terça-feira, 29 de maio de 2018

Vôo de galinha antecipa aterrissagem


Antes mesmo de iniciar a greve dos caminhoneiros havia certa desconfiança no mercado financeiro em relação à tão aguardada recuperação do crescimento projetada para este ano. Conforme último Relatório Focus do Banco Central, há 4 semanas o mercado tinha expectativa de crescimento de 2,75% para este ano. Hoje, a expectativa é de 2,37%.

Os impactos da greve dos caminhoneiros ainda não estão presentes no Relatório Focus, pois não é possível transformar em números a lamentável catástrofe que se observa nos noticiários.

Além do perverso quadro de retorno de um Estado intervencionista em situações micro, desta vez aclamado pela população, aumenta-se a perspectiva de aceleração do endividamento, já que as soluções encontradas sempre vão na linha de mais subsídios, seja para redução artificial de preços, seja para aumentar benefícios à determinado grupo.

Não parece ser um simples déjà vu, mas sim um retrocesso nítido à essência da matriz econômica do governo Dilma, grande responsável pelo forte período recessivo do passado recente. Definitivamente, não somos um povo minimamente inteligente o suficiente para, pelo menos, aprender com os inúmeros erros do passado.

Obviamente, em situações críticas, o governo tende a realizar projeções otimistas de compensação no orçamento, mas isso pouco importa, pois o resultado será visível na próxima gestão. A reoneração parcial da folha de pagamentos está sendo utilizada indevidamente como forma de compensar o rombo a ser causado pelos subsídios concedidos ao setor de transporte.

A reoneração da folha vai apenas normalizar um subsídio altamente ineficaz praticado no passado. Ainda assim, a normalização será parcial, atingindo apenas 28 setores. De qualquer forma, o que está sendo feito é o famoso toma lá, dá cá. Retira o subsídio de um determinado grupo e concede um novo subsídio a outro grupo. A conta do troca-troca de subsídios nunca fecha, mas isso também não é problema, pois a população está sempre pronta para pagar as “diferenças de caixa” com juros compostos.

"Bom" seria se o problema fosse apenas de ordem fiscal. Essa dor está garantida para o fim desta década. Não há mais rota de retorno para decisões de baixo trauma. Existe outro agravante, que está relacionado ao vôo de galinha. No passado, conseguíamos alguns rasantes com os ciclos de vôos de galinha na economia. Nunca poderia imaginar que algum dia iria escrever algo do tipo, mas eram “bons tempos” de vôos de galinha. Também nunca poderia imaginar que algum dia iríamos passar por uma crise de abastecimento. Mais uma lição para nunca subestimar a nossa capacidade de autoflagelação.

Desta vez, o PIB cocoricó mal consegue sair do lugar. Não é por falta de combustível que a economia não levanta vôo. É por falta de planejamento. Um exemplo, aproveitando o contexto atual, está no levantamento publicado pela JCC Cargo Watchlist (Comitê britânico que monitora o transporte de cargos no mundo inteiro), que colocou o Brasil na sexta colocação no ranking de países mais perigosos para transporte de carga em rodovias no mundo. O Brasil está atrás apenas de Iêmen, Líbia, Síria, Afeganistão e Sudão do Sul.

O Brasil não está em guerra civil ou em estado de calamidade, mas algumas rotas necessitam de contratação de escolta armada. Além disso, apenas 12,2% da malha rodoviária está pavimentada. Tudo isso é custo significativo embutido no nosso frete. Mesmo custando cinco vezes menos, o transporte ferroviário é pouco utilizado, representando menos de 20% do setor de cargas. Já o transporte rodoviário é responsável por 62% de todas as mercadorias que trafegam no Brasil.

Sem planejamento, não há qualquer possibilidade de melhora no ambiente de negócios. E com ambiente de negócios ruim, investidores/empresários tendem a continuar com o pé no freio, retardando/evitando investimentos. E sem a retomada dos investimentos (atualmente ainda em níveis ridiculamente baixos), não há condições de manter um PIB pelo menos em vôo de galinha.

A economia mal saiu do longo período recessivo e as projeções já começam a ser revisadas para baixo. O agravante da greve apenas antecipa a aterrissagem esperada do vôo de galinha. Grande parte do prejuízo econômico de curto prazo tende a ser recuperado com a retomada da produção nos próximos meses.

O problema são os impactos de médio e longo prazo causados pelo trauma de um País paralisado. Nós, brasileiros, estamos acostumados com frustrações e rompimentos de contratos. Os estrangeiros, não. O exportador brasileiro não está conseguindo entregar seu produto ao consumidor final no prazo pré-definido, arranhando uma importante relação de confiança.

