segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Pânico em Wall Street


Os investidores de Wall Street que subestimaram o recente rali no rendimento das Treasurys (títulos do Tesouro norte-americano) sentiram a dor de uma patada de urso. Há muitos anos não se via uma virada de mercado tão violenta, pegando muitos participantes de surpresa, mal acostumados com o longo período de otimismo no pregão.

O ataque feroz da força bear assustou não somente Wall Street, mas o mundo inteiro. Dow Jones caiu 1.175 pontos no fechamento do dia, marcando a maior perda diária em pontos da história. No intraday o terror foi ainda maior, o índice desabou pouco mais de 1.500 pontos entre a máxima e a mínima do dia. Nasdaq e S&P500 também mergulharam de ponta-cabeça, ajudando a propagar o terror para as demais praças financeiras mundiais.

O VIX (principal indicador de volatilidade, conhecido no mundo inteiro como “índice do medo”), que na semana passada oscilava na casa dos 11%, alcançou 37,32% nesta segunda-feira, nível considerado elevado e não observado nos últimos dois anos. Em apenas dois dias, a força vendedora devolveu semanas de ganhos acentuados em posições compradas abertas em várias bolsas de valores espalhadas pelo mundo afora. Rapidamente, o mercado alterou o seu status de touro tranquilo e dominante para urso nervoso e faminto.

O motivo de tanta agitação está no receio de retorno da inflação nos Estados Unidos, o que poderia forçar o FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) a rever sua postura extremamente dovish e gradualista na política monetária. Entre outras palavras, os investidores temem, agora, que o banco central norte-americano possa subir os juros com mais velocidade e limpar a rodo o excesso de liquidez que transborda no sistema financeiro.

A aprovação do amplo pacote tributário no final do ano passado pelo Congresso dos Estados Unidos poderia servir de motivo mais do que suficiente para criar temores de retomada da inflação no futuro. Entretanto, a ficha parece ter caído apenas na semana passada, quando o relatório do Departamento de Trabalho mostrou um mercado aquecido, reforçando o status de economia operando ao pleno emprego, ou muito próxima disso.

200 mil novas vagas foram criadas no mês passado, superior aos 160 mil pontos de trabalho registrados no mês de dezembro, muito acima do mínimo necessário que sinaliza economia em ritmo de aceleração. A taxa de desemprego permaneceu ancorada na mínima dos últimos 17 anos, aos 4,1%.

O ponto de maior destaque no relatório do Departamento de Trabalho está na forte aceleração da renda média por hora trabalhada. Na comparação anual, a renda média subiu 2,9%, a maior alta registrada desde junho de 2009.

Muitos economistas/analistas estavam acompanhando de perto o crescimento da renda média por hora trabalhada, pois a aceleração desse indicador pode sinalizar que o mercado de trabalho está bastante aquecido, o que inevitavelmente provoca aumento da demanda. Consequentemente, o fortalecimento da demanda cria uma importante válvula de impulso à inflação.

A economia norte-americana ainda não sentiu os impactos esperados de curto prazo do grande pacote de alívio tributário de Donald Trump. Considerando o quadro atual de mercado de trabalho aquecido, o pacote tributário pode criar impulso adicional à economia e ao crescimento dos salários, o que, do ponto de vista inflacionário, poderia ser algo parecido como jogar uma pilha de galhos secos numa pequena fogueira que mal pode ser vista à distância.

Busca por segurança

Com o rendimento da Treasury de 10 anos se aproximando de atrativos 3% ao ano, muitos investidores correram para desmontar posições em ativos de risco para se posicionarem nas Treasurys.

Esse movimento ficou nítido nesta segunda-feira com o rendimento da Treasury caindo de 2,85% para 2,77%, influenciada pela forte onda compradora. O dólar contra cesta de principais moedas globais interrompeu a longa sequência de quedas, marcando piso aos 88,5 pontos, fechando o dia aos 89,04 pontos.

