terça-feira, 20 de março de 2018

Não há motivo para corte adicional na taxa Selic


Existe um grande clima de ansiedade no mercado local para o comunicado do Banco Central a ser divulgado na noite desta próxima quarta-feira. O mercado aposta todas as suas fichas numa queda de 0,25 p.p. na reunião de amanhã, o que jogaria a taxa Selic para 6,50% ao ano.

Apesar de a comunicação oficial do Banco Central não ter deixado claro esse movimento, (pelo contrário, no último comunicado pode-se notar pretensão de interrupção do ciclo de afrouxamento monetário) membros do Copom (Comitê de Política Monetária) não se deram ao trabalho de desmentir/quebrar as expectativas do mercado, o que pode ser um sinal de que a taxa Selic vá mesmo cair 0,25 p.p., saciando a fome de vários players no mercado de juros futuros.

Entretanto, para a próxima reunião a ser realizada nos dias 15 e 16 de maio, o mercado aguarda por sinalizações da autoridade monetária de que um novo corte de 0,25 p.p. poderá ocorrer. Com a curva de juros futuros em trajetória descendente, sempre haverá desejo por novos cortes na taxa básica de juros. O mercado está posicionado há muito tempo a favor da curva e tem ambição por maiores ganhos. Esse ciclo só será interrompido quando o Banco Central resolver acabar com a festa. É isso que provavelmente acontecerá amanhã.

Em primeiro lugar, do ponto de vista do horizonte de longo prazo para a política monetária, não há motivo para derrubar novamente a taxa Selic para 6,25% ao ano na reunião do Copom a ser realizada no mês de maio. Talvez não exista razão nem mesmo para derrubar a Selic a 6,50% ao ano amanhã, mas o Banco Central parece que vai ouvir este último desejo do mercado.

Ao contrário da lavagem cerebral pró-desaceleração da inflação vista nas últimas semanas, os números mostram que o IPCA no acumulado de 12 meses encerrou a trajetória de desaceleração, ancorando-se pouco abaixo de 3% ao ano, mesmo com a economia operando em lenta trajetória de recuperação.

Para isso, basta comparar o IPCA acumulado de 12 meses registrado no mês de fevereiro/2018 (2,84%) contra o IPCA de 12 meses registrado em janeiro/2018 (2,85%). A desaceleração da inflação atingiu pico em agosto/2017, quando o acumulado dos últimos 12 meses naquele mês fechou aos 2,45%. Desde agosto do ano passado, a inflação no acumulado de um ano voltou acelerar, atingindo 2,80% em novembro/2017, que por sinal passou a ser o novo patamar de ancoraragem. Portanto, não é possível notar mais um movimento de desaceleração da inflação.

Em segundo lugar o câmbio não está tão perto do piso registrado no passado recente. Quando a inflação atingiu pico de desaceleração no mês de agosto/2017, o dólar rondava R$ 3,15. Hoje, o dólar está em R$ 3,30, não tão alto comparado aos R$ 3,15, mas já adicionando pressão inflacionária superior a do passado recente.

Em terceiro lugar, não houve mudanças favoráveis na evolução do cenário básico e do balanço de riscos desde a última reunião do Copom. Bom lembrar que o Banco Central afirmou em fevereiro que uma flexibilização monetária adicional poderia ocorrer em caso de mudanças na evolução do cenário básico e balanço de riscos.

Desde a última reunião do Copom realizada em fevereiro, o clima no mercado internacional ficou mais azedo (ou menos otimista do que o observado nos últimos meses), os rendimentos das Treasurys subiram, a reforma da previdência foi oficialmente enterrada, mais despesas foram criadas (vide intervenção no Rio) e não se observa empenho do Congresso para desarmar a bomba fiscal programada para estourar em 2019. 

Importante ressaltar que os brasileiros precisam eleger 2/3 de um Congresso reformista e não somente um presidente reformista. A equação é bastante simples. Alckmin sem 2/3 do Congresso = Temer. Agenda pró-reforma que não avança. Levando em consideração nosso histórico eleitoral, as perspectivas para o novo Congresso dos próximos 4 anos não são nada boas.

Em quarto lugar, nossa taxa básica de juros já está levemente abaixo da taxa praticada em nossos pares emergentes. Na África do Sul, a taxa básica de juros está em 6,75% ao ano. Na Índia reformista, a taxa básica de juros está em 6,00% ao ano.  A taxa básica de juros na Rússia está em 7,50% ao ano, no mesmo patamar da taxa de juros da economia mexicana. Na Turquia, a taxa básica de juros está em 8,00% ao ano.

Não temos tantas qualidades macroeconômicas e fundamentos fiscais para distanciarmos deste pelotão. Selic de 6,75% ao ano já pode ser considerado um jeitinho brasileiro de escapar pelas beiradas. Selic de 6,50% é praticamente um flagrante de fuga, porém o mercado tem aceitado fazer vista grossa, até porque as posições majoritárias ainda são a favor da curva.

O Banco Central pode apresentar um comunicado amanhã fechando as portas para novos cortes na taxa básica de juros. Todavia, o fato de a Selic atingir piso não significa, necessariamente, que a festa chegará ao fim no mercado de juros futuros.

Se os analistas/economistas avaliarem que o Banco Central está “jogando duro” contra a inflação pelo simples fato de não sinalizar novos cortes na taxa Selic, e, principalmente, se os gestores de fundos de tesoureiros de bancos apostarem nessa lorota, os contratos de juros futuros da ponta longa podem continuar cedendo, pois será criado um clima no mercado de Banco Central “hawkish demais”, o que em tese impediria uma inflação alta no horizonte de longo prazo para a política monetária, abrindo espaço para cortes futuros na taxa Selic.

Finalizando, apesar de claramente não haver motivo para corte adicional na taxa Selic, o mercado pode tentar insistir manter a festa nos contratos de juros futuros da ponta longa por mais algum tempo. Tudo dependerá da (nova) conversa fiada que começará surgir a partir de amanhã para sustentar as posições a favor da queda das taxas futuras. Afinal de contas, por enquanto, ninguém parece estar preocupado com o dólar, fiscal, cenário macro, etc.

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