quinta-feira, 3 de maio de 2018

Câmbio suave não combina com juros baixos


Em que planeta a moeda de um país altamente endividado, carregado de histórias problemáticas, desarrumado (tanto na parte macro, quanto na parte micro), corrupto e repleto de gargalos poderia se manter forte/estável com uma taxa básica de juros em mínima histórica?

O simples fato de as taxas de juros futuros da ponta longa não terem mergulhado de ponta-cabeça juntamente com a Selic rumo aos carimbados 6,25% ao ano já deveria soar como um alarme ao governo brasileiro em estado vegetativo.

Na verdade, o alarme parece ter soado apenas para o ex-ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que ao menos foi esperto o suficiente para saltar do barco no timing perfeito, momentos antes do “naufrágio”.

A indigestão do mercado atrasou, mas não falhou. A equipe econômica do governo fica com o mérito de ter conseguido comprar a paciência do mercado nestes últimos anos pelo máximo de tempo possível, nada mais além disso.

Mesmo depois de uma forte recessão, a economia não conseguiu encontrar boa tração de retomada, os investimentos continuam ridiculamente baixos, o desemprego segue elevado, as reformas viraram contos de fadas, o ambiente de negócio continua no mesmo lamaçal do passado e, o único alento, provocado pela queda da taxa Selic, infelizmente não se repercutiu na economia, já que as linhas de crédito continuam obscenas. Nem parece que a Selic caiu de 14,25% para 6,50%. Talvez os bancos esqueceram de ler as atas e comunicados do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central), não dos últimos meses, mas desde 2016.

Se por um lado os bancos resistem em manter os juros elevados nas operações de crédito, o Banco Central luta para conseguir viabilizar mais um cortezinho na taxa básica de juros. O que é 0,25 p.p. a menos sobre uma Selic de 6,50%? Nada. Para o tomador de empréstimo, qual a diferença de Selic em 14,25% para 6,50%? Dica, a palavra começa com “n” e termina com “ada”. Para o investidor, o que significa queda da Selic de 14,25% para 6,50%? Pagamento de mais uma fatura. Afinal, alguém tem de pagar a conta.

A Selic precisa cair de qualquer forma para 6,25% e, assim, cumprir o script desnecessariamente propagado no passado, mesmo que isso custe alguns bilhões em intervenções na moeda ou resulte em mais problemas para serem resolvidos no futuro. Sempre bom lembrar a pequena curiosidade de que este é um ano muito importante para nós. Quem pensou nas eleições está bem informado, porém errado. Precisamos fazer bonito na copa do mundo, essa é a prioridade. A audiência provou que a saúde do pé de Neymar é muito mais importante do que a da nossa economia inteira.

O nosso nível de negligência com a economia é tão elevado ao ponto de permitir que o Banco Central possa intervir no mercado de câmbio com objetivo de “suavizar os movimentos”. Nem o Banco Popular (autoridade monetária chinesa), que controla o câmbio a dedo, tem a audácia de fazer um comunicado em tom humilhante aos cidadãos. Os chineses simplesmente assumem que estão intervindo na trajetória do cambio, até porque o população não aceita desculpa esfarrapada.

No Brasil é diferente. Basta distrair o povo com carnaval, futebol e novela para receber uma carta branca. E assim vai sendo empurrada mais uma desculpa esfarrapada para o Banco Central intervir no mercado de câmbio para cuidar dos “seus problemas pessoais”.

Goldfajn, presidente do Banco Central, possivelmente estava com o dedo no gatilho há muito tempo. Economista inteligente, talvez soubesse que o dólar não se sustentaria naturalmente em R$ 3,15 com uma taxa Selic de 6%/7% em pleno lamaçal macro. Era um segredo que o mercado descobriu recentemente. Bastou o dólar furar a resistência psicológica dos R$ 3,50 para o Banco Central atirar.

As taxas de juros futuros deram a dica para os que ainda estavam indecisos. O GAP entre Selic versus taxa de juros de 10 anos (atualmente em 9,84%) não era um mero chilique/irracionalidade de mercado. O preço nos contratos de juros futuros sempre se justificou. Faltava apenas fechar a boca de jacaré entre dólar a R$ 3,15 e taxa básica de juros a 6,50%. Como a Selic não subiu, em função da causa-mor, o mercado ajustou o preço do real.

A imprensa brasileira culpa o mercado externo pela disparada do dólar. Ou seja, não somos nós que estamos errados, mas sim aqueles estrangeiros especuladores. O diagnóstico midiático está redondamente errado.

