quarta-feira, 21 de março de 2018

Selic sem fundo


O Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil cortou novamente a taxa básica de juros em 0,25 p.p. na reunião encerrada na noite desta quarta-feira. O deslocamento da Selic para 6,50% ao ano era amplamente esperado pelo mercado, saciando a fome das posições carregadas a favor da curva de juros futuros.

O Banco Central não somente correspondeu com as expectativas do mercado, como também aumentou o tamanho da aposta. Para a próxima reunião a ser realizada nos dias 15 e 16 de maio, por incrível que pareça, está praticamente cravado um novo corte de 0,25 p.p., o que, se confirmado, jogará a taxa Selic para apenas 6,25% ao ano.

O movimento da autoridade monetária brasileira é simplesmente impressionante, indo totalmente contra a própria linha traçada no comunicado emitido ao mercado no mês de fevereiro (quando a Selic caiu para 6,75%), onde o Banco Central considerou que, para a próxima reunião (deste mês), “caso o cenário básico evolua conforme esperado, o Comitê vê, neste momento, como adequada à interrupção do processo de flexibilização monetária”.

Houve uma guinada na comunicação, dificilmente de ser explicada pelos números ou cenário macroeconômico. Os membros do Comitê se mostram surpresos com a inflação “baixa” neste ano, apesar de não haver mais sinais de desaceleração no acumulado do IPCA dos últimos 12 meses.

O Banco Central também afirma que o cenário externo tem se mostrado favorável, mesmo com o aumento da volatilidade nas bolsas de valores, retomada ascendente dos rendimentos das Treausurys e demais títulos da dívida soberana de países desenvolvidos e emergentes e fortalecimento do dólar. Não houve qualquer menção ao recente acirramento de medidas protecionistas com potencial de impacto relevante/efeito dominó para várias economias do planeta.

No cenário interno, também não houve alteração no texto relacionado à importância das reformas estruturais para manutenção dos juros baixos, o que mostra uma bela de uma desconsideração frente à toalha jogada para a reforma da previdência, que até então não estava no script do cenário traçado no mês de fevereiro. Também não há menção à situação fiscal caótica, visivelmente a caminho de um estouro em 2019, nem sequer preocupação com o ambiente propício para polarização política.

O Banco Central quer porque quer cortar a taxa Selic. A inflação abaixo da meta dos últimos 12 meses é comemorada como se fosse algo normal/aceitável para um país duramente afetado por uma recessão atípica, muito longe de recuperar o nível de força econômica registrado no passado.

Uma recuperação capenga de 1%, acompanhada por taxa de desemprego em nível recorde, está criando inflação de 3%. Os números estão invertidos. Considerando a base super fraca (impactada pela forte recessão), a economia tinha que estar crescendo 3% e a inflação 1%. Estamos apenas recuperando parte do que perdemos e mesmo assim criamos inflação.

Parece não haver espaço/relevância dentro do Banco Central para palavras como consideração, fundamentos, perspectivas, riscos, ambiente externo. O mercado endossa a iniciativa de tapar o sol com a peneira, pois, no momento, qualquer coisa que possa atrapalhar a festa nos juros futuros está sendo desconsiderada.

Não desagrada ao Banco Central, nem muito menos ao governo, a continuação do movimento de queda nas taxas de juros futuros. Primeiramente é importante considerar que quanto menor a taxa pós-fixada e pré-fixada, menor o custo da dívida. Se o Banco Central quer forçar um recuo da taxa pré-fixada e o mercado o acompanha, o país ganha mais um tempinho de sobrevida, pois com um custo menor, certamente os políticos farão o possível para prorrogar os ajustes.

