terça-feira, 6 de março de 2018

Bonds globais


Aproveitando para escapar um pouco do rotineiro noticiário policial brasileiro, que não por acaso acaba desviando atenção dos investidores aos pontos realmente relevantes para o mercado de capitais, bem como avaliação do cenário macroeconômico, o post desta terça-feira infelizmente será curto, pois, como podem notar, há pouco o que comentar sobre as últimas “apresentações” do nosso circo.

Por outro lado, há movimentação interessante no mercado global da dívida soberana. Por este motivo, o texto de hoje será focado apenas no mercado de bonds, com objetivo de atualizarmos o panorama para este importante segmento do sistema financeiro mundial.

O rendimento do título do tesouro norte-americano continua próximo da red line de 3% ao ano. Expandindo o gráfico de oscilação da taxa desde 2016, pode-se notar um movimento ascendente, com retomada de força no final do ano passado, ainda sem sinalização de interrupção.


O mercado ainda não se acostumou com o fato de o rendimento da Treasury estar próximo de 3% ao ano, levemente acima, inclusive, da perspectiva de longo prazo do FED para a FFR (Federal Funds Rate – taxa básica de juros dos Estados Unidos).

Enquanto as taxas futuras continuarem subindo nos Estados Unidos, não haverá sinalização de que os investidores e players de mercado estão abrindo compra no título soberano mais seguro do mundo. Portanto, com o fluxo ainda vendedor em Treausyrs, bonds de países mais arriscados seguem “livres” para surfarem suas respectivas ondas.

Quando o fluxo voltar a ser comprador em Treausrys, bonds de praças mais arriscadas podem sofrer impacto negativo (entre outras palavras, as taxas de juros futuras podem subir). Em algumas praças, inclusive, o mercado está antecipando este movimento.

Na Índia, a taxa de juros do título do tesouro com vencimento em 10 anos segue galopante. Após alcançar 6,2% no final de 2016, o bond indiano está sendo negociado aos 7,78% ao ano, mantendo em curso um forte movimento de reversão.


Apesar de pouco barulho, os bonds chineses estão estourando como pipoca. A taxa de juros do título com vencimento em 10 anos está sendo negociada aos 3,88%, após alcançar 2,60% no final de 2016.


O mesmo quadro pode ser observado no México. A taxa de juros do título soberano local com vencimento em 10 anos fechou esta terça-feira aos 7,62% ao ano, significativamente superior aos 5,80% registrados durante todo o ano de 2016.


Voltando às referências em bonds de praças desenvolvidas, pode-se notar que ajustes estão ocorrendo também nas taxas futuras alemãs. O título soberano com vencimento em 10 anos está sendo negociado aos 0,68% ao ano. Apesar de ainda ser considerada uma taxa futura muito baixa, representa desvalorização significativa frente aos 0,20% registrados no final de 2016.


No Reino Unido, o ajuste também foi considerado relevante. No final de 2016 a taxa de juros do título do tesouro britânico com vencimento em 10 anos era negociada na casa dos 0,60%. Hoje, o mercado fechou pagando 1,52% ao ano.
  
  
Até mesmo os japoneses, que sentiram o gosto de operar juros futuros em terreno negativo por algum tempo, estão pagando um preço maior. No final de 2016, a taxa de juros do título do tesouro japonês com vencimento em 10 anos era de -0,30% (isso mesmo, literalmente perde-se dinheiro caso o título seja carregado até o vencimento). Atualmente o mercado está pagando 0,06% ao ano no título com vencimento em 10 anos, até porque o BoJ (Bank of Japan) possui objetivo de manter a taxa deste título próxima de zero.


Na Rússia, a taxa de juros do título soberano com vencimento em 10 anos segue trabalhando movimento descendente. Em 2016, o título chegou a ser negociado com uma taxa de dois dígitos. Hoje, o mercado está pagando 7,06% ao ano no bond russo com vencimento em 10 anos, sinalizando, ainda, intensa força compradora.


O Brasil é outra praça emergente de destaque no cenário global, pois a curva de juros futuros também segue descolada. Após atingir exorbitantes 17% em 2016, hoje o mercado está pagando 9,47% ao ano no título soberano com vencimento em 10 anos. Isso significa que o fluxo segue comprador em bonds brasileiros, porém não tão intenso quanto o observado ao longo de 2016.


Ainda não há sinalização de que a discrepância direcional em alguns bonds está próxima do fim. Mesmo compradoras há um bom tempo, as taxas russas e brasileiras ainda podem apresentar atratividade aos investidores. Entretanto, é importante ressaltar que alguns de nossos concorrentes estão, aos poucos, pagando mais prêmio em seus títulos soberanos, o pode reduzir o potencial de queda de nossas taxas futuras para o médio e longo prazo, ou mesmo fazê-las voltarem a subir.

A taxa de juros futuros brasileira também deixou de ser campeã do mundo. Hoje, a Turquia está pagando mais no título com vencimento em 10 anos, 11,81%. Nigéria e Kenya estão pagando, respectivamente, 13,71% e 13,10 ao ano. África do Sul, nossa concorrente direta, está oferecendo um prêmio de 8,21% ao ano no título com vencimento em 10 anos.

O Brasil continua oferecendo um prêmio razoável em relação aos seus pares, mas nada tão gritante quanto no passado. Também não podemos sonhar com uma terra de juros significativamente baixos com tantos desequilíbrios macroeconômicos, até porque o nosso endividamento é considerado um dos maiores do mundo entre países emergentes.

O Banco Central tem poder para jogar a taxa básica de juros ao patamar desejado, mas não é fácil convencer os investidores a segui-lo nos contratos de juros futuros. Por este motivo existe GAP entre Selic versus LTNs/NTNFs (juros futuros) de longo prazo. Investidores e players de bonds estão atentos ao rápido crescimento do endividamento nos últimos anos, o que combinado com juros ainda considerados elevados, sinalizam quadro insustentável a longo prazo.

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4 comentários:

  1. Também a taxa Libor em dólar vem subindo consideravelmente, embora a FFR esteja nos seus 1,42% a taxa de 3 meses da Libor em dólar já passou da casa dos 2%.

    E para uma taxa tão importante e que em 2015 estava em 0,25%, deve ter muita gente sendo pressionada por esse aumento.

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    1. A taxa Libor está em processo de extinção. A perspectiva é que a Libor vai deixar de existir completamente em 2021. Será trocada por uma taxa a ser calculada por um sistema baseado em transações reais no overnight com todas as instituições, diferente do cálculo da Libor (estimativas de especialistas de 20 bancos no Reino Unido). A transição para a nova taxa será gradual.

      Abs,

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  2. Gostaria de saber se as reservas internacionais do Brasil de 384 bilhões de dólares tem alguma influência nesse contexto e se realmente representa benefício para o nosso país.

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    1. Sim, as nossas reservas internacionais são consideradas elevadas e uma importante bala na agulha para ser usada no futuro, se necessário, como gostam de dizer os diretores do BC rs..

      Abs,

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