sexta-feira, 9 de março de 2018

O desejo se impondo aos fatos


Na última ata do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central), pode-se notar que os membros do Comitê ficaram divididos entre sinalizar um possível fim do ciclo de corte na taxa básica de juros ou manter maior grau de liberdade para a próxima reunião (o que deixaria mais nitidamente aberta a porta para novo corte na taxa Selic).

Bom lembrar que em seu último comunicado, o Banco Central admitiu que “para a próxima reunião, caso o cenário básico evolua conforme esperado, o Comitê vê, neste momento, como mais adequada a interrupção do processo de flexibilização monetária”. Porém, a autoridade monetária também considerou que “essa visão para a próxima reunião pode se alterar e levar a uma flexibilização monetária moderada adicional, caso haja mudanças na evolução do cenário básico e do balanço de riscos”.

Considerando essas importantes ponderações, duas perguntas simples poderiam definir o rumo/patamar da taxa básica de juros daqui pra frente. O cenário básico evoluiu conforme o esperado desde a última reunião do Copom? Sim. Houve mudanças na evolução do cenário básico e do balanço de riscos? Não.

Considerando as respostas destas duas perguntas, o Banco Central não deveria cortar a taxa básica de juros nesta reunião do mês de março. Não houve movimentação relevante no mercado de câmbio, nem nos fluxos de capitais. Na inflação local, não houve surpresas positivas nem negativas, o IPCA de fevereiro (0,32%) veio praticamente em linha com as expectativas. O único fato relevante que surgiu entre a última reunião do Copom e o cenário atual está relacionado à reforma da previdência, que foi oficialmente para o brejo. Esse evento é considerado, inclusive, negativo para o horizonte de longo prazo para a política monetária.

Como estamos habituados a trabalhar erroneamente com excesso de peso no cenário de curto prazo, a não aprovação da reforma da previdência, com graves efeitos fiscais colaterais, simplesmente está sendo descartada/empurrada para uma resposta da autoridade monetária no futuro, talvez já sob uma nova administração.

Em suma, considerando os apontamentos da última reunião do Copom, não há motivo algum para novo corte na taxa básica de juros. Entretanto, existe a sensação de que ninguém no mercado acredita que a autoridade monetária deverá manter a taxa básica de juros inalterada em 6,75% ao ano.

Todos parecem desejar novo corte de 0,25 p.p., o que levaria a taxa Selic para 6,50% ao ano neste mês de março. Alguns já estão esperando Selic de 6,25% em maio. É possível que esse sentimento do mercado esteja sendo alimentado pelas apostas generalizadas a favor da continuação do movimento de queda das taxas de juros futuros, principalmente na ponta longa, onde ainda existe algum prêmio. Uma interrupção no ciclo de cortes da taxa básica de juros poderia colocar em risco as posições abertas nos futuros e, talvez, causar pânico no fechamento de posições as pressas.

Não há dúvida de que um novo corte de 0,25 p.p. agradaria o mercado, mas lamentavelmente sinalizaria um Banco Central rasgando a credibilidade de sua comunicação, pois o plano inicialmente traçado estaria simplesmente sendo descartado sem motivo. Além disso, um novo corte na taxa Selic poderia demonstrar uma autoridade monetária fazendo o jogo do mercado e não o seu.

Entrar no jogo do mercado pode criar risco desnecessário ao horizonte de longo prazo para a política monetária. Os argumentos defendidos a unhas e dentes em cada canto do mercado não se justificam. Desde novembro do ano passado, o acumulado dos últimos 12 meses da inflação não tem apresentado nenhuma surpresa positiva (ou, em outras palavras, desaceleração da inflação).

Com o IPCA de 0,32% em fevereiro, nos últimos 12 meses estamos com uma alta acumulada de 2,84%. Em novembro/2017, o IPCA acumulado dos últimos 12 meses ficou em 2,80%. Entre novembro/2017 a fevereiro/2018, a inflação acumulada pouco se alterou. Está claro, portanto, que ao menos por enquanto, o movimento de desaceleração da inflação chegou ao fim, mesmo com a economia ainda em fraca trajetória de retomada.

Payroll

O Departamento de Trabalho dos Estados Unidos informou nesta sexta-feira a criação de 313 mil postos de trabalho no mês passado, significativamente acima das expectativas de 205 mil novos empregos, registrando o maior aumento em mais de um ano e meio.

Entretanto, a renda média por hora trabalhada, dado que passou a ser acompanhado de perto pelo mercado por ser um importante indicativo para a inflação futura, aumentou apenas 0,1% em fevereiro. No mês de janeiro/2018, a renda média por hora trabalhada aumentou 0,3%. Com o número de fevereiro, o aumento na base anual da hora trabalhada recuou de 2,8% para 2,6%, aliviando temores (ao menos por enquanto) de uma aceleração no processo de normalização das condições monetárias por parte do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos).

China

O presidente do Banco Popular (autoridade monetária chinesa) afirmou em coletiva de imprensa nesta sexta-feira na cidade de Pequim que o modelo de crescimento do país vai contar com menos estímulo do Banco Central no futuro.

A declaração do presidente do Banco Popular reforça discursos recentes de autoridades do alto escalão do governo chinês, onde é esperado já para este ano uma política de corte de gastos e redução do elevado nível de endividamento, considerado um dos principais problemas da economia local.

A inflação na China também começa apresentar sinais de aceleração. No mês de fevereiro, o índice de preços ao consumidor subiu 2,9% na base anual, bem acima da alta de 1,5% registrada no mês passado. Parte desta discrepância pode ser explicada pelo momento de celebração do feriado do Ano Novo Lunar. Ainda assim, a inflação anualizada em fevereiro atingiu o maior nível desde novembro/2013.

BoJ

O Comitê de Política Monetária do BoJ (Bank of Japan) decidiu manter inalterada sua estratégia de política monetária nesta sexta-feira, com juros de curto prazo em -0,1% e meta de zero no rendimento do título do tesouro com vencimento em 10 anos.

Haruhiko Kuroda, presidente do BoJ, rechaçou novamente especulações de que os estímulos monetários possam ser reduzidos no futuro. Kuroda afirmou que o BoJ vai continuar mantendo seu forte programa mensal de compra de ativos até que a inflação alcance a meta de 2%, já admitindo que este objetivo pode não ser alcançado em 2020.

O presidente do BoJ também adotou um tom semelhante ao de Mario Draghi, presidente do BCE, aproveitando o gancho da medida protecionista de Trump para transmitir uma mensagem dovish ao mercado, afirmando que se uma disputa comercial global fizer a economia japonesa perder força, o BoJ vai considerar afrouxar ainda mais sua política monetária.

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2 comentários:

  1. Boa tarde. No "mercado" de juros, o mercado deve tentar seguir o governo ou governo seguir o mercado. Enfim, o mercado tem força para elevar ou baixar a selic com base nas suas apostas?

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    1. Em teoria não. Mas na prática o mercado tem sua força, pois nenhum banqueiro central quer criar pânico no mercado local com um movimento imprevisto ou surpreendente.

      Abs,

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