá sempre fornecer hedge a empresas se os mercados não estiverem funcionando bem e se houver problemas de liquidez.

Entretanto, ao que parece, não há problemas desta ordem no mercado. Muito pelo contrário, o real está descolado frente a uma cesta de principais moedas globais, se mostrando mais fortalecido nos últimos meses. A intervenção do Banco Central, após detectar movimento de retomada do dólar nos últimos dois dias, sinaliza que o câmbio pode estar sendo utilizado como ferramenta de política monetária como forma de contrapeso aos cortes agressivos na taxa básica de juros, pois a manutenção de um real forte evita criar pressão inflacionária.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Selic de 1 dígito só se for no grito


A história mostra que o investidor sempre precisa tomar muito cuidado em momentos de unanimidade de opiniões no mercado. A decisão do Banco Central de cortar 0,75 p.p. da taxa básica de juros na última quarta-feira agradou o governo, economistas (ortodoxos e heterodoxos), gestores de fundos, empresários, representantes de associações empresariais e sindicatos.

No meio de tanta euforia com a expectativa de novos cortes agressivos nas próximas reuniões do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central), alguns economistas já estão projetando taxa Selic de 1 dígito no fim deste ano. A expectativa não parte apenas de economistas com viés heterodoxo, mas também de economistas com viés ortodoxo, inclusive daqueles que fizeram duras críticas ao último ciclo de afrouxamento monetário promovido pela gestão anterior.

O próprio presidente da República se sentiu confortável em afirmar que a taxa básica de juros deve cair para 1 dígito. Deixando de lado o agravante relacionado a um comentário deste tipo (já que o mercado está fazendo vista grossa), não há condições para um recuo sustentado tão forte da taxa Selic neste ano, talvez nem no próximo.

Há um conjunto de fatores relacionados à desarrumação macroeconômica que tendem a continuar pressionando a inflação no médio/longo prazo. São problemas que só serão solucionados com a melhora no ambiente de negócios através de um planejamento de longo prazo e não com ações pontuais de curto prazo.

Mas a principal razão que inviabiliza cortes agressivos e sustentados da taxa Selic é o próprio governo. Não há menor condição de um país grau especulativo reduzir drasticamente sua taxa básica de juros no curto prazo trabalhando um orçamento com déficit de 2,5% do PIB (Produto Interno Bruto), rombo considerado significativo.

Como se não bastasse os inevitáveis efeitos de pressão inflacionária criados por uma política fiscal expansionista, chegará o momento em que os investidores reavaliarão as condições (taxa de juros) para financiar a dívida elevada de um País grau especulativo, que por sinal se mantêm em forte trajetória de crescimento e ainda distante de uma reversão (redução do endividamento).

Mesmo com a implementação das reformas, não há perspectiva de o governo voltar a fazer o necessário superávit primário nos próximos anos, pois os grandes privilégios, como o ineficaz “bolsa empresário”, que pressionam seriamente o fiscal, não estão sendo combatidos. O FMI (Fundo Monetário Internacional) espera que o Brasil só volte a fazer superávit primário a partir de 2020. Mostrando-se incapaz de colocar as contas em dia, o governo será o principal empecilho para a queda sustentada da taxa Selic.

O Banco Central pode continuar cotando os juros agressivamente nas próximas reuniões de Comitê e jogar a taxa básica de juros para 1 dígito até o fim deste ano, mas será um movimento à base do grito, sem respaldo dos atuais fundamentos e que possivelmente trará sérias consequências ao futuro.

Dentro do esperado, o mercado local reage com otimismo à decisão do Banco Central. O clima positivo no ambiente de negócios inviabiliza reflexão dos investidores sobre as consequencias futuras. Além disso, a expectativa de novos recuos agressivos da taxa Selic empurra investidores muito posicionados em ativos pós-fixados para assumir posições de risco no mercado.

