terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Tropa de choque entra em ação


Começou no Japão, se espalhou por toda a Ásia-Europa e chegou nos Estados Unidos. A terça-feira que sucedeu o pânico em Wall Street, contaminando o mundo inteiro, foi marcada por uma série de aparições de figuras importantes, não somente de governos, como do mercado financeiro, com um único objetivo: acalmar os ânimos dos investidores.

As inúmeras declarações observadas nesta terça-feira, supostamente coordenadas, denunciam que os governos, banqueiros centrais e gestores de recursos não estão preparados e/ou devidamente protegidos para um crash. O mercado poderia muito bem reagir fortemente para cima nesta terça-feira, revertendo a sinalização bearish do dia anterior, pura e simplesmente em função de sua característica de imprevisibilidade e soberania, mas o fato é que houve nítido esforço para “abafar o caso” (temor de retorno da inflação).

O Japão puxou o primeiro pelotão da tropa de choque que passou por cima dos ursos nesta terça-feira. Haruhiko Kuroda, presidente do BoJ (Bank of Japan), fez um discurso reiterando sua visão otimista para a economia, ressaltando que os lucros das empresas e os fundamentos econômicos estão sólidos tanto no seu país, quanto no exterior.

O presidente do BoJ aproveitou para frisar a manutenção da política de relaxamento monetário extremamente agressiva, incluindo o forte programa de compras de ativos e meta de juros futuros de zero, refutando qualquer especulação de que a autoridade monetária japonesa esteja se preparando para uma retirada de estímulos no futuro (algo parecido como tapering dos Estados Unidos).

Shinzo Abe, primeiro ministro do Japão, também apareceu no Parlamento para apoiar a postura extremamente dovish do banco central japonês, com objetivo de alcançar a meta de inflação de 2% no longo prazo, acrescentando também haver espaço para melhora nas condições de emprego e salário.

Logo em seguida, grandes bancos de investimentos começaram entrar em ação, divulgando comunicados acalmando seus investidores. Mark Haefele, do suíço UBS, minimizou a recente derrocada no mercado afirmando que o movimento de segunda-feira foi motivado por fatores técnicos. Além disso, Haefele considera que o risco de o FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) elevar a taxa básica de juros rapidamente é muito baixo.

Para o todo poderoso Goldman Sachs, a base para o mercado de ações continua intacta. O movimento vendedor é, também, enxergado como uma “questão técnica”, não baseada nos fundamentos. O banco de investimentos reiterou sua expectativa de que o S&P500 termine este ano aos 2.850 pontos, com crescimento de 14% nos lucros das empresas que compõe a carteira teórica do índice.

Edward Evans, gestor da Ashmore Group, em Londres, afirmou que o motivo das disparadas nos preços dos ativos neste início de ano continua inalterado, com os lucros das companhias crescendo e as expectativas melhorando.

Leon Eidelman, do JP Morgan, acha que as ações estavam esticadas no curto przo e uma realização é perfeitamente saudável, apostando que o mercado continuará bull. Eidelman também foca sua tese nos fundamentos das empresas, acreditando na manutenção da trajetória de aumento dos lucros das empresas. Por fim, complementou dizendo que não tenta obter retorno comprando ações baratas, mas sim comprando ações de empresas bem posicionadas para crescer. Raciocínio típico de Wall Street em bull market (ninguém se preocupa com os preços em mercados de alta).

James Bullard, presidente da regional do FED de St. Louis, também apareceu para acalmar os investidores receosos com os próximos passos da autoridade monetária norte-americana. Bullard afirmou que o mercado interpretou as boas notícias do relatório de emprego divulgado na última sexta-feira como algo ruim, que poderia forçar aumento mais rápido da taxa básica de juros.

Entretanto, em sua visão, a relação empírica entre aumento de salários e retomada da inflação perdeu força nos últimos anos, ficando próxima de zero. Entre outras palavras, o aumento dos salários, diferentemente do passado, não tende a influenciar no processo de aceleração da inflação. Sem dúvida um diagnóstico ousado de Bullard, porém não tão diferente do que está sendo defendido por alguns analistas no mercado.

Por fim, Steven Mnuchin, secretário do Tesouro norte-americano, fechou o pelotão da tropa de choque nesta terça-feira, afirmando que estava monitorando o movimento em Wall Street, mas que ficou tranquilo após conversar com profissionais e participantes de mercado. Para Mnuchin, apesar de a queda ter sido grande, é considerada perfeitamente normal.

O secretário do Tesouro também culpou as operações de alta frequência (robôs que utilizam algoritmos nas negociações) como responsáveis pelo tombo de ontem. Não é a primeira vez que o governo aponta seus dedos para as operações de alta frequência a fim de justificar quedas rápidas e robustas no mercado, o que parece ser uma boa argumentação para satisfação do público em geral. Por ouro lado, em situações de mercado de alta rápida e robusta, os robôs nunca são mencionados.

Mercado

Sob os efeitos da tropa de choque, o mercado, que amanheceu ensaiando mais um tombo, virou muito forte para a compra, estopando algumas posições vendidas de curtíssimo prazo. Dow Jones subiu 2,33%, S&P500 valorizou 1,74% e Nasdaq avançou 2,13%, recuperando boa parte das perdas de ontem.

No Brasil, o dólar recuou para R$ 3,23, porém ainda acima da média móvel simples de 200 períodos diária. A taxa do contrato de juros futuros para 2020 cedeu para 8,06%, enquanto a curva para 2024 voltou para 9,74%, contaminadas pelo alívio no pregão desta terça-feira.