Num mercado consumidor externo altamente competitivo, erros como o nosso são duramente penalizados. Os estrangeiros não são pacientes e simplesmente vão procurar outros fornecedores/parceiros para fazerem novos negócios.

Essa quebra de confiança, reforçada pela exacerbação de um país refém de um grupo muito bem articulado de caminhoneiros, poder ser imperceptível a curto prazo, mas tende a pesar no nosso desempenho de longo prazo. Recuperar a confiança num ambiente global muito disputado vai exigir planejamento que nós ainda não sabemos fazer.

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15 comentários:

  1. Pois é, infelizmente a mentalidade paternalista ("o estado tudo proverá") é entranhada de tal forma na população brasileira, e latino-americana em geral, que sem uma mudança brutal na cultura do povo, vejo que nem em mais 500 anos estaremos numa situação muito melhor do que a de hoje. O povo quer saúde de graça, educação de graça, previdência com benefícios generosos e idade de aposentadoria mínima, bolsa família, tarifas subsidiadas, direitos trabalhistas, meia entrada, PROCON fiscalizando "preços abusivos", etc. etc. etc. Como é possível que ninguém pare para pensar quem vai pagar essa conta? E sem esquecer que, quanto mais dinheiro trafega pelo governo para bancar todos esses benefícios, mais é mordido pela corrupção.

    A única chance de ter um país decente ainda neste século seria com essa mudança de cultura, eleição de políticos cuja prioridade número 1 não seja encher os bolsos, e a promulgação de uma nova constituição, reescrita completamente do zero, eliminando praticamente todos esses benefícios que não temos, nunca tivemos e nunca teremos condição de pagar. Obviamente, a chance disso acontecer é, para todos os efeitos práticos, zero.

    Acredito que Dante Alighieri era um profeta tendo visões do Brasil quando escreveu, no seu Inferno, "Deixai toda esperança, ó vós que entrais!"

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    1. Para reforçar o que o SwineOne disse aí em cima, viu a última pesquisa do Datafolha: 87% dos brasileiros apóia a greve dos caminhoneiros, mas 87% rejeitam pagar mais impostos ou haver cortes de gasto público para bancar o subsídio do diesel? Pode isso, Arnaldo? É algo do tipo "eu quero comer chocolate, mas não quero engordar"

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    2. Bons pontos para se colocar em uma reflexão, mas discordo de que uma nova Constituição ajudaria a resolver problema. Não se cumpre nem a atual, quem garante que a nova será cumprida? E, mais importante, quem faria essa nova Constituição? O Legislativo? Quais grupos? E o que se iria prever?

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  2. Voce esta defendendo que a gasolina nao dece baixar, e isso?
    O preco e justo, e isso?

    Pagamos 5 reais, enquanto a mesma.petrobras vende pela.metade.o que exporta para outros paises.
    Privatizaram o pre sal e a gasolina foi de 2.8 para 5 o litro.
    Essa enrolacao eterna de economista tem que acabar. Fora temer, globo , veja e cia.

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    1. Perda de tempo responder para alguém desse naipe, mas vamos lá. Vamos inverter a pergunta.

      A Petrobrás vende a gasolina para a distribuidora por cerca de R$ 2 o litro. Se ela chega na bomba a quase R$ 5 o litro, é por conta, principalmente, de imposto (uma parte é para cobrir custos de transporte, margem de lucro dos postos, etc.) É verdade que em outros países ela é vendida mais barato, mas única e exclusivamente pela diferença na estrutura tributária.

      O que você sugere que seja feito? Forçar a Petrobrás a vender muito abaixo de preço de mercado, para que ao colocar os impostos em cima, ela custe na bomba o mesmo valor que custa lá fora? Nesse caso a Petrobrás terá sérios prejuízos, que deverão ser compensados de uma de duas formas:

      a. Sucateamento da empresa por falta de dinheiro para investir. Cairemos numa situação similar à da Venezuela, em que a produção da PDVSA cai dia após dia, porque não tem dinheiro para os equipamentos necessários para extrair o petróleo.

      b. Governo cobre o rombo da Petrobrás. Como dinheiro não dá em árvore, será necessário aumentar impostos para transferir à Petrobrás. Então, pagaremos mais barato pela gasolina, e mais caro por alguma outra coisa onde será cobrado imposto para compensar esse rombo. É trocar seis por meia dúzia.

