terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Primeiro discurso de Powell sacode o mercado


Jerome Powell, novo presidente do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), realizou nesta terça-feira seu primeiro discurso como autoridade máxima do Banco Central norte-americano.

Durante audiência pública do Comitê de Serviços Financeiros da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, Powell se mostrou otimista em relação à economia do país, porém, ao tentar escapar de uma pergunta sobre quantas elevações da FFR (Federal Funds Rate – taxa básica de juros norte-americana) são esperadas por ele neste ano, o novo chair do FED acabou caindo no contra pé, dizendo que desde dezembro/2017 os dados sugerem fortalecimento da economia.

Esse trecho do discurso foi entendido pelo mercado de que Powell pode endossar novos aumentos na FFR, caso a inflação mostre sinais de fortalecimento. Em outro momento, o chair do FED afirmou que, na sua avaliação pessoal, as mudanças na política fiscal elevarão a demanda significativamente.

O tom do discurso ficou ligeiramente distante do ponto dovish amplamente esperado. Com o fortalecimento da demanda, em tese, a inflação tende a ganhar força rumo à meta de 2% a ser perseguida pelo FED. Alguns investidores ligaram este ponto rapidamente e realizaram lucro em posições compradas nas bolsas de valores. O próximo encontro do Comitê de Política Monetária do Banco Central dos Estados Unidos, a ser realizado em março, tende a ser marcado por nova elevação de 0,25 p.p. na FFR.

Por outro lado, Powel afirmou que regulações desnecessárias prejudicam a economia , acenando para uma mudança na polêmica Regra Volcker que, em suma, busca limitar a especulação de bancos e reduzir o risco de uma crise sistêmica. A mudança na regra Volcker é amplamente apoiada em Wall Street.

FMI

A esquecida Christine Lagarde, diretora do FMI (Fundo Monetário Internacional), reapareceu nesta terça-feira para tentar conter um pouco o amplo clima de euforia observado no mercado a nível global. Lagarde lembrou que apesar de a economia global estar em fase de crescimento, o cenário está mudando com os riscos de normalização da política monetária, mudanças tecnológicas e acirramento das disputas comerciais.

A perspectiva do FMI para o crescimento global em 2018 e 2019 continua em 3,9%, frente os 3,7% registrados em 2017. Chegando atrasado e de forma atrapalhada, o Brasil tenta pegar carona na onda de crescimento global, mas ainda com pouca expectativa de, ao menos, chegar perto da média.

Superávit primário

Janeiro foi um mês surpreendente para as contas públicas. O governo conseguiu fechar com superávit de 31,07 bilhões de reais, recorde para o mês desde o início da série histórica, em 1997.

Infelizmente não é um dado que empolga tanto, pois o resultado foi fortemente influenciado pela arrecadação com receita extraordinária do Refis, programa criado pelo governo para renegociação de dívidas tributárias. Entre outras palavras, o programa é mais um pacotinho de bondades do Estado, justamente aos que tiveram a audácia de não pagar seus impostos.

Muitos empresários optaram por usufruir o maior desconto criado pelo Refis, com o pagamento à vista. Situação, no mínimo, embaraçosa. Se realmente havia necessidade de renegociação das dívidas, porque muitas empresas pagaram à vista para obter o maior desconto possibilitado pelo programa?

Mesmo com o número forte de janeiro, no acumulado dos últimos 12 meses o déficit fiscal do governo central ainda está em 113 bilhões de reais. A meta-cratera de déficit primário a ser cumprida neste ano é de 159 bilhões de reais.

Reflexo TLP

A famosa TLP (Taxa de Longo Prazo) entrou em vigor no mês de janeiro, substituindo a antiga farra subsidiada da TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo), já sendo possível notar seu impacto através dos números divulgados pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

Os empréstimos concedidos pelo banco somaram 3,9 bilhões no mês passado, queda de 18% frente ao mesmo período do ano anterior. O recuo foi puxado pelo “moderníssimo” setor industrial, no qual os desembolsos caíram 53% na comparação com um ano antes.

Cheque Especial e Rotativo

Quem esperava recuo significativo nas exorbitantes taxas das linhas de crédito mais utilizadas pelos brasileiros, seguindo a queda brusca da taxa básica de juros, talvez não conheça muito bem os problemas de um mercado bancário altamente concentrado, como o nosso.

A taxa de juros do cheque especial não está, sequer, caindo. Mesmo com recuo da inadimplência (acima de 90 dias) para 15,2% nesta linha, o juro médio do cheque especial ficou em 324,7% em janeiro deste ano.

O nível de inadimplência recuou 1,9% no cartão de crédito. Entretanto, o rotativo do cartão de crédito para clientes com pouco conhecimento financeiro que pagam o mínimo da fatura subiu, em média, para 241% no mês de janeiro.

Para completar a festa, o custo médio do financiamento imobiliário avançou 0,3% no mês de janeiro, enquanto a linha de empréstimo para compra de automóveis subiu 0,6%. O estoque total de crédito no país caiu 0,8%, a 3,066 trilhões de reais, o que representa 46,6% do PIB (Produto Interno Bruto).

Mercado

O espirro de Wall Street contaminou várias praças financeiras mundiais nesta terça-feira. S&P500 recuou 1,27% reagindo ao discurso de Jerome Powell. Dow Jones cedeu 1,16%, aos 25.410 pontos, enquanto Nasdaq recuou 1,23%, aos 7.330 pontos.

O Brasil segue resiliente, subindo com maior intensidade nos momentos de alta do mercado global e caindo em menor intensidade nos momentos de correção. Nesta terça-feira, o Ibovespa recuou 0,82%, interrompendo uma trajetória de 9 pregões consecutivos de alta.

Conte com a minha ajuda na hora de investir o seu dinheiro! Saiba mais clicando aqui.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Uau! Em pleno downgrade, bolsa renova máxima


Melhor sinalização de soberania do mercado, impossível. Se nos meses anteriores, marcados por valorizações das ações na bolsa, comentava-se que havia esperança no mercado pela aprovação da reforma da previdência como justificativa para os preços subirem em meio ao rotineiro e desastroso cenário macro local, o que dizer agora?

A reforma da previdência foi oficialmente enterrada na mesma semana em que o Brasil sofreu mais um rebaixamento por uma importante agência de classificação de risco. Á primeira vista, o cenário parece estarrecedor, mas não para o Sr. Mercado. O Ibovespa fechou a semana renovando recorde histórico, aos 87.293 pontos. Pode ser algo surpreendente, mas perfeitamente aceitável. Não foi a primeira vez e nem será a última em que os preços parecem se deslocar contra a direção mais “óbvia” do noticiário.

É de suma importância ao investidor entender esse movimento para, assim, realizar um filtro rigoroso sobre a chuva de informações de baixa qualidade que circulam o mercado diariamente, muitas delas, inclusive, partindo de “especialistas”.

