quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Chama o Papa


O esforço conjunto de uma tropa de choque visto na última terça-feira com objetivo de acalmar os ânimos dos investidores nas principais praças financeiras mundiais foi por água abaixo. Não durou muito para as vendas voltarem dominar os pregões, retroalimentando o clima de aversão ao risco.

Apesar do bombardeiro de análises, comentários e justificativas positivas, há pesos pesados que pensam diferente no mercado. Nesta quinta-feira, um importante banqueiro central abriu o jogo, quebrando a “corrente do bem” formada na última terça-feira.

O recado foi dado para os investidores que esperavam alguma sinalização concreta de que as taxas de juros podem subir em ritmo mais acelerado nas economias desenvolvidas, antes de tomarem uma decisão de realocação de seus respectivos portfólios (para algo menos agressivo e mais defensivo).

O mensageiro foi nada mais nada menos do que o BoE (Bank of England). O comunicado divulgado após a reunião de comitê de política monetária revelou que o banco central decidiu manter a taxa básica de juros inalterada em 0,50% ao ano e, também, o atual volume de compra mensal de ativos. Entretanto, a autoridade monetária britânica alterou sua perspectiva para a taxa básica de juros, surpreendendo o mercado.

O BoE ressaltou que a taxa básica de juros poderá subir mais vezes e em ritmo mais rápido do que o anteriormente projetado na reunião de Comitê do mês de novembro/2017. Com esse novo comunicado, espera-se, agora, ao menos duas elevações de 0,25 p.p. em 2018, jogando a taxa básica de juros para 1%.

Além disso, o BoE está mais hawkish para conduzir a inflação rumo a meta de 2% ao ano. No final do ano passado, a taxa de inflação alcançou 3% ao ano, portanto, 1 p.p. acima do centro da meta. A autoridade monetária britânica afirmou no comunicado que buscará conduzir a inflação de forma mais rápida do que o anteriormente esperado.

Em suma, o BoE alterou sua estratégia de política monetária extremamente gradual conduzida até então. Jogo feito não somente pelo BoE, mas por vários outros banqueiros centrais do mundo inteiro. Agora, o banco central britânico quer acelerar o passo, o que pegou o mercado de surpresa, até porque o Brexit está em curso.

Com o BoE, um dos principais banqueiros centrais do mundo, sinalizando que vai mudar sua estratégia de política monetária, aumentaram os temores entre investidores de de que outros banqueiros centrais possam fazer o mesmo.

Mercado

A tentativa de acalmar os ânimos nos últimos dias pode ter apenas piorado o tombo observado nesta quinta-feira, acionando estopes de posições compradas de curtíssimo prazo. Os investidores não  engoliram as justificativas da tropa de choque. Agora, só mesmo chamando o Papa para rezar uma missa pela recuperação do mercado bull. Londres caiu 1,49%, Frankfurt despencou 2,62%, Paris cedeu 1,985 e Milão escorregou 2,26%.

Xangai, que começou o ano aos 3.300 pontos, subiu até os 3.587 pontos, fechou esta quinta-feira mergulhando aos 3.262 pontos, iniciando perda da média móvel simples de 200 períodos diária. Para complicar, o Yuan caiu 1,1% em relação ao dólar, registrando o maior tombo desde agosto de 2015, acionando o sinal de alerta no Banco Popular (Banco Central da China).

Japão saiu de 24.100 pontos registrados no mês de janeiro para 21.890 pontos nesta quinta-feira, Rússia fechou aos 1.212 pontos após atingir 1.313 pontos semanas atrás, Índia devolveu quase todos os ganhos acumulados neste início de ano e Istambul já acumula desvalorização em 2018.

A Coreia do Sul passa por um forte sell-off, iniciando rompimento descendente da média móvel simples de 200 períodos diária. Africa do Sul renovou mínima neste pregão, também já operando com desvalorização acumulada neste ano. México zerou os ganhos de 2018 e começa a se aproximar da mínima registrada em 2017.

No Brasil, apesar de o Ibovespa ter recuado dos 86.200 pontos para 81.532 pontos, ainda há certa folga para zerar os ganhos acumulados neste início de ano, o que revela resiliência atípica de nosso mercado, possivelmente com players locais fazendo o possível para segurar posições compradas, acreditando numa reversão (para alta) capitaneada pelos nossos “fundamentos”.

O que se pode “comemorar” internamente é apenas a fraqueza da inflação (possivelmente temporária), o que não deixa de ser um festejo irônico, em função da queda monumental de nosso PIB (Produto Interno Bruto) observada nos últimos anos, seguida de uma lenta recuperação. Após alcançar 0,44% em dezembro/2017, o IPCA desacelerou a alta para 0,29% em janeiro/2018, mantendo o desejo daqueles que querem mais um corte de 0,25 p.p. na taxa Selic, para 6,50% ao ano (o que ainda assim é um cenário improvável, até porque o dólar, pouco comentado, começa dar sinal de vida).