Portanto, é possível que o país esteja aproveitando o GAP de oportunidade do mercado comprador e feliz. O contrato de juros futuros com vencimento em 2024 está pagando 9,30%. Considerando Selic de 6,25%, esse contrato, caso permanecesse inalterado, estaria embutindo um prêmio gordo de 3 p.p. Isso significa que se o mercado comprar a aposta do Banco Central e o prêmio cair pela metade na ponta longa, ainda restaria uma gordura de 1,5 p.p. sobre a taxa básica de juros.

Além disso, nossa história mostra que reduções da taxa básica de juros em ano eleitoral costumam render bons frutos nos palanques. Ninguém se atreve suspeitar de qualquer movimento desta equipe atual, pois os membros são considerados “ortodoxos” e/ou pró-mercado. Mas o fato é que a diferença regimental deste do Copom para a equipe anterior, acusada de se submeter a pressões políticas é... nenhuma.

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16 comentários:

  1. Excelente análise, parabéns!

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  2. Sem surpresa. Political cycles and the macroeconomy. Depois das eleições, eles aumentam.

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  3. Encaro esse movimento como puramente politico. Como você bem destaca em seus posts, não vemos um cenário que justifique esses cortes.

    Com essa mensagem, parece claro que o banco central está apoiando alguém...

    Parabéns pelo excelente trabalho! Sempre acompanho!

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  4. FI, gosto das suas análises, mas muitas vezes sinto dificuldades em entendê-las. Seria interessante se você considerasse escrever de forma mais popular, dando exemplos práticos do impacto dessas medidas do BC, por exemplo.

    Abraço

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    1. É verdade MIN, as vezes peco neste ponto. É um vício difícil de consertar após tantos anos no mercado rs.. Mas obrigado por chamar atenção, realmente estou me policiando para escrever de forma mais elucidativa possível, o que me atrapalha às vezes é o tempo para deixar o post bem simples e formatado. São algumas horas adicionais necessárias que atualmente estão difíceis de encontrar.

      Abs,

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  5. Com certeza este "otimismo" todo é pensando nas eleições no final do ano. Quer discurso político melhor do que "no meu governo a Selic chegou ao valor mais baixo da história"? Com os juros mais baixos, o investimento sobe um pouco, o desemprego cai um pouquinho, o povo consome um tiquinho a mais, fica um tantinho mais feliz e vota no candidato governista, o controle da inflação que fique para depois da eleição (lembra quem, em um não tão longínquo ano de 2014?).

    Mas sabe que acho que isso é risco calculado do mercado? Se isso aumentar as chances de um candidato governista comprometido com as reformas, então os investidores estão dispostos a suportar um ano de ganhos mais baixos, em troca da oposição não voltar ao poder. Imagina alguém do perfil do Lula ou do Ciro ganhando a eleição? A economia vai pro ralo.

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    1. Eu discordo deste cálculo do mercado, que parece ser praticamente unanimidade hoje nas casas de investimentos, análises, gestoras, etc. Na minha humilde avaliação, há risco considerável de um candidato não reformista eleito este ano e, principalmente, de um Congresso mais do mesmo.

      Abs,

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  6. Mais um voo de galinha que vamos dar, a hora que o aumento dos juros nos EUA começarem a virar o cenário externo vamos para o buraco de novo.

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    1. Já está difícil sair do buraco rs... Vide PIB per capita

      Abs,

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  7. Quando acontecer o estouro em 2019 o que vai acontecer com a Selic? Obrigado pelo texto

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    1. Quando e se estourar, o que vai acontecer com a Selic é imprevisível, pois depende da estratégia do Banco Central (leia-se governo). Mas a inflação, que não pode ser controlada pelo governo, conforme bem observado no governo Dilma, parece inevitável que voltará a subir.

      Abs,

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  8. FI, e o presidente do BC foi agraciado com um premio de: "O melhor Banco Central do Mundo" viu essa noticia ? rsrs

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    1. Nossa, não tinha visto! Pesquisei rapidamente aqui, e foi mesmo, pela revista britânica The Banker. Bom, pelo menos já sei o que não ler no Reino Unido rs..

      Abs,

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