quarta-feira, 16 de maio de 2018

A lógica do contrário


A estrambelhada e horripilante gestão Dilma-Mantega ainda causa calafrios nas memórias de alguns economistas, analistas, investidores, gestores, empresários e cidadãos brasileiros. A longa sequência de erros grosseiros cometidos na estratégia (ou falta dela) de política econômica, fiscal e monetária não era o único fator de fúria e/ou preocupação, mas sim o discurso enganador.

Não havia credibilidade nos refrões da duplinha Dilma-Mantega, pois a letra da música estava totalmente descasada com a dança na economia. Era como escutar heavy metal dançando samba. Não fazia o menor sentido uma coisa com a outra.

Foi neste ambiente que a lógica do contrário nasceu no mercado. Quando o Dilma falava que a inflação iria cair, ocorria o contrário, o índice subia. Quando Mantega falava que a economia iria crescer, lá estava o Brasil a caminho de uma recessão. A lógica do contrário chegava a ser motivo de piada no mercado, mas era algo extremamente preocupante.

A saída de Mantega do ministério da Fazenda parecia marcar o fim da era da lógica do contrário. A situação continuou complicada, mas pelo menos não ocorria tamanha quebra de expectativa. Dançava-se conforme a música.

Infelizmente, a lógica do contrário parece estar de volta. Pela segunda reunião consecutiva, o Banco Central toma uma decisão completamente oposta ao que havia sinalizado anteriormente.

Na reunião do mês de fevereiro de 2018, o Banco Central cortou a taxa Selic para 6,75% ao ano e emitiu comunicado afirmando que “para a próxima reunião, caso o cenário básico evolua conforme esperado, o Comitê vê, neste momento, como mais adequada a interrupção do processo de flexibilização monetária.

Na reunião seguinte, realizada em março de 2018, o Banco Central descumpriu o que havia afirmado anteriormente e cortou a taxa Selic para 6,50%. No comunicado emitido após o encontro, os integrantes do Comitê concluíram que, “para a próxima reunião, o Comitê vê, neste momento, como apropriada uma flexibilização monetária moderada adicional.”

Na reunião seguinte, encerrada hoje, o Banco Central descumpriu novamente o que havia afirmado anteriormente e manteve a taxa Selic inalterada em 6,50%. Investidores estrangeiros que acompanham de perto as nossas decisões de política monetária podem estar se perguntando neste momento: “what the fuck?”.

A duplinha Dilma-Mantega adorava culpar o cenário externo para justificar expectativas frustradas ao mercado. O Banco Central assim o fez na noite desta quarta-feira, honrando nossas tradições. No comunicado divulgado após a reunião de Comitê, o Banco Central apontou o dedo para o cenário externo ao afirmar que “a evolução dos riscos, em grande parte associados à normalização das taxas de juros em algumas economias avançadas, produziu ajustes nos mercados financeiros internacionais.”

Importante ressaltar que o Banco Central está no mínimo bastante atrasado ao reconhecer os riscos relacionados ao ambiente externo. O FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) iniciou o processo de normalização da taxa básica de juros em 2015. Desde o início do ciclo, a autoridade monetária norte-americana deixou bem claro que pretende ao menos alcançar o nível de 3% nesta fase de normalização das condições monetárias.

Além disso, não é nenhuma surpresa verificar o movimento de alta da taxa de juros do título do Tesouro norte-americano de 10 anos (referência global). Não é de hoje que isso vem acontecendo. Conforme pode-se notar no gráfico abaixo, o movimento de alta começou em julho de 2016:


Sempre bom frisar, também, que alguns pontos internos relevantes apontados em reuniões anteriores (como a reforma da previdência, por exemplo) foram simplesmente deixados de lado na medida em que as frustrações se concretizavam. Somado ao lamaçal de problemas acumulados do passado, criou-se um Everest de sujeira empurrada para debaixo do tapete.

Quando o mercado se cansou de fazer motocross em nosso tapetão lamacento, o câmbio disparou e as taxas de juros futuros voltaram a se aproximar do patamar de dois dígitos na ponta longa, abrindo enorme GAP frente à taxa básica de juros. Em outras palavras, levamos um belo e justificado puxão de orelha do Sr. Mercado.

Usamos e abusamos da boa vontade nestes últimos meses/anos e agora estamos sendo disciplinados à força novamente. Mais uma vez, deixamos de fazer o dever de casa, seduzidos pelo poder da caneta.

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quinta-feira, 3 de maio de 2018

Câmbio suave não combina com juros baixos


Em que planeta a moeda de um país altamente endividado, carregado de histórias problemáticas, desarrumado (tanto na parte macro, quanto na parte micro), corrupto e repleto de gargalos poderia se manter forte/estável com uma taxa básica de juros em mínima histórica?