Como existe muito capital concentrado em pós-fixado, fruto do longo período de juros altos, o potencial de fluxo para os ativos de risco é enorme caso o Banco Central continue trabalhando dentro da rota apresentada na última quarta-feira. Por outro lado, os gestores de fundos (principalmente multimercados), que já se posicionaram a favor da curva, tendem a focar mais no fluxo daqui pra frente, tentando identificar a entrada da massa para desovarem suas posições, até porque os prêmios dos juros futuros já começam a ficar achatados.

As curvas da ponta longa já iniciaram rompimento da mínima do ano, mostrando intensificação da força compradora. O contrato de juros futuros que vence em 2022 já está pagando 10,98% ao ano. Já os contratos da ponta curta estão abaixo da mínima registrada em 2014 (antigo e importante ponto de suporte). O contrato de juros futuros que vence em 2019, por exemplo, fechou a semana pagando 10,52% ao ano.


A bolsa de valores atropelou a principal resistência de curto prazo localizada na região dos 62,9k, agregando força a perna de alta intermediária iniciada aos 56,8k, com espaço para buscar a máxima do ano passado nas próximas semanas.


No cenário externo o clima segue positivo com boa parte das praças financeiras coladas em máximas históricas ou máximas anuais. Nos Estados Unidos o índice S&P500 trabalha movimento lateral de curtíssimo prazo, colado no topo histórico.
 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Banco Central fecha os olhos e pisa no acelerador


O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) decidiu nesta quarta-feira cortar agressivamente a taxa básica de juros em 0,75 p.p., para 13% ao ano. O resultado da reunião surpreendeu parte do mercado, que esperava um corte menos agressivo de 0,50 p.p.

Apesar da expectativa dominante em 0,50 p.p. de corte na taxa Selic, o clima estava favorável no ambiente doméstico para um corte maior de 0,75 p.p. O Banco Central aproveitou a janela de oportunidade (clima propício) para intensificar o ciclo de afrouxamento monetário rapidamente, agradando tanto o governo (que tem a ilusão de que uma Selic menor resolverá os problemas de crescimento), quanto o mercado (que quer uma Selic menor para ampliar os ganhos nas posições de pré-fixados).

Entretanto, considerando a complexidade do balanço de riscos para a inflação (pressões internas e externas), o Banco Central está buscando risco desnecessário ao ampliar agressivamente o ritmo de flexibilização da política monetária, se deslocando de forma acelerada para uma rota mais dovish.

Na manhã desta quarta-feira, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) informou que o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), considerado a inflação oficial no Brasil, avançou 0,30% no mês de dezembro do ano passado, mostrando aceleração em relação a alta de 0,18% registrada no mês anterior.

A inflação do setor de serviços subiu 0,65% no mês de dezembro, frente aos 0,42% registrados no mês de novembro, voltando a sinalizar ritmo incompatível com o cumprimento da meta. A pressão de preços do setor de serviços tem peso relevante (ou deveria ter) no balanço de riscos para a inflação, já que os consumidores não conseguem importar serviços e acabam aceitando os preços praticados por empresas locais. Uma inflação de serviços elevada indica cenário de baixa concorrência e dificuldades de empreendedorismo, sustentando o desequilíbrio entre oferta e demanda.

No acumulado de 2016 o IPCA fechou com alta de 6,29%, muito distante, portanto, do centro da meta a ser perseguido (4,5%) e levemente abaixo do teto da margem de tolerância (6,5%). O número foi considerado positivo e comemorado no mercado, mas o fato é que não há nada animador numa inflação que, ainda, apenas demonstra sinais de que retornou ao padrão verificado nos últimos seis anos (com exceção de 2015): oscilar ao redor do teto da margem de tolerância.

A inflação de 2016 também continua mostrando sinal de elevado descasamento com o desempenho da economia. O FMI (Fundo Monetário Internacional) projeta retração de 3,3% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2016. Já a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) espera uma contração de 3,4% no PIB do Brasil de 2016, o que deve marcar dois anos de forte recessão, já que em 2015 o PIB caiu 3,8%. A grande distorção entre inflação versus PIB é preocupante, pois demonstra manutenção da deterioração dos fundamentos macroeconômicos.

