segunda-feira, 16 de abril de 2018

E se Marina Silva apertar a mão de Joaquim Barbosa?


A formação de uma chapa forte de centro-esquerda era um cenário injustificadamente pouco esperado pelo mercado. De maneira geral, criou-se o falso clima de que uma candidatura de centro ou centro-direita teria mais condições de vitória nas eleições presidenciais deste ano, já que a esquerda estaria enfraquecida e o país precisa urgentemente avançar nas reformas.

O mercado está consciente da importância das reformas, mas o povo não. A classe média está sofrendo com a taxa de desemprego elevada e recuperação econômica frustrante. A logomarca ortodoxa paraguaia da duplinha Temer- Meirelles só contribuiu para descrença de uma agenda liberal. O experimento heterodoxo da Dilma-Mantega falhou enormemente, mas o “ortodoxo” de Temer-Meirelles também.

No experimento Dilma-Mantega o povo sofreu com a inflação, mas não perdeu emprego. No experimento Temer-Meirelles o povo não sofreu com a inflação, mas perdeu emprego. Não se trata de defender políticas heterodoxas medonhas do passado, nem muito menos criticar o discurso de viés ortodoxo do presente (que na realidade, há muito falatório e pouco ortodoxismo implementado na prática). Do ponto de vista do povo, principalmente das famílias de classe média, o que é menos pior: (i) sofrer com inflação ou (ii) sofrer com desemprego, principalmente qualificado?

Além do fardo do desemprego elevado, o falso ortodoxismo de Temer-Meirelles só piorou a situação do endividamento do governo, onde não há, sequer, perspectiva real para alcançar mísero 0,1% de superávit primário. O ajuste fiscal prometido acabou sendo basicamente um corte nos investimentos (levando para níveis ridiculamente baixos), enquanto uma chuva de benefícios ineficientes ao empresariado foram mantidos e sequer são discutidos no governo.

É muita munição para a centro-esquerda atacar nas campanhas eleitorais. Candidatos de centro e/ou centro-direita se defenderão com o que? Alguém terá coragem de propor a reforma da previdência? Por que, então, o mercado estava convicto de uma candidatura de centro ou centro-direita (leia-se Alckmin ou Meirelles)?

O mercado tem medo da centro-esquerda e tenta, a qualquer custo, vender a viabilidade de centro ou centro-direita. É possível ter uma noção da agenda de Alckmin ou Meirelles, mas não da Marina Silva ou Joaquim Barbosa. A depender do que for feito a partir de 2019, estaremos caminhando para uma tragédia ou arrumando a casa para um futuro promissor. Não há espaço para uma agenda de meio termo com endividamento passando de 80% do PIB, aliado à carga de juros ainda elevada.

A última pesquisa Datafolha mostrou duas figuras com baixa exposição à mídia se fortalecendo sem a presença de Lula na disputa: Marina Silva e Joaquim Barbosa. Bolsonaro e Marina aparecem empatados tecnicamente à frente na disputa. Logo atrás aparece o ex-ministro do STF, Joaquim Barbosa, com 10% das intenções de voto. Em quarto lugar, Ciro Gomes alcançou 9% e Alckmin ficou em quinto, com apenas 8% das intenções de voto. Meirelles nem vale a pena mencionar.

O que muitos estão pensando no mercado desde a divulgação desta última pesquisa é o que aconteceria se Marina Silva formasse chapa com Joaquim Barbosa? Uma forte aliança de centro-esquerda estaria formada, e, ainda, poderia ter apoio de Ciro Gomes no segundo turno.

Bom lembrar que Marina Silva esteve perto de chegar ao segundo turno na última eleição. Não conseguiu, pois foi bombardeada pela campanha petista. É uma figura bem conhecida pelo povo e pode capturar votos dos jovens e da esquerda perdida sem Lula..

Por outro lado, Joaquim Barbosa pode ser considerado a peça-chave para a eventual chapa ganhar as eleições. Barbosa é o único outsider na disputa, conseguirá capturar sem muita dificuldade os votos dos eleitores insatisfeitos com a política tradicional, independente de centro, direita ou esquerda. O ex-ministro do STF também carrega a importante imagem de combatente à corrupção, marcada pelo julgamento do mensalão. É o nome com maior potencial para ocupar o vácuo da insatisfação com o sistema político e o desejo por renovação.