Em primeiro lugar, parece estar mais do que provado que não havia esperança alguma no mercado em relação a aprovação da reforma da previdência. Também não havia temor de impacto dos rebaixamentos na nota de classificação de risco. O fluxo comprador no mercado local é simplesmente reflexo de um mundo comprador, influenciado pelo sistema financeiro global altamente líquido, que, por sua vez, é uma "obra-prima" dos principais banqueiros centrais mundiais.

Em função da escassez de prêmios e/ou ativos com boa relação risco x retorno nas praças menos arriscadas (não somente desenvolvidas, mas também emergentes), o Brasil, que estava no fim da fila entre as diversas opções para alocações de portfólio a nível global, começou a participar da onda compradora em 2016. Neste ano, muitas praças financeiras já estavam esticadas demais e os investidores convidaram o Brasil para participar da festa.

Nós não recusamos o convite e entramos de cabeça. Tudo continua subindo no mundo, mas, por conta do atraso, nós estamos avançando com mais força. O mercado está eufórico com o Brasil e não dá a mínima para os problemas que estão se acumulando para o futuro. Grande parte do fluxo sempre buscará horizonte de curto prazo, ou no máximo médio prazo.

O mercado não demonstra preocupação com o nosso cenário de médio e longo prazo. Considerando o que tem ocorrido em outras praças financeiras, realmente, não deveria haver preocupação com o Brasil.

É de conhecimento de muitos leitores que acompanham o blog a situação atual positiva observada em várias praças desenvolvidas e emergentes há vários anos. Neste post de hoje vamos descer um pouco o nível e buscar economias menores, com graves problemas estruturais ou consideradas bem mais arriscadas, que, em tese, deveriam ser temidas pelo fluxo de capitais.

Você gosta ou investiria seu dinheiro no Vietnam? Veja então o que aconteceu com a bolsa de Ho Chi Minh desde o início de 2016. O mercado saiu de cerca de 520 pontos e atingiu 1.102 nesta sexta-feira, colado na máxima:


Tailândia não é uma terra que faz alegria somente aos turistas em busca de praias paradisíacas. A bolsa de valores local também consegue proporcionar muita satisfação ao fluxo de capital:


A Indonésia, abarrotada de problemas que vão desde os de ordem social até a corrupção, opera com a bolsa de valores em pleno rali:


Você conhece algum produto exportado pelo Cazaquistão, o maior país sem costa marítima do mundo? A bolsa de valores local opera aos 2.391 pontos, significativamente superior aos 800 pontos registrados em 2016.

  
Quando você pensa na Nigéria, qual a primeira imagem que vai à sua mente? Rali no mercado de ações local?

  
Pensou em pirâmide? Olha a bolsa do Egito:


Namíbia:


Peru:


Jamaica:


Os movimentos são tão parecidos que, depois de um certo tempo analisando várias praças, perde a graça. Não há o que comentar. Há problemas de diferentes tipos e grau de intensidade em vários cantos do planeta, mas os preços dos ativos de risco continuam subindo.

O fluxo é simplesmente comprador. Obviamente em algum momento essa euforia vai acabar, pode ser amanhã, semana que vem, mês que vem, ano que vem, ou sabe-se lá quando. Não cabe ao investidor adivinhar o futuro, até porque o custo de oportunidade pode ser alto. Essa é uma função do Sr. Mercado, soberano para “decidir” em que momento a festa vai acabar. Investidores, para alcançarem eficiência/sucesso, devem aceitar a soberania do Sr. Mercado e seguir em frente, aproveitando as oportunidades dentro do possível com suas estratégias operacionais.

Conte com a minha ajuda na hora de investir o seu dinheiro! Saiba mais clicando aqui.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Saída honrosa para uma falha desastrosa


Agora é oficial. O inevitável aconteceu. O governo federal enterrou de vez a proposta de reforma da previdência. A esperança de votação vem sendo empurrada há muito tempo, pois Temer nunca esteve perto de conseguir os votos necessários para aprovação da reforma em dois turnos nas duas casas.

Faltavam votos mesmo antes do escândalo da JBS. Agora, com baixa popularidade, desemprego nas alturas, retomada de crescimento frustrante, juntamente com a aproximação de mais um circo eleitoral, conseguir votos é missão quase impossível. Demorou, mas a ficha caiu no governo.

Para não frustrar o mercado e/ou manchar sua imagem (se é que ainda resta algo limpo), Temer encontrou uma bela de uma rota de saída honrosa: a segurança. Aproveitando o show midiático em torno da criminalidade no carnaval (época mais importante do ano para grande parte da população), o governo pode ter aproveitado o momento para trucar decretando intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro.

A Carta Magna proíbe qualquer alteração constitucional enquanto perdurar a intervenção federal num Estado. Não por acaso, outros governos evitaram decretar intervenção federal, mesmo em situações críticas, justamente para não travar pautas importantes no Congresso.

O governo até tentou fazer um jogo de cena, aventando possibilidade de pausar a intervenção, no momento de votação da reforma da previdência, voltando apertar o start novamente após a conclusão dos trâmites nas duas Casas. A estratégia da pausa pareceu estranha (até porque o Congresso não funciona como um vídeo game) e em pouco tempo figuras importantes do ramo jurídico declararam inconstitucionalidade do movimento, o que provavelmente já era de conhecimento do governo.

De todo modo, a reforma da previdência e qualquer outra alteração constitucional não ocorrerá mais durante este governo. Temer não tem apoio para aprovar nenhuma medida impopular e muito menos solução para frear o escandaloso cenário de crescimento do endividamento.

Sob a justificativa da segurança, o governo encontrou uma desculpa perfeita para chutar o balde e focar nas eleições de 2018. Do ponto de vista unicamente político, não deixa de ser uma boa jogada. Apenas 14% dos brasileiros querem mudanças na previdência e 6% aprovam o governo. É preciso mudar este segundo número para as eleições. O primeiro número é um problema que será empurrado para frente, mais uma vez.

O povo não está preocupado com as fianças públicas, mas sim com a segurança. Até porque, nos jornais, há várias reportagens sobre o massacre da criminalidade, porém poucas ou quase nenhuma sobre o massacre das contas públicas. Ninguém parece entender que a segurança, e qualquer outra área, depende das finanças. Se as finanças não estão saudáveis, nenhum serviço público funcionará de forma adequada.

Segurança é uma assunto extremamente popular e que pode render gordos dividendos políticos. Alguém que seja capaz de colher os benefícios de uma melhora (mesmo que temporária) na sensação e índices de criminalidade certamente será beneficiado nas eleições deste ano. Diferente do que se imagina no mercado, a segurança, e não o dívida pública, pode ser a pauta principal das eleições.