Ainda assim, mesmo diante do complexo balanço de riscos, o Banco Central decidiu aumentar o corte na taxa básica de juros, de 0,25 p.p. para 0,75 p.p. Lamentavelmente, o comunicado emitido após a reunião de Comitê está repleto de avaliações supostamente tendenciosas.

O Banco Central considera que, no âmbito externo, os efeitos do fim do chamado interregno benigno têm sido limitados. Essa afirmativa parece desconsiderar o movimento global de valorização do dólar (apesar de existir uma distorção temporária contra o real) e as esperadas revisões para cima nas projeções de inflação dos principais banqueiros centrais mundiais, que por sinal estão traçando uma rota de política monetária menos dovish do que a verificada nos últimos anos.

O comunicado também ressalta que o processo de desinflação mais difundido atingiu componentes mais sensíveis à política monetária e ao ciclo econômico, embora a inflação de serviços tenha acelerado para 0,65% no mês de dezembro do ano passado.

No texto, o Banco Central credita peso ao recuo das projeções de inflação no cenário de referência para 2017 e 2018, feitas sob a metodologia de manutenção da taxa Selic e taxa de câmbio durante todo o horizonte de previsões. Entretanto, no cenário de mercado, onde a metodologia é diferente (considera evolução da taxa Selic e taxa de câmbio no horizonte de projeções), ainda não há expectativa de ancoragem da inflação à meta em 2017.

No encontro anterior, realizado em 30 de novembro de 2016, o Comitê decidiu reduzir a taxa Selic em 0,25 p.p. Naquela ocasião, a previsão do mercado (boletim Focus) apontava para uma inflação de 4,93% no fim de 2017. No encontro realizado em 19 de outubro de 2016, a previsão do mercado para a inflação no fim de 2017 era de 5,04% e o Comitê também optou por reduzir a taxa Selic em 0,25 p.p.

Hoje, a previsão do mercado para a inflação no fim de 2017 está em 4,81%. Pode-se notar um padrão de recuo nas projeções de inflação do mercado na faixa de 0,10 p.p. entre o intervalo de reuniões do Copom, mas, desta vez, a resposta da política monetária veio com um corte agressivo de 0,75 p.p.

Para tentar justificar a intensificação do corte com as projeções de inflação do mercado, o Banco Central começa a empurrar o cumprimento do objetivo (convergência da inflação para a meta de 4,5%) para 2018, ano em que as projeções de mercado apontam ancoragem da inflação ao centro da meta.

Quanto mais o Banco Central se apoia sobre as projeções de longo prazo para tomar suas decisões, maior o risco assumido pela política monetária. Eventos adversos devem surgir em 2017 (como nos anos anteriores) e, desta vez, a autoridade monetária não contará, possivelmente, com a desinflação das contas de energia elétrica (que já estão em bandeira verde) e com o fator câmbio (real valorizado, descasado com as demais moedas).

No cenário externo, o novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, concedeu sua primeira entrevista coletiva desde a sua eleição. Não houve divulgação de novidades relacionadas ao seu plano de governo. O evento foi marcado por críticas justificadas à imprensa norte-americana, especialmente a rede CNN, que desde a campanha eleitoral tem extrapolado limites para se posicionar contra Donald Trump.

O presidente eleito aproveitou a coletiva de imprensa para anunciar que vai se separar da administração de seus negócios a fim de evitar conflitos de interesse. Seus ativos serão transferidos para um trust e seus dois filhos tomarão o controle de suas empresas.

A coletiva não afetou a dinâmica do mercado local, com os principais índices de Wall Street trabalhando dentro de uma tendência de alta, colados em máximas históricas, sem apresentar novidades.


A bolsa brasileira encerrou o pregão desta quarta-feira em leve alta, mas ainda abaixo da principal resistência localizada na região dos 62,9k. Caso essa barreira seja superada nos próximos pregões, a atual tendência de alta ganhará força, impulsionando o índice para a máxima registrada no ano passado.


segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Aumento da pressão por corte de 0,75 p.p. beneficia Banco Central


Sentindo que o mercado está fazendo vista grossa ao excesso de palpites sobre o importante futuro da taxa básica de juros, figuras de peso do governo e do próprio mercado parecem estar se sentindo cada vez mais a vontade para dizer (leia-se fazer pressão) o que o Banco Central deveria fazer com a taxa Selic.

