terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Realmente, não há o que comemorar


A expressão, mencionada pela secretária do Tesouro Nacional, Ana Paula Vescovi, marcou o dia no mercado financeiro nacional. Ao apresentar mais um resultado fiscal desastroso na tarde desta segunda-feira, Ana Paula disse que não há motivos para comemorar o fechamento do balanço de 2017.

O governo central registrou gigantesco déficit de 124,4 bilhões de reais no ano passado, inferior à meta de déficit de 159 bilhões autorizada pelo Congresso. O simples fato de os números apresentarem margem sobre a meta previamente estipulada mais elevada não representa, necessariamente, dignidade/efetividade na agenda fiscal.

Um rombo de 124 bilhões de reais num único ano mostra que estamos muito distante de alcançar o necessário superávit primário para reverter a trajetória atualmente explosiva da dívida pública. As contas continuam desajustadas e tudo o que o governo tem feito é acreditar no milagre da reforma da previdência. Mesmo se as preces forem ouvidas (improvável), a reforma da previdência, aprovada no Congresso, sozinha, não proporcionará alívio fiscal a curto prazo.

Além disso, merece nota o erro grosseiro na projeção das contas feita por uma equipe técnica de “primeira linha”. Obviamente acertar em cheio a meta não é tarefa fácil, mas o governo passou muito longe. A diferença de 35 bilhões entre projeção e resultado final mostrou que a estimativa, no melhor dos casos, foi mal feita. É possível que a conta tenha sido feita com excesso de pessimismo somente para evitar o risco de decepcionar o mercado anunciando uma nova meta de rombo fiscal maior na reta final.

Outro ponto que merece estaque está no forte ajuste fiscal feito na área dos investimentos, essencial para o crescimento econômico. Durante todo o ano de 2017, os investimentos totalizaram apenas 46,2 bilhões de reais, o que representa insignificantes 0,69% PIB (Produto Interno Bruto). O diagnóstico dos investimentos está nítido pela pobreza do número e dispensa comparação com qualquer país do planeta. Entre outras palavras, o governo brasileiro investe “o troco do dinheiro de pinga” na economia.

Justamente os investimentos, principal tripé do crescimento sustentado, o que mais precisa de um empurrão, principalmente quando originado de um longo período de recessão, é justamente o que está sofrendo mais com a política de ajuste fiscal.

Plano B

"Não existe" plano B. O ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun, afirma que o governo não tem plano B e vai colocar a reforma em votação na Câmara neste mês de fevereiro, mesmo admitindo insuficiência dos 308 votos necessários.

Não basta passar na Câmara, o que já seria algo improvável, é preciso que a reforma seja aprovada, no mesmo molde, pelo Senado. Corre boatos de que lideranças da base não garantem aprovação da reforma no Senado, mesmo com a proposta aprovada na Câmara. O governo precisará de 49 votos dos 81 senadores, sendo que cerca de 54 deles já acenaram disputar pela manutenção de suas cadeiras no próximo mandato.

Apesar de o governo insistir que só existe um plano A (aprovação da reforma da previdência), obviamente existe um plano B. Não estamos no momento de discutir o plano B, em função da proximidade das eleições, juntamente com quadro negativo de elevada taxa de desemprego, mas ele certamente será pauta nos próximos anos. O plano B, senhoras e senhores, é o nosso bolso.

Frustração com reformas

Ilan Goldfajn, presidente do Banco Central do Brasil, disse hoje que a frustração com as reformas pode elevar a trajetória de inflação no horizonte relevante para a política monetária. A perspectiva para 2018 é de crescimento econômico moderado, com inflação se deslocando em direção às metas. Lembrando que em 2018 o objetivo é de 4,5%, porém em 2019 a meta a ser perseguida é mais apertada, em 4,25%.

Não foi mencionado o fato de a inflação agir naturalmente para cima com a economia entrando em processo de retomada, num cenário de baixo PIB potencial. A inflação, de fato, tende a se deslocar para a meta, talvez não por frustração com as reformas (não existe expectativa por parte dos agentes de que a reforma da previdência será aprovada), mas sim por conta dos desajustes estruturais (educação, infraestrutura, burocracia, privilégios, etc) não devidamente atacados, que seguem formando uma barreira ao crescimento sustentável de médio e longo prazo.

No passado, sempre quando a economia brasileira pegou força, acabou se esbarrando nesses gargalos não resolvidos, acumulados nas últimas décadas, justificando o reconhecimento mundial do país dos vôos de galinha.