O pânico voltou a predominar nesta quinta-feira em Wall Street. Dow Jones levou uma pancada de 4,15%, S&P500 derreteu 3,75% e Nasdaq mergulhou 3,90%. Todos os três índices fecharam colados na mínima do dia, acentuando a desvalorização acumulada neste ano (um forte contraste frente aos ganhos observados em janeiro).


S&P500 começa a se aproximar da importante média móvel simples de 200 períodos diária, algo impensável há duas semanas entre investidores e players de mercado. A última vez em que houve aproximação com a média móvel simples de 200 períodos diária foi em novembro de 2016.

O rendimento da Treasury de 10 anos (título do tesouro norte-americano) alcançou nova máxima do ano aos 2,85%, se aproximando da red line, mostrando que as vendas ainda predominam, com investidores acreditando que os juros possam subir mais do que o esperado anteriormente.

Entre outras palavras, o fluxo ainda não está comprando a segurança da Treasury. Há, por enquanto, apenas desmonte de posições em ativos de risco, mas não uma busca para travar taxas nas Treasurys, apenas a compra de dólar se acentuou. Isso porque existe expectativa no mercado de que as taxas das Treasurys possam subir um pouco mais.

No momento em que os players enxergarem que as taxas das Treasurys estão atrativas para serem travadas, o desmonte em ativos de risco, principalmente de outras praças, deve acelerar. Pode queimar a língua aqueles que se arriscarem dizer que a crise chega ao Brasil como uma marolinha.

Banxico

Atento ao cenário externo desafiador, o Comitê de Política Monetária do Banxico (Banco Central do México), elevou sua taxa básica de juros em 0,25 p.p., para 7,50% ao ano. Em comunicado divulgado após a decisão, a autoridade monetária mexicana explicou que procura anular expectativas de inflação mais elevada, bem como se defender de condições monetárias mais restritivas previstas na economia norte-americana.

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10 comentários:

  1. Aqui os juros seguem caindo, será que isso vai mudar?

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    1. Pela sinalização do Banco Central, a Selic firmou piso em 6,75%. Já os contratos de juros futuros estão reagindo com certo otimismo na conta curta, porém na ponta longa ainda há pessimismo justificado sobre os preços, em função do cenário fiscal insustentável

      Abs,

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  2. Eu não consigo entender essa resiliência em relação aos seus pares que a bolsa brasileira vem tendo, enquanto o MSCI já chegou no nível em que ficou um bom tempo entre outubro e metade de dezembro do ano passado.

    Já a Bovespa está a quase 10 mil pontos no nível que estava no período de outubro a meta de dezembro do ano passado.

    Vai entender.

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    1. Talvez porque os institucionais locais estão mais otimistas para a bolsa, diferentemente dos anos anteriores, em que estavam com viés bem mais pessimista.

      Abs,

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  3. FI, muito bom! Eu estava acompanhando seus últimos posts e ficou bem legal ver a cronologia bem como a evolução dos fatos.

    Parece bem clara a possibilidade de uma alta volatilidade no mercado este ano, a força compradora estava muito forte e perante essas novas notícias, acho que nem o Papa deve salvar, rs.

    Oportunidade boa no ano para quem faz Buy and Hold, ainda mais em ano de eleições.
    O psicológico terá que estar no lugar para manter as emoções controladas e evitar a venda no Pânico.

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    1. Obrigado Capitão!

      Parece que chamaram o Papa rs... Mas a volatilidade realmente tende a ser mais elevada neste ano, o que pode abrir oportunidades nas estratégias de vários investidores. Como você afirmou muito bem, é importante estar com o psicológico preparado.

      Abs,

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  4. O s&p500 segue sobrecomprado nao? Teve uma correcao mas p haver reversao de tendencia n teria que ter sofrido uma queda de 30% perante ao topo de 2870 pontos?

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    1. Olá,

      Não está mais sobrecomprado. Aliviou tanto no diário, quanto no semanal. O nível de sobrecompra é identificado por indicadores técnicos, reversões na tendência são identificadas por análise de tendências. Ter de cair 10%, 20%, 30% para confirmar cenário X, Y, Z, não compete à análise técnica, são apenas números criados pelos analistas (que por sinal adoram criar certas "regrinhas" para facilitar a comunicação com o público final). Você se sentirá mais confortável e seguro estudando análise técnica por conta própria.

      Abs,

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  5. Olá FI,

    O mercado americano deu uma segurada durante o carnaval, mas não duvido da volta da pressão vendedora quando a "folia" acabar. :)

    Abçs!

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    1. Olá II,

      Wall Street virou a mão após se aproximar da mms200 diária. Vamos ver até que ponto (nível de preço) a força compradora consegue se manter dominante.

      Abs,

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