A véspera da reunião de dois dias do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central), as sinalizações favoráveis ao corte de 0,75 p.p. na taxa básica de juros aumentaram consideravelmente no ambiente doméstico.

A justificativa, em muitos casos, é a de que o recuo da taxa básica de juros ajudará na recuperação econômica. Essa hipótese tem pouca margem de sucesso num quadro dominado pelo ambiente de negócios ruim e desarrumação macroeconômica. Mesmo que no fundo alguns não acreditem nessa justificativa, a bandeira da agressividade no afrouxamento monetário é defendida com rigor, já que a aceleração dos cortes tende a beneficiar posições compradas em títulos pré-fixados, onde aparentemente muitos players nacionais formaram posições com atraso na curva de juros futuros.

Com o clima favorável para corte de 0,75 p.p., o Copom pode se dar ao luxo de atender os pedidos do mercado e derrubar a taxa Selic para 13% ao ano na próxima quarta-feira, ou optar por cortar “apenas” 0,50 p.p., levando a taxa Selic para 13,25% ao ano que, apesar de desagradar alguns, passará a imagem de postura hawkish e mostrará que a autoridade monetária não cede às pressões externas.

Os efeitos a serem criados pelo corte de 0,50 p.p. são tentadores demais para serem descartados pelo Banco Central. Uma fantasia/miragem tende a ganhar força no mercado, pois muitos dirão que o foco da decisão está no combate à inflação, com o Copom mostrando mais “rigor” do que se esperava. Essa avaliação tende a manter o clima positivo no ambiente doméstico, abrindo condições para novos recuos nas taxas de juros futuros.

Deixando de lado o mantra defendido por muitos participantes do mercado, o que se observa é um balanço de riscos para a inflação ainda elevado, o que, em tese, deveria impedir uma intensificação de curto prazo na política de afrouxamento monetário.

O quadro dominante no ambiente externo é de retorno da inflação. Nos Estados Unidos, o FED (Federal Reserve – autoridade monetária local) está preparando o mercado para aumentar o ritmo de elevações da Fed Funds (taxa básica de juros). Na zona do euro, o BCE (Banco Central Europeu), tende acelerar o desembarque gradual dos programas de compras de ativos, já que a inflação do mês passado atingiu o nível mais alto desde setembro de 2013. Até mesmo o BoJ (Bank of Japan), que luta para acabar a deflação no Japão, tende a subir suas projeções de inflação para o ano fiscal de 2017 e 2018.

O Brasil não deve ficar de fora do cenário de retomada da inflação a nível global nos próximos anos, mas esse risco (assim como os indicadores de preços domésticos ainda considerados elevados frente ao atual quadro recessivo) está sendo descartado, pois estamos focados apenas em criar números positivos (e artificiais) no curto prazo.

Com o mercado à espera da decisão do Copom, que sai na próxima quarta-feira, os negócios na Bovespa estão um pouco de lado. Mercado levemente abaixo da principal resistência de curto prazo localizada na faixa dos 62,9k, em tendência de alta.


Nos Estados Unidos o índice S&P500 segue colado na máxima histórica, sem apresentar novidades.


As principais praças europeias também seguem coladas em máximas anuais ou históricas. Destaque para a nova puxada do índice FTSE da bolsa de Londres. O rali jogou a bolsa para a máxima histórica, mostrando otimismo do mercado local com o Brexit.


O México voltou a enfrentar nova onda de sell-off com a aproximação da cerimônia de posse do novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A praça mexicana está muito perto de perder o principal piso de curto prazo, o que poderá jogar o mercado para a mínima do ano passado.
 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Juros futuros estão prestes a fazer mais um movimento histórico


Entrando na nova onda de carry trade de investidores estrangeiros, aumento de posições por parte de institucionais nacionais e entrada em massa de investidores pessoas físicas, os bonds brasileiros são o destaque do momento no mercado financeiro mundial.