Por fim, o ponto que deixa mais evidente a estratégia de saída honrosa do governo está nos próprios números da criminalidade no Brasil. Ao contrário do que se imagina, o número de crimes cometidos no carnaval do Rio de Janeiro não ficou acima da média dos últimos dois anos. Além disso, o Rio de Janeiro não é o estado mais violento do Brasil. Ceará e Rio Grande do Norte, por exemplo, estão em situação muito pior. Em várias outras cidades o número de homicídios por grupo de 100 mil habitantes se parece mais como os de uma terra sem lei.

A segurança no Brasil é um caos generalizado. O problema começa nas fronteiras desguarnecidas, passa pela desigualdade social e termina no policial mal equipado e mal remunerado. Colocar o exército nas ruas é uma solução típica de falta de planejamento: tapa o sol com a peneira e rende dividendos políticos a curto prazo, mas não resolve o problema a médio e longo prazo.

Agenda econômica

Com a reforma da previdência fora do radar, o governo precisa urgentemente anunciar algo para manter o apoio do mercado. Entre outras palavras, o governo precisa evitar que os investidores percam a paciência e busquem segurança em outros ativos ou mesmo em outras praças menos bagunçadas.

Entre as pautas que podem ser apreciadas pelo Congresso daqui pra frente estão à privatização da Eletrobras, autonomia do Banco Central, reforço das agências reguladoras, reoneração da folha de pagamentos e o cadastro positivo. Não há estimativa de impacto financeiro desta agenda, pois ao que tudo indica, foi lançada às pressas, usando velhos e conhecidos projetos encalhados.

Agências de rating com o dedo no gatilho

A agência de classificação de risco Standard & Poor’s rebaixou a nota de crédito do Brasil para vergonhosos BB- em janeiro deste ano, nos colocando no mesmo nível de países como Costa Rica, República Dominicana, Guatemala, Honduras, Tunisia, entre outros.

As outras duas importantes agências de classificação de risco (Moody’s e Fitch) ainda não rebaixaram o Brasil para o mesmo nível observado na Standard & Poor’s, basicamente porque preferiram esperar o desfecho da reforma da previdência. Agora que a reforma foi para o brejo, Moody’s e Ficth podem estar com o dedo no gatilho para rebaixar a nota de crédito do Brasil, nos colocando três degraus abaixo do patamar mínimo de grau de investimento.

Segundo o mais novo relatório do Bank of America Merril Lynch, a retomada econômica tende a melhorar o nível de arrecadação do governo e, por outro lado, os juros mais baixos contribuem para menor expansão da dívida pública. Entretanto, sem a reforma da previdência, a médio e longo prazo endividamento torna-se insustentável. Na maioria dos cenários traçados pelo banco, a relação dívida/PIB vai ultrapassar a barreira de 80% em breve. O tempo necessário para desarmar a bomba fiscal está esgotando.

Conte com a minha ajuda na hora de investir o seu dinheiro! Saiba mais clicando aqui.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Caiu o outsider brasileiro


Luciano Huck está fora da corrida eleitoral deste ano. A informação foi divulgada pelo colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, na tarde desta quinta-feira, para a tristeza de alguns brasileiros que não suportam mais as figuras tradicionais da classe política.

Um dos outsiders mais bem cotados no Brasil pelas pesquisas de intenção de voto tomou a decisão após o surgimento de notícias com potencial de impacto negativo sobre a sua imagem. Na semana passada, circularam reportagens sobre um financiamento de jatinho através do programa do BNDES, com juros de apenas 3% ao ano.

Em novembro do ano passado, Luciano Huck havia afirmado, através de um artigo publicado no jornal Folha de São Paulo, que não estava pretendendo se candidatar à presidente em 2018. Entretanto, mesmo após o artigo publicado, Huck continuou mantendo conversas e ainda recebeu apoio de figuras importantes.

Huck estava fazendo sombra ao nome de Geraldo Alckmin, que muito possivelmente será candidato à presidente pelo PSDB. Huck vinha numa forte ascensão, ocupando o mesmo espaço pretendido por Alckmin: o de um candidato mais ao centro.

Com a desistência de Huck, Geraldo Alckmin volta a ser o nome mais cotado para representar o centro. Henrique Meirelles e Rodrigo Maia também tentam se posicionar como candidatos ao centro, porém, até o momento, ambos possuem pouco potencial de passarem por cima do PSDB de Geraldo Alckmin.

Banco Central dividido

Os membros do Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil ficaram divididos entre sinalizar um possível fim do ciclo de corte na taxa básica de juros ou manter maior grau de liberdade para a próxima reunião (o que deixaria mais nitidamente a porta aberta para novo corte na taxa Selic).

Está explicado, portanto, motivo de o comunicado ter sido emitido com dupla sinalização na semana passada. Ou seja, o Banco Central sinalizou fim do ciclo de corte na taxa básica de juros, porém não quer descartar a possibilidade (atualmente remota) de mais um corte de 0,25 p.p, o que levaria a taxa Selic para 6,50%. Do ponto de vista prático, pouca diferença faz Selic de 6,75% ou 6,50%. A questão principal é não interromper abruptamente a festa no mercado de juros futuros, onde muitos ainda estão com perspectiva de ganho (ou seja, queda na taxa) nas posições das pontas mais longas.

O mercado apreciou a divisão (só que não) do Banco Central. O contrato de juros futuros com vencimento em 2019 fechou aos 6,65%. A curva de 2020 encerrou o pregão com taxa de 7,83%, enquanto o contrato para 2021 cedeu para 8,72%. Na ponta mais longa, o contrato de juros futuros com vencimento em 2023 fechou a quinta-feira aos 9,53%.

Fluxo IIF

O IIF (Instituto de Finanças Internacionais) espera que a entrada de capital nas economias emergentes vai passar de 1,195 trilhão de dólares em 2017 para 1,255 trilhão de dólares em 2018, incluindo investimento estrangeiro direto.

A projeção sobre os fluxos é considerada relativamente otimista frente aos desafios internos e externos, porém o IIF frisou que haverá maior seletividade dos investidores aos países-alvo, bem como seus títulos e ações, o que seria o primeiro reflexo sobre a esperada redução da liquidez global. Normalmente, em ambientes de redução da liquidez, o fluxo tende a se deslocar menos em formato de bloco e ser mais seletivo.

França

Bruno Le Maire, ministro de Finanças da França, declarou hoje que seu país redobrará esforços para pagar parcela de sua dívida. Isso porque, segundo Le Maire, a médio prazo, os juros devem subir. Qualquer receita tributária acima da expectativa de 2018 deve ser usada para abater na dívida e não para cobrir gastos extras.

A França possui um endividamento de 98,1% do PIB (Produto Interno Bruto), porém, a taxa de juros de seu título de 10 anos é de apenas 1,01%, respaldada pelo BCE (Banco Central Europeu), o que permite manutenção temporária de um nível de endividamento extremamente elevado.  

