quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Um downgrade para ser comemorado


Nos últimos anos o Brasil tem colecionado uma vasta sequência de downgrades por parte das principais agências de classificação de risco. Em velocidade surpreendente, não só deixamos de sair do grupo de países grau de investimento, como mergulhamos de ponta cabeça na categoria grau especulativo.

Caímos como uma jaca podre. Cada rebaixamento vinha acompanhado de desânimo e preocupação, pois estávamos desfrutando de uma antiga boa posição mais elevada, de relativo status no ambiente global. Agora, que estamos acostumamos a fazer companhia com o grupo de países junk bonds (“títulos lixo”), os rebaixamentos são um belo presente (não de grego) para um futuro melhor.

Em primeiro lugar, apesar de a equipe econômica do governo desfrutar de boa reputação no mercado, imerecidamente reconhecida como ortodoxa, os números revelam outro cenário completamente diferente. A taxa de investimento segue incrivelmente baixa, muito distante da média de países emergentes, a reação econômica continua sendo apenas uma promessa, mesmo depois de uma forte trajetória de recessão, a inflação de 3% é comemorada exclusivamente como vitória de política monetária e não reflexo do tombo monumental do PIB e disparada da taxa de desemprego e, por fim, as contas públicas são um completo desastre.

Lamentavelmente a equipe econômica demonstrou gastar mais tempo correndo atrás de receitas extras para tentar camuflar parte do rombo fiscal gigantesco do que empenho/força de vontade para cortar gastos e/ou reduzir dezenas de bilhões de reais desperdiçados em privilégios considerados altamente ineficientes por estudos de instituições de elevada reputação global. E mesmo usando e abusando das receitas extras, ainda assim o nosso endividamento continua em forte trajetória ascendente, podendo alcançar insustentáveis 80% do PIB já neste ano.

É muito importante frisar que apesar de uma gestão desastrosa e/ou incompetente, o atual governo vem desfrutando de uma boa reputação imerecida do mercado. O ambiente global extremamente positivo emite uma falsa sensação de que tudo parece estar indo muito bem, apesar dos trágicos números brasileiros.

O mercado está muito longe de exercer qualquer pressão para que o governo tome atitudes para resolver uma pilha de problemas estruturais. Essa imposição precisa vir de outra fonte, daí a importância das agências de classificação de risco.

A Standard & Poor’s rebaixou a nota de crédito do Brasil de BB para BB-, nos colocando três degraus abaixo do patamar mínimo de grau de investimento. Isso significa que, se continuarmos neste ritmo, ou seja, se cairmos mais três degraus, estaremos com um pé na escala mais baixa de ratings do mundo inteiro, aquela formada por o pequeno grupo de países considerados alto risco de calote e de baixíssimo interesse.

BB- é belo um carimbo de vergonha e incompetência. Apenas economias pequenas e/ou instáveis são consideradas BB- pela Standard & Poor’s, entre as nossas novas companheiras estão as economias da Costa Rica, República Dominicana, Guatemala, Honduras, Tunisia, entre outras. A Grécia, que passou por uma grave crise econômica e financeira, é atualmente considerada B-, apenas três degraus abaixo da nota brasileira.

Com o rebaixamento desta quarta-feira, inevitavelmente aumenta a pressão para solução de nossos graves problemas fiscais, se não ocorrer nesta gestão, será na próxima. É uma imposição que não estava sendo feita pela população (e nunca será, pois são medidas altamente impopulares) e nem pelo mercado. Cair para BB- é como se despedir antes de partir para uma longa viagem, já se sabe que o retorno será demorado. Até então, a nota BB passava a sensação de que não estávamos tão longe de recuperar o necessário grau de investimento. Agora, a saudade vai bater mais forte.

Os poucos brasileiros conscientes da complexidade de nosso quadro doméstico agradecem enormemente o serviço da Standard & Poor’s, não somente pelo rebaixamento em ano eleitoral (derrubando mais uma lenda de mercado), mas pelo texto em tom poético de seu comunicado divulgado à imprensa, citando o lento progresso e fraco apoio da classe política para corrigir em tempo hábil a piora fiscal, além da infeliz discussão para abrandar a regra de ouro, o que pode ter sido a gota d’água para a decisão desta quinta-feira.