Há cerca de uma semana da próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central), no qual a intensificação do processo de afrouxamento monetário é amplamente esperada (conforme indicações do próprio Banco Central), os participantes do mercado estão correndo para compor suas posições em pré-fixados, o que tem provocado uma forte valorização dos bonds brasileiros nos últimos dias.

O aumento do fluxo comprador em títulos públicos e privados está atraindo cada vez mais atenção de investidores. Aqueles que não se posicionaram em pré-fixados, ou gerenciam carteiras com baixa exposição a esses tipos de ativos, estão correndo para abrir posições no mercado e aproveitar o bom momento.

Um importante pivot de baixa já foi acionado no contrato de juros futuros com vencimento em 2019, sinalização técnica que só reforça a tendência principal iniciada em setembro de 2015. A nova onda compradora começou após a formação de topo descendente aos 12,34% e já realiza teste sobre a taxa mínima praticada em 2014, aos 10,90%.


Os 10,90% na curva para 2019 é justamente a última região de suporte localizada acima da mínima registrada aos 8,69% no ano de 2012, fruto do último ciclo de afrouxamento monetário que levou a taxa básica de juros para 7,25% ao ano.

A sequencia de candles de baixa favorece o rompimento do piso em 10,90% nas próximas semanas, o que abrirá terreno técnico livre para que a tendência principal de baixa nas taxas continue predominante.

O contrato de juros futuros com vencimento em 2020 está prestes a acionar um novo pivot de baixa, também mostrando forte apetite do mercado. À medida que os contratos curtos vão ficando mais caros (o que provoca, consequentemente, queda das taxas pré-fixdas), os investidores passam a migrar as compras para os contratos um pouco mais arriscados dos anos seguintes, criando um efeito dominó.


A euforia com os bonds brasileiros está colaborando para manter o clima positivo em todo o mercado financeiro nacional. O Ibovespa fechou mais um pregão em alta nesta quinta-feira, aproximando-se da resistência localizada na região dos 62,9k.


O real segue mostrando força contra o dólar, destacando-se entre as demais moedas. Nesta quinta-feira, a moeda voltou para os R$ 3,20, já se aproximando do piso registrado em R$ 3,10. O deslocamento de curto prazo do câmbio local também facilita o carry trade de investidores estrangeiros, fato que acaba retroalimentando a tendência.


Na Rússia, o mercado de ações renovou a máxima do ano passado, mantendo-se dentro de uma forte tendência de alta iniciada em janeiro de 2016.


A bolsa de valores da Austrália também segue em forte rali, rompendo a máxima do ano passado.


O ponto em comum entre os mercados brasileiro, russo e australiano é justamente à sensibilidade aos movimentos das commodities. Através do gráfico baixo (índice CRB Jefferies Reuters), pode-se notar que as commodities permanecem dentro de um forte movimento de recuperação de preços, coladas na máxima do ano passado.
 

A média móvel simples de 200 períodos diária tem sustentado os preços nos últimos meses e as condições técnicas são favoráveis para rompimento da máxima em 195 pontos (principal linha de resistência). Por esse motivo, praças que representam economias com elevada exposição ao mercado de commodities estão no radar de muitas casas de investimentos do mundo inteiro.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Inflação na zona do euro ameaça cautela do BCE


Pouco mais de um mês após o BCE (Banco Central Europeu) surpreender o mercado ao decidir reduzir o volume de compras de 80 bilhões de euros por mês para 60 bilhões de euros a partir de abril deste ano, surge uma inflação capaz de arrebentar com os planos cautelosos de saída do longo período de estímulos monetários praticados pela autoridade monetária europeia.

Superando as estimativas, a inflação na zona do euro acelerou fortemente no mês de dezembro do ano passado, atingindo 1,1% (na comparação anual), nível mais elevado desde setembro de 2013. Conforme informado pela Eurostat (agência de estatística da União Europeia), o número é significativamente superior à inflação de 0,6% registrada em novembro e 0,5% em outubro, o que demonstra rápido avanço rumo à meta de 2% ao ano a ser perseguida pelo BCE.