O governo tem objetivo de estabilizar o endividamento ao longo desse ano em torno de 96% do PIB. Por enquanto, é apenas isso que os políticos franceses conseguem fazer. Nesse cenário, um “simples” retorno da taxa de juros do título de 10 anos para a casa dos 3% poderia empurrar a França para um quadro de insolvência.

Retomada segue firme em Wall Street

A força compradora continua dominante na semana. Dow Jones subiu 1,23%, S&P avançou 1,21% e Nasdaq valorizou 1,58%. Todos os três índices fecharam colados em máxima do dia e da semana, já fazendo aproximação com a linha central de bollinger.

O rendimento da Treasury de 10 anos fechou aos 2,90%, ainda muito colado na red line de 3% ao ano, sem sinalizar interrupção na trajetória ascendente (o que tem evitado abertura de gatilho para compra). Embora o temor tenha desaparecido nesta semana, nunca se pode descartar retorno do clima de aversão ao risco com os rendimentos ficando atrativos nas Treasurys.

Brasil

O Ibovespa já opera acima da linha central de bollinger, confirmando superação no pregão desta quinta-feira. O mercado local segue em trajetória de recuperação de preços, desde o teste sobre a linha de suporte psicológico dos 80k, contando, por enquanto, com apenas uma resistência, localizada justamente na máxima histórica (86.350 pontos).

Já o dólar contra real ainda está na briga pela média móvel simples de 200 períodos diária, importante ponto de definição para manutenção de posições de curto e médio prazo. Enquanto os preços se manterem acima da referida média, o dólar opera com maior potencial na ponta comprada. Por outro lado, abaixo da média, o dólar opera com maior potencial de ganho na ponta vendida.

Conte com a minha ajuda na hora de investir o seu dinheiro! Saiba mais clicando aqui.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Inflação acelera, mas o mercado vira a mão


Os dados de inflação divulgados nesta quarta-feira pelo Departamento de Trabalho dos Estados Unidos colocaram fim às expectativas de cenários macroeconômicos criadas nas últimas semanas.

Havia temor de mudança na estratégia de política monetária conduzida até então pelo FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), saindo de uma postura extremamente cautelosa para um processo mais duro de aperto monetário e desalavancagem financeira. O ponto chave está na trajetória de inflação de médio e longo prazo. Uma aceleração do processo de retomada da inflação poderá forçar o FED rever sua estratégia de política monetária.

Os números informados pelo Departamento de Trabalho ratificam o temor criado nas últimas semanas. O Índice de Preços ao Consumidor subiu 0,5% no mês de janeiro, bem superior a alta de 0,2% registrada em dezembro. Na base anual, entretanto, a inflação permaneceu inalterada em 2,1%.

Já o núcleo de inflação, que exclui itens mais voláteis como alimentos e energia, subiu 0,3% em janeiro, frente a alta de 0,2% registrada em dezembro, ritmo mais forte desde janeiro de 2017. Na base anual, entretanto, o núcleo de inflação permaneceu inalterado em 1,8%.

Apesar do avanço mensal, o fato de a inflação e seu núcleo terem permanecidas inalteradas na base anual, em função dos efeitos do calendário, permitiu o fortalecimento de um viés menos pessimista por parte do mercado a curtíssimo prazo.

A inflação está ganhando força nos Estados Unidos, antes mesmo de o amplo pacote de reforma tributária começar a causar efeitos sobre a economia, o que não deixa de ser um ponto preocupante para o balanço de riscos para a inflação a médio e longo prazo.

Uma das principais fontes de preocupações que dominaram os pregões nas semanas anteriores foi confirmada nesta quarta-feira. O mercado, por sua vez, que vinha num clima muito pessimista, simplesmente virou a mão nesta semana, mesmo com o ambiente desfavorável dos indicadores econômicos.

Ao mesmo tempo em que correm notícias apontando que a inflação elevada é resultado de uma economia forte e saudável (portanto, motivo mais do que suficiente para se comprar ações), as vendas no varejo, que vieram bem piores do que o esperado, são justificativa no noticiário para o FED não alterar sua estratégia de política monetária (portanto, motivo mais do que suficiente para se comprar ações), pois a economia não estaria reagindo de forma tão forte e saudável como o esperado.

Ambas as justificativas estão longe de alcançar o sinal ideal para compra de ações. O fato é que Wall Street, até então vendida, virou a mão fortemente para a compra desde segunda-feira. O movimento é surpreendente, mas perfeitamente aceitável.  Na verdade a força compradora tem sido dominante desde o momento em que os preços tocaram ou se aproximaram de suas respectivas médias móveis simples de 200 períodos diária.

Investidores simplesmente abriram posições compradas após os preços se aproximarem rapidamente das médias, porém sem ameaçar rompimento descendente. Esse movimento se iniciou no final do pregão de sexta-feira e por enquanto, permanece dominante.

Brasil

Fechado na segunda e terça-feira, a reabertura do mercado local descontou o atraso dos últimos dois dias sobre as demais bolsas de valores do mundo inteiro, que acumulam ganhos significativos nesta semana. O Ibovespa saltou 3,27%, confirmando o piso formado na região psicológica dos 80k na tarde da última sexta-feira.

O dólar despencou 2,27%, para R$ 3,22, voltando para a média móvel simples de 200 períodos diária, ameaçando rompimento descendente. O recuo no câmbio arrastou os contratos de juros futuros, que fecharam em baixa. Os juros da ponta curta voltaram para mínimas recordes, enquanto os juros da ponta longa conseguiram se distanciar um pouco do patamar de dois dígitos.

A retomada dos preços das commodities também contribuiu para a forte virada de mão na praça brasileira. O índice CRB Jefferies Reuters saiu de 187,35 na mínima de sexta-feira passada para 192,39 pontos no pregão encerrado hoje. O preço do minério de ferro na bolsa de Dailan (China) subiu 2,57% nesta quarta-feira, ajudando impulsionar a alta de quase 6% nos papéis da Vale.

TOP 5 do Focus

O grupo de 5 profissionais que mais acertam projeções no boletim Focus revisou a expectativa para a taxa Selic a 6,75% neste ano, superior aos 6,50% projetados anteriormente. Para 2019, a expectativa se manteve inalterada em 8%.

A mudança na projeção para a taxa Selic deste ano pelo TOP 5 reforça o quadro de que o mercado local começa a entender o recado do Banco Central emitido no último comunicado. Ou seja, muito possivelmente a taxa básica de juros atingiu seu piso neste mês de fevereiro.

Treasury

A reação compradora observada na bolsa de Nova York também está atipicamente descorrelacionada com o movimento nas Treausyrs. A taxa de juros do título do tesouro norte-americano de 10 anos alcançou 2,91% nesta segunda-feira, novo recorde dos últimos três anos, mas, diferentemente das outras ocasiões, o mercado de ações reagiu para cima.