O simples fato de as taxas de juros futuros da ponta longa não terem mergulhado de ponta-cabeça juntamente com a Selic rumo aos carimbados 6,25% ao ano já deveria soar como um alarme ao governo brasileiro em estado vegetativo.

Na verdade, o alarme parece ter soado apenas para o ex-ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que ao menos foi esperto o suficiente para saltar do barco no timing perfeito, momentos antes do “naufrágio”.

A indigestão do mercado atrasou, mas não falhou. A equipe econômica do governo fica com o mérito de ter conseguido comprar a paciência do mercado nestes últimos anos pelo máximo de tempo possível, nada mais além disso.

Mesmo depois de uma forte recessão, a economia não conseguiu encontrar boa tração de retomada, os investimentos continuam ridiculamente baixos, o desemprego segue elevado, as reformas viraram contos de fadas, o ambiente de negócio continua no mesmo lamaçal do passado e, o único alento, provocado pela queda da taxa Selic, infelizmente não se repercutiu na economia, já que as linhas de crédito continuam obscenas. Nem parece que a Selic caiu de 14,25% para 6,50%. Talvez os bancos esqueceram de ler as atas e comunicados do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central), não dos últimos meses, mas desde 2016.

Se por um lado os bancos resistem em manter os juros elevados nas operações de crédito, o Banco Central luta para conseguir viabilizar mais um cortezinho na taxa básica de juros. O que é 0,25 p.p. a menos sobre uma Selic de 6,50%? Nada. Para o tomador de empréstimo, qual a diferença de Selic em 14,25% para 6,50%? Dica, a palavra começa com “n” e termina com “ada”. Para o investidor, o que significa queda da Selic de 14,25% para 6,50%? Pagamento de mais uma fatura. Afinal, alguém tem de pagar a conta.

A Selic precisa cair de qualquer forma para 6,25% e, assim, cumprir o script desnecessariamente propagado no passado, mesmo que isso custe alguns bilhões em intervenções na moeda ou resulte em mais problemas para serem resolvidos no futuro. Sempre bom lembrar a pequena curiosidade de que este é um ano muito importante para nós. Quem pensou nas eleições está bem informado, porém errado. Precisamos fazer bonito na copa do mundo, essa é a prioridade. A audiência provou que a saúde do pé de Neymar é muito mais importante do que a da nossa economia inteira.

O nosso nível de negligência com a economia é tão elevado ao ponto de permitir que o Banco Central possa intervir no mercado de câmbio com objetivo de “suavizar os movimentos”. Nem o Banco Popular (autoridade monetária chinesa), que controla o câmbio a dedo, tem a audácia de fazer um comunicado em tom humilhante aos cidadãos. Os chineses simplesmente assumem que estão intervindo na trajetória do cambio, até porque o população não aceita desculpa esfarrapada.

No Brasil é diferente. Basta distrair o povo com carnaval, futebol e novela para receber uma carta branca. E assim vai sendo empurrada mais uma desculpa esfarrapada para o Banco Central intervir no mercado de câmbio para cuidar dos “seus problemas pessoais”.

Goldfajn, presidente do Banco Central, possivelmente estava com o dedo no gatilho há muito tempo. Economista inteligente, talvez soubesse que o dólar não se sustentaria naturalmente em R$ 3,15 com uma taxa Selic de 6%/7% em pleno lamaçal macro. Era um segredo que o mercado descobriu recentemente. Bastou o dólar furar a resistência psicológica dos R$ 3,50 para o Banco Central atirar.

As taxas de juros futuros deram a dica para os que ainda estavam indecisos. O GAP entre Selic versus taxa de juros de 10 anos (atualmente em 9,84%) não era um mero chilique/irracionalidade de mercado. O preço nos contratos de juros futuros sempre se justificou. Faltava apenas fechar a boca de jacaré entre dólar a R$ 3,15 e taxa básica de juros a 6,50%. Como a Selic não subiu, em função da causa-mor, o mercado ajustou o preço do real.

A imprensa brasileira culpa o mercado externo pela disparada do dólar. Ou seja, não somos nós que estamos errados, mas sim aqueles estrangeiros especuladores. O diagnóstico midiático está redondamente errado.

Obviamente a culpa do enfraquecimento do real é toda nossa. Mesmo levantando alguns números medonhos e problemas acumulados do passado, que já seriam mais do que suficiente para justificar tal movimento no mercado de câmbio, ainda assim é preciso provar em imagens de outdoor que nós somos o problema.

Este é o gráfico do dólar contra cesta de principais moedas globais, de janeiro de 2017 até hoje:


Este é o gráfico do dólar contra o real, de janeiro de 2017 até hoje:
  

Se o Banco Central sonha em manter um câmbio suave, é bom rever seus conceitos sobre o patamar da taxa básica de juros. 

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