A retomada da inflação na Europa é puxada pelos preços de alimentos e energia, na esteira do movimento de recuperação dos preços das commodities. O retorno da inflação já era esperado para 2017, mas o forte ritmo de dezembro deverá forçar uma revisão nas projeções do BCE.

A autoridade monetária europeia estendeu seu programa de compra de ativos até o fim deste ano, mas se viu forçada a reduzir o volume de compras mensais em 20 bilhões. A baixa eficácia do programa de estímulos, somada aos crescentes custos para o balanço trilionário do BCE, sinaliza aproximação do limite na estratégia de política monetária.

Entretanto, com o avanço da inflação mais forte do que o esperado, o BCE terá de rever sua estratégia para os meses seguintes, onde possivelmente novas reduções no volume de compras devem ser anunciadas neste ano.

O BCE adotou uma estratégia de saída bastante gradual para os seus programas de estímulos, na tentativa de seguir os passos bem sucedidos pelo FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos). O problema é que a aceleração da inflação inviabiliza uma saída gradual e o ritmo de cortes no volume de compras poderá aumentar, o que deixará o mercado local vulnerável aos choques nos preços dos ativos.

Menos cautelosos também estão os membros do Comitê de Política Monetária do FED. A ata da última reunião realizada em dezembro, divulgada hoje, revelou que os integrantes entendem que a economia pode crescer mais rapidamente por conta das promessas de estímulo fiscal, desregulamentação e gastos com infraestrutura do presidente eleito Donald Trump.

O comunicado da última reunião mostrou que a mediana das estimativas para a meta da Fed Funds subiu de 1,1% para 1,4% ao fim de 2017, de 1,9% para 2,1% ao fim de 2018, de 2,6% a 2,9% ao fim de 2019 e de 2,9% para 3,0% no longo prazo. Mas se as pressões inflacionárias aumentarem no governo Trump (fruto da implementação de suas propostas), o ciclo de aperto monetário poderá ser ainda mais agressivo.

Por outro lado, o mercado de bonds a nível global se acalmou um pouco nos últimos dias, com leve redução nas taxas. A Treasury de 10 anos (título do Tesouro dos Estados Unidos), recuou de 2,60% para 2,54%.


A taxa de juros do título de 10 anos do governo alemão recuou de 0,40% ao ano para 0,28%.


No Reio Unido, a taxa de juros do título com vencimento em 10 anos recuou de 1,50% para 1,34%.


Apesar do recente movimento comprador, a dinâmica para dívida soberana a nível global permanece sensível às vendas. Ainda não há sinal de interrupção na tendência principal de alta das taxas.

Ao contrário da dinâmica global, o mercado de bonds brasileiro segue dentro de uma forte onda compradora. A tendência principal (baixa nas taxas) foi reforçada nas últimas semanas com renovação de mínimas anuais nos contratos da ponta curta. Muitos investidores estrangeiros continuam enxergando oportunidades para fazer carry trade em ativos brasileiros, mesmo com aumento do rendimento dos títulos em praças mais seguras (o GAP ainda é considerado elevado).

Nas bolsas de valores, o clima positivo de Wall Street voltou a contaminar praças emergentes que haviam sofrido com vendas pesadas nos últimos meses. O Ibovespa rompeu a LTB dos 65,3k mostrando candle de força relevante, reafirmando mercado comprador no curto prazo, além de suavizar os riscos para manutenção da tendência principal de alta iniciada aos 37k.


A bolsa da Índia se aproximou da principal resistência de curto prazo, localizada na região da média móvel simples de 200 períodos diária, após consolidar formação de fundo duplo nos 25,8k.


Nos Estados Unidos, o índice S&P500 segue operando sem apresentar novidades, dentro de uma forte tendência de alta, colado em máxima histórica.
 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Indústria brasileira volta mergulhar


A nova pesquisa do Instituto Markit divulgada nesta segunda-feira mostrou que o atual quadro desolador da atividade manufatureira brasileira voltou realizar a façanha de piorar ainda mais.