O Ibovespa cedeu 1,75% nesta segunda-feira, destoado das demais praças financeiras mundiais, não porque os analistas consideram que a eleição está muito imprevisível, mas sim pelo contrário, a centro-direita de Alckmin está praticamente fora do jogo e a centro-esquerda se fortalece sem o Lula na extrema-esquerda.

Com o tombo desta segunda-feira, o Ibovespa retorna para o principal ponto de sustentação de curto prazo, com o peso de dois candles de força vendedora relevante pressionando para a quebra do ponto de apoio nos próximos dias. Abaixo de 82,8k, um pivot de baixa será acionado, tirando o mercado de uma congestão de curto prazo, o que poderá fortalecer a tendência de queda iniciada em 88k.

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15 comentários:

  1. Bom dia!

    Quando você se refere que os juros ainda estão altos, mesmo a selic estando em 6.25%, você esta se referindo a países de primeiro mundo que possuem uma taxa de juros próxima de zero!?

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    1. Em alguns países não existe taxa juros flutuante, como o Tesouro Selic (LFT). A referência são os juros com vencimento em 10 anos. Nos Estados Unidos, a taxa do título do Tesouro de 10 anos está em 2,82% ao ano. É considerada uma taxa de juros baixa, o que permite manutenção de um elevado nível de endividamento. O mesmo ocorre com Reino Unido (taxa de juros de 10 anos em 1,44%), Alemanha (taxa de juros de 10 anos em 0,51%), França (0,73%), Itália (1,76%), Japão (0,04%), entre outros. A dívida do Japão é de 253% PIB. É impagável, mas com um custo de 0,04% ao ano, pouco importa o nível de endividamento, por conta disso ninguém está preocupado com a insolvência do Japão. A própria inflação, que apesar de ser baixa, consegue superar os 0,04% do custo de rolagem da dívida e ao longo do tempo, mantendo esse cenário, a inflação ancorada na meta de 2% é muito benéfica não somente para a economia, mas o governo também.

      Nos países emergentes, as taxas de juros são mais elevadas. A Índia, por exemplo, paga 7,49% ao ano no título com vencimento em 10 anos. O México paga 7,39%, Rússia 7,50%, África do Sul 8,09%. O Brasil paga 9,81% no título com vencimento de 10 anos. Todas as taxas desses países emergentes são consideradas elevadas, logo, é preciso controle fiscal para impedir explosão do endividamento para um patamar impagável. Para que o endividamento possa subir sem criar estresse no mercado, o custo de rolagem/captação (taxa de juros) precisa ceder. O custo do Brasil está mais elevado comparado aos seus pares emergentes, porém o nosso descontrole fiscal e endividamento/PIB também é maior, o que justifica as taxas mais elevadas.

      Como no Brasil parte da dívida pública está vinculada à taxa juros flutuante (Tesouro Selic), os cortes na taxa Selic provocam redução no custo do endividamento, sendo um ótima jogada para o governo. Não conseguimos derrubar a taxa de juros pré-fixada, mas como a pós-fixada está na mão do governo (Banco Central), não parece ser má ideia para o governo forçar o máximo possível de juros baixo (Selic) enquanto o mercado estiver de bom humor.

      Abs,

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    2. BOm dia. Li recentemente um artigo no valor economico, que esse título brasileiro, tesouro selic, seria um privilégio tupiniquim, para os banqueiros e que isso aumenta nossa pressão inflacionária. Você poderia explicar melhor?

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    3. Não deixa de ser um grande privilégio, pois a taxa flutuante (Tesouro Selic) é livre de risco de mercado, garante que o detentor do título sempre receberá remuneração conforme taxa básica de juros. No pré-fixado, ou mesmo indexado ao IPCA, o detentor está sujeito ao risco de mercado. Basta uma invertida nas taxas futuras para o título se desvalorizar, portanto, é necessário trabalhar com uma estratégia para momento de entrada e saída. A questão da pressão inflacionária é um pouco mais complexa. A LFT é uma espécie de moeda que rende juros, porém sem o risco de juros.

      Abs,

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  2. É sempre muito bom ter uma visão realista das coisas, e isso você faz como ninguém, parabéns.