Wells Fargo, a cereja do bolo

O velho e conhecido Wells Fargo, uma das várias instituições socorridas pelo governo norte-americano na crise do subprime, “aprontou” mais uma. O FED aplicou novas sanções ao Wells Fargo, com potencial para reduzir o lucro da instituição em mais de 400 milhões de dólares neste ano.

Sem surpreender, o Wells Fargo é acusado de abuso generalizado aos clientes de varejo, além de quebrar uma série de regras de compliance. No ano passado e retrasado, o Wells Fargo já teve de arcar com pesados custos de ressarcimento e multas em função de práticas ilegais e não autorizadas pelos seus clientes.

Desta vez, o FED determinou que restringirá o crescimento do Wells Fargo, até que o mesmo melhore suficientemente sua governança e política de controles internos. Nenhum banqueiro, entretanto, parece estar sob ameaça. Alguns membros do Conselho serão substituídos, obviamente após aproveitarem um bom período de recebimento de bônus estratosféricos.

As ações do Wells Fargo despencaram de 66,09 dólares registrados na semana passada para 58,16 dólares nesta segunda-feira, relembrando, também, os velhos tempos de subprime.


Apesar de ser um fato isolado, o tombo do Wells Fargo ajudou criar pânico pelo setor financeiro, que por sua vez contaminou todo o pregão em Nova York.

Brasil

O tombo de 2,59% do Ibovespa, alinhado com a alta do dólar para R$ 3,26, juntamente com elevação das taxas dos contratos de juros futuros (principalmente da ponta longa da curva), ficou de bom tamanho comparado ao sell-off global.

A perda nos ativos de risco locais não alcançou o mesmo ritmo observado em outras praças, mas fato é que o mercado brasileiro virou para venda e as discrepâncias de curto prazo podem ser corrigidas ao longo do tempo.

O índice Bovespa opera distante de linhas de suporte relevante, contando apenas com o patamar psicologicamente fraco dos 80.000 pontos. Para zerar as perdas do ano, a bolsa teria de retornar abaixo dos 78.000 pontos. Já a média móvel simples de 200 períodos diária, está localizada à perder de vista, aos 70.699 pontos.

O dólar contra real conseguiu recuperar a média móvel simples de 200 períodos diária, caracterizando trap na perda temporária da linha ocorrida no final do mês de janeiro. Acima da referida média, o dólar retoma forças para alcançar patamares mais elevados.

Os contratos de juros futuros estão reagindo de forma mais tímida, já que muitos players locais insistem em segurar posições, acreditando haver espaço para novos recuos nas taxas futuras. Não por acaso, nota-se desejo para que o Banco Central corte ou ao menos sinalize uma taxa Selic aos 6,50%.

O contrato para vencimento em 2024 fechou o pregão aos 9,86%, levemente superior à mínima do ano registrada em 9,62%, por sinal ainda relativamente próximo do piso de 9,53% marcado em setembro do ano passado, totalmente desgarrado do rali nas Treasurys, bem como de outras taxas de títulos da dívida soberana de países desenvolvidos e emergentes.

Conte com a minha ajuda na hora de investir o seu dinheiro! Saiba mais clicando aqui.

8 comentários:

  1. Queria parabenizar voce pelo recente post dos treasuries americanos de 10 anos. Acompanhei de perto a subida ceste indice e a correlaçao com essa onda de sell-out das bolsas foi clara. É fácil dizer isso hoje, mas sua análise foi cirúrgica há dias atrás.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado Marcelo,

      Deram um jeito de acalmar o mercado, mas é sempre bom ficar de olho na UST.

      Abs,

      Excluir
  2. Será o começo de um longo bear market?

    Este ano será movimentado no mundo todo e pra piorar localmente temos eleições.

    Abçs!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Parece que será um ano bem emociante, a nível global rs...

      Abs,

      Excluir
  3. Eh simplesmente Risk off e profit-taking. No entanto, os fundamentais americanos (economia, corporate earnings) continuam fortes.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Concordo que os fundamentos continuam fortes, porém há certa acomodação com o longo período de juros baixos e sistema financeiro atipicamente líquido demais. Esse cenário pode ser diferente no futuro.

      Abs,

      Excluir