O Índice Gerente de Compras tombou de preocupantes 46,2 pontos em novembro para 45,2 pontos em dezembro do ano passado, revelando novo aumento no ritmo de contração da atividade industrial.


Pressionada pela persistente recessão econômica doméstica, retomada da inflação de custos e enfraquecimento da demanda global, a produção local atingiu o nível mais baixo dos últimos seis meses.

Desde o fim de 2014 a indústria brasileira se mantém significativamente distante do terreno considerado expansionista (acima dos 50 pontos), acumulando uma série de tentativas frustradas de recuperação.

Além dos velhos e conhecidos problemas estruturais da economia brasileira, a pesquisa revelou que as indústrias voltaram a encontrar dificuldades de exportar a produção. O volume de novos pedidos para exportação caiu por um ritmo acentuado e acelerado no mês de dezembro.

Essa queda pode ser explicada pelo aumento da disparidade entre a oscilação do dólar contra uma cesta de principais moedas globais e a oscilação do dólar contra o real.

No gráfico abaixo podemos observar que o dólar index opera na máxima, acima, inclusive, do pico registrado em 2015. Isso significa que as principais moedas globais voltaram a perder força em relação ao dólar. Estão ainda mais desvalorizadas, algumas atingindo níveis mais baixos em mais de uma década.


Quando a mesma comparação é feita exclusivamente contra o real, o quadro é bem diferente. A tendência de alta iniciada aos R$ 3,10 ainda é muito fraca comparada à tendência predominante global, sendo que há bastante terreno para moeda se aproximar do pico registrado em 2015.
  

Parte dessa disparidade é uma compensação do mercado frente ao exagero verificado na desvalorização do real em 2015. Ao recuperar terreno em 2016, o real eliminou o componente extremamente pessimista embutido no preço. Entretanto, com ajuda das intervenções do Banco Central no mercado de câmbio, o preço está passando a embutir um componente de otimismo não respaldado pelos fundamentos macroeconômicos.

A segunda e preocupante nova pressão negativa à atividade manufatureira brasileira, apontada pela pesquisa do Instituto Markit, é o retorno da inflação de custos, atingindo recorde de alta de quatro meses.

A preocupação com o retorno da inflação já havia sido apontada em análises anteriores. Parte do processo de desinflação, em curso, estava sendo sustentado pela redução das margens de lucro das empresas. Contudo, o espaço de tempo é bastante limitado para que as companhias possam trabalhar com margens reduzidas no mercado. A pesquisa apontou que esse movimento já começa a se reverter, com algumas empresas aumentando preços para defender suas margens.

No âmbito externo, o FED (Federal Reserve - Banco Central dos Estados Unidos) se prepara para intensificar o ritmo de aperto monetário neste ano, à medida que a inflação sinaliza aproximação com a meta.

Na Europa, o BCE (Banco Central Europeu) já anunciou redução no volume mensal de compras de ativos de 80 bilhões de euros por mês para 60 bilhões de euros, a partir do mês de abril. É possível que o BCE anuncie novas reduções ao longo deste ano, pois a inflação na zona do euro está se intensificando com a alta dos preços de energia e desvalorização do euro.

Na China, o Banco Popular (autoridade monetária local) reafirmou sua intenção de continuar implementando uma política monetária prudente, o que significa reduzir suas intervenções no mercado e manter a taxa básica de juros inalterada após dois anos de cortes.

O BoJ (Bank of Japan) também segue a mesma trajetória menos dovish dos demais banqueiros centrais, optando por não aumentar os programas de estímulos mesmo com os desafios econômicos internos.

Ao contrário das posturas mais defensivas apresentadas pelas principais autoridades monetárias mundiais, o Banco Central do Brasil continua sinalizando que vai buscar o risco neste ano, com cortes mais agressivos na taxa básica de juros mesmo com a inflação acumulada dos últimos 12 meses ainda muito distante do centro da meta e projeção do mercado para inflação no fim deste ano em 4,87%, não demonstrando expectativa de cumprimento da meta.