terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Treasurys se aproximam da red line


O mercado tem pavor das Treasurys em 3% ao ano. O último grande susto aconteceu em 2013, quando o então presidente do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), Ben Bernanke, surpreendeu os investidores no mundo inteiro com uma mudança inesperada na política monetária.

Na época, Bernanke havia sinalizado que o tapering (expressão utilizada para caracterizar a redução gradual dos programas de quantitative easing e operação Twist) estava próximo de começar, provocando pânico no mercado.

A taxa de juros da Treasury (título do tesouro norte-americano), com vencimento em de 10 anos, subiu mais de 100% num curto período de tempo, alcançando o patamar de 3% ao ano, marcando o auge da crise. A disparada do rendimento da Treasury provocou choque nos preços dos ativos de risco nas principais praças financeiras mundiais.

Com pouca margem de manobra, o FED teve de adotar, após o evento de 2013, um tom muito gradualista, mudando sua postura ao viés dovish em excesso, para voltar acalmar os ânimos dos investidores. A economia não estava pronta para uma nova crise no mercado, muito menos o FED.

Encantado pelos discursos e comunicados ao estilo “peace and love” do FED, o mercado fez o possível para ignorar a nova trajetória ascendente observada nos rendimentos das Treasurys desde meados de 2016. Entretanto, a superação de uma forte barreira de resistência localizada na faixa dos 2,60% ascendeu o sinal amarelo em Wall Street.


O movimento acelerou nos últimos dias, jogando a taxa de juros da Treasury de 10 anos para 2,73%, já se aproximando do terreno da red line (3% ao ano). O clima azedou de vez em Wall Street. Para se ter uma ideia, a mediana das estimativas de membros do FED para a FFR (Federal Funds Rate – taxa básica de juros) é de 2,7% em 2019 e 2,8% no longer run.

Considerando a taxa atual da Treasury de 10 anos, o mercado não parece disposto a pagar prêmio sobre as estimativas para a FFR ou mesmo apostar num quando mais otimista do que o sustentado até o momento. Pelo contrário, no ritmo de aceleração do rendimento da Treasury de 10 anos, o mercado está prestes a duvidar da sustentabilidade de uma FFR em 2,8% no longo prazo, patamar historicamente muito baixo e sem precedentes para uma economia em forte recuperação, operando próximo do pleno emprego.

Banqueiros centrais de vários países desenvolvidos e emergentes, inclusive os que surfaram a onda de otimismo nos últimos anos, indo ao máximo em rota dovish, torcem para que o mercado volte a se acalmar. Caso contrário, as defesas, bem como os fundamentos de cada economia, serão colocadas à prova com o baile dos ursos em Wall Street.

Além disso, com a aproximação do nível de 3% na Treasury de 10 anos, começaram a “brotar do chão” receios no mercado (até então desconsiderados pelos economistas/analistas) quanto aos possíveis impactos inflacionários do forte programa de reforma tributária aprovado pelo Congresso norte-americano no final do ano passado e como o FED se comportará diante de um cenário de rompimento ascendente do centro da meta.

Dow Jones afundou 1,37%, registrando a maior queda em dois dias desde setembro de 2016. S&P500 caiu 1,09%, fechando o pregão desta terça-feira aos 2.822 pontos. Nasdaq recuou para 7.402 pontos. O tombo foi tão forte ao ponto de tirar os três índices da situação de elevada sobrecompra.

A última reunião do FED no comando da atual chair, Janet Yellen, ocorre entre esta terça e quarta-feira. Muitos aguardam o comunicado do FED em busca de pistas para a condução da política monetária, que pode ser mais hawkish, porém é improvável que algo relevante será anunciado amanhã, justamente na despedida de uma chair dovish que conseguiu manter o mercado comportado durante todo o seu mandato.

Yellen quer encerrar sua era no FED com chave de ouro. Portanto, é possível que o FED vá tentar acalmar os ânimos no mercado, sendo apenas aquele mesmo FED “peace and love” dos últimos anos. O problema, a partir de agora, cairá no colo de Jerome Powell, novo chair do FED, que por sinal, além de ser um ex-banqueiro de longa data em Wall Street, será o primeiro não economista a assumir o cargo máximo da autoridade monetária norte-americana nos últimos 40 anos. Sentiu cheiro de problema?

Brasil

O mercado local segue atento ao baile em Wall Street, mas o impacto foi bastante reduzido no pregão desta terça-feira, em função de um rápido movimento de recuperação de preços observado no final da tarde. Quase todas as perdas acumuladas durante todo o pregão foram devolvidas.

Não se sabe o motivo exato da recuperação de preços, destoada de Wall Street. No início desta noite, porém, saiu notícia de que o presidente do STJ (Supremo Tribunal de Justiça), Humberto Martins, negou um pedido de habeas corpus apresentado pela defesa de Lula para evitar a prisão do ex-presidente condenado na semana passada pelo TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4 Região).

Além disso, corre boato de que o presidente Michel Temer repassou uma espécie de “lista negra”, com os nomes de dezenas de deputados supostamente indecisos para que empresários, agentes de mercado e cidadãos de forte influência política ajudem a convencê-los votarem a favor da reforma da Previdência, prevista para o dia 20 de fevereiro na Câmara.

Banco Central

Esperto e atento aos movimentos recentes em Wall Street, Ilan Goldfajn, presidente do Banco Central do Brasil, afirmou hoje que o principal risco no momento para a inflação brasileira é o cenário internacional. Segundo avaliação do presidente da autoridade monetária, o cenário atual está positivo mas, se houver reversão, pode levar a aumento de juros e impactar no fluxo de capital.

O ponto de reversão a que Goldfajn se refere, seria justamente o temor que “brotou do chão” no mercado, o de que uma atividade forte internacional pode elevar a inflação, forçando aumento de juros em economias desenvolvidas.

Zona do euro

A Eurostat, agência de notícias europeia, informou que a economia da zona do euro cresceu 2,5% em 2017, registrando a maior expansão anual desde o início da crise do subprime há cerca de 10 anos.

O crescimento de 2017 ficou bem acima do número considerado razoavelmente satisfatório em 2016 (1,8%), superando, inclusive, a estimativa da Comissão Europeia (2,2%). O desemprego caiu para o nível mais baixo desde 2009, aos 8,7%, colaborando para a retomada do consumo doméstico. Apesar de a inflação ainda não ameaçar alcançar o centro da meta de 2%, o fortalecimento da economia na zona do euro adiciona mais pressão para o BCE, ao menos, seguir com seu cronograma de redução do volume de compras mensais de ativos.

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3 comentários:

  1. Eu acho bizarro esses juros extremamente baixos, isso me parece um estimulo para que pessoas e empresas com acesso a esses juros baixos ignorem os riscos e peguem empréstimos para investir no mercado de capitais. Pois mesmo com o yield médio da S&P500 em um percentual baixo vale muito a pena pegar empréstimo comprar ações.

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  2. B noite FI,

    Poxa e eu tinha lido esse artigo aqui e achava que era fogo de palha...
    https://www.bloomberg.com/news/articles/2018-01-29/market-euphoria-may-turn-to-despair-if-10-year-yield-jumps-to-3
    Mas os investidores nunca estiveram c tanto apetite por high yields ne. Na vdd ja tiveram e nunca veio coisa boa dpos...

    Otimo artigo como sempre

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  3. FI, o dólar parece esticado a 3,15, mas pelo andar da carruagem o mais provável é termos uma maior desvalorização do real, correto?
    Ou seja, talvez seja um bom momento de aumentar exposição em dólar.

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