China

A agência de notícias oficial do governo chinês, Xinhua, informou que existe um plano para fechar 1.000 indústrias até 2020, o que faz parte do programa de longo prazo de reestruturação da economia, mais voltada ao consumo doméstico.

O fechamento das indústrias também vai colaborar com a redução da poluição, além de frear o forte crescimento populacional de Pequim, realocando a população para Tianjin e Hebei. Somente neste ano, 500 indústrias estão na mira para serem fechadas.

O Banco Popular (autoridade monetária da China) segue mantendo a promessa de manter a política monetária neutra, até porque o risco no mercado de crédito continua alto, respaldando cenário de desaceleração do crescimento em 2018.

Índia

Conforme previsão do Ministério de Fianças, a Índia tende a crescer 7% a 7,5% no ano fiscal que se inicia em 1 de abril, revelando significativo avanço frente à expectativa de crescimento de 6,75% (já considerada muito forte) neste ano fiscal.

A aceleração da máquina de crescimento indiana é resultado das reformas estruturantes adotadas pelo atual governo nos anos anteriores, com destaque para o novo regime tributário e desmonetização (algumas cédulas foram retiradas de circulação para reprimir o dinheiro sujo, decorrido de atos ilícitos).

Mercado

O VIX (índice de volatilidade, conhecido como índice do medo) subiu de 11,50% para 13,84% nesta segunda-feira, alcançando fechamento mais alto desde agosto do ano passado. A disparada da volatilidade revela interrupção no clima de extremo otimismo observado no mercado nas últimas semanas/meses.

S&P500 recuou 0,67%, acompanhado pela queda de 0,67% no Dow Jones e 0,52% no Nasdaq. O motivo da pausa da euforia em Wall Street foi relacionado à notícia de que a Apple reduzirá pela metade a sua produção de iPhone X.

Obviamente não é uma notícia que, racionalmente, deveria fazer Wall Street e os mercados no mundo inteiro cederem. Fato é que os índices estavam (e ainda estão) muito esticados a curto prazo (vide níveis de sobrecompra), portanto, realizações de lucro, mesmo que por motivos tolos/pequenos, são tecnicamente mais do que sensatas e necessárias para manutenção das tendências principais de alta.

O índice Bovespa acompanhou o movimento global de realização de lucros, fechando o pregão com queda de 0,97%, aos 84.698 pontos. Mesmo com o recuo no pregão desta segunda-feira, os indicadores ainda estão em zona de sobrecompra, exigindo atenção às posições compradas de curtíssimo prazo.

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12 comentários:

  1. "O motivo da pausa da euforia em Wall Street foi relacionado à notícia de que a Apple reduzirá pela metade a sua produção de iPhone X.

    Obviamente não é uma notícia que, racionalmente, deveria fazer Wall Street e os mercados no mundo inteiro cederem."

    Até porque a notícia é, com 99% de probabilidade, falsa. A fonte que fabricou essa notícia fabricou notícias idênticas no mesmo período no ano passado, e retrasado, e mais pra trás ainda, e todas se provaram falsas.

    Sei que é um detalhe irrelevante no grande esquema das coisas, mas vale ser mencionado.

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    1. Olá SwineOne,

      Grato pela contribuição. É um detalhe relevante que vale a pena ser mencionado!

      Abs,

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  2. Se a reforma fosse aprovada este ano, mesmo apenas na câmara, já seria uma surpresa positiva com boas consequências. Não será. Ao contrário deste ponto da sua análise, acho que o mercado compra/comprou tranquilamente um ajuste fiscal de longo prazo. Vejo alguns economistas pedindo medidas no curto prazo, mas não acho necessário. Seria mais rápido, mas mais doloroso. O longo prazo é suficiente.

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    1. Concordo com a parte do seu comentário sobre o mercado. Sobre o ajuste de curto prazo, apesar de pouco divulgado, há muita gordura para ser queimada. Em novembro do ano passado o Banco Mundial publicou o estudo, encomendado por Levy, analisando eficiência e qualidade do gasto no Brasil. Está bem completo e mostra uma série de soluções para ajuste fiscal eficaz de curto prazo, algumas dolorosas para certos segmentos, outras nem tanto.

      Abs,

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  3. Esse Meireles é extremamente incompetente, mas a mídia e a economia d papel adoram ele. Ta aí, seja quando estava no BC ou na fazenda, esse abutre não fez nada para reduzir dívida.
    Abc, bom texto

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  4. Infelizmente oque vai acabar acontecendo é esse plano "B" mesmo, não fazer reforma nenhuma e jogar a conta nas costas da população.