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  3. Como sempre, comentários muito bem aprofundados, mas ao mesmo tempo bem exemplificados e atuais.

    Obrigado Finanças Inteligentes!

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  4. O PT realmente conseguiu uma façanha incrível, além de nos jogar no buraco econômico ainda encheu de areia movediça impedindo uma saída do buraco.

    Acho que um trabalho mais "bem feito" que o petista só o de Hugo Chavez na Venezuela.

    Infelizmente estou extremamente pessimista com o futuro brasileiro, ao que tudo indica o pior ainda está por vir, porque se a euforia nos países desenvolvidos acabar nós vamos para o fundo do poço de novo, especialmente se isso ocorrer com um presidente contra reformas no comando do pais.

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    1. Talvez, seria menos pior ter deixado a bomba estourar no governo Dilma. Estaria, neste momento, encerrando um mandato catastrófico sem apoio do mercado e a solução seria melhor digerida na campanha eleitoral. Parte da culpa recai sobre a centro-direita brasileira também, são péssimos estrategistas políticos.

      Abs,

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    2. FI,
      Isso já era claro para mim nas próprias eleições de 2014. Se o Aécio vencesse, era quase uma certeza que o PT voltaria em 2019 para ficar muito tempo.
      Agora, um pouco antes do impeachment, eu escrevi alguns textos que a única saída seria a renúncia do então vice Temer, e a chamada de novas eleições. Assim como houve renovação para prefeitos em 2016, poderia se ter uma renovação para presidente fazer um mandato de transição. Quem sabe até um candidato com ideias mais liberais.
      Agora, destituir um presidente por "pedaladas fiscais" e não acontecer nada com o presidente atual mesmo com vídeo de um assistente seu correndo de forma rídicula com 500 mil reais nas ruas de São Paulo, com áudio do presidente com uma conversa criminosa e com um dos braços direitos do presidente com 50 milhões em espécie num apartamento, é evidente que o PT e a "esquerda" como um todo ganhou uma história para contar, que é a do golpe, e da perseguição seletiva. Isso é tão evidente e óbvio que eu acho inacreditável que a maioria não perceba.
      O que as pessoas, muitas delas ao menos, não percebem é que um partido precisa de uma ideia que seja minimamente crível, mesmo que numa análise mais profunda essa ideia se mostre complemente furada. Assim, Bolsonaro pode ter o discurso de segurança, mesmo que boa parte da segurança é responsabilidade dos Estados, ou seja sem responsabilidade direta do executivo federal. Logo, mesmo que o discurso de Bolsonaro seja fraco, é crível e suficiente para que muitas pessoas acreditem.
      A mesmíssima coisa aconteceu e vai acontecer com o Lula, e grupos mais "a esquerda". Antes eles tinham apenas um governo indo para o brejo, corrupção, e nenhum discurso. Agora, eles tem um discurso que é minimamente crível, mesmo que seja furado.
      Fizeram uma bobagem tremenda, e fica claro que se canditados como Ciro, Marina , etc, se unirem, nem que seja de maneira tímida, a chance de vitória é enorme.
      E com certeza a chance de um candidato com reformas mais liberais é muito menor do que seria em 2016.

      Um abraço

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    3. Primeiramente parabéns pelos seus artigos. São excelentes!

      Concordo 100% com o que você colocou.
      Poderia ser que o Brasil sofresse um pouco mais com a política econômica adotada pelo governo Dilma, mas pelo menos assim a população de modo geral se daria conta de quem cometeu os erros.
      Da forma como os fatos ocorreram, entendo que a população não vincula em sua totalidade os prejuízos causados (alta inflação e desemprego, principalmente) a gestão PT, o que faz com que a centro-esquerda ainda tenha boas chances nesta eleição.

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    4. Soul e Sidnei, de acordo com o racional. Impressiona que algo tão óbvio não esteja circulando pela mídia, muito menos pelo mercado, que tenta de todas as formas sustentar uma aposta (desejo) de agenda com reformas a partir do próximo ano. Alckmin e Meirelles, na minha opinião, são praticamente cartas fora do baralho. A eleição está nas mãos de Marina Silva e Joaquim Barbosa, com eventual apoio do Ciro no segundo turno.

      Abs!

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