Pagando 2,91%, a Treasury de 10 anos segue revelando que o temor de uma mudança na política monetária do FED persiste no mercado de títulos da dívida soberana local, não por acaso os investidores estão vendendo Treasurys, na expectativa de que as taxas possam alcançar níveis ainda mais elevados.

Esse temor sumiu do mercado de ações nos últimos dias, o que pode ser uma sinalização de movimento temporário de descorrelação.

Japão

A economia japonesa cresceu 1,6% no ano calendário de 2017, registrando o aumento mais acelerado desde 2013. Além disso, a economia alcançou a mais longa trajetória contínua de crescimento desde a década de 1980, marcada pelo crash do Nikkei e início da deflação.

A manutenção da trajetória de crescimento no Japão poderia levar a nova especulação do mercado sobre redução do agressivo programa de estímulo monetário, porém, a inflação muito baixa e distante do centro da meta ampara a estratégia agressiva do primeiro-ministro, Shinzo Abe, e do presidente do BoJ, Haruhiko Kuroda.

China

O Banco Popular (Banco Central da China) deu uma pausa em seu processo de desalavancagem financeira nesta quarta-feira ao afirmar que alcançou o resultado previamente esperado. A autoridade monetária local estava combatendo nos últimos meses potenciais riscos sistêmicos frente ao excesso de crédito na economia, onde parcela desconhecida possui qualidade duvidosa.

Apesar da pausa, o Banco Popular considera que o nível geral da alavancagem no sistema ainda é alto, especialmente sobre a dívida de empresas estatais. Possivelmente a desalavancagem ocorreu de forma inexpressiva nesses últimos meses, com a pausa na estratégia sendo um movimento tático frente ao aumento da volatilidade no mercado financeiro mundial.

Conte com a minha ajuda na hora de investir o seu dinheiro! Saiba mais clicando aqui.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Chama o Papa


O esforço conjunto de uma tropa de choque visto na última terça-feira com objetivo de acalmar os ânimos dos investidores nas principais praças financeiras mundiais foi por água abaixo. Não durou muito para as vendas voltarem dominar os pregões, retroalimentando o clima de aversão ao risco.

Apesar do bombardeiro de análises, comentários e justificativas positivas, há pesos pesados que pensam diferente no mercado. Nesta quinta-feira, um importante banqueiro central abriu o jogo, quebrando a “corrente do bem” formada na última terça-feira.

O recado foi dado para os investidores que esperavam alguma sinalização concreta de que as taxas de juros podem subir em ritmo mais acelerado nas economias desenvolvidas, antes de tomarem uma decisão de realocação de seus respectivos portfólios (para algo menos agressivo e mais defensivo).

O mensageiro foi nada mais nada menos do que o BoE (Bank of England). O comunicado divulgado após a reunião de comitê de política monetária revelou que o banco central decidiu manter a taxa básica de juros inalterada em 0,50% ao ano e, também, o atual volume de compra mensal de ativos. Entretanto, a autoridade monetária britânica alterou sua perspectiva para a taxa básica de juros, surpreendendo o mercado.

O BoE ressaltou que a taxa básica de juros poderá subir mais vezes e em ritmo mais rápido do que o anteriormente projetado na reunião de Comitê do mês de novembro/2017. Com esse novo comunicado, espera-se, agora, ao menos duas elevações de 0,25 p.p. em 2018, jogando a taxa básica de juros para 1%.

Além disso, o BoE está mais hawkish para conduzir a inflação rumo a meta de 2% ao ano. No final do ano passado, a taxa de inflação alcançou 3% ao ano, portanto, 1 p.p. acima do centro da meta. A autoridade monetária britânica afirmou no comunicado que buscará conduzir a inflação de forma mais rápida do que o anteriormente esperado.

Em suma, o BoE alterou sua estratégia de política monetária extremamente gradual conduzida até então. Jogo feito não somente pelo BoE, mas por vários outros banqueiros centrais do mundo inteiro. Agora, o banco central britânico quer acelerar o passo, o que pegou o mercado de surpresa, até porque o Brexit está em curso.

Com o BoE, um dos principais banqueiros centrais do mundo, sinalizando que vai mudar sua estratégia de política monetária, aumentaram os temores entre investidores de de que outros banqueiros centrais possam fazer o mesmo.

Mercado

A tentativa de acalmar os ânimos nos últimos dias pode ter apenas piorado o tombo observado nesta quinta-feira, acionando estopes de posições compradas de curtíssimo prazo. Os investidores não  engoliram as justificativas da tropa de choque. Agora, só mesmo chamando o Papa para rezar uma missa pela recuperação do mercado bull. Londres caiu 1,49%, Frankfurt despencou 2,62%, Paris cedeu 1,985 e Milão escorregou 2,26%.

Xangai, que começou o ano aos 3.300 pontos, subiu até os 3.587 pontos, fechou esta quinta-feira mergulhando aos 3.262 pontos, iniciando perda da média móvel simples de 200 períodos diária. Para complicar, o Yuan caiu 1,1% em relação ao dólar, registrando o maior tombo desde agosto de 2015, acionando o sinal de alerta no Banco Popular (Banco Central da China).

Japão saiu de 24.100 pontos registrados no mês de janeiro para 21.890 pontos nesta quinta-feira, Rússia fechou aos 1.212 pontos após atingir 1.313 pontos semanas atrás, Índia devolveu quase todos os ganhos acumulados neste início de ano e Istambul já acumula desvalorização em 2018.

A Coreia do Sul passa por um forte sell-off, iniciando rompimento descendente da média móvel simples de 200 períodos diária. Africa do Sul renovou mínima neste pregão, também já operando com desvalorização acumulada neste ano. México zerou os ganhos de 2018 e começa a se aproximar da mínima registrada em 2017.

No Brasil, apesar de o Ibovespa ter recuado dos 86.200 pontos para 81.532 pontos, ainda há certa folga para zerar os ganhos acumulados neste início de ano, o que revela resiliência atípica de nosso mercado, possivelmente com players locais fazendo o possível para segurar posições compradas, acreditando numa reversão (para alta) capitaneada pelos nossos “fundamentos”.

O que se pode “comemorar” internamente é apenas a fraqueza da inflação (possivelmente temporária), o que não deixa de ser um festejo irônico, em função da queda monumental de nosso PIB (Produto Interno Bruto) observada nos últimos anos, seguida de uma lenta recuperação. Após alcançar 0,44% em dezembro/2017, o IPCA desacelerou a alta para 0,29% em janeiro/2018, mantendo o desejo daqueles que querem mais um corte de 0,25 p.p. na taxa Selic, para 6,50% ao ano (o que ainda assim é um cenário improvável, até porque o dólar, pouco comentado, começa dar sinal de vida).