Obviamente a culpa do enfraquecimento do real é toda nossa. Mesmo levantando alguns números medonhos e problemas acumulados do passado, que já seriam mais do que suficiente para justificar tal movimento no mercado de câmbio, ainda assim é preciso provar em imagens de outdoor que nós somos o problema.

Este é o gráfico do dólar contra cesta de principais moedas globais, de janeiro de 2017 até hoje:


Este é o gráfico do dólar contra o real, de janeiro de 2017 até hoje:
  

Se o Banco Central sonha em manter um câmbio suave, é bom rever seus conceitos sobre o patamar da taxa básica de juros. 

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9 comentários:

  1. Mauro Halfeld deu sinal verde para o dolar hoje

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  2. Interessante quando fala de um país altamente endividado. Qual é o hoje o mais pais endividado do mundo? E quais os juros? Pra pensar!
    A alta do dólar não foi só no Brasil mas no mundo. Dollar Index subiu forte e claro que qualquer equiparidade vai desvalorizar no mundo todo. Abcs

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    1. Entre os países desenvolvidos, o Japão é o mais endividado, com 253% PIB. A taxa básica de juros no Japão é negativa (-0,10%), enquanto a taxa do título do Tesouro japonês de 10 anos é quase zero (0,04%), sendo que o BoJ (autoridade monetária do Japão) tem meta de manter juros do título do Tesouro de 10 anos em zero.

      Entre os países emergentes, o Brasil é o mais endividado, com 75% PIB. A taxa básica de juros no Brasil é de 6,50%, enquanto a taxa do título do Tesouro brasileiro de 10 anos é de 9,84%.

      Não há o que pensar, é preciso agir o quanto antes. Operando com endividamento de 75% do PIB, com custo de captação/rolagem elevado (vide taxas de juros), o Brasil se torna uma bomba relógio.


      "A alta do dólar não foi só no Brasil mas no mundo. Dollar Index subiu forte e claro que qualquer equiparidade vai desvalorizar no mundo todo."

      Errado. Observar os dois gráficos no texto.


      Abs,

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  3. Resumindo, estamos fufu... rsrsrs

    Mas quanto a bolsa? Você acha que ela vai ficar mais dependente do cenário externo ou mesmo com as coisas se ajeitando por lá a bolsa aqui tende a sofrer?

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    1. A nossa bolsa está descolada das demais praças financeiras mundiais. Travada numa congestão de 3 meses perto do topo histórico (zona de congestão entre 87k a 83k), pois há briga intensa entre grandes players de mercado em posições distintas. Precisamos esperar a briga terminar (ou seja, mercado sair da zona de congestão), para detectarmos o direcional.

      Abs,

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  4. CRICRI

    Bom dia FI

    Mais um excelente artigo.
    Motivado pelo seus comentários dei uma pesquisada nas reservas cambiais dos países e encontrei países inexpressivos com reservas cambiais muito superiores a do Brasil.Como Georgia 5 vêzes maior, Iemen 12x, Camboja etc...
    Você teria algo a comentar sobre isso ?
    Obrigado
    Abs

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    1. Olá CRICRI,

      É possível que essa informação sobre as reservas da Georgia, Iemen, Camboja, etc esteja em moeda local, não em dólar. As reservas internacionais do Brasil são consideradas robustas a nível mundial.

      Abs,

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  5. FI, por que subir os juros se estamos com inflação abaixo da meta e com a economia crescendo pouco? Dólar alto empurra nossas exportações, aumenta o nosso MKA e melhora a nossa balança de pagamentos. Esse cenário, somado ao fato de ser ano eleitoral, torna a possibilidade de uma subida dos juros bastante remota.
    Eu, se fosse o Ilan, faria exatamente o que ele está fazendo: juros baixos e alguma intervenção no câmbio pra conter a volatidade.
    A questão fiscal? Ah...esta é um problema pro próximo presidente.
    Abs,
    Henrique

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    1. Olá Henrique,

      Não é o câmbio que vai fazer nossa indústria se tornar competitiva, isso já ficou claro em outras ocasiões no passado. A princípio a inflação parece estar baixa, mas quando se analisa a força do impacto da recessão na economia, não poderíamos estar criando inflação de 3% e crescimento de 1%. Os números estão trocados e há uma razão para isso: desarrumação micro e macro. Parte dos problemas são consequência da falta de planejamento de longo prazo e excesso de pensamento à curto prazo. Não adianta jogar Selic para 6,25% com o mercado exigindo 10% no título com vencimento em 10 anos. Essa discrepância é mais um sinal de que não estamos no caminho certo.

      Abs,

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