    Agora a questão é saber até quando vamos aguentar esse aumento periódico da carga tributária para cobrir o buraco negro fiscal, além também do nível de desgaste que o novo governo ira sofrer para aprovar esses aumentos de impostos.

    Infelizmente a Social-Democracia vai fazendo mais uma vitima.

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    1. Sim, lembrando que são dois tipos de pressão. A do Congresso, onde o silêncio é administrável e a do povo, que é o pavor de todo político.

      Abs,

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  5. Com relação ao Brasil, nada de novo. Em relação a China, vamos ver quão longe consegue ir uma economia planificada.
    A população chinesa é poupadora, mas tenho a impressão que o governo chinês tem direcionado a poupança chinesa para investimentos com base mais em decisões políticas que econômicas. Um exemplo é o caso das cidades fantasmas. Posso estar errado, mas ainda acho que a China é uma grande bolha.

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    1. Até uma época em que acompanhava o mercado chinês muito de perto, o mercado de renda fixa era inviável (suspeito que continue assim), o que acabava empurrando o investidor para outros segmentos, como o mercado imobiliário, ou outras classes de ativos no mercado de capitais. Não fosse as reservas internacionais, a China seria hoje um outro país.

      Abs,

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  6. Saudações Finanças Inteligentes.

    Parabéns pelo site.

    Não concordo que o processo de desmonetização aplicado pelo governo da Índia contribuiu para o crescimento da economia local, acredito que o processo de desmonetização foi ineficiente e ineficaz.

    Os dados do Banco Mundial informam que no ano de 2014 53,1% da população da Índia com idade igual ou superior a 15 anos possuía acesso ao sistema bancário [Account (% age 15+)], no mesmo ano o percentual da população com acesso ao sistema bancário no Brasil era de 68,1%.

    Apesar da diferença percentual não parecer tão elevada (15%), devemos lembrar a diferença no tamanho da população de cada país. No mesmo ano o Brasil possuía 204 milhões de habitantes e a Índia possuía 1 bilhão e 293 milhões.

    fonte: http://databank.worldbank.org/data/reports.aspx?source=world-development-indicators&Type=TABLE&preview=on#advancedDownloadOptions

    Obs: O Banco Mundial não possuí dados mais atualizados sobre o indicador de acesso ao sistema bancário.

    O governo afirma ter tomado a medida visando retirar de circulação notas falsas, coibir o financiamento do terrorismo, a lavagem de dinheiro e evasão fiscal. Inicialmente o governo proibiu a utilização de notas de 500 e 1000 rúpias, posteriormente emitiu uma nova série de notas de 500 rúpias e uma nova série de notas de 2000 rúpias.

    Tendo em vista a grande quantidade de pessoas sem acesso ao sistema bancário e o limite semanal para conversão das notas imposto pelo governo não é difícil concluir que muitas pessoas tiveram uma parcela expressiva da sua poupança eliminada.

    Com relação ao meio circulante pode-se perceber que o total do mesmo já se encontra em valor semelhante ao que era antes do início da desmonetização que começou em 08/11/2016.

    fonte: https://dbie.rbi.org.in/DBIE/dbie.rbi?site=home (Indicators -> Reserve Money)

    Currency in Circulation (Bilhões de Rúpias)

    04/11/2016 - 17.977,00
    02/12/2016 - 10.549,63
    30/12/2016 - 9.383,78
    03/02/2017 - 10.491,25
    26/05/2017 - 14.880,00
    18/08/2017 - 15.711,40
    03/11/2017 - 16.385,42
    15/12/2017 - 16.918,79
    19/01/2018 - 17.332,61


    Segue abaixo link do site do Reserve Bank of India com informações sobre a desmonetização.

    https://www.rbi.org.in/scripts/bs_viewcontent.aspx?Id=3270


    O Brasil tem uma forte viés de heterodoxia econômica, tendo em vista o processo eleitoral do ano de 2018 não é impossível surgir uma proposta semelhante por aqui. Caso o tema seja colocado em debate é interessante que estudemos sobre o mesmo para evitar embarque em novas aventuras.

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    1. Grato pelo excelente comentário! Vou ler com bastante calma, muita informação relevante, o que me leva, a princípio, mudar de opinião quanto aos impactos reais da desmonetização na Índia.

      Abs,

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