O índice Bovespa subiu 2,48%, recuperando praticamente todas as perdas sofridas no dia anterior, porém ainda abaixo da máxima registrada em 86k. O movimento desta terça-feira colaborou para fortalecer o piso psicológico na região dos 80k.

Vítimas da aposta contra a volatilidade

Tem sido cada vez maior o número de investidores que buscam instrumentos no mercado financeiro internacional para apostar contra a volatilidade, influenciados pelo longo período de bull market. Na prática, esses instrumentos permitem ganhar quando o VIX (índice de volatilidade) cai por um período, porém podem impor perdas quando o VIX sobe.

Eventos como o ocorrido no dia anterior, marcados pela disparada do VIX, podem quebrar investidores desatentos e/ou que apostam num longo período de cenário de baixa volatilidade na bolsa. O Credit Suisse anunciou a compra de seu fundo “XIV”, que apostava na volatilidade baixa, tirando o produto do mercado e impondo prejuízo significativo aos cotistas. Corre notícias de que a Nomura também teve de fechar seu fundo “SVXY” que apostava na volatilidade baixa, por conta das perdas significativas.

Esses dois fundos acumulavam cerca de 3 bilhões de dólares e não representam risco sistêmico. No ano passado, tiveram retorno de cerca de 180%, surfando o momento de volatilidade muito baixa no mercado.


Entretanto, bastou uma disparada do VIX para varrer os produtos do mercado. Para operar produtos atrelados à alta ou queda do VIX, é muito importante usar o timing para que as entradas e saídas sejam feitas em momentos oportunos, preferencialmente rápidas, até porque o indicador apresenta uma dinâmica diferente daquela observada nos índices acionários.

Indicador de inflação da OCDE

Segundo dados publicados pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), a inflação anual de seus 35 países-membros fechou em dezembro de 2017 aos 2,3%, levemente inferior aos 2,4% apresentados no mês de novembro, porém acima da taxa de 1,8% registrada no fim de 2016.

O indicador revela que a inflação ao consumidor nas maiores economias do mundo ganhou um pouco de força em 2017, mas ainda não alcançou nível preocupante, apesar de já não poder ser considerada uma inflação baixa demais.

RBA

O RBA (Reserve Bank of Australia) decidiu manter inalterada sua taxa básica de juros na mínima histórica de 1,5%, na primeira reunião de política monetária do ano, encerrada bem no olho do furacão da volatilidade no mercado.

O presidente do RBA, Philip Lowe, não se deu ao trabalho de comentar sobre o recente tombo no mercado, focando sua análise exclusivamente sobre o quadro doméstico, que por sinal apresenta melhora no mercado de trabalho, mas com avanço dos salários ainda fraco.

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4 comentários:

  1. Olá, F.I.
    Sobre produtos atrelados ao VIX, como já conversamos pessoalmente, é preciso ter muita cautela do que se está fazendo. Na ocasião que conversamos, falou-se sobre a impossibilidade de se ficar LONG nesses instrumentos (como ETP/ETF) já que esses produtos tendem a cair muito mais quando o VIX cai e a subir muito menos quando o VIX sobe. Isso se deve ao fato desses ETF sempre estarem negociando os contratos de opção no prazo de 30 dias (que é como o VIX é calculado, o VIX não mede a volatilidade atual do mercado, e sim a volatilidade baseada no preço das opções de compra e venda no prazo de 30 dias) quase sempre em contango. Então, há necessariamente head winds contra uma posição LONG. É por isso que infelizmente não dá para simplesmente comprar um ETF atrelado ao VIX quando ele chega a 10 e esperar uma reversão por meses. Agora, como bem salientado por você, para entradas de prazo bem mais curto, pode ser uma boa instrumentos atrelados ao VIX, sejam eles com uma postura comprado ou vendido (e quem quer mais volatidade ainda os alavancados).
    Um abraço amigo!

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    1. Grande mestre Soul!

      Obrigado por mais um excelente comentário. Uma pena que só fui verificar agora para autorizar (tenho de fazer isso, pois são muitos spams), tomara que mais pessoas estejam lendo esse post rs.. Lembrei sim daquela nossa conversa quando li sobre a quebra desses dois fundos. Impressionante mesmo o efeito long no VIX. À primeira vista parecia simples, mas definitivamente não é algo fácil de usar, nem mesmo para profissionais, o que dirá a chuva de investidores PFs que estavam alocados nesses fundos. Esses investidores estavam animados com o VIX justamente por conta do longo período de volatilidade baixa. Bastou um espirro para cima para acabar com a festa.

      Abs!

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  2. Vendo a declaração dos banqueiros mencionadas nos parágrafos 6º a 9º parece que veio um filme na minha cabeça de um vídeo em que um investidor norte americano falava em alguns programas de TV no ano de 2006 que oque os bancos e o FED estavam fazendo era uma loucura e que viria a explosão de uma bolha que a tempos não se via.

    E o curioso é que a resposta dos outros comentaristas (contrários a visão do pessimista) eram rigorosamente as mesmas do que os banqueiros falam entre os parágrafos 6º e 9º.

    É claro que ninguém possui o poder de prever o futuro, mas ao ler o comentário dos banqueiros a primeira coisa que me veio a cabeça foi aquela famosa frase "Eu já vi esse filme antes".

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