O pânico voltou a predominar nesta quinta-feira em Wall Street. Dow Jones levou uma pancada de 4,15%, S&P500 derreteu 3,75% e Nasdaq mergulhou 3,90%. Todos os três índices fecharam colados na mínima do dia, acentuando a desvalorização acumulada neste ano (um forte contraste frente aos ganhos observados em janeiro).


S&P500 começa a se aproximar da importante média móvel simples de 200 períodos diária, algo impensável há duas semanas entre investidores e players de mercado. A última vez em que houve aproximação com a média móvel simples de 200 períodos diária foi em novembro de 2016.

O rendimento da Treasury de 10 anos (título do tesouro norte-americano) alcançou nova máxima do ano aos 2,85%, se aproximando da red line, mostrando que as vendas ainda predominam, com investidores acreditando que os juros possam subir mais do que o esperado anteriormente.

Entre outras palavras, o fluxo ainda não está comprando a segurança da Treasury. Há, por enquanto, apenas desmonte de posições em ativos de risco, mas não uma busca para travar taxas nas Treasurys, apenas a compra de dólar se acentuou. Isso porque existe expectativa no mercado de que as taxas das Treasurys possam subir um pouco mais.

No momento em que os players enxergarem que as taxas das Treasurys estão atrativas para serem travadas, o desmonte em ativos de risco, principalmente de outras praças, deve acelerar. Pode queimar a língua aqueles que se arriscarem dizer que a crise chega ao Brasil como uma marolinha.

Banxico

Atento ao cenário externo desafiador, o Comitê de Política Monetária do Banxico (Banco Central do México), elevou sua taxa básica de juros em 0,25 p.p., para 7,50% ao ano. Em comunicado divulgado após a decisão, a autoridade monetária mexicana explicou que procura anular expectativas de inflação mais elevada, bem como se defender de condições monetárias mais restritivas previstas na economia norte-americana.

Conte com a minha ajuda na hora de investir o seu dinheiro! Saiba mais clicando aqui.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Parou, mas pode continuar


O Comitê de política monetária do Banco Central do Brasil decidiu nesta quarta-feira reduzir a taxa básica de juros em 0,25 p.p., para 6,75% ao ano. A magnitude do corte veio em linha com o que estava sendo amplamente esperado pelo mercado.

O ponto de maior ansiedade para o mercado nesta reunião do Copom não era, necessariamente, o corte na taxa básica de juros, mas sim o tom do comunicado divulgado após a decisão. Havia muita divisão entre grupo de participantes, economistas e analistas que acreditavam em novo corte de 0,25 p.p. na próxima reunião de Comitê a ser realizada no mês de março e outro grupo que acreditava na manutenção da taxa básica de juros a partir deste mês.

Não deu nem um nem outro. O Banco Central admitiu que “para a próxima reunião, caso o cenário básico evolua conforme esperado, o Comitê vê, neste momento, como mais adequada a interrupção do processo de flexibilização monetária”. Esta parte do comunicado poderia creditar vitória às apostas do segundo grupo (manutenção da taxa básica de juros daqui pra frente).

Porém, logo em seguida, o Banco Central afirma que: “essa visão para a próxima reunião pode se alterar e levar a uma flexibilização monetária moderada adicional, caso haja mudanças na evolução do cenário básico e do balanço de riscos”. Este trecho pode ter sido utilizado estrategicamente não somente para evitar algum tipo de pânico no mercado local, em momento inoportuno (vide aumento da volatilidade em Wall Street), como também para suavizar um possível tom hawkish de definição de interrupção do ciclo de afrouxamento.

O Banco Central está inclinado a interromper o ciclo de cortes, mas optou por não descartar a possibilidade de corte moderado adicional na próxima reunião (ou seja, novo corte de 0,25 p.p.), também para não antecipar uma derrota do governo na reforma da previdência. Está claro no comunicado da autoridade monetária a importância das reformas estruturantes para manutenção de uma taxa de juros estrutural mais baixa.

Conforme avaliação dos membros do Comitê, “uma frustração das expectativas sobre a continuidade das reformas e ajustes necessários na economia brasileira pode afetar prêmios de risco e elevar a trajetória da inflação no horizonte relevante para a política monetária. Esse risco se intensifica no caso de reversão do corrente cenário externo favorável para economias emergentes”.

Além do risco relacionado à reforma da previdência, o Banco Central chancelou sua preocupação com uma (possível) reversão do cenário externo favorável observado nos últimos anos. Talvez, pelo simples fato de que desde 2016 o clima tem sido muito positivo para as praças financeiras, especialmente as de países emergentes. Uma prolongação desse ciclo muito positivo para os próximos anos é historicamente atípica, apesar de não ser impeditiva.

Índia

Decisão de política monetária também ocorreu na Índia. Nesta quarta-feira, o Banco Central da Índia decidiu manter inalterada sua taxa básica de juros aos 6% ao ano, pela terceira reunião consecutiva, mantendo uma postura menos agressiva comparado aos seus pares.


Conte com a minha ajuda na hora de investir o seu dinheiro! Saiba mais clicando aqui.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Tropa de choque entra em ação


Começou no Japão, se espalhou por toda a Ásia-Europa e chegou nos Estados Unidos. A terça-feira que sucedeu o pânico em Wall Street, contaminando o mundo inteiro, foi marcada por uma série de aparições de figuras importantes, não somente de governos, como do mercado financeiro, com um único objetivo: acalmar os ânimos dos investidores.

As inúmeras declarações observadas nesta terça-feira, supostamente coordenadas, denunciam que os governos, banqueiros centrais e gestores de recursos não estão preparados e/ou devidamente protegidos para um crash. O mercado poderia muito bem reagir fortemente para cima nesta terça-feira, revertendo a sinalização bearish do dia anterior, pura e simplesmente em função de sua característica de imprevisibilidade e soberania, mas o fato é que houve nítido esforço para “abafar o caso” (temor de retorno da inflação).

O Japão puxou o primeiro pelotão da tropa de choque que passou por cima dos ursos nesta terça-feira. Haruhiko Kuroda, presidente do BoJ (Bank of Japan), fez um discurso reiterando sua visão otimista para a economia, ressaltando que os lucros das empresas e os fundamentos econômicos estão sólidos tanto no seu país, quanto no exterior.

O presidente do BoJ aproveitou para frisar a manutenção da política de relaxamento monetário extremamente agressiva, incluindo o forte programa de compras de ativos e meta de juros futuros de zero, refutando qualquer especulação de que a autoridade monetária japonesa esteja se preparando para uma retirada de estímulos no futuro (algo parecido como tapering dos Estados Unidos).