Mercado

A euforia segue generalizada no mercado financeiro global. S&P500 fechou colado na máxima, renovando topo histórico, aumentando o nível de sobrecompra do IFR para perigosos 80,90 no diário. O dólar contra cesta de principais moedas globais segue apanhando, assim como as Treasurys, sinalizando manutenção do movimento de desmonte de posições em ativos considerados seguros, com investidores em busca de maior retorno em ativos de outras classes e mercados mais arriscados.

O mercado russo fechou em alta pelo 13 pregão consecutivo, rasgando sobrecompra no curto prazo aos 1.246 pontos, já se distanciando da máxima atingida em 2017. Índia continua renovando novas máximas, aos 34.503 pontos. A bolsa brasileira acompanha o baile global, voltando a encostar na máxima nesta quinta-feira, após dois pregões de correção.

Em caso de manutenção deste ambiente global extremamente positivo, o esperado impacto do rebaixamento sobre os negócios pode não se concretizar. Quando o clima é favorável, o mercado tende a focar no lado positivo dos fatos, mesmo que forçadamente. No caso deste downgrade para BB-, o ponto positivo está numa pressão maior para que soluções sejam tomadas, principalmente no campo fiscal.

Outro detalhe positivo está na mudança da perspectiva para o rating brasileiro, de negativa para estável. O fato de a Standard & Poor’s trabalhar com perspectiva estável para a nota brasileira evita o risco de novos rebaixamentos a curto/médio prazo.

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13 comentários:

  1. É algo absolutamente inacreditável que com uma divida pública que deve chegar aos 80% do PIB em 2018 e uma expectativa de fazer algum superavit primário em 2021, os políticos brasileiros ainda estejam achando que "está tudo bem".

    A desconexão da realidade é tanta que eles ainda resolvem discutir a flexibilização da "regra de ouro" sem tomar absolutamente NENHUMA medida que efetivamente corte os gastos de maneira estrutural.

    Como dito, a única coisa que estão fazendo é corte investimentos e tentar conseguir receitas extraordinárias, acho que a frase que resume bem essa politica fiscal é o "a cada dia sua agonia".

    Mas é aquela velha história "em maré alta todos os barcos sobem, agora quando a maré baixa é que nós vemos quem estava nadando pelado".

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  2. Olá!

    "Lamentavelmente a equipe econômica demonstrou gastar mais tempo correndo atrás de receitas extras para tentar camuflar parte do rombo fiscal gigantesco do que empenho/força de vontade para cortar gastos e/ou reduzir dezenas de bilhões de reais desperdiçados em privilégios considerados altamente ineficientes por estudos de instituições de elevada reputação global."

    Cara, aqui você falou tudo!

    Por que não cortar benefícios de políticos e até mesmo cargos?
    Pra que tanto deputado e tanto vereador?

    Isso tem um custo.

    Ao invés de cortar isso querem aumentar receita pra manter essa aberração.

    Belo post.

    Parabéns!

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    1. Há muita gordura para ser queimada. Mudanças simples nos procedimentos de compras públicas, maior eficácia no sistema de saúde e reforma no sistema de educação, já trariam economia significativa. Outra medida de impacto fiscal elevado seria redução pela metade da diferença salarial dos servidores públicos federais em relação ao setor privado. Além disso, somente com a eliminação do Simples Nacional, a Zona Franca de Manaus, o Inovar Auto, o PSI (Programa de Sustentação de Investimentos) e a desoneração da folha de pagamentos, conseguiríamos criar economia de 2% do PIB, sem prejuízos em termos de eficácia para a economia, segundo relatório do Banco Mundial. Obrigado!

      Abs,

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  3. A classe política só tomará as decisões sensatas quando estiver com a faca no pescoço e infelizmente o povo guardou as facas junto com as panelas.

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  4. A classe política tá preocupada com a própria sobrevivência, pensando na reeleição. Eu ainda duvido que haverá reforma da previdência esse ano. Se coloquem no lugar de um senador ou deputado, quem iria querer colocar o mandado em risco?
    O Brasil pode esperar.

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    1. Sim, possibilidade muito baixa. Nem mesmo antes do escândalo da JBS o governo tinha os votos necessários para aprovação da reforma da previdência.

      Abs,

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  5. Mas não era só tirar a Dilma?

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  6. Não. Tinha que tirar o vice dela também!!

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    1. Renovar o Congresso e reduzir o número de partidos também

      Abs,

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  7. ... E você acho que o vice dela manda mesmo ? ... Voce acredita em salvador da pátria? ... E que no mercado e na classe empresarial só tem madres?

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