      A única solução possível passa por uma diminuição brutal do tamanho do estado, para que não precisemos pagar tanto imposto, não só na gasolina como em qualquer outra coisa. Só que infelizmente, como coloquei no meu primeiro comentário acima, o brasileiro quer tudo de graça: saúde, educação, aposentadoria de marajá, bolsa família, meia entrada, passe livre, etc. Tudo isso tem um custo, e é por isso que a carga tributária no Brasil é tão excessiva.

      E aí, qual destas supostas regalias você está disposto a abrir mão para atingirmos essa realidade? Esse ano você vai votar em alguém que propõe esse tipo de coisa, ou vai continuar votando naquele político que promete tudo de graça?

      Falar em redução da gasolina é muito nobre. Só falta dar um plano factível para que isso seja feito. Eu dei, e você?

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    2. Hahaha... não jogue xadrez com pombos, meu amigo. Você sabe o que acontece...

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  3. Só povo alienado vê o preço da gasolina que a petrobras vende ser cara. Se para outros países o valor é outro, significa que não tem TRIBUTOS na composição. Você sabe por quanto ela vende na porta da porta da refinaria? Para de falar besteira! O problema é e sempre será a carga tributária, pra tudo que você pensar em reclamar do preço!

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    1. Anônimo, a Petrobras estava vendendo em mercado interno a 29% acima do preço internacional, se aproveitando da posição hegemônica que detém no mercado interno. Ao fazer isso, proporcionou muito lucro aos importadores, que compravam mais barato em NY e vendiam aqui com lucro, já que o preço da Petrobras era muito maior que o preço internacional. Não sou eu quem está falando, é a Piaui de hoje.

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  4. Anônimo30 de maio de 2018 01:22, a enrolação eterna que tem que acabar é a dos políticos, o simples fim do monopólio estatal no petroleo acabará com os altos custos, mas cadê ? a culpa é da matemática que teima em não dar os resultados que a classe política deseja.

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  5. Na próxima crise do sistema financeiro o presidente em exercício, provavelmente, não fará referência a uma "marolinha"... O risk premium dos bonds locais estarão em patamares elevados e poderemos sofrer um calote branco!

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  6. Boa tarde. Qual a opiniao sua sobre a proposta do CADE??

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  7. Acho que o Governo Temer vai ser conhecido por 20 anos em 2. Só que no caso serão 20 anos de retrocesso fazendo tabelamento de preço, instituindo novamente a conta petróleo, fazendo do Procon uma espécie de Sunab, conclamando a população a ser uma espécie de "Fiscal do Temer" (relembrando os "fiscais do sarney".

    A única coisa que se percebe diante disso é que estamos ferrados. Conseguimos retroceder a década de 80, para completar e vez só falta a volta da hiperinflação.

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  8. Acredito, que a forma como os aumentos estavam e continuam, no caso da gasolina, semanais e até diários, dificulta o planejamento do preço do frete. Tendo em vista esse cenário, entendo que a política de preços de combustíveis da Petrobrás precisa ser revista, de forma a trazer certa segurança para a determinação dos preços. Ainda, precisamos ter mente que a Petrobrás é uma sociedade de economia mista, regida em preliminarmente pela Constituição, em especial o artigo 173, onde disdis que a exploração direta de atividade econômica pelo Estado só será permitida quando necessária aos imperativos da segurança nacional ou a relevante interesse coletivo, conforme definidos em lei. Logo, observa-se relevante interesse coletivo na política de preços dos combustíveis, de tal forma, que não é possível somente seguir o preco internacional, mas sim uma política que consiga lucro para empresa, de forma a garantir alem dos pagamentos dos custos, os investimentos de curto, medio e longo prazo.

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    1. Ele tá falando do lado econômico da coisa. Não importa se a Constituição permite congelamento de preço; isso sempre vai ser ruim para o desenvolvimento do país e um fator gerador de distorções e privilégios. Aliás, a nossa Constituição é uma das grandes barreiras para a melhoria do país.

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  9. A Petrobrás por ser um monopólio não pode cobrar o que quiser, além disso, todos sabemos que tem dinheiro do BNDES, tem subsídios, etc. A empresa é estatal, então tem que atender a política do governo. Todos que investimos sabemos disso, então que acha que a ação da Petrobrás é para Buy and Hold está no mercado errado. Temos no mínimo uma centena de boas ações para comprar. Além disso, é inadmissível que a Petrobrás queira tirar o rombo causado pela corrupção em dez anos em apenas dois anos de preços bem acima da média. Já foi colocado que a margem da Petrobrás era de 150% de lucro, isto é loucura. Outra loucura é a política de preços reajustado com o preço do petróleo e do dólar. Administrar com uma margem dessas e vendendo patrimônio estatal sem transparência não faz de Pedro Parente um bom administrador.

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