Shinzo Abe, primeiro ministro do Japão, também apareceu no Parlamento para apoiar a postura extremamente dovish do banco central japonês, com objetivo de alcançar a meta de inflação de 2% no longo prazo, acrescentando também haver espaço para melhora nas condições de emprego e salário.

Logo em seguida, grandes bancos de investimentos começaram entrar em ação, divulgando comunicados acalmando seus investidores. Mark Haefele, do suíço UBS, minimizou a recente derrocada no mercado afirmando que o movimento de segunda-feira foi motivado por fatores técnicos. Além disso, Haefele considera que o risco de o FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) elevar a taxa básica de juros rapidamente é muito baixo.

Para o todo poderoso Goldman Sachs, a base para o mercado de ações continua intacta. O movimento vendedor é, também, enxergado como uma “questão técnica”, não baseada nos fundamentos. O banco de investimentos reiterou sua expectativa de que o S&P500 termine este ano aos 2.850 pontos, com crescimento de 14% nos lucros das empresas que compõe a carteira teórica do índice.

Edward Evans, gestor da Ashmore Group, em Londres, afirmou que o motivo das disparadas nos preços dos ativos neste início de ano continua inalterado, com os lucros das companhias crescendo e as expectativas melhorando.

Leon Eidelman, do JP Morgan, acha que as ações estavam esticadas no curto przo e uma realização é perfeitamente saudável, apostando que o mercado continuará bull. Eidelman também foca sua tese nos fundamentos das empresas, acreditando na manutenção da trajetória de aumento dos lucros das empresas. Por fim, complementou dizendo que não tenta obter retorno comprando ações baratas, mas sim comprando ações de empresas bem posicionadas para crescer. Raciocínio típico de Wall Street em bull market (ninguém se preocupa com os preços em mercados de alta).

James Bullard, presidente da regional do FED de St. Louis, também apareceu para acalmar os investidores receosos com os próximos passos da autoridade monetária norte-americana. Bullard afirmou que o mercado interpretou as boas notícias do relatório de emprego divulgado na última sexta-feira como algo ruim, que poderia forçar aumento mais rápido da taxa básica de juros.

Entretanto, em sua visão, a relação empírica entre aumento de salários e retomada da inflação perdeu força nos últimos anos, ficando próxima de zero. Entre outras palavras, o aumento dos salários, diferentemente do passado, não tende a influenciar no processo de aceleração da inflação. Sem dúvida um diagnóstico ousado de Bullard, porém não tão diferente do que está sendo defendido por alguns analistas no mercado.

Por fim, Steven Mnuchin, secretário do Tesouro norte-americano, fechou o pelotão da tropa de choque nesta terça-feira, afirmando que estava monitorando o movimento em Wall Street, mas que ficou tranquilo após conversar com profissionais e participantes de mercado. Para Mnuchin, apesar de a queda ter sido grande, é considerada perfeitamente normal.

O secretário do Tesouro também culpou as operações de alta frequência (robôs que utilizam algoritmos nas negociações) como responsáveis pelo tombo de ontem. Não é a primeira vez que o governo aponta seus dedos para as operações de alta frequência a fim de justificar quedas rápidas e robustas no mercado, o que parece ser uma boa argumentação para satisfação do público em geral. Por ouro lado, em situações de mercado de alta rápida e robusta, os robôs nunca são mencionados.

Mercado

Sob os efeitos da tropa de choque, o mercado, que amanheceu ensaiando mais um tombo, virou muito forte para a compra, estopando algumas posições vendidas de curtíssimo prazo. Dow Jones subiu 2,33%, S&P500 valorizou 1,74% e Nasdaq avançou 2,13%, recuperando boa parte das perdas de ontem.

No Brasil, o dólar recuou para R$ 3,23, porém ainda acima da média móvel simples de 200 períodos diária. A taxa do contrato de juros futuros para 2020 cedeu para 8,06%, enquanto a curva para 2024 voltou para 9,74%, contaminadas pelo alívio no pregão desta terça-feira.

O índice Bovespa subiu 2,48%, recuperando praticamente todas as perdas sofridas no dia anterior, porém ainda abaixo da máxima registrada em 86k. O movimento desta terça-feira colaborou para fortalecer o piso psicológico na região dos 80k.

Vítimas da aposta contra a volatilidade

Tem sido cada vez maior o número de investidores que buscam instrumentos no mercado financeiro internacional para apostar contra a volatilidade, influenciados pelo longo período de bull market. Na prática, esses instrumentos permitem ganhar quando o VIX (índice de volatilidade) cai por um período, porém podem impor perdas quando o VIX sobe.

Eventos como o ocorrido no dia anterior, marcados pela disparada do VIX, podem quebrar investidores desatentos e/ou que apostam num longo período de cenário de baixa volatilidade na bolsa. O Credit Suisse anunciou a compra de seu fundo “XIV”, que apostava na volatilidade baixa, tirando o produto do mercado e impondo prejuízo significativo aos cotistas. Corre notícias de que a Nomura também teve de fechar seu fundo “SVXY” que apostava na volatilidade baixa, por conta das perdas significativas.

Esses dois fundos acumulavam cerca de 3 bilhões de dólares e não representam risco sistêmico. No ano passado, tiveram retorno de cerca de 180%, surfando o momento de volatilidade muito baixa no mercado.


Entretanto, bastou uma disparada do VIX para varrer os produtos do mercado. Para operar produtos atrelados à alta ou queda do VIX, é muito importante usar o timing para que as entradas e saídas sejam feitas em momentos oportunos, preferencialmente rápidas, até porque o indicador apresenta uma dinâmica diferente daquela observada nos índices acionários.

Indicador de inflação da OCDE

Segundo dados publicados pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), a inflação anual de seus 35 países-membros fechou em dezembro de 2017 aos 2,3%, levemente inferior aos 2,4% apresentados no mês de novembro, porém acima da taxa de 1,8% registrada no fim de 2016.

O indicador revela que a inflação ao consumidor nas maiores economias do mundo ganhou um pouco de força em 2017, mas ainda não alcançou nível preocupante, apesar de já não poder ser considerada uma inflação baixa demais.

RBA

O RBA (Reserve Bank of Australia) decidiu manter inalterada sua taxa básica de juros na mínima histórica de 1,5%, na primeira reunião de política monetária do ano, encerrada bem no olho do furacão da volatilidade no mercado.

O presidente do RBA, Philip Lowe, não se deu ao trabalho de comentar sobre o recente tombo no mercado, focando sua análise exclusivamente sobre o quadro doméstico, que por sinal apresenta melhora no mercado de trabalho, mas com avanço dos salários ainda fraco.

Conte com a minha ajuda na hora de investir o seu dinheiro! Saiba mais clicando aqui.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Pânico em Wall Street


Os investidores de Wall Street que subestimaram o recente rali no rendimento das Treasurys (títulos do Tesouro norte-americano) sentiram a dor de uma patada de urso. Há muitos anos não se via uma virada de mercado tão violenta, pegando muitos participantes de surpresa, mal acostumados com o longo período de otimismo no pregão.

