quarta-feira, 21 de março de 2018

Gráfico de pontos mostra FED mais hawkish


O Comitê de Política Monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) decidiu na tarde desta quarta-feira elevar a FFR (Federal Funds Rate – taxa básica de juros norte-americana) em 0,25 p.p., para o intervalo de 1,5% a 1,75% ao ano.

A primeira reunião de Comitê sob o comando do novo chair, Jerome Powell, foi marcada por uma divisão acirrada para o cenário sobre a FFR neste ano, além de alterações relevantes sobre a avaliação da economia, taxa de juros neutra e ritmo do processo de aperto monetário.

O quadro de projeções do FED aponta que a mediana das projeções de seus membros para a FFR ficou em 2,1% em 2018, inalterada frente à projeção realizada em dezembro do ano passado. Havia grande temor no mercado de que a mediana para a FFR de 2018 fosse alterada para cima, o que a princípio causou alívio entre investidores e players de mercado no mundo inteiro.

Apesar de mantida a mediana em 2,1% para a FFR em 2018, os membros do Comitê estão, hoje, mais divididos do que há cerca de três meses atrás. Em dezembro/2017, apenas quatro membros apostavam numa FFR maior do que a mediana:


Na reunião encerrada nesta quarta-feira, seis membros do Comitê continuam apostando numa FFR em 2,1% em 2018, porém outros seis membros estão apostando agora num patamar maior para a FFR em 2018, a 2,4%:


A divisão está nítida e não há, portanto, consenso sobre a FFR no fechamento de 2018 (círculos vermelhos no gráfico acima). Um membro mais hawkish acredita em FFR aos 2,6% e outros dois membros super-dovish circulam fora de órbita com expectativa de 1,6% para a FFR em 2018 (seta verde no gráfico acima). Por apenas um ponto/voto de diferença, justamente do membro excessivamente dovish, a mediana para a FFR em 2018 fechou aos 2,1%.

Além de mostrar que o jogo está aberto para a FFR neste ano, o gráfico de pontos mostra que mais membros estão apostando em FFR mais elevada em 2019 e 2020 (basta observar o deslocamento da pontuação entre a projeção de dezembro/2017 e a projeção de março/2018). Isso significa que o FED está mais hawkish para os próximos 2 anos, algo que há muito tempo não acontecia no mercado e ainda será digerido ao longo do tempo.

O peso mais hawkish até 2019 pode ser o primeiro reflexo da autoridade monetária em relação ao pacote tributário aprovado no final do ano passado. O Banco Central norte-americano reconhece que a perspectiva econômica se fortaleceu e segue tomando ações preventivas e moderadas (elevações graduais na FFR) ainda com a inflação sem causar ameaça de rompimento do centro da meta.

Apesar de manter uma estratégia de normalização das condições monetárias gradual, o ritmo do processo de aperto monetário não será tão lento quanto se estimava até o final do ano passado. A consequência de um processo mais intenso (ou não tão devagar) está na elevação da mediana para a taxa neutra de longo prazo, que saiu de 2,8% para 2,9% ao ano. A taxa neutra é o nível de juros em que os membros do Comitê acreditam não impulsionar e nem desacelerar a economia.

O FED também elevou sua estimativa para o crescimento de curto e médio prazo. Para 2018, a expectativa para o PIB dos Estados Unidos subiu de 2,5% para 2,7%. Para 2019, a estimativa subiu de 2,1% para 2,4%. Em 2020, a projeção ficou inalterada em 2,0%.

Acompanhando o processo de aceleração no ritmo de crescimento, a estimativa para a taxa de desemprego voltou a recuar. Para 2018, a projeção foi revista de 3,9% para 3,8%. Para 2019, a estimativa é que a taxa de desemprego recue novamente para 3,6% (inferior aos 3,9% divulgados em dezembro/2017). Em 2020, a estimativa para a taxa de desemprego recuou de 4,0% para 3,6%.

Como de costume, apesar de esperar crescimento mais forte e mercado de trabalho mais aquecido (taxa de desemprego em nível muito baixo, inclusive para padrões históricos), a expectativa para a inflação continua não saindo do lugar. 

O FED espera que a inflação alcance 1,9% em 2018, 2,0% em 2019 e 2,1% em 2020, praticamente inalterada frente à última projeção. Para o núcleo de inflação, permanece o mesmo cenário, expectativa de 1,9% em 2018, 2,1% em 2019 e 2,1% em 2020, sem causar ameaça de distanciamento do centro da meta de 2,0% a ser perseguida.

As estimativas para a inflação continuam estranhamente descasadas com as revisões para o PIB e taxa de desemprego. Jerome Powell foi confrontado sobre esse ponto em entrevista coletiva concedida à imprensa logo após a reunião de Comitê, se limitando a afirmar que as pressões de preços tem sido fracas há anos e não há razões para acreditar que isso mudará em breve.

Talvez o FED não esteja querendo promover a impressão de que a política monetária está se deslocando a um ritmo mais rápido do que o observado no passado recente e, para isso, tem segurado as projeções de inflação, apesar de estimar FFR mais elevada nos próximos anos.

Inquestionavelmente o FED está tomando uma rota mais agressiva na política monetária. As declarações são feitas com muito cuidado e os números são revistos aos poucos, sem causar muito alarde, ao mesmo tempo em que se tenta transmitir mensagem de tranquilidade com a inflação (o que pode ser um indicativo de certa tolerância em relação à meta no futuro) e que um processo mais intenso de elevações na FFR é bom por mostrar que a economia está crescendo em ritmo mais intenso.

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3 comentários:

  1. Bom post.
    Apenas uma anotação: acho que você confundiu os conceitos de média e mediana.
    Mesmo que, em vez dos dois votos dovish no gráfico de pontos,esses votos fossem idênticos aos dos 6 que votaram em três altas, a mediana continuaria sendo a mesma (mas não a média).
    Pois, "mediana é o valor que separa a metade maior e a metade menor de uma amostra, uma população ou uma distribuição de probabilidade. Em termos mais simples, mediana pode ser o valor do meio de um conjunto de dados" (Wiki).
    Abraços,

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    Respostas
    1. Muito bem observado! É uma projeção de mediana e não de média. A média teria sido maior, mas não a mediana. Teria que pular um pra cima para a mediana subir. Obrigado pela correção!

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  2. Metade maior e metade menor???

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