O ataque feroz da força bear assustou não somente Wall Street, mas o mundo inteiro. Dow Jones caiu 1.175 pontos no fechamento do dia, marcando a maior perda diária em pontos da história. No intraday o terror foi ainda maior, o índice desabou pouco mais de 1.500 pontos entre a máxima e a mínima do dia. Nasdaq e S&P500 também mergulharam de ponta-cabeça, ajudando a propagar o terror para as demais praças financeiras mundiais.

O VIX (principal indicador de volatilidade, conhecido no mundo inteiro como “índice do medo”), que na semana passada oscilava na casa dos 11%, alcançou 37,32% nesta segunda-feira, nível considerado elevado e não observado nos últimos dois anos. Em apenas dois dias, a força vendedora devolveu semanas de ganhos acentuados em posições compradas abertas em várias bolsas de valores espalhadas pelo mundo afora. Rapidamente, o mercado alterou o seu status de touro tranquilo e dominante para urso nervoso e faminto.

O motivo de tanta agitação está no receio de retorno da inflação nos Estados Unidos, o que poderia forçar o FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) a rever sua postura extremamente dovish e gradualista na política monetária. Entre outras palavras, os investidores temem, agora, que o banco central norte-americano possa subir os juros com mais velocidade e limpar a rodo o excesso de liquidez que transborda no sistema financeiro.

A aprovação do amplo pacote tributário no final do ano passado pelo Congresso dos Estados Unidos poderia servir de motivo mais do que suficiente para criar temores de retomada da inflação no futuro. Entretanto, a ficha parece ter caído apenas na semana passada, quando o relatório do Departamento de Trabalho mostrou um mercado aquecido, reforçando o status de economia operando ao pleno emprego, ou muito próxima disso.

200 mil novas vagas foram criadas no mês passado, superior aos 160 mil pontos de trabalho registrados no mês de dezembro, muito acima do mínimo necessário que sinaliza economia em ritmo de aceleração. A taxa de desemprego permaneceu ancorada na mínima dos últimos 17 anos, aos 4,1%.

O ponto de maior destaque no relatório do Departamento de Trabalho está na forte aceleração da renda média por hora trabalhada. Na comparação anual, a renda média subiu 2,9%, a maior alta registrada desde junho de 2009.

Muitos economistas/analistas estavam acompanhando de perto o crescimento da renda média por hora trabalhada, pois a aceleração desse indicador pode sinalizar que o mercado de trabalho está bastante aquecido, o que inevitavelmente provoca aumento da demanda. Consequentemente, o fortalecimento da demanda cria uma importante válvula de impulso à inflação.

A economia norte-americana ainda não sentiu os impactos esperados de curto prazo do grande pacote de alívio tributário de Donald Trump. Considerando o quadro atual de mercado de trabalho aquecido, o pacote tributário pode criar impulso adicional à economia e ao crescimento dos salários, o que, do ponto de vista inflacionário, poderia ser algo parecido como jogar uma pilha de galhos secos numa pequena fogueira que mal pode ser vista à distância.

Busca por segurança

Com o rendimento da Treasury de 10 anos se aproximando de atrativos 3% ao ano, muitos investidores correram para desmontar posições em ativos de risco para se posicionarem nas Treasurys.

Esse movimento ficou nítido nesta segunda-feira com o rendimento da Treasury caindo de 2,85% para 2,77%, influenciada pela forte onda compradora. O dólar contra cesta de principais moedas globais interrompeu a longa sequência de quedas, marcando piso aos 88,5 pontos, fechando o dia aos 89,04 pontos.

Wells Fargo, a cereja do bolo

O velho e conhecido Wells Fargo, uma das várias instituições socorridas pelo governo norte-americano na crise do subprime, “aprontou” mais uma. O FED aplicou novas sanções ao Wells Fargo, com potencial para reduzir o lucro da instituição em mais de 400 milhões de dólares neste ano.

Sem surpreender, o Wells Fargo é acusado de abuso generalizado aos clientes de varejo, além de quebrar uma série de regras de compliance. No ano passado e retrasado, o Wells Fargo já teve de arcar com pesados custos de ressarcimento e multas em função de práticas ilegais e não autorizadas pelos seus clientes.

Desta vez, o FED determinou que restringirá o crescimento do Wells Fargo, até que o mesmo melhore suficientemente sua governança e política de controles internos. Nenhum banqueiro, entretanto, parece estar sob ameaça. Alguns membros do Conselho serão substituídos, obviamente após aproveitarem um bom período de recebimento de bônus estratosféricos.

As ações do Wells Fargo despencaram de 66,09 dólares registrados na semana passada para 58,16 dólares nesta segunda-feira, relembrando, também, os velhos tempos de subprime.


Apesar de ser um fato isolado, o tombo do Wells Fargo ajudou criar pânico pelo setor financeiro, que por sua vez contaminou todo o pregão em Nova York.

Brasil

O tombo de 2,59% do Ibovespa, alinhado com a alta do dólar para R$ 3,26, juntamente com elevação das taxas dos contratos de juros futuros (principalmente da ponta longa da curva), ficou de bom tamanho comparado ao sell-off global.

A perda nos ativos de risco locais não alcançou o mesmo ritmo observado em outras praças, mas fato é que o mercado brasileiro virou para venda e as discrepâncias de curto prazo podem ser corrigidas ao longo do tempo.

O índice Bovespa opera distante de linhas de suporte relevante, contando apenas com o patamar psicologicamente fraco dos 80.000 pontos. Para zerar as perdas do ano, a bolsa teria de retornar abaixo dos 78.000 pontos. Já a média móvel simples de 200 períodos diária, está localizada à perder de vista, aos 70.699 pontos.

O dólar contra real conseguiu recuperar a média móvel simples de 200 períodos diária, caracterizando trap na perda temporária da linha ocorrida no final do mês de janeiro. Acima da referida média, o dólar retoma forças para alcançar patamares mais elevados.

Os contratos de juros futuros estão reagindo de forma mais tímida, já que muitos players locais insistem em segurar posições, acreditando haver espaço para novos recuos nas taxas futuras. Não por acaso, nota-se desejo para que o Banco Central corte ou ao menos sinalize uma taxa Selic aos 6,50%.

O contrato para vencimento em 2024 fechou o pregão aos 9,86%, levemente superior à mínima do ano registrada em 9,62%, por sinal ainda relativamente próximo do piso de 9,53% marcado em setembro do ano passado, totalmente desgarrado do rali nas Treasurys, bem como de outras taxas de títulos da dívida soberana de países desenvolvidos e emergentes.

Conte com a minha ajuda na hora de investir o seu dinheiro! Saiba mais clicando aqui.